Skyfall
31 XXX
Notas iniciais
Eu nunca havia visto um prédio tão bonito em toda a minha vida.
Eu fiquei muito impressionada com os prédios em Londres, de fato. Nova York sempre seria uma cidade de arranha-céus, mas Londres de alguma forma agradou minhas expectativas. Mesmo sendo apaixonada pela cidade em que eu nasci, algo na atual me fez gostar dela. Eu detestava aqui no início, odiava tudo que passava pela minha frente e sempre gostei de colocar defeitos. Com o tempo, deixei meu orgulho de lado, e passei a admirar tudo aquilo. A Europa talvez até fosse aquele lugar de princesas encantadas esperando pelo seu príncipe; por mais que eu me caracterizasse como uma bela bruxa.
Meus saltos ecoavam pelo hall de entrada do prédio. Eu não usaria saltos se não fosse por uma ocasião especial, portanto a escolha deles foi quase fundamental, juntamente com a saia e a camisa social. Tive que revirar meu guarda-roupa em busca dessas peças apenas para parecer apresentável.
Meus olhos se encheram com aquela overdose de branco. O piso era extremamente lustroso e se moldava sutilmente com minhas passadas. Mais à frente do hall, sem contar os sofás e a movimentação de pessoas entrando e saindo, havia um longo balcão, com algumas mulheres dispostas uniformemente sobre ele, todas usando seus dedos ágeis ao digitar em seus computadores.
Escolho a mulher do canto. Loira, com sardinhas pelo rosto e uma expressão simpática. Caminho até ela, tentando transbordar confiança no que estou fazendo, segura de mim mesmo e das minhas atitudes. Ando tão compenetrada que me esqueço de que já estou na frente do balcão, com olhos esverdeados me encarando com uma pitada de confusão.
— Boa tarde, em que posso ajudar? — sua voz soou aveludada, e eu sorri para a secretária.
— Tenho uma reunião marcada com Poseidon Jackson — pondero, pigarreando para limpar a voz.
A loira passa o olhar sobre mim discretamente. Achei que estava parecendo velha o suficiente para ninguém desconfiar do porque uma garota de dezessete anos estaria indo a sala de um dos milionários da elite de Londres. É claro que eu não estava indo comprar uma passagem para o Caribe – já que a empresa tratava com viagens internacionais –, então o que mais uma jovenzinha faria procurando por Poseidon?
Sei o que a secretária está pensando. Ela acha que eu vou dar para ele.
— Qual seu nome, querida? — abre um sorriso sem mostrar os dentes, com seus olhos verdes parecendo repuxar junto.
— Annabeth Chase — tento conter o nervosismo quando a mulher digita ferozmente no computador, provavelmente verificando a agenda.
— Posso ver sua identidade?
Procuro na minha bolsa de couro minha carteira, entregando um pequeno cartão plastificado à ela. Depois de alguns segundos analisando a minha terrível foto 3:4, a loira finalmente me lança um sorriso, devolvendo o pedaço de papel.
— Vigésimo andar. Juliett irá te levar a sala do senhor Jackson.
Agradeci, seguindo as unhas pintadas de rosa que me levavam a um dos elevadores. Caminhei até lá tentando aparentar a mesma forma tranquila de antes, mas agora, eu já não me sentia da mesma forma. Passei a me sentir insegura, as mãos começaram a tremer e minha nuca soar. Estava chegando a hora.
Entrei no elevador com alguns prováveis executivos e pedi educadamente que apertassem o botão do vigésimo andar.
Eu iria descobrir respostas. Eu iria escutar uma história que não era a versão de minha mãe. Sempre fui assim; gostava de saber diversas opiniões, – de preferência divergentes – apenas para formular a minha própria... Mas hoje, algo em mim insista em me dizer que eu iria escutar verdades que estavam além da conta; verdades que poderiam me machucar e fazer mal a mim e a minha família.
Eu não parecia ligar para nada disso agora. A adrenalina que corria pelas minhas veias era mais forte do que tudo isso, entrando pelo meu sistema nervoso e me deixando inquieta. Conformes o elevador subia e andares passavam, meu coração acelerava ainda mais com a excitação de olhar cara a cara a verdade. Olhar cara a cara meu ex-futuro-sogro, ou seja lá o que ele fosse.
O elevador finalmente para no vigésimo andar e apenas eu saio de lá. Me deparo com mais um hall com branco porcelana, dessa vez ainda menor e repleto de paredes de vidro. Haviam alguns sofás e um balcão, mas diferente do térreo, apenas uma única secretária, desta vez asiática com as unhas pintadas de vermelho e óculos de grau.
Seu olhar alcança o meu e ela abre um mínimo sorriso. Eu o retribuo.
— Senhorita Chase, o presidente Jackson já está te esperando.
O presidente Jackson.
Continuo com o sorriso estampado no rosto enquanto a asiática contorna a mesa do balcão e faz um gesto para que eu a seguisse. Ela caminha com passos firmes até a sala de vidro, abrindo a porta para mim para que eu entrasse, segundos depois, me deixando sozinha com a figura masculina é mais velha do cara que eu costumava dar uns beijos.
— Annabeth — Poseidon abre um sorriso de orelha a orelha ao me ver, analisando meu corpo de cima a baixo descaradamente. Ele se levanta da sua cadeira giratória, caminhando até mim e estendendo a mão direita. Eu a aceito, forçando um sorriso.
— Poseidon — imito sua fala. Se ele podia me chamar pelo primeiro nome, assim eu também.
— Por favor, sente-se — ele me indica a cadeira em frente à sua mesa de madeira bem polida. Seu escritório era ainda mais sofisticado do que eu imaginei nas minhas noites em claro, procurando livrar a tensão de finalmente encontrá-lo.
Sua mão se apoia na minha omoplata e um arrepio percorre pelo meu corpo. Estranhei o gesto, no fim das contas, mas mesmo assim, segui seus passos até que eu ocupasse a cadeira, e alguns segundos depois Poseidon retomar ao lugar que estava pouco tempo antes de eu chegar.
— Confesso que fiquei bem surpreso quando você me ligou. Como conseguiu meu número? Foi Percy?
— Com Thalia.
— Ah, claro, minha sobrinha. Esqueci que você não tinha vínculos apenas com Percy.
Ele tem um sorriso no rosto como se carregasse segundas intenções entre eu e seu filho.
— Não tenho vínculos com Percy. Ele é só meu amigo — digo ríspida, e, naquele momento, seu sorriso morre.
— Bem — começa, depois de algum período em silêncio, tentando retomar a conversa. — Porque me procurou? A curiosidade veio me matando nos últimos dias.
— Fora exatamente por isso — balancei a cabeça, cruzando as pernas embaixo da mesa. — A curiosidade também veio me matando.
Poseidon franze o cenho, apoiando suas duas mãos gigantes em cima da mesa, perto do teclado de seu computador ligado.
— Desculpe, acho que não entendi o que você quer dizer com isso.
— Prefere a versão longa ou resumida?
— Resumida — diz, incerto, com as sobrancelhas unidas. Ele não estava entendendo onde eu queria chegar com ela conversa.
— Depois daquele jantar, comecei a me questionar sobre sua proximidade com minha mãe — tento relaxar meu corpo ao me lembrar dos detalhes. Poseidon toma uma versão mais séria em sua pose, sem sorrisos. — Vocês tem a mesma marca no pulso. Eu encontrei a foto no escritório dela. Atena me disse que vocês fizeram isso para nunca esquecerem um do outro.
Poseidon ri nervoso, olhando para os lados. Percebo que ele está tão inquieto quanto eu estava. No entanto, a medida que as palavras escorregam pela minha boca, eu me sinto mais confiante para poder falar sobre o assunto. Eu nunca fui medrosa, bem como não poderia ser agora... de todo jeito, é como se aquela conversa fosse uma bomba; a qualquer momento poderia explodir e acabar me machucando – se não matando.
— Você agiu pelas costas do seu irmão e pegou minha mãe. Vocês se mudaram para Nova York quando passaram na faculdade. Terminaram depois de um tempo e, pelo que pude ver, voltou para Londres. Conheço seu filho assim que me mudo para cá. Por algum motivo minha mãe não permite que eu continue minha amizade — friso a palavra — com ele. Algo está estranho. Não acho que você simplesmente partiu o coração dela – afinal minha mãe nem tem um. Tudo isso não pode ser só rancor.
Poseidon acompanha lentamente minha fala, prestando atenção em cada gesto. Me sinto mais confiante. Conforme falo, adoto uma postura mais séria e imparcial, tentando parecer intimidadora. Parece funcionar quando o homem a minha frente solta um riso nervoso.
— Annabeth...
— O que agora? — respondi, batendo meus cílios e preferindo omitir a parte de descobrir o segredo do seu filho.
— Você disse que sua mãe não tem coração.
— Eu disse.
— Você disse isso porque é verdade ou está simplesmente com raiva?
— Nós dois sabemos que ela não tem um. Você esperou que ela amasse você pelo resto da vida e não conhecesse meu pai? Sinto muito por ela ter te dado um pé na bunda.
Nesse momento, o rosto de Poseidon se contorce em uma expressão totalmente diferente de antes. Mas para a minha surpresa, não é em culpa, tristeza, raiva, ou qualquer coisa que pudesse denunciar as emoções que ele deve ter sentido quando minha mãe o deixou. Seu rosto simplesmente se contorce exatamente igual o meu nas aulas de História Geral: um misto de confusão, como se o professor estivesse falando em outra língua.
— Me dado um "pé na bunda"? — perguntou, com as sobrancelhas unidas, inclinando seu corpo para frente da mesa como se eu fosse a presa e ele o predador.
— É...
Minha voz sai falha. Antes que eu possa pigarrear para limpá-la, Poseidon continua:
— Agora eu entendo porque está aqui.
— Entende?
— Você quer saber a verdade. Essa não é a verdade — permaneço em silêncio para que Poseidon não pare de falar, um típico truque de psiquiatras para que você não esconda nada, diga apenas a mais simples e pura verdade. — Prefere a versão longa ou resumida?
Arqueio as sobrancelhas com a sua ousadia de repetir a minha fala.
— Longa — respondo, contraditória.
— Eu vou contar da forma que acho melhor de qualquer jeito. Pode ser um choque e tanto para você.
Inclino as sobrancelhas e espero que ele continue falando. No entanto, Poseidon junta as mãos em cima da mesa e acomoda seu corpo na poltrona de couro, quase que um gesto que avisasse que o homem estaria se preparando psicologicamente para isso. Talvez aquilo denunciasse algum tipo de sentimento pela minha mãe, ou talvez o assunto só fosse delicado demais – e como ele disse, um choque para mim.
— Quando nos mudamos para Nova York, sua mãe conheceu seu pai. Frederick era rico, inteligente, tudo o que ela sempre buscava nas pessoas, cada vez mais ambiciosa. Mas ao contrário do que você pensa, ela me amava; caso contrário, nunca teria pedido para eu ficar.
— Você ficar? Eu não entendi. Achei que você tivesse voltado para Londres.
— Seu pai era um plano meu e dela. As chances da sua carreira decolar com ele eram altas. Mantivemos um relacionamento aberto para que sua mãe pudesse seduzir seu pai e depois arranjaríamos um jeito de tirar dinheiro dele. Isso durou anos. Sua mãe com seu pai, eu com outras mulheres, nós dois amantes nas horas vagas. O mais incrível era que apesar de tudo isso, nós nos amávamos, e muito.
Minha cabeça tenta processar as informações que Poseidon faz, mas nada parece fazer sentido. Não é como se o homem a minha frente estivesse falando a verdade. A sua calma, mas ao mesmo tempo sua relutância em dizer aquelas coisas, sempre iriam me confundir e me subjugar.
— Como eu vou saber que está falando a verdade?
— Com um exame de DNA.
A voz fica entalada na minha garganta. Por um motivo, não consigo ao menos questionar o que ele diz. Minha cabeça trabalha em um milhão de perguntas, e sei que vou ter muitas delas assim que sair dali, mas no presente momento, não consigo dizer nada, apenas divagar nos meus próprios pensamentos. Minhas mãos começam a tremer levemente, e meu coração bater mais rápido. Talvez, em algum ponto do meu cérebro, eu soubesse o que Poseidon estava querendo dizer com isso.
— O quê?
— Eu permaneci em Nova York durante uns três ou quatro anos logo depois de nos mudarmos. Sua mãe engravidou pouco tempo depois, e sempre tivemos o medo de esse filho ser meu, e não de Frederick. Não sabemos o que aconteceu. Usávamos camisinha quando ela não tomava a injeção. Você sabe que eu estou falando a verdade; sabe que sua mãe usa injeção, não sabe?
— Sei — minha voz sai falha.
— Mas esse filho não era você. Fique tranquila... Era um garoto, que ela chamou de Malcolm... Nunca fizemos o teste, ela disse que preferiria nunca saber a verdade, logo ela não tinha o direito de se sentir culpada.
— Você disse que ficou em Nova York durante quatro anos... Eu sou três anos mais nova que Malcolm.
— Esse é o problema — Poseidon inclina todo o seu corpo em cima da mesa, indo mais para frente até seus olhos esverdeados fazerem total contato com os meus. — Nós não paramos de dormir juntos até aí. Quando ela engravidou pela segunda vez, decidiu que era melhor acabar com isso. Ela roubou todo o dinheiro que tinha na minha conta bancária e fugiu. Tive que pedir ajuda para minha família para voltar para Londres. Eu nunca vi seu rosto, nunca te conheci... Pelo menos até a Lotus, e quando meu filho te acompanhou no nosso jantar de família...
— Você está querendo dizer que...
— Sim. A probabilidade de você e Percy serem irmãos existe — sua voz sai rouca e baixa, como se tivesse medo da minha reação. — Me desculpe...
Paro de respirar... e eu nunca senti isso antes.
Parece que o escritório de Poseidon vai diminuindo aos poucos, as paredes se encolhendo para o cômodo ficar menor do que já é. Sinto o incomodo do ar faltar nos meus pulmões, e concluo que aquela crise de claustrofobia vinha também dos meus próprios pulmões; é quase como se eu não os tivesse mais, e isso é a razão pela qual não consigo mais respirar.
Meu rosto deve ter adquirido todas as colorações de roxo ou vermelho. Talvez até um azul. Chegava a ser impossível tentar respirar, meu corpo todo parecia estar em um estado de choque. Poseidon me encarava com os olhos semicerrados, talvez até um pouco surpreso pela minha reação. Todo tempo eu disse que Percy e eu éramos apenas amigos, mas diante das caretas que eu fiz conforme meus dedos dos pés se contorciam dentro do meu salto, aquilo não pareceria tão verdade.
Parecia ser um sonho. Eu poderia acreditar nisso se quisesse. Nada era real, minha cabeça estava apenas pregando uma peça no meu subconsciente... Só que mais tarde, conforme os dias fossem passando, eu iria descobrir que aquilo era verdade: a sala era de verdade, até mesmo a conversa era de verdade. Eu precisava de tempo para digerir aquela informação, mas tudo que eu conseguia fazer era querer vomitá-la goela abaixo.
— Eu preciso ir embora — digo a Poseidon, decidida a colocar um fim nessa conversa antes que eu me machucasse ainda mais.
— Annabeth... — o homem tenta, talvez provavelmente meu pai, e eu começo a analisar suas características.
O que chegava a ser mais preocupante: o fato de eu provavelmente ter transado com meu irmão ou de minha vida toda ter sido uma grande mentira?
Poseidon não se parecia comigo nem um pouco. Mas eu também não via qualquer semelhança entre minha mãe e eu – tirando os olhos – e meu pai e eu. Meu subconsciente começa a pregar uma peça em mim; passo a analisar cuidadosamente qualquer vestígio de semelhança entre Poseidon e eu, e talvez por um truque da minha mente, encontro diversas. Parecia que tudo agora fazia sentido... A família de Percy tinha características marcantes no olhar. Percy com o esverdeado do oceano, Thalia com o azul como um relâmpago, Poseidon com uma mistura de todos os tons claros... Meus olhos são idênticos aos da minha mãe, de um tom cinza como se fosse um céu nublado nos dias chuvosos. Seria essa a características marcante minha por ser da mesma família?
Eu estava começando a delirar e sabia disso. Quanto mais tempo passasse pensando nisso, eu enlouqueceria.
Me levanto da cadeira e caminho meio cambaleante até a porta do escritório. Meus dedos tocam o metal frio da maçaneta, mas antes de atravessar pela porta de vidro, viro-me para trás, com a respiração entrecortada.
— Eu vou fazer o teste de DNA — falo, com meu coração batendo cada vez mais devagar. Parece que estou tonta demais.
Poseidon me encara de uma forma quase piedosa. Vejo que ele entende porque estou fugindo, e talvez ele tenha percebido diante da minha reação que Percy e eu de fato tivemos alguma coisa. Quer dizer, parecia meio óbvio, não? Ele me levou para jantar com sua família, dançou comigo na Lotus... Qualquer coisa poderia indicar meu laço com ele.
Antes de Poseidon dizer qualquer coisa para confortar-me, eu saio do seu escritório, dando de cara com a secretária que me recepcionou. Não digo nada, apenas forço minhas pernas a obedecerem meu cérebro por mais difícil que pareça. E cada vez mais eu encontrava dificuldade em respirar. Não conseguia controlar meu corpo, meu cérebro, meus órgãos. Tudo estava fora de controle é totalmente bagunçado; não só na minha vida, mas bem como no meu organismo.
Eu precisava achar um banheiro, e sigo o corredor com os passos apressados em busca de um.
Não demora muito para que as lágrimas começassem a aparecer. Elas embaçam minha visão e eu mal consigo enxergar as coisas a minha frente. Ultimamente, uma coisa que eu tenho feito muito é chorar. Seja por raiva ou por tristeza, as lágrimas sempre aparecem sem que eu possa controlá-las, e eu me odeio por isso. Eu só queria poder chorar o quanto eu precisasse, soluçando, gritando, deixando tudo escorrer para fora sem nenhum tipo de barreira.
Sejam pelas lágrimas ou pela falta de atenção, acabo chocando meu corpo com o de outra pessoa. Seu peito era forte e os ombros largos, e assim que nossos tórax se encostam, é como se eu me aconchegasse no seu corpo em um abraço, naturalmente. Percebo que é um corpo masculino, bem mais alto que eu. Assim que faço menção de me afastar por causa do baque surdo do atrito de nossos corpos, as mãos do homem se fecham em meus ombros, afastando-me o suficiente para poder enxergar meu rosto assustado e completamente molhado pelas lágrimas.
Assustada demais por causa do contato repentino, mal consigo acreditar na ironia do destino ao reconhecer um belo par de olhos verdes me encarando com curiosidade e preocupação.
Ironia do destino.
Um lampejo desta palavra passa pelo subconsciente quando eu me lembro da primeira vez que nos falamos.
Percy estava tão convicto em acreditar que eu ter me mudado para Londres era pura obra do destino, que mal percebi que aquilo não era só um de seus charmes. Não, não eram apenas palavras bonitas ditas exatamente na hora certa. Na verdade, agora eu poderia enxergar claramente como tudo fazia sentido: eu ter me mudado para Londres, por algum motivo, alguém está tentando me mostrar a verdade sobre minha família, seja essa pessoa Deus ou não.
Agora eu entendia perfeitamente a situação. Percy estava certo o tempo todo.
— Annabeth? — sua voz soa suave nos meus ouvidos, e um arrepio percorre meu corpo. Em qualquer ocasião, eu teria cedido aos efeitos que ele causava em mim, mas não hoje.
Começo a sentir a repulsa crescer dentro de mim, cinzenta e fúnebre. Pensei em todos os momentos realmente bons que eu e Percy havíamos compartilhado juntos, quando na verdade, todos eles não passavam de uma simples mentira e enganação. E se eu e Percy fossemos realmente irmãos, aquilo era tão errado que eu não conseguiria me perdoar já mais por ter feito isso com ele.
Percebendo que não daria uma resposta tão cedo, seus olhos verdes se estreitam por todo o corredor.
— O que você está fazendo aqui?
Novamente, a voz permanece entalada na minha garganta sem energia potencial nenhuma de ser libertada. Os olhos esverdeados de Percy passeiam pelo meu rosto, com as sobrancelhas unidas e os lábios entreabertos. Ele estava realmente expressando indignação, portanto concluo que não poderia estar pior, com a pior cara de espantada e com lágrimas rolando pelos olhos; fora o fato de não conseguir dizer nada.
Eu estava desesperada, sentia como se meu mundo tivesse caindo.
— Annabeth, tem algo que eu deva me preocupar? O que você está fazendo aqui? Estava falando com meu pai? — muitas perguntas, mas tudo que eu noto é meu nome saindo de sua boca. Usualmente, ele teria me chamado de Annie ou Anns, mas devido a aflição em seu olhar, seus instintos fazem com que ele chame a minha atenção para si. — Annabeth, eu vou perguntar de novo: tem algo com que eu deva me preocupar?
Sua voz sai quase como melodia pelos seus lábios. Suas mãos seguram meus ombros tão fortemente que meu corpo acaba sendo puxado para frente conforme ele fala. Nossos rostos estão perto demais, fora do comum, seus olhos tomando conta dos meus pensamentos, como se fosse o mar de Nassau, pronto para ser explorado por algum pirata literário.
Pensar nisso é quase como um pecado, e por incrível que pareça, dói. Sinto como se o ar fosse arrancado de mim, junto com meu coração.
Balanço a cabeça negativamente.
— Eu preciso ir embora.
Me solto do seu aperto nos ombros e não olho para trás. Dessa vez eu choro ainda mais quando me dou conta que meus passos nos levam a distanciar.
Quando encontro o banheiro, entro na primeira cabine e vomito tudo que ingeri nas últimas horas. Nunca me senti dessa forma, passando mal ao ponto de colocar o dedo na minha garganta para que todo o líquido saia. Eu poderia ter transado com meu irmão. Minha vida inteira era uma mentira. Sentia meu corpo sujo e impuro, repleto de pecados que eu nem mesma acreditava, mas que agora faziam sentido. Bastou apenas imaginar Malcolm no lugar de Percy que eu pude entender a tamanha gravidade da situação.
Sentia o toque de Percy na minha pele. O jeito como seu corpo se movia de encontro ao meu, como suas mãos passeavam por cada parte de pele exposta... Eu estava enlouquecendo e sabia disso. Eu não só conseguia ocupar minha cabeça com esses pensamentos, como também os culpava, assim como meu corpo começa a produzir um tipo de culpa contra mim.
E eu gritei enquanto chorava. Gritei o mais alto que pude por ter quase perdido o único cara que eu realmente amei.
No caminho de volta para casa, tentei secar a lágrimas e evitar que voltasse a chorar dentro do táxi. Não sabia o que fazer quando chegasse em casa, mas então lembrei de todos os avisos da minha mãe para me afastar enquanto eu podia, senão eu iria sofrer. O incrível é que sem ter mencionado muito sobre meu envolvimento com Percy, minha mãe sabia exatamente como deveria agir.
Dizem que cada pai ou mãe tem seu jeito de amar seus filhos, mas de fato, todos o fazem. Sempre achei que minha mãe não me amasse, já que nunca deu tanta importância para mim ou Malcolm, mas agora eu entendo. Ela tem tanto medo do passado que não consegue se agarrar ao presente. Talvez, no fundo, seja esse o seu jeito de me amar: tentando me proteger de quebrar meu coração assim que eu descobrisse o meu possível laço de sangue com Percy.
Seus avisos foram de certa forma sutis. Embora ditos com brutalidade e no meio de tantas brigas, ela não deixou explícito nenhuma vez o grande mistério, apenas dizendo que eu não conseguiria entender. E o pior de tudo, é que ela estava certa. Eu simplesmente não conseguia entender porque esse tipo de coisa estaria acontecendo comigo.
No entanto, eu deveria agradecer por ela ter me dito diversas vezes para manter-me afastada, mesmo que de forma rude. No momento em que pus os pés em casa, fiz algo que não fazia desde a minha infância. Corri até minha mãe, que estava sentada no sofá com um livro nas mãos, e joguei meus braços envolta do seu corpo magro.
Ela demorou para perceber o que estava acontecendo, mas Atena, por incrível que pareça, gentilmente pousou suas mãos nas minhas costas, enquanto eu repetia desesperadamente a palavra "desculpa". Só então, quando ela viu meus olhos cheios de lágrimas, que ela percebeu que eu descobri a verdade, não a história que ela pensava ser verdade. O assassinato do padrasto de Percy não era a grande mentira que ela me escondia, longe disso, era algo muito maior.
E o inevitável acontece: Atena chora no meu ombro.
— Eu que devo pedir desculpas — sua voz está embriagada pelo choro, a única vez que eu vi lágrimas saírem de seu rosto. Me sinto extasiada por sentir aquele conforto em um abraço com uma pessoa que jamais imaginaria sentir, minha própria mãe. — Nós vamos descobrir a verdade, Annie. Vou ligar para Malcolm para que ele pegue o primeiro avião para Londres.
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