Sob o céu de Paris
1 Capítulo 1 - Parte 1: Check-in
16 de Abril de 2025 — Paris.
Olívia ainda sentia seus pés queimarem quando desceu do táxi em frente ao LaBlanc Hébergement, um hotel bastante conhecido em Paris por sua vista privilegiada da Torre Eiffel. Ela havia decidido que iria à esta viagem, mesmo que sozinha, poucas horas antes do voo, e havia posto sapatos novos que apertavam todos os dedos de seus pés, e ela tivera que correr para não perder o avião. “É Olívia, você está aqui, e sozinha”, ela pensou consigo mesma enquanto saía do táxi, arrastando atrás de si a sua pesada mala de rodinhas.
Paris era o destino dos românticos, e Olívia estava sendo romântica quando comprou as passagens, e estava sendo romântica quando as pôs dentro daquele envelope artesanal sobre a mesa do escritório de Jeremy em seu aniversário. Porém não havia o menor romance no olhar dele ao se deparar com a surpresa, e menos ainda na papelada que ele carregava dentro daquele envelope de papel pardo ordinário. Divórcio era uma ideia que sequer passara pela cabeça de Olívia antes daquela noite, mas desde então ela não conseguia pensar em outra coisa. Em que momento Jeremy havia deixado de amá-la? O que ela tinha feito de tão errado para que ele concluísse que não valia mais a pena tentar? Desde quando ele estava planejando aquilo? Quanto mais Olívia pensava, mais confusa se sentia. Ela sabia que seu casamento não era um conto de fadas em que tudo é alegria, mas, estava convencida de que podiam enfrentar qualquer coisa juntos. Aparentemente, ela era a única naquele relacionamento a pensar assim.
"Eu quero o divórcio, Olívia" ele havia dito pausadamente, como se quisesse se certificar de que ela entenderia. "Eu quero o divórcio, Olívia", a voz impiedosamente cortante de Jeremy ressoava em sua cabeça como se as palavras pudessem correr de um lado para o outro em seu cérebro. "Eu quero o divórcio, Olívia", e ela ainda estava, quase cinco minutos depois, escorada na parede do escritório, sentindo-se nocauteada, incapaz de dizer qualquer palavra. Jeremy havia, simplesmente, posto a papelada sobre a mesa do escritório e anunciado que dormiria na casa de seu irmão, Peter, antes de deixá-la ali, sem a menor cerimônia. Ela havia preparado uma surpresa, ele havia preparado uma emboscada.
— Boa noite madame! – disse um rapaz alto e esguio, vestido formalmente e com uma pequena plaqueta retangular sobre o bolso esquerdo onde se lia Messager*. – Posso lhe ajudar com as malas?
— Ah! Claro. – Ela consentiu.
O hall de entrada era aconchegante, com uma decoração elegante e minimalista em tons terrosos. Ela se dirigiu a recepção ainda pensativa. Havia ponderado muito sobre desistir ou não da viagem, tinha medo de se sentir patética ao se ver sozinha em Paris quando havia planejado uma segunda lua de mel. Mas é claro que Eliza, sua melhor amiga muito persuasiva, a havia convencido de que seria uma boa ideia sair e arejar os pensamentos, afinal, a audiência final para assinar o divórcio seria apenas dali um mês e Olívia tinha muito o que organizar consigo mesma, para estar suficientemente forte quando o momento chegasse. Então se encheu de uma súbita coragem e pegou um táxi para o aeroporto. E ali estava ela.
— Olá, madame, seja bem vinda! Como posso ajudá-la? – disse a simpática recepcionista com um melódico sotaque francês, de trás de seu computador com um largo sorriso desenhado em seu rosto arredondado.
— Bem, eu… tenho uma reserva – a voz de Olívia falhava, ela limpou a garganta para continuar enquanto a recepcionista a fitava atentamente. – Tenho uma reserva de três semanas.
— Qual o nome, senhora? – perguntou a recepcionista, desviando o olhar para a tela de seu computador.
— Collins – ela respondeu, pensando que em breve ela não iria mais usar este nome.
— Oh, senhora Collins! O senhor Collins chegou ainda há pouco, creio que está à sua espera.
Aquelas palavras atingiram Olívia com uma onda de euforia e espanto.
— Como?! – Ela exclamou, quase gritando – Ele... ele está aqui? Aqui neste hotel me esperando? Tem certeza?
– Sim, senhora. – confirmou a recepcionista — Há uma reserva, para Collins, feita há algumas semanas, para duas pessoas. Segundo o registro de Check in, o senhor J. Collins chegou há mais ou menos trinta minutos.
Ele veio. Isso muda tudo.
Olívia não sabia o que pensar, na verdade, não queria pensar. Mas ela estava certa de que se ele estava ali só podia significar uma coisa: não haveria divórcio, e toda a angústia pela qual ela estava passando iria acabar. Ela nem percebeu a indelicadeza com a qual tomou as chaves do quarto da mão da recepcionista, e nem percebeu que estava praticamente correndo pelo corredor em direção ao quarto onde certamente encontraria Jeremy de joelhos em meio a pétalas de rosas vermelhas espalhadas pelo chão. Com certeza ele imploraria seu perdão por tamanha imprudência e diria que foi um tolo, e ela estava mais do que disposta a perdoar e esquecer para sempre as últimas semanas. E, é claro, ela não percebeu o quão irreal era essa ideia.
Ela dispensou o messager com uma boa gorjeta, respirou fundo e girou a maçaneta, quase fechando os olhos como uma criança que se prepara para receber um presente. E lá estava ele: de costas para Olívia, em frente à varanda. Alto e de ombros largos, ostentava um porte imponente. Ele vestia uma camisa social azul escura e calças de alfaiataria, falava ao celular, e em seu pulso levantado perto ao rosto se via um relógio que certamente custara o preço de uma casa em New York. Seus cabelos castanhos avermelhados brilhavam refletindo a luz do abajur ligado. Ele se virou ao ouvir a porta se abrindo, e encarou Olívia. Seus olhos azuis cintilavam curiosidade e confusão, e ele parecia tão surpreso quanto ela. Vagarosamente ele baixou o celular sem deixar de olhar para ela.
— Quem é você? – perguntou o estranho do outro lado do quarto.
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