Sob o olhar das feras
3 Capítulo 3 - Um estrondo de um uivo
—Então os filhos do Jorge podem ser amaldiçoados, e ele está limpo. Olga, o que acha?
—Gente, os meninos nem a cara do pai nem a cara da mãe tinham, foram buscar um antepassado distante que tinha a mesma verruga na nuca que os dois para que a mulher morresse com dignidade, porque iriam apedrejá-la por traição.
—Mas, na prática, ela traiu o marido.
—Matias, a mulher foi abusada, eu que cuidei dos ferimentos dela, tantos hematomas que eu nem sabia por onde começar, cabelo caindo de tanto que foi puxado, uma crueldade. Ao meu ver, era esperado que as crias desse ato fossem pender para o lado do mal.
—Além deles, meu pai e meu irmão estão limpos também.
—Você sentiu um alívio?
—Não, apenas não senti nada, devem ser nada mesmo. Ah, e eles não foram os escolhidos para carregar os revólveres, nem Jorge e os filhos.
—Matheus, você tem mais intimidade com Jorge, tente ver o que ele esconde. Mesmo sendo bom, precisamos saber quem devemos proteger ou não. – Olga estava com uma xícara em mãos, ela tremia um pouco.
—Mulher, está bem mesmo?
—Sim, é a idade.
—Você levou uma bolada de neve na cabeça dos netos das beatas, deve ter bagunçado com tudo aí de dentro.
—Aqueles pirralhos sem educação, só porque impedi que o cachorro raivoso deles morresse fazendo um curativo na pata deles, acham que eu sou uma bruxa. Eles queriam que eu fosse queimada na fogueira. Tem momentos que a população daqui me irrita.
—Foquemos nos problemas menores depois. Olga, como estão o elixir e o veneno?
—Quase prontos, mais um dia ou dois.
—Isso vai dar espaço aos lobisomens. Enquanto estava fora, Manu, falei com o carcereiro. Ele falou que nos ajudará.
—Como você o convenceu?
*
—Boa tarde, Daniel. – A voz de Matheus chegou aos ouvidos do carcereiro. Ele estava sonolento em sua cadeira na entrada da delegacia, o Xerife o colocara para fora a fim de evitar que ouvissem os planos, o homem não confiava em ninguém naquela situação. – Colocaram o senhor para fora?
—Infelizmente, Sampaio depositou tanta confiança em seus leais escudeiros que se esqueceu de quem cuida dessa prisão toda madrugada enquanto poderia estar em casa com minha esposa ao lado da lareira. – A boca inchada e arroxeada demonstrava o frio que o homem passou nos últimos dias. Seu olhar sereno tinha um toque caramelizado, as mãos gordas tinham uma sequência do resto do corpo, ele era o típico bonachão, até barba grossa e cheia que circundavam um sorriso que acalmava todos. – E o senhor, Matheus, muita leitura ultimamente?
—Muita. O senhor teria uns minutos para uma conversa séria?
—Enquanto essa reunião não acabar, tenho todo o tempo que conseguir. – Eles se afastaram da entrada, que ficava próxima a casa do Padre. – O que precisa de mim?
—O senhor sabe com o que estamos lidando?
—Se o senhor que é letrado não sabe, como um velho saberá? – Matheus contou tudo o que descobriu, desde as lendas, relatos e diários, além dos documentos da pastoral que leu quando o Padre, secretamente, pedia ajuda para organizar a papelada. – Então, estamos lidando com os famosos lobisomens. – Ele olhou para o nada, o pouco de luz solar bateu em seu rosto avermelhado. – Do que precisa de ajuda? Estou a todo dispor.
—Estou atrás de descobrir quem são os lobisomens. Quando tiver alguma suspeita, dou um jeito de comunicar ao senhor, entregue as provas ao Sampaio, que, com o pouco juízo que ainda lhe resta, prenderá o suspeito. Assim, você poderá investigar um lobisomem durante a noite. Dos que já sabemos, podemos cortar o mal pela raiz, ou diminuir a crise. – Daniel concordou. – Quem sabe você consegue executar um deles.
—Caso precise de ajuda, Matheus, converse com Soraia.
—Sua esposa... Por quê?
—Ela é boa com investigação, quem sabe ela não pode ajudar. – Os dois se despediram. A neve tornara a cair, ajuda fácil vem, mas também some rapidamente, não poderia contar com toda a sorte do mundo.
*
—De quebra, ganhamos o carcereiro e uma detetive, estamos conseguindo poder do nosso lado.
—Mas tem um problema, precisamos da ajuda do clero. Se o Padre decidir jogar a população contra a gente, estaremos perdidos. Precisamos nos unir a eles, mesmo que não concordem.
—Afonso será duro na queda, não sei se ele concordará. – Todos silenciaram por um tempo. – Vamos ter que descobrir quem será o novo padre. Alguém tem ideia de quem são nos possíveis noviços?
—Os filhos da Cristina estão com o pé na Igreja. – Olga era vizinha da mulher. – Acho que um dos dois pode ser o futuro padre. Ela tem mais duas meninas, podemos fazer uma investigação completa, porque um deles não tem cara de quem seja boa pessoa.
—Está falando isso porque um deles ateou fogo na sua casa ano passado?
—Do jeito que os quatro são justiceiros com as próprias mãos, podemos tentar descobrir muita coisa. Um pode ser padre, outro lobisomem.
—Ouvi minha mãe conversar com Cristina que o mais novo, o Pedro, ele não consegue ficar muito tempo na Igreja, sente o corpo todo queimar. Até passou por umas sessões de exorcismo que quase o mataram.
—Será que é amaldiçoado?
—Se ele já sente o corpo queimar, pode ser que já foi transformado. Tecnicamente, como humanos, não deveriam sentir nada.
—Então vamos investigar um deles. Já está para anoitecer, vão para a casa dele e eu vou falar com Soraia. – Comentou Matias. – Manu, acho que não conseguirá nos ajudar a noite.
—Eu escapo de casa, minha mãe dorme cedo e sou eu quem arruma tudo, já fiz isso algumas vezes, principalmente na primavera para ir ao lago.
—Sim, ali tem um belo baile de vagalumes nessa época. – Resmungou Olga.
*
Um toque na porta e essa foi aberta, revelando uma mulher semelhante ao marido, gorda, com sorriso alegre e bochechas avermelhadas, cabelos presos em um coque bagunçado, tinha suor escorrendo pelo rosto. Ao ver o bibliotecário, ela sorriu ainda mais, conhecia o homem desde a infância, eram amigos.
—Soraia, minha querida, há quanto tempo.
—Que surpresa, Matheus, entre, entre, aqui está quente. – A casa dela era extremamente confortável, com estofados de lã e de crochê para todos os cantos, todos feitos a mão, a lareira acesa iluminava tudo, além das velas e dos lampiões. – Meu marido mandou um recado pelo vizinho, acabei de ler. Lobisomens, meu Deus, lobisomens. Nossa, não te ofereci nada! Quer água? Chá? Café? Por favor, aceite, acabei de passar, está uma delícia. – Continuava igual, hiperativa e alegre, sempre desejando fazer o bem. – Então, precisa de meus dotes de mistério? – Ela esboçava uma alegria incrível em seu olhar e enquanto falava, sempre sussurrando ou falando baixo.
—Se você puder nos ajudar, eu agradeço muito, já temos bastante pessoas ao nosso lado.
—Sim, Olga e Matias eu já imaginava, sempre os vejo em sua casa.
—Soraia, você mora do outro lado da vila, como sabe? – Parou e pensou. – Que visão, hein?
—Sim. Notei que a filha da Gertrudes entrou para o time, sabia que a pequena era especial, a mãe dela que tem a visão enevoada e acha que a filha só serve para cozinhar e limpar a casa. Bom, eu e meu marido, mas ele não ajudará muito, somente uma bala é dada a ele para em casos de emergência, a arma dele é fraca.
—Pelo menos, se matar um lobisomem, é um a menos para nos preocuparmos. Afinal, podem existir até 12 de uma única vez, não podemos falhar em nada.
—Então, com quem eu posso começar?
—Jorge é suspeito, ele possui uma boa índole, Emanuele conseguiu sentir bondade dentro de si, precisamos saber se podemos pedir sua ajuda.
—Tudo bem, essa noite farei um jantar e chamarei o homem, ele não recusará, consigo ganhar fácil um estômago.
—Soraia, você estará sozinha, os vizinhos vão falar, melhor não. Além disso, ele estará na guarda do Xerife. Melhor fazer isso pela manhã.
—Sim, sim, melhor mesmo. E vocês? – Ela ansiava para auxilia-los. Porém, precisava ir com calma, será muito perigoso se agisse daquela forma hiperativa.
—Vamos à casa de Cristina, os quatro filhos são suspeitos, ainda mais que dois nasceram há 20 anos.
—Sempre suspeitei daqueles garotos, ela engravidava muito rápido. Padre sempre a elogiava por ser uma incrível mãe, que seguiu os mandatos de "Ide e multiplicar-vos" muito bem. Mas esqueçamos isso, faz vinte anos e nada mudará. Fiquem bem e com Deus, ele os protegerá.
—Boa noite, minha amiga, e cuide-se.
*
Anoiteceu. Da mesma forma que o Sol caiu, a neve também veio, tudo estava gelado. Emanuele colocou a roupa mais fria que tinha, a mãe dormia pesadamente, talvez por ter colocado um calmante natural dado por Olga no prato da mulher. "Duas gotas e ela não acordará antes do Sol raiar", pensou que fizera o certo, precisava colaborar com tudo.
Com cautela, desceu a colina. Cristina morava entre as casas mais novas que foram construídas no lado mais baixo do terreno. Sempre com passos calmos para não escorregar. Olhou para o céu, a Lua estava escondida, não via nada a sua frente, temia que fosse descoberta, mas quem poderia a ver? Repentinamente, um uivo. Os lobisomens. Correu o mais rápido que pode e, quando chegou à entrada do terreno, foi puxada para trás de uns arbustos, Olga estava à espreita.
—Cuidado, menina, eles estão próximos. – O barulho das feras pisoteando as plantações, os animais eufóricos de medo nos celeiros, tudo ia se aproximando com muita voracidade. – Ouça, as visitas chegaram. – O rosnado era uníssono, mas não adivinham de uma única criatura. Eram duas. O patriarca tinha um olhar vermelho, o mago tinha uma estrela dourada na testa. Maiores que um leão, tinham uma manta de pelos sobre o corpo, todo preto, quase nem davam para ver a não ser pelas características específicas dos olhares.
Repentinamente, mais passos eram ouvidos. Duas figuras saíram da casa, os corpos se contorciam, pareciam que iam explodir, e isso aconteceu, pelos esvoaçaram e mais uivos surgiram.
—Dois dos dez já foram transformados, dois são filhos da Cristina. – Contudo, uma explosão e um clarão. – O que foi... Olga, um dos pistoleiros. – Olharam ao fundo, ele acertara um dos lobisomens. – É o filho mais velho, o César. – A luminosidade do lampião em sua mão revelou sua fisionomia.
—Agora os lobisomens sabem que ele é, devemos tomar muito cuidado por hora. – Os outros três, ao verem aquilo, saíram correndo e se esconderam na floresta. – As duas saíram de onde estavam e foram até o homem, que apontou a arma para elas. – Acalme-se, César, somos Emanuele e a Olga.
—Manu, o que faz com a bruxa?
—Viemos ver se estava bem, insolente. E obrigado por me chamar de bruxa. – Não viam mais a sua cara, colocara a chama no chão, mas sabiam que o semblante de interrogação estava estampado. – Amanhã, depois da reunião com o Padre, porque é certeza que ele convocará todo mundo, vá à casa do bibliotecário, não comente com a guarda, nem com ninguém. É a sua palavra contra a da Emanuele e você não quer problema com Gertrudes. – Ele concordou. – Vamos ver quem você acertou.
Aproximaram-se do corpo estirado no chão, o qual tornou a ser humano.
—Meu irmão... – César estava estático, o revólver caiu de sua mão e se sentou em cima da neve. Começou a chorar sem parar. – Mas como? – Perguntou em meio a lágrimas e soluços, Emanuele sentou ao seu lado e lhe deu um abraço.
—Amanhã você saberá.Infelizmente, o caos ainda perdurará por noites. – A Lua saiu de trás de uma das nuvens e alumiou o pasto.
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