Sob o Luar de Shilah: Quando dois mundos se tocam.
5 O Fio do Destino.
A chuva finalmente caiu como um prelúdio do caos. As monções transformaram as margens do rio Hidaspes em um lamaçal traiçoeiro. O exército de Alexandre se preparava para a marcha, a tensão atingindo o ponto de ruptura. A estratégia era arriscada: cruzar o rio transbordante sob o manto da tempestade para flanquear as forças de Poro. O cheiro de couro molhado, cavalos inquietos e medo impregnava o ar. Kallias ajustava as correias de sua armadura com mãos que teimavam em tremer levemente. A morte não o assombrava, isso era de responsabilidade do pensamento de nunca mais ver o rosto que havia se tornado o centro de seus pensamentos.
No palácio de Shilah, o Rajá havia tomado sua decisão. Diante do poderio macedônio e da recusa de Poro em negociar, ele escolheu a submissão relutante a Alexandre, poupando seu reino da destruição imediata, mas garantindo o desprezo de seus pares indianos. Para Amara, a notícia trouxe um alívio misturado com vergonha. Seu povo estava a salvo, mas ao custo de sua honra. Mais importante, significava que Kallias marcharia para a batalha, enfrentando os elefantes e as flechas envenenadas de Poro, enquanto ela permaneceria segura atrás de muros de pedra.
A ideia de ficar passiva, esperando que o destino decidisse se o homem que ela amava viveria ou morreria, era intolerável. A crença no Karma, na ação correta, queimava dentro dela. Ela não podia lutar por ele, mas não o deixaria ir sem uma proteção, sem uma prova de que o que havia nascido entre eles era real.
Desafiando mais uma vez todas as regras de sua casta, as ordens de seu pai e o perigo inerente, Amara vestiu um manto escuro, cobriu o rosto e novamente saiu para o acampamento de Kallias , no meio duma tempestade. O trajeto foi um pesadelo de lama e escuridão, mas uma força invisível, uma convicção quase mítica de que seus caminhos estavam entrelaçados, a impulsionava. Era a sensação inegável da predestinação.
O acampamento era um formigueiro desorganizado sob a chuva torrencial. Amara se esgueirou pelas sombras das tendas, evitando o brilho das fogueiras abafadas. Ela sabia vagamente onde a unidade de Kallias estava alocada dentro de todos os alojamentos, guiada por instinto e desespero.
Kallias estava do lado de fora de sua tenda, a chuva lavando seu rosto, preparando-se mentalmente para o massacre. Quando uma figura encapuzada emergiu da cortina d’água e parou diante dele, ele puxou a adaga por reflexo. Mas o cheiro fraco de jasmim, quase afogado pelo cheiro de chuva, o fez parar.
“Amara?” ele exclamou, a voz mal audível sobre o rugido da tempestade. Ele a puxou para o abrigo precário do toldo da tenda, os olhos arregalados de incredulidade e terror. “Pelos deuses, você enlouqueceu? O exército está marchando!”
Amara tirou o capuz, os cabelos escuros grudados no rosto molhado. Ela estava ofegante, tremendo de frio e de emoção. Ela não respondeu às reprimendas dele. Em vez disso, enfiou a mão sob o manto e tirou um pequeno cordão de seda com um pingente de pedra escura, gravado com símbolos sânscritos.
“Meu irmão usou isso em sua última batalha,” ela disse, a voz firme apesar do tremor de seu corpo. “Diz-se que afasta a morte. Ele não teve sorte, mas… eu não posso deixar você ir sem ele.”
Kallias olhou para o amuleto, depois para o rosto dela. O sacrifício que ela estava fazendo ao arriscar sua vida e sua honra apenas para entregar-lhe aquilo, tal fato o atingiu com a força de um golpe físico. A barreira de sua disciplina militar ruiu completamente. A confusão de sentimentos se cristalizou em uma clareza cortante.
Ele pegou o amuleto, seus dedos roçando a palma da mão dela, e o prendeu ao redor do próprio pescoço, escondendo-o sob a couraça de bronze. A pedra fria parecia queimar contra sua pele.
“Eu voltarei,” Kallias prometeu, a voz rouca, carregada de uma urgência desesperada.
“Eu juro a você, Amara. Eu sobreviverei a este rio, a estes elefantes. Eu voltarei para você.”
Amara olhou para ele, os olhos brilhando com lágrimas não derramadas. A distância entre eles desapareceu. Movidos pela urgência do momento, pela sombra da morte iminente e pela atração que havia sido negada por muito tempo, eles se aproximaram.
O primeiro beijo deles foi apressado, desesperado e salgado com a chuva e as lágrimas. Os lábios de Kallias encontraram os dela com uma fome contida, suas mãos segurando o rosto dela como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Amara correspondeu com igual intensidade, suas mãos agarrando os ombros da armadura dele, ancorando-se na solidez de seu corpo. Era um beijo que carregava o peso de dois mundos em guerra, a incerteza do amanhã e a confissão silenciosa de um amor proibido.
Quando se separaram, ofegantes, os sons do acampamento pareceram retornar de repente. O chamado das trombetas ecoou na noite.
“Vá,” Kallias sussurrou, encostando a testa na dela por um breve segundo. “Volte para o palácio. Fique segura.”
Amara assentiu, puxando o capuz sobre a cabeça. Ela recuou para a chuva, lançando um último olhar para o guerreiro macedônio que carregava seu coração e o amuleto de seu irmão para a batalha. O fio do destino estava agora irrevogavelmente atado, e apenas os deuses sabiam se a guerra o cortaria ou o fortaleceria.
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