Skyfall
32 XXXI
Notas iniciais
— Chegamos em casa! — a voz da minha mãe soa alegre assim que escuto a abertura da porta da sala de entrada, e duas silhuetas passando por sua entrada.
O sofá parecia confortável demais em uma manhã de sábado comum e chuvosa em Londres. Vovó e Thalia estavam preparando um chá logo pela manhã, e eu acabei por adquirir esse costume. Os chás eram um passa-tempo nosso, e sentar nas poltronas da sala e assistir alguma série de televisão enquanto bebíamos já era um hábito.
Minha mãe iria buscar Malcolm no aeroporto. Por mais que a saudade apertasse e trocar mensagens de texto com ele não fosse o suficiente, eu me recusei a levantar cedo para buscá-lo. Permaneci deitada no estufado confortável relendo O Morro dos Ventos Uivantes pela vigésima vez. Eu não era muito fã da leitura, sempre preferi coisas objetivas e odiava Historia, no entanto, um romance quase que proibido escrito naquela época me cativou.
Mas foi assim que vi os ombros largos e musculosos, o cabelo loiro arenoso e aquele sorriso de cafajeste que diz "tenho 20 anos e transo de forma selvagem" do meu irmão, toda a preguiça, cansaço e ansiedade desapareceram.
Ele continuava a mesma pessoa de antes, e nada, nada mesmo havia mudado. Eu me senti bem em olhar suas feições que eu tanto caçoei quando mais nova, e tanto invejei por Malcolm sempre parecer aquele modelo da Calvin Klein. Me senti bem por ver que nenhum desses traços malditos que eu tanto amava ou odiava mudaram. Ele continuava a ser o mesmo Malcolm de sempre, meu irmão mais velho e brincalhão que tinha muito ciúmes de mim.
Um grito desesperado foi soltado pela minha garganta no momento em que o vi colocar os pés dentro de casa. Eu parecia uma adolescente histérica enquanto corria na sua direção gritando, muito parecia com as fãs daquelas boybands assim que encontravam seus ídolos. Joguei meus braços ao redor do seu pescoço e enlacei minhas pernas na sua cintura, literalmente me pendurando no seu corpo enquanto não conseguia parar de gritar. Meu irmão riu, tentando me equilibrar no seu colo e me abraçando de volta.
— Você está muito mais pesada do que eu lembrava. Eu achava que você iria emagrecer de tanta depressão por ter se mudado pra cá.
— Malcolm! Malcolm! Eu não acredito que você está aqui! Eu não acredito que você está aqui!
— Tente se animar sem parecer ridícula — brinca, e eu distribuo socos leves no seu braço.
Saio de cima do colo de Malcolm quando vejo que ele não aguenta mais me segurar. Só agora percebi que ele tentou me equilibrar com apenas uma mão, já que a outra estava segurando sua mala de viagens.
Neste momento, um som é adicionado a nossa conversa. Passos que seguem da cozinha até o cômodo em que estávamos se destaca, e logo eu percebo minha avó e Thalia atravessando a sala de estar e caminhando até nós. O sorriso de vovó cobria quase todo o seu rosto, enquanto Thalia mantinha os olhos azuis bem abertos, subindo e descendo o olhar pelo corpo de Malcolm.
Saio da frente dele quando minha avó abre os braços para recebê-lo.
— Meu Deus, você está um homem!
Enquanto Margareth enchia o meu irmão de beijos e abraços desesperados, – afinal eles não se viam há muito mais tempo do que eu e ele – Thalia me cutuca na altura do meu quadril. Viro minha cabeça para trás para encontrar seus olhos curiosos a procura de informações mais concretas do que "Malcolm é meu irmão".
— Você não me disse o quanto ele era bonito — ela sussurra para mim, sem desgrudar os olhos dele.
— Você tem namorado — reviro os olhos, rindo. Fazia muito tempo que eu não ria, e a visita de Malcolm melhorou gradativamente o meu humor só em alguns segundos.
— Meu namorado é meu primo. Imagina o ciúmes que eu poderia fazer no Nico se eu chegasse com seu irmão no St. George's hoje? — ela solta uma pequena risadinha, dessa vez oscilando o olhar entre eu e Malcolm. — Você poderia chamá-lo para ir com a gente. Vocês dois não parecem o tipo de irmãos que brigam toda hora por qualquer coisa.
E isso era totalmente verdade. Quando éramos crianças, tudo o que sabíamos fazer era brigar por qualquer idiotice. Por isso, meu pai fez com que cada briga que tivéssemos, teríamos que beijar a testa um do outro e dar um abraço. Como isso acontecia com tanta frequência, o que faltava era que eu e Malcolm ficássemos abraçados o dia inteiro para pedir desculpas... Quanto mais velhos ficávamos, gradativamente parávamos de brigar e os abraços passaram a ser espontâneos.
— Ele pode mesmo sair com a gente hoje. Mas não para fazer ciúmes para o Nico.
Afinal, eu tinha uma ideia melhor.
Eu não falava com o Percy desde que o encontrei perambulando nos corredores da empresa do seu pai. Ele não tinha tentado entrar em contato além de me enviar mensagens de vez em quando perguntando se eu estava bem. Eu não as respondia, é claro, mas ele não parava mesmo assim. Na escola, tenho que fugir dele pelo menos umas três vezes no dia para não cair na tentação de novo.
Tudo aquilo estava me levando à loucura e eu me sentia muito mal por não poder dizer a verdade a ele. Sentia muita falta dele todos os dias, e tudo ao meu redor costumava me lembrar ele. As vezes, passava um dia inteiro tentando lembrar das boas memórias com medo de esquecê-las, então tive a ideia de começar a a anota-las. Tinha noites em que eu dormia chorando apenas por pensar na tragédia que havia feito.
Ficar longe dele era impossível. E ele continuava correndo atrás como se nada tivesse acontecido, como se ele e Rachel não tivessem entrado no mesmo carro. As duas mensagens todas as noites e seus sorrisos no corredor estavam atrapalhando o meu foco, que era manter-me longe dele. E eu precisava dar um jeito nisso.
Se Percy não tivesse um motivo para me deixar em paz para que eu possa seguir minha vida sem a culpa de provavelmente ter transado com o meu próprio irmão, eu o faria desistir de mim.
Eu iria poupa-lo da dor que tenho sentido todo esse tempo. Percy pode ser o filho da puta fodido que é, mas eu não desejo o mau para ele. Sei que no fundo ele é alguém bom, que está tentando se reconstruir aos poucos... Mas eu não posso fazer parte da sua vida. Eu preciso seguir a minha e deixar que Percy viva a sua, com quem ele quiser ao seu lado, mas sem que ele saiba da verdade.
O plano era simples. Se eu pudesse usar Malcolm para fingir que estávamos juntos, Percy sofreria bem menos do que quando descobrisse da nossa provável paternidade.
•••
— O que eu tenho que fazer mesmo? — a silhueta de Malcolm aparece no batente da porta do meu quarto enquanto estou penteando meu cabelo.
— Fingir que estamos juntos.
— Annie isso é nojento, pelo amor de Deus.
Thalia abre a porta do banheiro do meu quarto, saindo de lá e atravessando o cômodo até a penteadeira onde estou.
— Já fiz meu xixi — Malcolm arregala os olhos levemente. Grace oscila o olhar até meu irmão mais velho. — Você vai fazer o que essa garota tá mandando, entendeu, bonitão?
— Pra que isso?
Suspiro, largando o pente em cima do móvel.
— Para que Percy esqueça de mim de uma vez por todas.
Malcolm troca um olhar confuso com Thalia, mas ela dá de ombros.
— Não olha pra mim assim, eu não sei o que deu nela. Desde que eles fugiram no meu aniversário os dois tem agido estranho.
— Ela está apaixonada?
— Não, Malcolm, eu não estou apaixonada — minto.
— Ela está mais para desapaixonada, enquanto ele é o apaixonado — Thalia entorta os lábios, trocando o olhar entra nós. — Ela ainda não me contou o que aconteceu, mas, Annie, sei que isso tem algo a ver com Rachel e eu já conversei com Percy sobre. Ele me garantiu que não existe nada entre eles.
— Isso não tem nada a ver com Rachel — caminho até minha cama, puxando minha jaqueta de couro. — Isso tem a ver comigo, e eu preciso fazer isso por mim, por meus motivos pessoais.
— Eu não posso deixar você ficar magoando o Percy desse jeito.
— Sim, Thalia, você pode e vai. Um dia vocês vão entender o que eu estou fazendo e vão me agradecer por isso.
— Vocês, nada! — Malcolm levanta as mãos como se tivesse se rendendo. — Eu não tenho nada a ver com isso, mas não gosto de te ver saindo com babacas.
— Percy não é um babaca — Thalia revira os olhos. — Ele é uma pessoa boa... Annie, ele me pediu desculpas depois do incidente no meu aniversário. Percy se importa com as coisas, e com você também.
— Não posso fazer isso, Thals — pego minha bolsa e meneio com a cabeça a porta do meu quarto.
— Espere! — Thalia apressa o passo até mim, segurando meus dois ombros e mantendo o contato visual. Estávamos tão perto que eu sentia sua respiração se misturar com a minha. — Eu deixo você fazer o que você quiser se me garantir que tem certeza de que é isso que você quer.
Eu poderia correr o risco de Thalia contar meus planos para Percy se não demonstrasse um sentimento decisivo. Eu poderia apenas ter concordado com a cabeça e dizer um "sim" naturalmente. No entanto, a dúvida permanece nos pensamentos. Era isso que eu realmente queria? Eu queria me ver longe de Percy todo esse tempo, tirá-lo da minha vida sem um motivo aparente? Apenas descarta-lo como se ele fosse qualquer um?
Não, é claro que eu não queria. Eu sabia agora; sabia que amava Percy também, sendo verdade ou mentira suas palavras. Sabia que eu nunca havia sentido sentimentos por alguém tão fortes como sinto por Percy. E por mais que machucasse, eu sabia que jamais iria me sentir daquela forma de novo com ninguém.
Mas eu estava cansada de todas as brigas e das noites em claro, me culpando e martirizando pelas coisas que fiz. Perguntando-me se em algum momento eu havia tomado a decisão certa, ou se apenas estava enganada e estava me prejudicando. Só que sabia que não importava nada disso, na verdade. O passado já está morto e enterrado, e não ganhamos nada viver lá. O presente me assombra por conta das decisões que eu tomei, mas se caso alguma delas tenha sido a decisão errada, a partir de agora, eu precisava fazer o certo.
E o certo era deixar Percy ir embora. Tanto pela possibilidade de sermos irmãos quanto prendê-lo por algo que eu não sei se sou capaz de sentir ou demonstrar. Eu não sei se sou capaz de amar alguém tanto quanto Percy diz que me ama. Ele pode me considerar uma covarde por isso, mas em alguns aspectos ele tem razão. Eu morro de medo de ser deixada, de ficar sozinha... mas eu sei que nada é para sempre, e eu preciso fugir disto.
Ergo minha cabeça para olhar profundamente dentro do azul relâmpago da íris de Thalia. Pela intensidade do meu olhar ela parece entender que eu estou mesmo decidida. Não preciso dizer uma palavra para comprovar isso, apenas viro a cabeça para Malcolm.
— Tire essa camisa social, você está horrível. Vai parecer um empresário não meu suposto namorado.
Ele revira os olhos, saindo do quarto e indo em direção ao quarto de hóspedes em que Thalia estava hospedada, mas que agora dorme comigo por causa da visita do meu irmão.
Faço um gesto com a cabeça para que Thalia me siga assim que saio do quarto.
— A gente vai esperar no carro! — Thalia grita para Malcolm. Nossos saltos se chocam contra a madeira da escada, provocando um barulho e anunciando nossa saída. O pescoço de Thalia se curva para me analisar melhor. — Você tem certeza de que vai fazer isso?
— Eu já disse que sim.
— Annie, Percy é meu primo... O que aconteceu para vocês agirem assim?
— Um dia você vai saber, Thals — solto o ar em uma lufada. — Vocês vão me agradecer por isso, eu já disse.
— Quando?
— Em breve.
Quando estamos no último degrau da escada, Thalia passa na minha frente e se vira para mim. Diferente da última vez, ela não segura meus ombros, mas é o seu olhar que me mantém presa ali, quase com que fosse uma corrente que me obrigada a prestar atenção.
— Do que você tem tanto medo? — sussurra. — Porque você não consegue se jogar de cabeça, porque não admite o que sente? Você está inventando uma história de que ele está te perdendo, mas é você, Annabeth, que está perdendo ele. É você que está perdendo alguém como Percy.
Engulo em seco durante sua fala.
Penso em um milhão de coisas que poderia dizer. Diversas patadas ou uma quantidade de palavrões prontos para não concordar de forma alguma com ela, apenas a questiná- lá e bater de frente com seu caráter duvidoso... Mas no momento, mantenho-me tão entretida nos meus próprios pensamentos, tentando formular uma resposta boa o suficiente e a sua altura, que esqueço de emitir qualquer simples som que sai da minha boca.
— Pronto, já coloquei a jaqueta que você mandou. Podemos ir agora? — uma terceira voz é adicionada a nossa conversa, e eu me viro para trás para observar Malcolm descendo da escada tranquilamente, como se não tivesse interrompido nossa conversa e nem fizesse ideia disso.
— Sim, podemos, babaca — o aperto das mãos de Thalia se solta do meu ombro e ela me dá as costas, tornando seu rumo até a porta de entrada. — Não coloque a mão na minha perna e não banque o otário. Sei que você não consegue fazer um bom sotaque britânico então diz que está fazendo faculdade aqui, apenas.
— Que nojo, eu não iria meter a mão na sua perna de qualquer jeito — sinto seus passos me acompanharem enquanto terminamos de descer os degraus. Mais à frente posso perceber a cara emburrada de Thalia. — Você já falou de mim pra esses seus amigos e seu namorado?
Estava tão compenetrada no meu plano que não deixei a piada de Malcolm me atingir. Nem me limitei a revirar os olhos, apenas alcancei as chaves do carro de Thalia e as joguei para meu irmão atrás de mim.
— Acho que em algum ponto da nossa conversa Percy, mas talvez ele nem lembre seu nome.
— Perseu é escorpiano, ou seja, tem boa memória — Thalia chia, abrindo a porta e deixando que passássemos. Sinto o vento gélido se chocar com as maçãs do meu rosto. O inverno era uma merda, logo menos começaria a nevar. — E ele está apaixonado por você, vai lembrar de qualquer merda que sai da sua boca.
— Me poupe — reviro os olhos, sem querer parecer rude, mas sei que nada abalava Thalia nesse nível. Malcolm abre o carro com as chaves e eu entro no banco do passageiro. Assim que estamos todos no carro, volto ao meu diálogo. — Neste caso seu nome vai ser... Flint.
— Flint?! — Thalia e Malcolm reclamam ao mesmo tempo.
— É.
— Isso é uma merda de nome.
— Isso é nome de mulher — meu irmão indaga, dando partida no carro. — Alguém me ensine o caminho desse pub de adolescentes, por favor.
— Não me venha com machismos — alerto. — E não é um pub de adolescentes. Thalia, Nico e Percy são maiores de idade.
— Leo também — acrescenta Grace.
— Porra. Quê?
— Eu sei que não parece.
Arregalo os olhos.
— Eu não consigo acreditar que eu sou a mais nova de vocês.
— Nossa, Annie, que bosta — Malcolm solta uma risada. — Você é um criancinha mesmo.
— Cala boca e dirige, Flint.
— Eu não vou usar esse nome! — Thalia ri no banco de trás. Pelo menos a carranca havia sumido.
— Você vai fazer o que eu mandar.
— Vou contar tudo pra esse tal de Percy sobre seu plano.
— Flint, dirige.
Malcolm não disse nada depois disso. Talvez porque sabia que não valia a pena discutir, e talvez ele daria um jeito de contornar a situação mais tarde. Thalia estava com a cabeça repousada na janela de vidro do banco de trás, muito dispersa para iniciar alguma conversa.
Enquanto isso, – e com os minutos passando – a ansiedade tomava conta do meu peito. Não sabia como agir e seria a primeira vez que eu não poderia ignorar Percy de jeito nenhum. Como ele se comportaria ao ver que eu estava "acompanhada"? Será que ele ao menos se importaria? Será que ele ficaria puto ao ponto de querer bater em Malcolm ali mesmo?
Caso a segunda opção se tornasse realidade, eu provavelmente teria um bom motivo para nunca mais falar com ele. Não que eu queira colocar o rosto bonito de Malcolm em jogo, e de forma alguma o desejava o mal, mas assim que Percy fechasse os punhos eu saberia a sua verdadeira mentalidade. Ele era um ciumento incontestável, e quando estávamos no pub com a mãe dele e Paul ele agrediu um homem do nada. Percy disse que teve os motivos, que o cara mostrou o dedo do meio para ele, mas... Malcolm é meu irmão, é mesmo que ele não saiba disso, tem pelo menos uma semana que não nos falamos ou saíssemos.
— Sabe o que eu estava pensando? — Malcolm disse, virando os olhos para mim, mas assim que percebeu que eu estava com um cigarro aceso preso nos lábios, entortou o olhar em uma carranca.
— O que, senhor certinho? — respondo, provocando-o.
— Flint parece nome de pirata.
— Eu tirei esse nome de uma série de piratas.
Malcolm ri.
— Não, você não entendeu. Lembra daquele desenho de piratas que passava no... Cartoon Network? — a sua afirmação soou mais como uma pergunta, unindo as sobrancelhas em dúvida.
— Ahn... acho que eu não lembro.
— Você adorava esse desenho, Anns — diz, como se fosse óbvio que eu soubesse o nome. — De um pirata loirinho com cara de bebê.
— Flapjack — Thalia ressurge das cinzas diretamente do banco de trás.
— Sim! — Malcolm bate com as duas mãos no volante. — Flint me lembra o Flapjack.
— Por causa da palavra com F...?
— Não, Annie, por que Flapjack é um loirinho com cara de bebê. Eu vou ficar com essa impressão se eu disser que meu nome é Flint.
— Ok, pirata, estacione aqui. O pub é ali na frente.
•••
O balcão não estava sendo ocupado pelo nosso grupo dessa vez. Eles resolveram se sentar em uma mesa um pouco distante do palco do St. George's. Malcolm agarrou minha mão entrelaçando nossos dedos. Aquilo é totalmente desconfortável, principalmente com meu próprio irmão.
— Olá, vadias — Thalia está na nossa frente, acenando em conjunto para todos que estavam sentados na mesa. — Estou com preguiça de dar oi para todo mundo, mas enfim, tem gente nova no grupo. Esse aqui é o Flint.
Thalita se afasta da frente da mesa nos dando espaço para observar todos que estavam sentados. No segundo seguinte, todos os pares de olhos são direcionados a mim e meu irmão, especialmente para as nossas mãos entrelaçadas. Posso ver a confusão no olhar de todos. Leo não desgruda o olhar dali, Nico que sempre tem uma cara de poucos amigos emburrada também está surpreso.
Mas o pior de tudo é Percy. Suas costas estão encostadas na cadeira de forma relaxada assim que me vê, e ele tem um completamento bem diferente do planejado. Seus olhos verdes me encaram como se quisessem uma resposta, mas eu desvio o olhar como se não estivesse ligando. Mantenho ele preso de soslaio, apenas para perceber Percy passando o braço pelo ombro da ruiva que está ao seu lado e eu até então não tinha percebido.
É Rachel, mas eu não imaginava que ela estaria aqui hoje, e do mesmo jeito não fico feliz com isso. Não fico feliz porque Percy está a abraçando e ela lhe estendeu um sorriso cúmplice como se estivessem juntos. E eles estavam? Ou ele só fez aquilo porque se sentiu incomodado com Malcolm?
Quando volto a olhar pra ele, o moreno me estende um pequeno sorriso como se dissesse "direitos iguais". Como se tivéssemos alguma coisa, certo?
Mas nós não tínhamos nada.
Thalia me olha preocupada quando percebe o que está acontecendo. Não devolvo o olhar, pois sei que seria capaz de transparecer algum sentimento através daquilo. Preciso me manter calma e apertar ainda mais forte a mão do meu irmão, que a essas horas, provavelmente já entendeu o que estava acontecendo.
•••
O gosto da cerveja com gengibre já estava impregnado nos meus lábios. Por mais que todos os meus amigos estivessem na mesa, sentados, eu me afastei deles e no minuto seguinte me vi debruçada no balcão.
Malcolm se enturmou rapidamente com meus amigos, no entanto sempre me estendia uma careta ou duas por conta das ideias diferentes. Talvez os achasse um pouco infantis, mas meu irmão e Thalia se davam bem de um jeito questionável desde as últimas horas em que ele aterrissou em Londres. Eu os vi conversando o tempo todo desde que chegaram no St. George's.
Assim que estou dando meu último gole na cerveja, sinto um toque familiar na minha cintura. Duas mãos seguram meu quadril, apertando levemente, e isso faz com que eu pule de susto, quase engasgando com o álcool em minha boca.
Viro-me para trás assustada e totalmente descontrolada de raiva quando encontro aqueles dois olhos verdes. Mesmo em qualquer momento eles são capazes de me tranquilizar e tirar o meu foco da realidade.
— Você quase me matou de susto — coloco a mão no meu próprio peito quando normalizo minha respiração. Percy abre o sorriso mais sacana que eu já vi em seu rosto e apoia o cotovelo no balcão, ficando de frente pra mim.
— É como dizem, o perigo nunca vem pela frente, ele sempre te pega por trás.
— É, você se acha muito perigoso, não é? — ironizo, levantando um dedo para o bartender no sinal de pedir mais um copo de cerveja.
— Me diga você — Percy levanta a sobrancelha, desafiador. — Arrumou um modelo menos perigoso de mim e americano? Era tudo o que você estava precisando.
Engulo em seco o fulminando com o olhar. Naquele momento, não consigo mais enxergar o Percy que eu conheci um dia. Lembro-me de estar deitada com ele na cama enquanto estávamos em Bristol e olhá-lo no fundo dos olhos; eu conseguia enxergar o verdadeiro Percy por trás daquele olhar, nada me afastava disso.
Agora eu podia distinguir a perda do impossível e realidade. Eu via claramente o olha ser misturado com algo comum que eu provavelmente veria a minha vida inteira. Distinguia exatamente a realidade do mundo paralelo em que Percy achava que se encontrava. Ele achava que estava tomando as rédeas da situação e que iria me controlar como faria com qualquer outra pessoa; que no final de tudo eu cederia igual as demais.
— O que te faz pensar que eu quero um modelo melhor de você? Estou fugindo disso.
— Mas está aqui agora conversando comigo.
Como ele é convencido.
— Porque você está me irritando, além de ser inconveniente.
— Prefere voltar para o seu novo namorado?
— Prefiro — respondo firme, vendo o seu olhar vacilar por um instante. Aquela pose não funcionava mais comigo, eu podia ver as falhas na sua personalidade. — Nunca me senti mais... segura.
— Mentira — ele sorri, sarcástico como o usual do seu novo "eu". — Você está agindo como uma pessoa nova para ver se esquece de mim.
— Eu estou agindo como uma pessoa nova? — ironizo. — Olhe pra você! Eu nem sei mais dizer quem é você depois de hoje — aponto para o seu peito, descendo e subindo o olhar dos pés à cabeça.
— Porque você me conhece tanto, não é, Annabeth? Você sempre acha que conhece todo mundo, que pode controlar todo mundo — sua voz está baixa, mas também o tom sério usado e o modo com que a raiva toma a expressão de seu rosto me assusta. —, mas adivinha só? Não é assim. Você conhecia uma versão melhorada de mim mesmo.
— Ah, agora você é o badboy destruidor de corações? Que pena da Rachel — cruzo os braços, dando de ombros. — Eu não dou a mínima.
— Você é muito medrosa, Deus.
— De me envolver com você? — viro meu rosto na sua direção. — Ah, isso eu sou mesmo. Melhor sozinha do que com alguém como você.
— Melhor acompanhada — corrige.
— Graças a Deus.
— Você diz tudo isso sobre "alguém como eu" — imita aspas com os dedos, tentando caracterizar minha voz. —, mas eu pelo menos tive coragem de dizer que te amo.
— Bom para você — o bartender chega com minha cerveja, colocando-a em um baque surdo no balcão. Eu dou um longo gole antes de continuar. — Eu não costumo mentir.
— Você está com aquele cara para me esquecer, mas sabe que não vai conseguir.
— Eu estou com ele porque gosto dele. Você está com Rachel para tentar me esquecer.
— E se eu gostar de Rachel também?
Paro por um minuto ao ouvir a frase que eu estive evitando escutar até nos meus pensamentos. Meus olhos encontram os de Percy e eu sei que vacilei em esconder minhas emoções. Ele percebeu o quão preocupada estava, e eu achei que ele fosse rir da minha cara com o seu novo Percy. No entanto, é só agora que me dou conta do seu maxilar trincado por conta do rumo que a conversa estava tomando. Eu estava o humilhando frente a frente e Percy estava jogando sujo comigo; ele não escondia mais o ódio acumulado nas suas íris verdes.
É justo.
— Você acabou de dizer que me ama.
Ao contrário do que eu esperava, Percy solta uma pequena risada.
— Se eu esqueci Rachel, quem disse que eu não posso esquecer você?
— É, com certeza. Ela sempre foi o grande amor da sua vida.
— E o seu namorado... Flint, é o da sua?
— Muito cedo para decidir isso.
Tento ignorar o fato de Percy deliberadamente não ter negado as coisas que falo sobre Rachel.
— Você e eu sabemos que não.
— Percy, entenda uma coisa: você não faz mais parte da minha vida — olho no fundo de seus olhos, com meu copo de cerveja na mão enquanto sinto o álcool afogar no meu corpo. — Não pense que eu vou te contar dos meus romances por aí.
— Eu quero saber deles? — sarcástico.
— Poderia ser mais fácil pra você me esquecer — teatralmente, me finjo de surpresa quando prossigo: — Opa, me desculpe, você pode usar Rachel nesse quesito.
— Você sente tanto ciúmes dela. Eu gosto.
— Se você está feliz, está ótimo para mim — levanto o copo como se fosse brindar.
— É, eu devo estar agora que ela voltou.
Viro meu rosto para ele. Desta vez não consigo mais esconder a minha pose durona como se não sentisse nada por ninguém.
— É isso então?
— Isso o quê?
— Ela é o amor da sua vida? Todas aquelas merdas que você disse pra mim na rua e no meu quarto eram tudo fachada? Afinal o que você quer, em? Eu não entendo porque tantas mentiras.
— Porque você se preocupa tanto?! Você tem o Flint! — seu tom de voz aumenta. Parecíamos duas crianças trocando farpas.
— Eu não me preocupo — desvio o olhar.
— Se preocupa, sim! — seu dedo aponta para ambos meus olhos. — Eu conheço esse olhar... ah, é preocupação!
— E se eu me importasse? — desafio.
— Eu diria que está mentindo, já que você está toda apaixonada pelo seu americano.
— O nome dele é Malcolm e ele é meu irmão!
Meu berro foi ensurdecedor para aqueles que estavam perto de nós. É como se naquele momento em específico todas as pessoas ao meu redor tivessem se calado e a atenção se fechasse somente em mim. Vários pares de olhos estão me encarando com confusão, inclusive certos olhos verdes.
É só então que percebo o que fiz. Quase tapo minha boca involuntariamente, mas já é tarde demais. A cara de confusão de Percy é impagável, com as sobrancelhas unidas e os lábios entreabertos... não tinha mais volta, eu teria que falar tudo depois de ter soltado a maior bomba. Meu plano foi por água abaixo.
— O quê?!
— Sim. É exatamente isso que você está pensando, antes que pergunte... — viro um longo gole da minha cerveja enquanto Percy tenta colocar a cabeça no lugar.
— Espera... Você está usando seu irmão para me fazer ciúmes? — seu olhar brilha quando diz aquela palavra.
— Não. Estou usando meu irmão para fazer com que você se afaste de mim de uma vez por todas, mas eu falhei miseravelmente com meu plano.
— Para que diabos você me queria longe?!
— Não podemos ficar juntos. Não é certo.
— Annie, eu e você... nós daríamos muito certo.
— Não é disso que eu quero dizer — engulo em seco.
— Não me venha com mais surpresas, não sei se sou capaz de aguen–
— Somos irmãos, Percy...
E novamente eu vejo a confusão se estampar no seu rosto. Desta vez, de uma forma bem parecida de quando eu saí do escritório de Poseidon assim que recebi a notícia – totalmente ludibriada pelo fato, perdida no mundo.
E foi difícil falar aquilo. Dói. Pronunciar aquela frase nem mesmo parecia real, parecia errado, sujo, impossível... Percy e eu tínhamos uma ligação muito forte para que acabasse desse jeito, mas é importante cortar o mal pela raiz antes que a planta cresça.
— Você tem que estar brincando.
— Lembra que eu te disse que tinha problemas com minha mãe? Bem, os problemas eram você.
— Você sabia o tempo todo?!
— Não! Ela apenas me proibiu de te ver e essas coisas, mas eu sempre dava um jeito. Um dia estava em seu escritório e achei uma foto dela com seu pai, e foi então que eu o procurei e ele me contou sobre tudo.
— Tudo...?
— Se nós dois não formos irmãos, você e Malcolm são. Ou nós dois somos, ou nenhum de nós.
— Você tem que estar brincando — suas mãos passam pelos seus cabelos, começando a ficar inquieto.
Se eu o conhecia como achava que conhecia, sei que ele está se preparando para quebrar alguma coisa.
— Como você acha que eu me senti? Aquele dia em que eu estava na empresa do seu pai foi o dia em que descobri!
— Foi por isso que estava tão assustada?!
— Foi, porra! Pior foi esbarrar com você depois de saber de uma noticia dessas!
— Porra, Annie — Percy apoia a cabeça nas palmas das mãos enquanto seu braço estava apoiado no balcão. Ele levanta a cabeça com o olhar alarmante. — A gente transou!
— Você acha que eu não sei?
— Somos piores do que Nico e Thalia — seu rosto está cheio de raiva enquanto ele passa a andar de um lado para o outro.
— Não me lembre disso. Estou com essa merda na cabeça a semana toda.
— Você nunca vai entender, sou apaixonado por você.
— Precisamos parar com isso antes que seja tarde demais, Percy.
— Eu não acredito que isso está acontecendo — Percy fecha os olhos, e depois volta a abri-los. — Você tem certeza disso?
— Malcolm está em Londres para isso. Vou fazer um exame de DNA.
— Como meu pai e sua mãe se conhecem?! Ah, meu Deus...
— Eles tiveram um caso na adolescência e... ah, Percy, é complicado. Você não vê como eu também estou em choque?
— Annie, a gente transou várias vezes e tudo mais...
— Eu sei!
— Sem camisinha e... nossa isso é muito errado!
— Percy! Para de agir desse jeito! Você está ficando maluco! — tento tocar seu braço mas o inevitável acontece.
Percy imita o meu gesto da última vez que estávamos no St. George's. Ele agarra a minha cerveja e joga o copo no chão o mais forte que consegue, liberando um urro no seu movimento. Segundos depois de atrair toda a atenção do lugar para nós dois, Percy permanece com os olhos fixos no vidro espatifado no chão, como se fosse uma obra de arte.
Quando o verde da sua íris se encontra com o meu, tudo que posso fazer é deixar minhas pálpebras pesarem em uma posição triste e de desistência. Ele sabia exatamente como eu estava me sentindo agora, omitindo minha parte sobre os sentimentos que nutria.
Fico um tempo olhando para ele, tentando compartilhar as emoções e imaginando laços fraternais entre nós. Imaginando como seria um Natal em família, nossos aniversários... Como seria se tivéssemos crescido juntos?
Percy não disse nada desde aquele momento até o fim da noite. Eu não escutei a sua voz durante um bom tempo. Pude ver sua expressão mudar, para sempre.
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