Sob o olhar das feras
1 Capítulo 1 - O medo a cada esquina
O pesadelo parecia não ter fim, o sol se esquecera de nascer, a noite perpetuava de forma avassaladora, ninguém sabia o que acontecia, era um castigo que não imaginamos que ocorreria com o povo daquele vilarejo.
*
Quando as primeiras janelas se abriram, o cantar alegre dos pássaros cotidiano não era ouvido, nem as vizinhas que fofocavam da noite mal dormida pelo frio que caía sobre o solo daquela região, nem o gosto amargo do café passado no final da tarde pode ser sentido pela boca amarrada dos senhores que saíram cedo de suas camas para cortar lenha na fogueira. Não, nada do que todos tinham como vida monótona amanheceu como todos os invernos.
O único que seguiu conforme mandava a tradição foi o sino da Igreja. Contudo, nem ele seguiu à risca. Ao invés de soar sete vezes, foram dez.
—Mãe, o sino...
—Eu ouvi. Eu vou, e você cuida de seu irmão.
—Tudo bem. – Bem não estava, pois queria muito ir na reunião que o Padre convocava. – O que precisa que eu faça aqui em casa?
—Eu quero que fique aqui dentro, não saia por nada nem abra a porta para ninguém. Seu pai tem a chave e ele virá pelos fundos. Cuidado com as janelas, mantenha todas fechadas. – A resposta veio com uma inclinação de cabeça, preferiria não gastar a voz. – Emanuele, já volto.
A luz da vela reluzia na pele negra da garota, os cabelos presos em um coque para evitar que os cachos caíssem sobre seus olhos azuis, uma raridade para aqueles que vinham do Norte. Maria Gertrudes, sua mãe, já era uma mulher de idade avançada, mas a ausência do marido a fazia tomar as rédeas da família e da casa, ela já fazia isso, isso só se afirmava cada vez mais que o marido passava mais dias fora.
Tudo correria de acordo com o que a mãe dissera. Porém, Gertrudes se esquecera que o filho que "cuidavam" era um homem com suas quase vinte primaveras e que tinha saído junto do pai na noite passada após o caos reinar na floresta. Então, faria o que sempre fazia quando tinha chance: ia bisbilhotar a reunião do povo.
Esperou algum tempo, trocou de roupa, principalmente pela neve que caía do lado de fora. Infelizmente, o inverno não estava no fim se as homilias do Padre se confirmassem. Fazia vinte anos desde o último inverno rigoroso que tomou conta de longos seis meses, um evento que ocorria a cada vinte anos, sendo que se intercalava com um cair de neve fraco no completar de uma década. Verificou a casa toda, tudo lacrado. Por fim, pode partir. O abrir da porta revelou um vento gélido que socou sua cara. Com o capuz, ninguém a reconheceria.
Ia a passos leves para a praça central, onde todos deviam se encontrar. Aldeões e mais aldeões passavam pelos corredores estreitos entre as casas de madeira, ninguém reparava na jovem com seus quinze e poucos anos em meio a senhores e senhoras acima dos trinta. Com medo de trombar com a mãe, ficava para trás. Não demorou muito até chegar ao destino.
—Fiéis de Deus, aproximem-se. – A voz grave do Padre ecoou por todo o recinto. – É urgente a reunião, é crítica a nossa situação, precisamos nos unir e orar contra os demônios que saíram do inferno para atormentar a nossa pacífica vida. – Quando tomou uma pausa para respirar, afinal já era um homem com seus 60 anos para mais, todos falavam, tentando sem sucesso ter um pouco da atenção dos demais.
Era um homem magro, com uma batina acinzentada, bem mais larga do que seu porte físico conseguia suportar. As rugas de expressões iam pelo seu rosto todo, desde a testa franzida até as olheiras intensas abaixo dos olhos cansados.
Nisso, uma explosão veio de um canto, era o Xerife.
—Pessoal, por favor, prestem atenção no Padre. Perguntas fiquem para depois.
—Obrigado, Sampaio. – Um aceno de mão simbolizando uma benção foi feita ao homem que guardava o revólver. – Como eu dizia, sofremos um cruel ataque de criatura nefastas nessa última noite, animais cruéis atacaram nossos pastos, nossas plantações, os filhos de nosso Senhor. – Um breve aumentar de voz foi notado, mas calou-se com o levantar de mão. – Temo que um castigo caiu sobre nosso vilarejo. Contudo, não tenham medo, rezarmos como sempre fará essa sina sair de cima de nossas casas. Além disso, o Xerife montou um grupo para enfrentar as criaturas. Por obséquio, Sampaio, pode falar?
—Pois não, Afonso. – Somente as autoridades podiam se chamar pelos nomes de batismo, ninguém mais, uma tradição que perdura há anos. – Meu povo, não consegui ver com clareza quais bichos nos atacaram, só sei de seu tamanho, enorme, maior que um leão, isso é certeza.
Alguns começaram a falar mais alto. Uns meses atrás, um circo parou na região para um show único, já que não havia muitas pessoas ali. Dessa forma, a vila toda viu o show e a principal atração era a tal criatura com cabelos enormes na cabeça. "O bibliotecário chamou aquilo de juba", lembrou Emanuele. Com tal lembrança, ou não sabia se devido ao frio, arrepiou-se toda.
—Atenção! – Gritou o Xerife. – Saibam que não precisam se preocupar, tenho homens de confiança ao meu lado e faremos o possível para caçar tal criatura, pois não imagino que seja mais que uma. – Aquilo acalmou todos.
Emanuele, de onde estava, mesmo que mais afastada, conseguia ver todos que ali estavam, principalmente o bibliotecário, com quem tinha uma amizade sem igual. Apenas queria ir conversar com ele sobre toda a situação, ele era um homem sábio, saberia dizer o que era aquilo. Sua mãe não gostava dele, achava o homem muito exibido, principalmente por fazer comércio com algumas pessoas da vila não tão bem desejadas, mas que faziam parte integral daquele chão, ou com forasteiros que traziam encomendas estranhas.
—Tenho notícias, o nosso próximo padre está por vir. – O Padre tomou a vez de falar. Aquilo não era surpresa, fazia meses que muitos jovens se reuniam na Igreja, mas ninguém sabia o que ali se passava ou quem realmente era treinado para ser o sucessor do clero. Por mais que a vila seja pequena, havia muitos jovens que vinham de outras regiões, principalmente pelo Padre ter sido ordenado pelo próprio Papa, tinha poder de ordenar novos clérigos.
—Padre, com todo o respeito, será algum dos filhos dessa terra? – Uma pessoa perguntou ao fundo.
—Não posso responder, principalmente pela situação. Como sabemos, o poder do clero pode afugentar tais seres. Sabendo quem é o novo padre, pode ser que ele seja atacado antes de assumir seu lugar, e isso seria uma perda ao nosso lado. – Pausou mais uma vez. – Mas não fiquem com medo, continuem suas preces, Deus nos ouve e ajudará a disseminar o poder do inferno de nosso meio. – Ele levantou as mãos, fez sinais de cruz para a população e se retirou para dentro do enorme prédio atrás de si.
Alguns seguiram para a Igreja, um prédio todo de tijolo bruto, uma coloração escura, a qual se mesclava com a trevas das noites longas. Gertrudes foi junto das demais beatas, com o terço em mãos; outros, não. O bibliotecário foi a sua casa, e a garota o seguiu.
—Matheus! – O grito fino chamou atenção dele, que virou o corpo, assustado. – Tudo bem com o senhor?
—Manu, que susto, menina. – E riu. – Estou bem, sim. E a senhorita não devia estar em sua casa? Não quero problema com o Xerife novamente porque sua mãe deu queixa de mim.
—Não precisa se preocupar. Pela situação, o Padre convocou algumas das beatas para rezarem o rosário. Ouviremos o sino umas três vezes até encerrarem as orações.
—Você que sabe. – Eles seguiram até a biblioteca da cidade, que ficava na casa dele. – Conhecendo a sua pessoa, veio saber se sei o que é tudo que a cidade está passando. Infelizmente, nada sei sobre, mas tenho minhas suspeitas.
—Se você quiser, tenho um tempo livre. Meu pai e irmão saíram para caçar ontem. A certeza é de uma semana para fora, pois o inverno os impede de encontrar boas caças. Com isso, eu e minha mãe comeremos sopa de legumes assim que ela sair, o processo é demorado, mas há alguns pães para irmos beliscando enquanto não fica nada pronto.
—Caso queira, almoce comigo. Terei visitas e uma boca amais não será problema. – Ela não perguntou, pois a confiança sobre ela o faria terminar de falar logo em seguida. Entretanto, não foi isso que aconteceu. Pararam em frente da porta e ele a abriu com cautela, havia barulho lá dentro. – Acho que chegaram.
As janelas eram translúcidas, então dava para ver tudo o que se passava lá dentro, apenas escuridão, um frio colossal deveria cobrir aquele cômodo. Todavia, assim que entrou, era uma enganação. Tudo estava aceso e quente, precisou até retirar seu casaco.
—Olga, Matias, que bom que puderam comparecer.
—Matheus, o que a menina faz aqui?
—Confio nela e na inteligência dela, ela nos ajudará.
—Eu sei quem são, minha mãe fala muito mal de vocês.
—Surpreso estaríamos se algum beato falasse bem da gente. – A voz de Olga era clara, levemente áspera. O corpo magro da mulher era nítido, tinha uma pele rosada e macia, mesmo com algumas rugas de idade. Tinha um cabelo cinza bem liso. Diferente dela, Matias tinha a pele semelhante à de Emanuele, os olhos eram castanhos, bem escuros. Era forte, músculos e veias saltadas, todo careca.
—Olga, eles são influenciados pelo Padre, nada podemos fazer. – A voz dele era fina, mas rouca igual. – Agora, podemos nos sentar, tenho algumas novidades sobre tudo. – Eles se dirigiram à cozinha. A mesa estava repleta, tinha pato assado e um caldo grosso de mandioquinha. – Espero que esteja do gosto de todos.
—Então, o que vocês descobriram? Nossas suspeitas se concretizaram?
—Sim, estamos na virada do século e dois lobisomens nasceram no último Ano de Gelo, devem estar ou vão completar 20 anos nos próximos dias. Além deles, temos dez amaldiçoados que, se atacados, tendem a se transformar em lobisomens.
—Dez amaldiçoados? Tudo isso?
—Sim, o herdeiro da maldição pulou a cerca algumas vezes e deixou alguns filhos por aqui.
—Então, fomos atacados por lobisomens?
—A menina sabe o que são?
—Sim, é ela que vem aqui quase todos os dias e aproveita de minhas coleções, fizemos algumas pesquisas sobre. Como falei, ela é muito inteligente, sabe mais que todos nós juntos. – Emanuele encolheu, ficou envergonhada. – Bom, acho que ela suspeita quais são os nossos poderes, não é, Manu? – Ela confirmou.
—Você e ele são videntes, ela é uma alquimista, mas a chamam de bruxa.
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