Snow Flower
2 Saudade
Notas iniciais
O sol brilhava no céu de Karakura. As pessoas acordavam e iam fazer suas coisas diárias . Na casa dos Kurosaki, a confusão era visível. Literalmente.
– Filho ingrato!
O mais velho de todos, Kurosaki Isshin, gritava com o ruivo que o encarava entediado. Não podia ter um dia normal?
– Cala a boca, velho!
Deu uma voadora no homem de cabelos negros, que voou contra uma parede.
– O café da manha esta pronto! Venham comer !
A garota de cabelos cor mel anunciou, sorrindo largamente com uma tijela de arroz nas mãos.
– O que temos para comer, Yuzu?
Ela apontou para a mesa e os olhos de Kurosaki Ichigo brilharam, enquanto sentava-se na mesa e pegava uma porção de cada coisa deliciosa que sua irmã mais nova tinha preparado. Realmente, Yuzu era uma ótima cozinheira!
– Cadê a Karin?
Yuzu desmanchou seu semblante alegre. O sorriso cativante congelou para uma expressão desanimada.
– Ela não está, saiu cedo.
O ruivo mais velho ficou ligeiramente surpreso. Desde quando sua irmã ganhara hábitos matinais? De fato, a morena andava alheia a tudo e todos, sempre perdida em pensamentos. E por vezes (aliás, inúmeras vezes), Karin saía sem dizer nada. Ichigo nunca demonstrou grande preocupação com o comportamento da sua irmã mais nova, cogitava que fosse coisas de mulher relacionadas com a puberdade. Mas agora encarando os olhos castanhos da Yuzu, percebeu que a situação era mais grave do que aparentava.
– O que aconteceu Yuzu?
– Karin-chan não fala… Eu tento fazer que ela desabafe comigo, mas ela não o faz. Tranca-se no seu quarto, no seu próprio mundo e não permite que ninguém entre lá. Como se nos faltasse a chave para abrir a sua porta.
O substituto de shinigami enrugou a testa, deveras preocupado. O que poderia ter acontecido para abalar a sua irmã alegre e sociável?
– Talvez o responsável seja aquele rapaz que veio aqui em casa…
Yuzu perdeu-se no seu próprio comentário, relembrando os cabelos brancos e os olhos azuis-turquesa penetrantes. Porém, o sussurro praticamente inaudível não passou despercebido para um irmão ciumento e possessivo.
– Rapaz? Como assim Yuzu? Ele a magoou? Eu vou matar o moleque que se atreveu a isso!
– Vamos comer Onii-chan.
A mais nova encerrou o assunto, começando a mastigar pesarosamente a refeição preparada com todo o amor e carinho. Queria que Karin estivesse ali e saboreasse a sua comida junto com ela, como antigamente. Mas ela no fundo sabia, nada voltaria a ser como antes. A vida da irmã nunca mais seria a mesma, não depois de conhecer aquele misterioso rapaz.
– Não acredito…
Ichigo virou levemente a cabeça, encarando Isshin, que estava se levantando.
– Não acredita no que, velho?
Isshin sorriu de canto, se sentando na cadeira do lado de Yuzu.
– Karin está apaixonada.
Ele mordeu sua torrada e Ichigo ficou encarando o nada por alguns segundos.
– Ap-paixonada? Impossivel!
– Calma, calma!
Yuzu tentava acalmar seu irmão que praticamente soltava fogo da boca.
XxX
Enquanto isso, uma certa morena andava tranquilamente pelas ruas praticamente desertas da cidade de Karakura. Parando sua caminhada, quando chegou ao seu destino.
P.O.V. Karin On
De novo vim a este local. Fazia algum tempo que se tornou uma rotina vir até aqui. Para ser exata, essa rotina começou desde que ele partiu. Mesmo que sentisse meu coração apertar, este local me transmitia uma certa calma e era um ótimo lugar para se observar o céu. Tal como ele me disse uma vez. Mesmo que tentasse o esquecer, não conseguia. Quando tentava, imagem dele observando o pôr-do-sol invadia minha mente. Por causa disso, meu quarto tem sido meu refúgio. Sempre que podia, me trancava lá dentro e me jogava na cama, pensando nele. E é claro que eu queria chorar e gritar. Mas me mantinha calada, apenas pensava.
Por que tentar esquecer alguém era tão doloroso e parecia...proibido?
Suspirei cansada. Aquilo de algum modo estava me fazendo mal. Me matava lentamente.
Olhei para as nuvens e decidi ficar ali por mais algum tempo. Afinal hoje era domingo, e eu não tinha aulas. Me deitei na grama, fechando os olhos e sentindo a brisa fria bater em meu rosto. Aquilo era como um calmante para mim.
De repente, senti alguém se aproximar a passos lentos. Abri os olhos e encarei o individuo que me encarava curioso. Ele era ruivo, olhos castanhos escuros e pele branca. Trajava uma camiseta marrom clara, uma calça jeans e um sapato qualquer de cor escura.
– Yo!
Sua voz era grave, porém soava um tanto infantil.
– Yo…
Não vi problema algum em responder e pelo sorriso enorme que ele me deu, gostou de eu ter respondido.
– Posso me sentar aqui?
– Por acaso tem alguma placa que te proíbe?
Ele sorriu de canto, enquanto se sentava e encarava o céu.
– Não, mas perguntar não mata ninguém.
Fechei os olhos, pouco me importando com ele. Esse garoto é estranho. Fala com uma desconhecida sem pudor algum.
– Oee! Sou Hakai Owari ! Qual é o seu nome?
Ele cutucava o meu braço, me irritando.
– Kurosaki Karin.
Sibilei e ele ficou quieto, observando novamente o céu.
– Hunm… Não sei o que dizer…- Ele coçou a cabeça, envergonhado- Por que você está aqui?
O que eu diria? Sinceramente, nem eu sabia o porquê de eu estar ali. Meus pés pareciam que se moviam por vontade própria e me conduziam até aqui.
– Hun, quem sabe.
Ele deu risada, me irritando.
– Que foi?
Ele parou de rir, se levantando e me encarando de soslaio, risonho. Maldito!
– Nada, tenho que ir. Tchau!
Ele se virou e saiu correndo, sumindo, no final da estrada
Eu olhava confusa por onde aquele misterioso rapaz tinha desaparecido. Não entendi absolutamente nada sobre aquele curto e estranho diálogo. Nunca o tinha visto, com certeza não era um colega de escola. Quem seria ele e o que pretendeu ao falar comigo? Algo me dizia que ele não era alguém que se deva confiar.
O vento bagunçava meus cabelos negros, sendo libertos da fita que os prendiam num desajeitado rabo de cavalo. Normalmente, iria me apressar a apanhá-los de novo antes que alguém os visse soltos mas naquele momento isso não me importou.
O sentimento ruim apoderava-se de mim, não sei dizer o porquê. Seria pela excessiva falta do Toushirou ou do mau presságio que tinha sobre aquele rapaz? Hakai Owari significava destruição final. Seria imaginações da minha cabeça ou estaria certa a respeito dele? Nunca fui de desconfiar de alguém assim… Não que eu costumasse confiar numa pessoa quando mal a conhecia…Mas... Há alguma coisa de errada aqui e eu iria descobrir o que era.
Olhei novamente para o céu e o conjunto de cores alaranjadas mostrou o quanto estava atrasada. O velho e o baka do Ichi-nii deveriam estar furiosos, e a Yuzu a chorar imaginando em que hospital eu poderia estar.
– Kami, dá-me paciência para quando chegar a casa. Porque se me deres força…
Levantei-me a contra gosto, e arrastei o meu corpo até casa enquanto a noite me recebia com o seu brilho estrelar e luar.
P.O.V. Karin Off
A morena caminhou para casa, sem nunca desconfiar que um par de olhos castanhos sangrentos seguia o seu trajeto, ao mesmo tempo que a face da misteriosa presença se contorcia num sorriso sádico. Aquele era apenas o começo. O começo de eventos que iriam mudar completamente a vida de Kurosaki Karin e Hitsugaya Toushirou.
Mas, a vida deles mudara de uma forma boa ou má? Apenas o tempo nos dirá.
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