Skyfall
29 XXVIII
Notas iniciais
Na vida você pode ganhar ou perder.
O jogo de xadrez nunca pareceu mais interessante naquele momento. Eu estava dando o melhor de mim para conseguir fazer cada movimento com precisão e estratégia. Meus olhos estavam semicerrados, encarando o tabuleiro quadriculado com tanta expectativa que meu peito poderia explodir de emoção.
Movo minha rainha próxima ao rei do adversário, desenhando um sorriso vencedor na minha boca. Meus olhos cinzentos se voltam para cima, encarando as enormes orbes esverdeadas de Percy, que tinha um sorriso duplamente pior do que o meu.
— Acho que eu vou ganhar — me gabei, balançando meus ombros propositalmente.
Percy ri, jogando a cabeça para trás. Com uma de suas mãos, ele volta uma peça do jogo para perto do meu rei. Meu sorriso morre na mesma hora que percebo o que está acontecendo.
— Xeque-mate — ele diz por mim, lendo meus pensamentos.
Olho para o tabuleiro tentando decifrar o que havia acontecido. Eu estava tão convicta do meu jogo, tinha todos os movimentos sincronizados e reproduzidos de uma forma perfeita, então como ele conseguiu simplesmente me enganar, fazendo com que eu achasse que estava ganhando quando parecia que ele previa meus movimentos duas rodadas antes de serem feitos?
Quando olho para cima, sinto meu rosto esquentar em uma velocidade avassaladora. Percy não estava mais sozinho. Uma cabeleira ruiva havia se aproximado drasticamente dele, sentando-se no seu colo e me dirigindo aquele seu sorriso cativante, que poderia fazer qualquer um se apaixonar por ela.
— Você perdeu — Rachel sorri, sendo acompanhada por Percy, que leva os lábios ao seu pescoço para beijá-lo, sem desgrudar os olhos esverdeados de mim.
Acordo com um grito, literalmente.
Minha respiração esta pesada e ofegante, e só paro de gritar quando sei que estou acordada. Eu mal havia dormido de noite, e assim que consegui, um pesadelo toma conta dos meus sonhos, transformando tudo que construí em ruínas.
Eu deveria esquecer. Nada do que ele disse foi real. Nada era real. Nem mesmo a porra do sonho era real.
— Que merda de grito foi esse? — uma voz é adicionada no silêncio do meu quarto.
Reviro os olhos para todos os lados tentando encontrar alguém, apenas para me certificar de que não era mais outro pesadelo e eu não estava tendo alucinações. Até que então, na beirada da cama, sentada despojadamente, estava Thalia, com uma mala gigante em mãos e um morcego de pelúcia no colo.
— Thals? — pergunto, confusa. Eu só podia estar sonhando de novo.
— Vou repetir: que merda de grito foi esse? — ela diz, ajeitando seus cabelos negros para um de seus ombros.
Sua expressão estava diferente. Não sabia identificar o que estava de tão estranho no seu rosto, mas algo havia mudado. Seus olhos azuis estavam mais apagados, e mesmo que ela continuasse brincalhona com as palavras, pude sentir que ela estava forçando o tom.
— Tive um pesadelo — respondi, engolindo em seco.
— Eu também sonho com você todos os dias, mas não saio por aí gritando.
Solto uma risada curta. Mesmo em um dia como hoje, Thalia sempre conseguiria me fazer rir.
— O grito foi bem necessário — engulo em seco, lembrando do que havia sonhado. Meus olhos focalizam no rosto esquisito de Thalia. — Você parece péssima. Está doente?
— Não. Só estou sem maquiagem — responde, dando de ombros, e então eu finalmente percebo isso.
— O que veio fazer aqui?
— Fui expulsa de casa. Sua avó e sua mãe me deixaram entrar.
— Como é? — pergunto, indignada. — O que aconteceu?
— Meu pai descobriu tudo. O filho da puta do meu irmão contou nessa madrugada — dá de ombros. — Provavelmente tio Hades também sabe, mas ainda não consegui falar com Nico. Eles fizeram aquele show todo sobre ser sangue do meu sangue e então minha madrasta sugeriu que eu fosse embora. Como meu pai escuta tudo o que ela vadia diz, eu fui.
— Sinto muito, Thals — apoio uma mão em seu ombro, mas ela permanece tranquila.
— Eu vim aqui pedir se não posso passar uns dias até Nico e eu arranjarmos um lugar para morarmos... — esclarece, e eu vejo sua voz um pouco envergonhada.
Minha mãe surtaria.
— Claro que pode — respondo. — Como você pretende arranjar esse lugar?
— Nico pode trabalhar como hacker de internet, essas coisas e tal, e eu posso ser uma stripper. Aliás, eu posso ser uma stripper e Nico um traficante. É, assim combina mais.
Solto uma gargalhada baixa, e Thalia me acompanha.
— Parece lucrativo.
— Estou brincando — Grace gesticula com as mãos. — Vou arranjar um emprego e ele também. Temos algumas opções, e elas são válidas.
— Espero que tudo dê certo pra você. Sinto muito.
— Não tem problema — deu de ombros, em um gesto casual. — Muito obrigada por me deixar ficar aqui. Prometo que não vou causar e que vai ser por pouco tempo.
Sorri, e engatei uma conversa diferente com Thalia. Por sorte, ela não falou do escândalo que causei no pub, mas eu também não estava muito afim de falar sobre isso. Para falar a verdade, conversei com Thalia apenas por educação. Minha cabeça continua perdida na noite passada, e mesmo que eu precisasse desabafar isso com alguém, decidi manter o silêncio por um tempo. Thalia estava com problemas demais.
Acho que minha mãe não se tocou que seu sobrenome era Grace, pois algumas horas depois bateu na porta dizendo que precisava ir ao mercado, e nos chamou. Eu recusei a oferta porque estava chateada demais para fazer qualquer coisa. Thalia, no entanto, pareceu feliz em ajudar e disse que iria até comprar algumas coisas. Não foi tão difícil convencer minha mãe a deixar Thalia passar uns dias. Ela estava foda-se para tudo, e minha avó já havia construído uma amizade duradoura com Grace.
Vou para o chuveiro com o pensamento de que minha mãe havia melhorado o humor razoavelmente depois de perceber que eu havia descoberto sobre o passado de Percy. Talvez ela estivesse mais tranquila agora que eu me afastaria dele. Ele tinha os seus motivos, mas eu também tinha os meus, e nesse momento, precisava tirá-lo da minha vida.
É claro que tudo ficava estupidamente difícil quando ele havia dito as três palavras que toda garota quer ouvir. Eu ainda pensava nelas e no modo como soaram pelos seus lábios. Imaginei sua voz dizendo outras coisas que eu gostaria de ouvir. Imaginei sua voz me elogiando toda vez que estivesse chateada. Imaginei sua voz me tranquilizando nos momentos de estresse... mas nada disso aconteceria, porque eu precisava me manter longe dele é dessas ideias absurdas.
Enquanto passo a esponja pelo meu corpo, tento me lembrar do toque de Percy em cada pedaço de pele exposta. Eu não poderia negar que sentiria falta disso mais do que qualquer outra coisa... talvez sua companhia. Eu gostava muito de conversar com ele. Falávamos sobre política e sobre a divergência dos nossos pensamentos. Percy tentava me convencer de que a esquerda era o melhor caminho, mas eu dizia que ela não funcionava na prática. Falávamos sobre o início do parlamento e o fim do absolutismo na Inglaterra, e ele tentava me ensinar sobre História e Sociologia, enquanto eu estava com a cabeça muito exatas em números.
Para que diabos estava preferindo a companhia dele do que sexo? Mesmo que eu adorasse quando ele dissesse "vou beber apenas mais uma cerveja, mas prometo não falar de política", e acabava por fazer justamente o contrário, eu deveria adorar o jeito que nossas cinturas se movimentavam em sincronia quando estamos na cama.
E, de fato, eu só não adorava como amava.
Balanço a cabeça. Não poderia pensar nessas coisas e estava decidida de que não iria ser influenciada por ele. Eu não o amava. Amar é uma palavra muito forte, e o que temos além de sexo são conversas que ninguém mais pode entender; então, de fato, eu não sentia nada por Percy que não fosse físico. Não é?
Não é?
Saio do chuveiro e vou me trocar. Estou colocando uma blusa larga o suficiente para cobrir parcialmente minhas coxas quando percebo uma movimentação nos arbustos através da janela. Esgueiro os olhos até ver uma pessoa vestida com jaqueta de couro caminhar até a porta de entrar, e em questão de segundos, a campainha toca.
Estaco onde estou. Jaqueta de couro. Sabia que aquele era Percy. De alguma forma estranha, eu conseguia sentir sua presença. Fico parada onde estou enquanto escuto a campainha tocar tantas vezes. Eu não iria atender.
Após alguns minutos, Percy parece desistir. Fico sentada em minha cama, assimilando os fatos. Mesmo depois de ter dado um puta fora nele, ele estava aqui. Será que ele estaria procurando Thalia? A esse ponto, toda a família deles já deveria estar sabendo da grande fofoca. Eu nem sabia como ele havia reagido após descobrir sobre os primos. Não me lembro de terem visto conversarem durante a noite passada.
Sou interrompida dos meus pensamentos quando um corpo pende na janela, caindo no chão do meu quarto logo em seguida.
— Percy! — berro, me levantando da cama ao mesmo tempo que ele se levanta do chão. Agora que minha ficha cai: Percy entrou na minha casa pela janela. — O que você está fazendo aqui?! Está brincando de alguma coisa?
Percy ajeita sua fiel jaqueta de couro, com a respiração ofegante. Assim que ele está de pé, ele diz:
— A invasão pode até ser um pouco demais, mas devo ressaltar que eu toquei a campainha e você não atendeu — ele para por um tempo, respira, e depois sua feição se transforma em uma expressão quase incrédula. —, o que é meio rude, considerando que você está em casa!
— Não passou pela sua cabeça que eu não quero falar com você? — cruzo os braços na frente do corpo, usando meu tom mais grosso o possível apenas para evitar aquele turbilhão de sentimentos que estavam no meu peito.
— Qual é, Anns, nós precisamos conversar!
— Não me chame de Anns! — ralho, tentando adquirir uma pose mais confiante. — Você invadiu minha casa e sabe que não quero falar com você. Estou feliz que tenha reencontrado o amor da sua vida. Fala sério, Percy, qual é o seu problema?!
— Você é meu problema! — ele berra, e eu encolho meus ombros, não conseguindo sustentar aquela postura forte que estava antes. Ficamos um tempo nos encarando. Eu, porque estava assustada demais para dizer alguma coisa, e ele, porque tentava normalizar a sua expressão. — Não sou um Michael Cera da vida. Você não pode me tratar como um nada nos últimos dias e não esperar que eu me apaixone por você.
Tento puxar ar o suficiente para meus pulmões. Toda aquela história era demais para mim, eu nunca havia escutado aquelas coisas antes. Então era essa a sensação? A sensação de sentir um arrepio tão forte passar pelo meu corpo que eu mal conseguia me manter de pé? A sensação do coração acelerar ridiculamente que você mal consegue tentar disfarçar? Eu precisava fugir dessas sensações, precisava dar um fim nisso.
— Não é justo, Annie — ele completa, quase em um sussurro.
— Quem disse para você que eu estava apaixonada também?
— Não... — ele ri, sarcástico, levando a mão aos cabelos. — Não faça isso, certo? — seu dedo indicador é esticado lá minha frente, e seus olhos passeiam pelo meu corpo rapidamente. — Não volte aquela merda de versão garota malvada da última noite, ok?
— Percy... — protesto, mas ele me corta.
— Eu odiei aquela garota. Eu quero você... Eu te conheço, Annie, eu sei que você está com medo — sua voz soa convicta, como se ele tivesse toda a certeza do que estava falando. Mas no fundo, sei que estou acreditando nas suas palavras. Talvez ele possa ter razão. — Você morre de medo de ficar sozinha. Mas adivinha só: eu não sou sua mãe. Eu não vou te abandonar ou fazer com que você se afaste de quem ama.
Meus olhos se voltam para ele. Começo a sentir a água que fica presente naquela região. Meu coração se acelera ainda mais – se fosse possível – quando percebo que faz sentido. Talvez eu só não conseguisse demonstrar o que eu sentia porque eu nunca tive isso. Talvez fosse o medo de tudo acabar igual acabou com minha mãe.
— Não é assim tão fácil — engulo em seco, desviando o olhar.
— Eu não consigo pensar em nada mais fácil do que eu e você, Annie — insiste, dando um passo na minha direção. — Como não pode ser fácil? Do que você tem tanto medo?!
— Você é um fodido, Percy — murmuro, dando um passo para trás.
— Ok. Eu aceito isso. Eu sei que sou um fodido e que já fiz muita merda na minha vida — ele apoia a mão direita no peito esquerdo, voltando a se aproximar. — Mas eu pelo menos consigo aceitar o que eu sinto por você. Eu posso ser o fodido, mas você é a covarde.
— Eu quero que você vai embora — digo, de forma dura. Percy permanece exatamente onde está. — Quero que você saia! Saia agora! Saia do meu quarto!
Enquanto grito, empurro os ombros de Percy até a porta. Ele vai até lá meio cambaleante, mas em certo ponto, tenta se desvencilhar das minhas mãos.
— Ok! Ok! — ele coloca as mãos levantadas na frente dos ombros, em um sinal de que se rendia. — Eu estou indo.
Seguro a porta ao vê-lo passar por ali com uma expressão derrotada. Jogo meu braço para frente, com o intuito de fechá-la com força. Mas não é isso que acontece. As mãos de Percy se espalmam na pintura de porcelana, empurrando-a de volta e ficando frente a frente para mim.
Seus olhos verdes estão mais chamativos agora. Estão muito mais verdes que o normal. E percebo isso porque eles também estão mais brilhantes e um pouco vermelhos. Meu coração se aberta quando percebo que ele está quase chorando. Quando tento respirar, tudo que consigo sentir é o seu perfume, e eu controlo a vontade de abraçá-lo e sentir seu cheiro.
Percy passa a língua nos lábios. Estávamos apenas a alguns centímetros de distância.
— Eu te amo e sei que você me ama também. E quando estiver pronta para admitir isso, me procure — sua voz está baixa e rouca. Eu quase não conseguiria escutá-la se não estivéssemos tão perto um do outro. — Porque eu estarei esperando... não importa quanto tempo leve.
Percy dá dois passos para atras antes de desviar seus olhos esverdeados de mim. Parece que quando ele o faz, uma parte de mim é insuficiente a continuar a respirar. Meu fôlego é cortado no mesmo minuto, e meus olhos se enchem de lágrimas quando eu fecho a porta com toda a força assim que ele sai.
Grito até que meus pulmões comecem a ardem. As lágrimas rolam pelo meu rosto de uma forma descontrolada. Talvez Percy esteja escutando meu desespero, mas eu não me importo. Não consigo conter as emoções dentro de mim por um motivo: tudo que ele disse é verdade.
Eu amava Percy também. No fundo, eu sabia. E não tinha mais como fugir disso, mesmo tendo consciência de que jamais poderíamos ficar juntos.
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