Sob o olhar das feras

2 Capítulo 2 - Um toque de surpresas


—Sabe disso desde quando? – Olga não parecia feliz com o seu segredo.

—Faz alguns dias, eu reparo, sou pequena e consigo me esconder em muitos lugares. Eu a vi algumas vezes indo à floresta pegar algumas ervas, vi seu caldeirão enterrado. Eu já vi vocês dois parados, os olhos ficavam brancos, pareciam brilhar.

—Além do mais, ela é uma aprendiz. – Falou Matheus. – Ela não sabe, mas consegue sentir a verdadeira essência das pessoas.

—Você acha mesmo que a Maria Gertrudes gerou uma vidente? Aquela mulher só não foi freira porque se apaixonou. Olha o quão beata aquela mulher é, como ela poderia ter parido uma vidente?

—Olga, acalme-se. Suspeitei disso também, mas nos planos de Deus ninguém mexe. Se foi da vontade dele ela vir dessa forma, será um teste para a mãe. – Aquilo era digerido de forma estranha por Emanuele. – Só não sei como o poder dela funciona.

—Eu sou uma vidente? – Foi o que ela conseguiu dizer. – Minha mãe vai me matar.

—Ela não fará isso, ela não sabe e não saberá, não é com todo mundo que o poder funciona. Além do mais, percebi que seus poderes são diferentes, você não fica com os olhos brancos. Lembra quando tocou no filho da sua vizinha e apenas gritou em seguida como se tivesse sendo queimada? – Ela confirmou. – Aquilo revelou que ele tinha uma essência maléfica, por isso sentiu o corpo queimar. Agora, toque em Olga. – A mulher relutou, mas esticou a mão. Emanuele receou. Depois de um tempo, abriu a mão e a colocou em cima da mão da mulher, sentiu um arrepio no início, que seguiu para uma sensação de alívio. – Está vendo? Seu corpo relaxou, o que mostra a bondade dela.

—Então ela é uma Vidente de Espectro. – Concluiu Matias. – Ela sente se a pessoa é benigna ou não. Nós dois sentimos o que a pessoa é... Interessante. – Puxou um bloquinho de notas e começou a fazer certas anotações com uma caneta dourada.

—Vocês conseguem escolher quem vocês veem?

—Isso gasta um pouco mais de energia, ainda mais que precisamos tocar na pessoa.

—Podemos usar meu poder a nosso favor. – Emanuele tinha uma felicidade na voz. – Eu ajudo muito todos daqui e sempre agradeço com um abraço. Se suspeitarmos de alguém, é só tocar e sentir o que ela é. Com isso, vocês vão pesquisando até descobrirmos os lobisomens.

—Só tem um problema, como vamos mata-los sem que todos suspeitem da gente e nos levem a forca?

—O carcereiro tem uma arma, ele pode prender um lobisomem à noite para interrogar. Eu sei que o Xerife entregou, também, duas armas para dois ajudantes dele, mas sem muitas munições. Se os convencermos a jogar do nosso lado, podemos acabar com os lobisomens sem que os amaldiçoados sejam transformados.

—A menina está certa, vamos ter que pedir ajuda deles, mas como nos ouvirão?

—Matheus, pergunta, os dois lobisomens incluem o patriarca, ou não?

—O que é um patriarca?

—Ele é o progenitor dos amaldiçoados, os dois que identificamos é o patriarca e o mago.

—Agora tem um mago? Tipo, um lobo com varinha mágica?

—Querem que eu explique para a menina o que cada lobisomem pode ser e vocês vão nos servindo antes que isso esfrie e eu surte? – Os dois confirmaram, rindo da cara de Olga. – Os lobisomens se dividem em algumas categorias. O patriarca é o progenitor dos amaldiçoados e o único que pode os transformar por meio de uma mordida, mas leva duas noites para eles se transformarem. O mago tem poder de enganar os videntes, ele pode usar encantamento que vai nos fazer enxergar um lobisomem em alguém que não é. Tem o vidente, ele é como a gente. Tem o filhote de lobisomem, ele é o mais novo da prole, ele sobrevive a qualquer ferimento até conseguir matar aquele que o tentou matar. O Possuído possui uma fúria enorme, costuma ser o humano que nasceu com alguma doença invisível aos olhos humanos, ele consegue matar a vítima que escolheu independente se ela está protegida; isso acontece se ela estiver em terreno sagrado, por exemplo. Por último, tem o guerreiro, o único que pode aparecer durante o dia.

—Caramba, mas tem mais amaldiçoados do que categorias.

—Mas não é assim: "Ah, você será o vidente! Vou te morder e será o lobisomem vidente!". Depende muito da forma como ele foi mordido na noite. Exemplo, o patriarca é descendente do último lobisomem sobrevivente do último ciclo. O lobisomem mago é o filho do amor verdadeiro do patriarca. O lobisomem vidente é transformado quando o amaldiçoado está sob contato visual com um vidente. Só não sabemos como um lobisomem guerreiro é transformado.

—Então, se acharmos quem é o patriarca, saberemos quem é o mago e se ele existe. Depois, descobriremos quem são os amaldiçoados.

—Não se esqueça que eles são humanos, serão transformados quando tiverem contato com o patriarca.

—Como disse a Olga, vamos comer antes que a comida esfrie. – Matias colocou os pratos em frente da mulher e da jovem. Todos comeram enquanto falavam sobre como agir. Convencer o carcereiro e os ajudantes do Xerife para os ajudar seria uma tarefa difícil, ainda mais avisá-los que os lobisomens são pessoas da vila, mas não poderiam desistir.

—Nossa, quem cozinhou? – Matias levantou a mão. – Deus amado, estava tudo muito bom. – Emanuele o agradeceu. – Acho que vou embora, minha mãe deve chegar logo e quero começar a fazer o almoço dela.

—Quando quiser vir, saiba que te receberemos. Só mantenha cautela, ninguém pode saber sobre a gente.

—Sim, qualquer novidade eu conto a vocês. – Emanuele agradeceu novamente e saiu às pressas de lá. Com todo o conforto, conversa e os descobrimentos, não ouviu o sino da Igreja e ficou com medo da mãe já estar em casa. Por sorte, chegou antes dela. A casa toda lacrada segurou o calor, foi colocando lenha na lareira e foi iniciando os preparos para a sopa. Não poderia demonstrar que estava saciada, estão deu um jeito de preparar comida o suficiente para a mãe e torcer para sopa estar pronta assim que chegasse, usaria a desculpa de que já comera.

Assim que a mãe chegou, a sopa quase estava pronta. A mãe tinha um olhar preocupado. Olhou assustada para a filha e somente naquele instante Emanuele havia notado que não tirara a roupa de sair.

—Por que está com a roupa de sair?

—Achei que estava demorando demais, jurei que algo acontecera contigo. Arrumei rapidamente.

—E essa neve em seu cabelo?

—De meu quarto, fui fechar a janela e alguém tacou uma bola de neve, deve ser o filho da vizinha. Sinto muito se a preocupei.

—Não saiu de casa, ao menos. Saiba que estamos em estado de alerta, há algum demônio na vila, espreitando tudo e a todos, atacou as plantações e os animais, vamos ficar sem estoque por um tempo se o inverno não acabar logo.

—Com nossas orações, Deus nos ouvirá e o inverno será menor.

—Assim esperamos. – De repente, a porta se abriu. O pai e irmão adentraram preocupados. – Querido, voltou cedo! – E o abraçou.

—Ficamos sabendo do que aconteceu noite passada, voltamos assim que arrumamos o acampamento. Somos do grupo do Xerife. – Emanuele abraçou o pai enquanto ele falava, assim como o irmão, passou bem as mãos nas costas deles, mas nada sentiu, então estavam limpos. – Que bom te ver, minha pequena. – O irmão ficou calado. Ele e Emanuele tinham mesmo tom de pele, cabelos parecidos, a não ser os do irmão ser raspado na navalha, assim como do pai, com alguns fiapos crescendo aqui e ali.

—Amor, Manu acabou de fazer sopa, querem comer? – Gelou a espinha quando a mãe se aproximou do caldeirão para ver a quantidade de comida.

—Agradeço, mas precisamos ir à delegacia, o Xerife quer falar conosco. – Assim que saíram, deram de cara com dois amigos de Tadeu, irmão da garota, gêmeos. Ambos brancos, de pele avermelhada pelo cansaço, vinham junto do pai da casa mais abaixo de uma colina ali próxima, por isso a respiração pesada. – Jorge, vocês também foram chamados?

—Sim, eu e meus garotos. – Malaquias e Benedito eram idênticos, cabelos escuros como as asas de um urubu, ombros largos, roupas semelhantes e cinzas, evitava que a sujeira do campo aparecesse muito. Eram apenas os três, a mãe faleceu quando nasceram, sobreviveram com ajuda de Olga, antes não era odiada pela maioria, e por Gertrudes, que nunca gostou da tal bruxa. – Você também, Tião? – Sebastião era nome do pai.

—Sim, vamos então? – Concordaram. Emanuele se despediu do pai e do irmão. A pedido da mãe, a garota mandou um "Deus te abençoe" para Jorge, e o abraçou, sentiu um alívio e uma calmaria, ele tinha uma essência boa. Era muito amiga de Malaquias e o abraçou fortemente antes de partir, mas sentiu uma sensação estranha ao tocar suas costas, como se seu corpo queimasse. Seria ele um amaldiçoado? Se sim, o irmão também seria, eram gêmeos. Se o pai tinha uma essência boa e os filhos seriam amaldiçoados, então nem filhos de Jorge eram.

—Filha, faça-me um favor? Vá a casa de Judite e diga que quero falar com ela, por favor? – Ela morava ao lado de Matheus. Iria contar aquilo a ele antes que anoitecesse.