Sob o Luar de Shilah: Quando dois mundos se tocam.
9 A Fuga na Noite.
A Fuga na Noite
A preparação para a fuga foi um exercício de terror silencioso. Cada olhar prolongado, cada movimento fora do comum poderia ser interpretado como traição. O exército macedônio estava em polvorosa, preparando-se para a descida do rio Indo. A confusão da partida iminente era o manto perfeito para o desaparecimento de um único infante.
No palácio, Amara recolheu apenas o essencial: algumas joias de ouro que poderiam ser trocadas por moedas ou favores, roupas quentes para a jornada em direção às montanhas e o amuleto de seu irmão, agora devolvido por Kallias como um símbolo de sua promessa. Ela olhou para seus aposentos pela última vez, despedindo-se silenciosamente da vida de princesa, das sedas finas e da segurança dos muros de pedra. A dor da perda era aguda, uma pontada constante em seu peito, mas a determinação de proteger a vida dentro dela era mais forte.
A noite escolhida para a fuga não tinha lua, coberta por nuvens espessas que escondiam as estrelas. O ar estava frio, um lembrete das montanhas que teriam que cruzar.
Kallias abandonou seu linothorax¹, a sarissa e o escudo. Vestiu roupas civis simples, roubadas de um varal local, e armou-se apenas com uma espada curta e uma adaga. Ele deixou o acampamento durante a troca de guardas, misturando-se às sombras com a habilidade de quem havia sobrevivido a anos de emboscadas.
O ponto de encontro era um antigo santuário abandonado nos limites da floresta, longe das rotas de patrulha. Quando Amara emergiu da escuridão, acompanhada apenas pelo farfalhar de seu manto, Kallias sentiu o ardor do alívio.
Eles não perderam tempo com palavras. Kallias havia conseguido dois cavalos resistentes, comprados com o pouco ouro que havia acumulado em anos de campanha. Ele a ajudou a montar, suas mãos firmes e tranquilizadoras.
A cavalgada pela noite foi tensa e exaustiva. Cada estalo de galho, cada pio de coruja parecia o som de perseguidores. Eles viajaram para o norte, evitando as estradas principais, seguindo trilhas usadas por contrabandistas e pastores. O medo de serem descobertos por patrulhas macedônias buscando desertores ou por guardas de Shilah caçando a princesa desaparecida era uma presença constante, um terceiro companheiro em sua jornada.
Quando o amanhecer finalmente quebrou, pintando o céu com tons de rosa e dourado, eles haviam deixado o vale do Hidaspes para trás. As montanhas do Indocuche erguiam-se no horizonte, majestosas e implacáveis.
Eles pararam perto de um riacho para dar água aos cavalos. Amara desmontou com dificuldade, a exaustão marcando seu rosto. Kallias se aproximou dela, envolvendo-a em seus braços. Eles olharam para trás, na direção de onde vieram. Não havia fumaça de fogueiras, nem sons de trombetas. Eles haviam conseguido.
A dor da perda misturou-se com a esperança frágil do futuro. Eles haviam deixado para trás tudo o que conheciam. Amara nunca mais veria os jardins de lótus de seu pai. Kallias nunca mais veria as oliveiras de Pela². Mas enquanto permaneciam ali, abraçados na luz fria da manhã, eles sabiam que a escolha havia sido a única possível. A fuga na noite era o fim de suas velhas vidas e o começo árduo de uma nova.
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