Sob o céu de Paris

2 Capítulo 1 - Parte 2: A reserva


29 de Março de 2025 — Seattle

Estava caindo uma chuva torrencial em Seattle naquela manhã, e como se não bastasse o trânsito ruim, o táxi em que o Engenheiro Collins estava teve uma pane a duas quadras do CB Tower, prédio onde está localizado seu escritório, propriedade das famílias Collins e Blake, sócios há mais de 40 anos no mercado de Engenharia Civil. James Collins, um dos donos e acionistas do negócio tinha muito o que fazer naquele dia, e não podendo esperar a boa vontade do universo em colaborar, resolveu ir andando até o escritório, mesmo debaixo da chuva. Pagou o taxista, deixou-lhe uma boa gorjeta, e saiu apressadamente pela rua, sumindo entre a multidão de guarda-chuvas.

Samantha Allen, a secretária, tentava organizar-se entre uma pilha de relatórios em cada mão e o telefone pendurado entre seu ouvido e seu pescoço, com Simon Fontainelles tecendo seu forte sotaque francês na linha, quando a voz de James trovejou na sala.

— Samantha!

— Engenheiro Collins! — ela deu um pulo para trás, quase derrubando todos os papéis — Bom dia engenheiro, o senhor… O que aconteceu com o senhor? — ela indagou ao ver James deixar um rastro de água por onde passava.

— Um probleminha com o táxi, nada demais. Preciso que me arranje um café quente, por favor. — ele pediu, enquanto enxugava as mãos e o pescoço com os lenços que estavam na mesa de Samantha — E uma camisa seca, talvez um secador se puder arranjar isso. Esse balance sobre a projeção de gastos com o novo Resort de Paris, você já terminou? – ele indagou folheando a papelada.

— Estou acabando, Engenheiro.

— Ótimo, acabe isso hoje, precisamos desse material pronto para a reunião com os acionistas amanhã. Faça os ajustes que eu indiquei, onde… Onde está… — ele continuava falando enquanto remexia sua pasta até encontrar um caderno aberto em uma página onde tinham diversas anotações à lápis. — Aqui! A relação matéria prima e recursos. Faça isso hoje por favor.

Ele andava de um lado para o outro, inquieto como sempre, e Samantha lhe passou o telefone informando quem estava na ligação, que rapidamente James assumiu.

— Bonjour Monsieur Simon! Como vai? — ele disse, ainda examinando a papelada que Samantha estivera preparando, e sinalizando sobre as correções que ela teria que fazer.

— Nós também estamos ansiosos pra estar em Paris, monsieur. — disse ele gesticulando para que Samantha lhe arrumasse algo que escrever. — Claro, é claro que sim. Estaremos aí em poucas semanas. Certo. Até lá então. Adieu.

Enquanto falava ao telefone, ele rabiscou um nome no papel: "LaBlanc Hébergement" — um hotel muito bem quisto no coração de Paris. Não que James fizesse questão de ficar em um lugar como esse, mas sua irmã Camilla, sim. "Já que eu tenho que ir a Paris trabalhar, porque não ficar em um bom hotel?", ela havia dito, e James sabia que ela estava certa. Afinal, era Paris.

— Sam, localize este hotel em Paris, faça uma reserva para duas pessoas, duas semanas, para depois do dia 10 de abril. — ele disse apontando o papel sobre a mesa de Samantha com a caneta, antes de se enclausurar em seu escritório, para mais um longo dia.

Naquele dia, Samantha revisou relatórios, finalizou o balance para a reunião do dia seguinte, atendeu a milhares de telefonemas de clientes, fornecedores, sócios. Ela pediu uma camisa seca para James, na loja de departamentos ao lado do escritório. Ela também atendeu um telefonema de sua própria casa, a babá de seu filho ligara para avisar que o pequeno Arthur havia voltado mais cedo da escola por conta de uma dor de dente, mas já havia sido levado ao dentista e estava anestesiado e dormindo. Ela teve um dia cheio. Tão cheio que aquele papel rabiscado com o nome do hotel que Camilla escolhera acabou se perdendo em algum lugar pelo chão de baixo da mesa, e Samantha se esqueceu completamente da reserva.

O que ela não sabia, é que naquela mesma manhã uma reserva no LaBlanc para duas pessoas, em nome de Collins, havia sido feita por uma mulher do outro lado do país, da Carolina do Sul. Uma mulher chamada Olívia Leigh Collins. Sendo assim, naquela noite quando James Collins telefonou ao Hotel para confirmar se a reserva havia sido feita, foi contemplado com a notícia de que sua reserva para o dia 16 de Abril o aguardava. Agradeceu a Samantha no dia seguinte — o que ela encarou como um comentário sarcástico uma vez que se esquecera da reserva, mas, entendeu que o assunto estava resolvido. Claro que, quando James pediu que comprasse as passagens, ela foi mais atenta.