Sob o Luar de Shilah: Quando dois mundos se tocam.
8 A Escolha de Kallias.
A revelação pairava entre eles como uma lâmina suspensa. Kallias soltou as mãos de Amara e deu um passo para trás, passando as mãos pelo cabelo em um gesto de desespero. O peso do mundo parecia ter desabado sobre seus ombros.
“Não posso marchar com Alexandre,” ele repetiu as palavras dela, testando o peso delas em sua própria língua. “Amara, se eu não marchar, serei um desertor. A punição é a morte. Eles me caçarão.”
“E se você marchar, eu serei morta pelo meu próprio povo,” ela retrucou, a voz dura, mas os olhos cheios de súplica. “Ou serei forçada a viver uma mentira, escondendo seu filho até que ele seja descoberto e tirado de mim.”
O conflito interno de Kallias era excruciante. Toda a sua vida havia sido definida pela lealdade à Macedônia, ao seu rei, aos seus companheiros de armas. Desertar era a maior desonra para um pezhetairos. Era cuspir no túmulo de seu pai e na memória de todos os homens que haviam morrido ao seu lado. Mas quando ele olhou para Amara, a mulher que o havia ensinado a ver a beleza em um mundo que ele fora treinado para destruir, a mulher que agora carregava seu filho, a escolha se tornou assustadoramente clara.
O ideal de um império universal de Alexandre parecia oco e vazio em comparação com a vida frágil que crescia no ventre de Amara. Ele não queria conquistar o mundo; ele só queria proteger o mundo deles.
Kallias voltou a se aproximar dela, a expressão endurecida por uma determinação férrea. O jovem idealista desiludido e o soldado obediente deram lugar a um homem fazendo a escolha mais difícil de sua vida.
“Eu não vou deixá-la,” ele disse, a voz baixa e vibrante de convicção. “Eu não vou deixar meu filho crescer sem pai, ou pior. A Macedônia não é mais minha casa. Minha casa é onde você estiver.”
Amara sentiu as lágrimas finalmente transbordarem. O alívio foi tão imenso que seus joelhos quase cederam. Kallias a segurou, puxando-a para um abraço apertado, escondendo o rosto na curva do pescoço dela. O sacrifício dele era monumental. Ele estava abandonando sua identidade, sua pátria, sua honra militar, tudo por ela.
“Para onde iremos?” ela sussurrou contra a armadura dele, o medo do desconhecido se misturando com a esperança.
“Para longe daqui,” Kallias respondeu, a mente de soldado já trabalhando em um plano de sobrevivência. “Para o norte. Há cidades mercantis na Báctria¹, lugares onde as rotas se cruzam e as pessoas não fazem perguntas sobre de onde você vem. Lugares onde gregos e indianos já convivem. Nós desapareceremos.”
A decisão estava tomada. O romance deles, que havia começado com um olhar furtivo e se desenvolvido em sussurros no escuro, agora exigia que eles queimassem as pontes com seus passados. O infante macedônio e a princesa indiana seriam agora dois fugitivos, unidos por um amor forjado na fornalha da guerra e pela promessa de uma nova vida.
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