A bolha de paz frágil que envolvia Shilah estourou com a chegada dos ventos quentes que prenunciavam as monções¹. Mensageiros cavalgavam a galope pelo acampamento macedônio, trazendo notícias que faziam o ar vibrar de antecipação e pavor. O Rei Poro, governante supremo da região além do rio Hidaspes, havia recusado a submissão a Alexandre. Ele havia reunido um exército colossal, com dezenas de milhares de infantes, cavalaria e o terror dos macedônios: uma muralha de elefantes de guerra. A batalha era iminente. A trégua com Shilah, por consequência, estava por um fio. O Rajá, pai de Amara, teria que escolher um lado, e a neutralidade não seria uma opção tolerada por muito tempo.

No acampamento, a rotina de Kallias mudou drasticamente. A curiosidade e os passeios deram lugar a brocas intensas, afiação de armas e discursos inflamados dos comandantes. A máquina de guerra despertava de seu breve sono, faminta. Mas enquanto seus companheiros rugiam promessas de glória e pilhagem, Kallias sentia um nó frio no estômago. A ideia de marchar contra o povo de Amara, de talvez ver o palácio com seus jardins de lótus reduzido a cinzas, o enchia de um desespero silencioso. Ele se pegava olhando na direção dos muros do palácio, buscando em vão um vislumbre da figura esguia da princesa.

Dentro do palácio, a atmosfera era de pânico contido. Amara participava das reuniões do conselho de seu pai, ouvindo os brâmanes e generais debaterem estratégias fúteis.

O medo da aniquilação pairava sobre eles. Amara sentia o peso de seu Dharma esmagando-a. Ela deveria odiar os macedônios, desejar sua derrota nas margens do rio. Mas a imagem de Kallias, abaixando a lança no jardim, recusava-se a deixá-la. O medo de que ele morresse na lama do Hidaspes era tão paralisante quanto o medo por seu próprio povo. A confusão de seus sentimentos a torturava. Como poderia se importar com a vida de um invasor quando a sobrevivência de seu reino estava em jogo?

A necessidade de vê-lo, de ter uma certeza, por menor que fosse, tornou-se insuportável. A guerra iminente agiu como um catalisador, acelerando o que a cautela tentava frear.

Naquela noite, sob a cobertura de nuvens pesadas que escondiam a lua, Amara usou as passagens secretas que conhecia desde a infância para sair do palácio. Ela não foi aos jardins, mas aos limites do acampamento macedônio, perto do bosque onde as sentinelas faziam a ronda. Ela se escondeu atrás do tronco largo de uma figueira-de-bengala, o coração trovejando, rezando aos deuses para que o destino, que parecia tão empenhado em uni-los, os favorecesse mais uma vez.

Kallias estava na ronda externa. O ar estava abafado, carregado com a eletricidade de uma tempestade iminente. Ele caminhava mecanicamente, a mente cheia de imagens de sangue e lanças quebradas, quando ouviu o estalo sutil de um galho.

Instintivamente, ele ergueu a sarissa², a ponta de ferro voltada para a escuridão.

“Quem está aí?” ele exigiu, em grego.

Uma figura se separou das sombras da figueira. O véu escuro não conseguia esconder a postura digna que ele reconheceria em qualquer lugar. Kallias baixou a arma imediatamente, com o choque dando lugar a um alarme profundo. Ele avançou rapidamente, encurtando a distância entre eles e puxando-a para trás da árvore, fora da vista do acampamento.

“O que você está fazendo aqui?” ele sussurrou, a voz rouca de preocupação. “Se meus comandantes a virem, pensarão que é uma espiã. Você será morta.”

Amara ofegava levemente pela proximidade dele. No escuro, os contornos de seu rosto eram rígidos, a mandíbula tensa de um soldado prestes a ir para a guerra. A ilusão de paz havia desaparecido, substituída pela dura realidade de suas identidades.

“A guerra vai começar,” ela disse, a voz trêmula, abandonando a formalidade. “Meu pai terá que escolher. Se ele escolher Poro…”

“Nós destruiremos Shilah,” Kallias completou, a verdade amarga saindo de seus lábios. Ele fechou os olhos por um instante, a dor evidente em suas feições. “Eu sou um soldado, Amara. Eu obedeço ordens.” Foi a primeira vez que ele usou o nome dela, um som suave e reverente em sua língua estrangeira.

Amara sentiu as lágrimas picarem seus olhos. A inevitabilidade da tragédia os cercava.

“Eu sei,” ela sussurrou.

Em um gesto impulsivo, nascido do desespero e do medo da perda, Amara estendeu a mão e tocou o braço de Kallias, onde a armadura terminava. Seus dedos frios encontraram a pele quente dele. Kallias estremeceu. Ele olhou para a mão dela, pequena e delicada contra a brutalidade de seu equipamento militar, e então, lentamente, cobriu a mão dela com a sua. Foi o primeiro toque real, prolongado e intencional. Não havia palavras para expressar o que sentiam: a atração magnética lutando contra o dever esmagador. Ali, na sombra da guerra, com o cheiro de chuva no ar, o aperto de suas mãos era uma promessa silenciosa, um juramento mudo de que, não importava o que acontecesse no campo de batalha, nos corações deles, eles se recusavam a ser inimigos.

Notas finais
1 - Ventos sazonais asiáticos, especiamente no sudeste, que mudam de direção, causando verões chuvosos e invernos secos. 2 - Era uma lança longa (4 a 7 metros) introduzida por Filipe II da Macedônia e usada nas falanges macedônias, sendo crucial nas conquistas de Alexandre, o Grande. Feita de corniso, pesava entre 5 e 7 kg, exigindo o uso de duas mãos e oferecendo vantagem tática contra armas mais curtas.