Notas iniciais
SÓ TENHO QUE AGRADECER VOCÊS PELOS COMENTÁRIOS LINDOS QUE EU RECEBI ❤️ Vocês são os melhores leitores que eu poderia ter e eu me sinto muito mal quando atraso capítulo pra vocês. Sobre esse cap: ele é bem curtinho, responde algumas perguntas, mas é muito essencial. Vamo parar de enrolar aqui e falousssss

Hoje foi um dia chuvoso. Londres chove bastante, mas no tempo em que estive aqui, nunca vi chover durante um dia inteiro – e foi exatamente isso que aconteceu.

Mesmo não gostando muito da ideia da chuva, ela acabou servindo como uma ótima distração durante a viagem até aqui. Acordamos cedo e eu me despedi de Sally e Paul, fazendo uma promessa de que voltaria assim que pudesse. A verdade é que eu estava pretendendo nunca mais por os pés ali, e Percy ainda não sabia disso. Quer dizer, depois da minha mudança repentina de humor, ele poderia fazer essa suposição.

Olho para seu braço esquerdo se prendendo no volante com forca. O direito estava para fora da janela entreaberta, fumando um cigarro despreocupadamente, sem se importar com alguns pingos nos atingindo de vez em quando. Vendo-o assim, quase me fazia lembrar de quem ele realmente era quando o conheci; agora sabia que tudo não se passava de uma mentira.

Eu nunca o conheci. Não de verdade; não realmente. Eu criei a ideia de que Percy poderia ser uma pessoa boa, diferente do que todos falavam que ele realmente é. Percy é calmo e estressado, doce e amargo, feliz e triste, impulsivo e tímido. Pelo menos era o que eu achava até a última noite.

Eu não o conhecia nem um pouco. Não é porque transamos algumas vezes que isso queria dizer que eu enxergava quem ele realmente era. Durante a volta para casa, percebi isso: eu criei alguém para ele ser, alguém que eu precisava. Mesmo depois de todos falando que eu deveria prestar atenção, que deveria me afastar, eu não escutei ninguém. Percy é um conjunto de todas essas opiniões ruins, e provavelmente eu nunca vou descobrir quem ele é de verdade.

Quando ele estaciona em frente à minha casa, já está começando a escurecer. Fico aliviada por ter que sair do carro, finalmente. Eu não poderia deixar de sentir medo dele. Aquilo estava entrando dentro das minhas veias, e eu estava deixando tomar conta de mim. Queria sair dali o mais rápido possível. Abro a porta do carro, deixando que a chuva molhe meus cabelos despenteados, mas antes de bater a porta, olho em seus olhos esverdeados, tentando me lembrar de quem ele realmente era antes de tudo.

— Obrigada por me ajudar com a situação da noite passada. Prometo que vou me desculpar com Thalia.

— Eu imaginei que era o que precisávamos — ele abre um sorriso mínimo, mas depois ele se desfaz quando olha ao meu redor. — Você está se molhando muito, vai acabar ficando gripada. Melhor entrar...

— Eu sei — tento sorrir, e talvez ele perceba que estou forçando. — Obrigada mais uma vez.

— A gente se vê por–

Não espero ele terminar a frase e fecho a porta com força, deixando-o sozinho no carro. Não estava conseguindo passar muito tempo ali, conversando com ele como se nada tivesse acontecido. Eu quase me deixo levar, quase me esqueci das opiniões ruins. Ele matou um cara, caralho. Fica longe dele!

Saio correndo até a porta de entrada da minha casa (ou de minha avó), ignorando a chuva que caía periodicamente nos meus cabelos e corpo, me deixando encharcada por inteira. Quando abro a porta, me deparo com minha mãe sentada no sofá, mexendo no seu notebook com causalidade. Eu poderia jurar que seus olhos cinzas se voltaram para mim com divertimento quando eu passei pela porta de entrada.

— Onde está Silena? — sussurro, depois de perceber que as mochilas que estavam no carro de Nico nos últimos dois dias estão no sofá de casa. Minha mãe provavelmente jã estava ciente de tudo.

— Voltou para Nova York, graças a você.

Seus olhos não se moviam da tela do notebook, e eu estranho sua falta de preocupação pelo menos sumiço. Não posso deixar de sentir saudade de Silena mais uma vez. Eu havia estragado tudo.

Com esse pensamento, bufo, caminhando com falta de ânimo até os primeiros degraus da escada. Paro na metade do caminho, olhando por cima do ombro na direção de Atena.

— Não vai dizer nada?

Ela dá de ombros.

— Não. Você está com uma cara péssima, provavelmente descobriu o que tanto queria — seus dedos batucam no teclado, digitando trivialidades. — Eu realmente achei que você chegaria fazendo perguntas e chorando bastante. Você reagiu melhor do que eu esperava.

— Não enche.

Não quero conversar. Não agora, pelo menos. A verdade é que eu estava morrendo de vontade de fazer um milhão de perguntas, mas minha mãe vai ser a vaca de sempre, se gabando por estar certa o tempo todo. Ela não merecia esse gostinho.

Meu celular vibra assim que estou tirando minhas roupas para um banho quente. Olho no visor e vejo o nome de Nico talhado na tela. Fico em transe por um momento, sabendo que deveria atender a ligação, mas não consigo me mover. Meus dedos estão parados, e o toque do celular invade meus tímpanos, fazendo com que meu cérebro reproduza aquele som periodicamente.

Por fim, consigo deslizar a tela é levar o celular até meu ouvido. É a coisa certa a se fazer.

Annie? — a voz abafada de Nico do outro lado da linha me assusta. Ele não parecia estar nas melhores condições.

— Oi...

Você está com Percy? — sua voz continua tensa.

— Não mais.

Onde diabos vocês se meteram, porra? — paro de respirar do outro lado da linha. Não sei se consigo continuar essa conversa e sei que estou sendo medrosa no momento. Como eu me explicaria depois de machucar Thalia? Existia desculpas para isso? Percebendo o tempo que passei em silêncio, Nico bufa do outro lado da linha. — Merda, não importa. Onde você está? Pode vir ao St. George's o mais rápido possível?

— Aconteceu alguma coisa?

Aconteceu a maior merda de todas... — sua voz sai uma oitava mais baixa, como se tentasse sussurrar para que apenas eu ouvisse. — Vou precisar de você e de Percy aqui o mais rápido possível. Por favor, não demore.

— Estou aí em uma hora.

Desligo o telefone antes de escutar a voz desesperada de Nico confirmando. Estou em transe, e sei disso pois mal consigo terminar de retirar minhas roupas para entrar no banho. Meus dedos estão tremendo quando ligo o registro do chuveiro, a sua quente despenca sobre minha cabeça, distribuindo uma dose de relaxamento para cada músculo tenso do meu corpo. No entanto não posso dizer que meu psicológico tem o mesmo efeito.

Desconsiderando o fato de tentar ficar mais longe o possível de Percy e acabar por encontrá-lo em poucos minutos, eu sabia o que estava por vir. Sabia que ter fugido talvez não fosse uma das melhores escolhas no momento, mas Percy parecia saber o que estava fazendo quando me levou até Bristol. Agora eu devia desculpas a Thalia pela merda que fiz, xingando-me mentalmente por ter fugido de uma forma tão covarde.

Será que ela estava muito machucada? Teve de levar pontos? Quantos? Eles foram ao hospital?

Estava tudo uma bagunça, uma bagunça fodida. Eu machuquei alguém fisicamente, eu vi o sangue escorrer pela sua testa e vi seu cenho franzir assim que se deu conta do que eu havia feito. O pior de tudo é que eu ainda havia fugido. Eu tinha a merda de responsabilidades.

Desligo o chuveiro depois de um banho demorado, me enrolando na toalha felpuda e seguindo em direção ao meu quarto. Não me dou o trabalho de escolher uma roupa bonita o suficiente, apenas coloco qualquer coisa que tenha visto, a princípio. Seco meus cabelos apressadamente, e não me preocupo em passar muita maquiagem, apenas corretivo, blush e rímel, para mascarar minha cara de culpada.

O táxi chega dez minutos depois de eu tê-lo chamado. A chuva ainda continua, e boa parte dos meus fios secos já devem estar um caco desde o trajeto da minha casa até o veículo. Dou a rua do pub para o taxista simpático, e ele me conduz até lá em silêncio.

Estava em prantos. Minhas mãos tremiam por conta do que estava por vir. Tudo isso tirando o fato de ter que ver Percy mais uma vez depois de tudo.

Você sabe, não sabe? Sua voz passa pelos meus pensamentos. Tento afastar o som da sua rouquidão que sempre me provoca arrepios, mas não consigo. É como se ele já estivesse grudado e preso em mim. Posso sentir seu toque no meu pescoço, puxando meu rosto para mais perto. Posso sentir o gosto dos seus lábios nos meus enquanto ele se afasta minimamente e sorri. Sabe que eu não posso perder você?

Eu não o conheço. Nem ele todo e nem uma parcela disso. Não compreendo a avidez da situação, mas sei o que eu devo fazer e o que eu quero fazer. São duas coisas completamente distintas, mas de uma coisa eu tinha total certeza: nesse momento, mais do que nunca, é a hora de fazer a coisa certa.

Valeu cada centavo..., o sotaque britânico bem forte na sua língua, me olhando de cima abaixo na primeira vez que nos vimos. São como flashes na minha cabeça, me atormentando com meus fantasmas. Acredite... o prazer é todo meu, Annabeth Chase, seus olhos verdes intensos sem desgrudar dos meus por nenhum segundo, o fogo vivo e selvagem dançando em seus olhos, servindo de combustão para acender a chama em meu corpo.

Se isso fizer com que você passe o resto da noite conversando comigo, eu me orgulharei da minha escolha.

Ele não é real. Nada das coisas que senti é real. É tudo uma farsa e sabe porquê? Porque você não pode sentir esse sentimento estranho por alguém que você não conhece. Percy é uma criação do meu subconsciente para me fazer gostar de Londres e me fazer aceitar que aqui deve ser meu lugar, no fim das contas... Mas isso não é verdade, assim como Perseu Jackson não é.

Você acredita em destino, Annabeth Chase? Seus lábios sugam a fumaça do cigarro para dentro de seus pulmões, tragando com maestria para depois liberar um fio cinza entre os lábios entreabertos. Seus olhos verdes parecem dois faróis no meio da escuridão. Acho que tudo acontece por um propósito, uma razão.

E algo de trouxe para esse lugar, Annie... Mas eu ainda não sei se esse propósito é bom ou ruim.

Chega.

Massageio minhas têmporas, procurando ficar calma e afastar os pensamentos. Volto a me concentrar na chuva do lado de fora, formando desenhos desconexos no vidro da janela, enquanto cai majestosamente, despencando do céu como se Deus chorasse.

Aquilo parece funcionar. Fico muito tempo observando aquele fenômeno da natureza e lembrando das aulas de Química sobre chuva ácida. Me distraio facilmente, evitando pensar em cabelos negros igual petróleo e olhos verdes iguais esmeraldas na beira da praia.

O taxista anuncia que já chegamos, e eu vejo a fachada do St. George's exatamente da mesma forma que vi na última vez que estive aqui. As palmeiras e as luzes verdes ainda estavam dispostas na entrada, sem nenhum rastro de diferença. Pago a taxista e rumo naquela direção.

O som de conversas estridentes e risadas preenchem meus ouvidos. A televisão no bar está ligada, reproduzindo um jogo de futebol qualquer, embora boa parte do pub estar concentrada naquilo, mesmo que pareça desinteressante. Procuro por meu grupo de amigos nas mesas dispostas nos cantos, mas felizmente, eles estão no balcão.

A primeira coisa que noto assim que me aproximo, é que Thalia, Nico e Leo estão mais sérios do que o habitual. Sei que tudo isso é culpa minha, mas eu ergo meu queixo mesmo assim. É hora de ser responsável, é hora de arcar com as consequências e agir como uma adulta, agir racionalmente.

Os olhos azuis de Thalia se encontram com os meus. Eu esperava ver raiva e ódio neles, mas me surpreende que eles estão suaves e gentis. Aquilo serve de combustível para tomar coragem o suficiente para andar mais depressa em sua direção. Eu precisava enfrentar os problemas, e não fugir deles.

Tem um curativo branco no canto de sua testa, cobrindo parte dos seus cabelos, que estão raspados, provavelmente para levar pontos. Sinto uma pontada no coração por ter que fazer isso com ela, sei que seus cabelos negros combinam estrategicamente com os olhos azuis elétricos. Mesmo que a parte raspada não interfira no seu penteado, me sinto péssima de qualquer forma.

Seus braços se abrem, sugestivos. Eu deseja estar sonhando também, mas Thalia está com um sorriso triste no rosto. Deixo o alívio tomar conta de minha expressão, e quando menos espero, já estou me envolvendo em seus braços, apertando-a com tanta força que provavelmente teve dificuldades de respirar. Sei que Thalia não demonstra muito suas emoções, mas seus dedos finos acariciam o topo de minha cabeça enquanto afundo meu rosto na curvatura de seu pescoço.

— Me desculpe... — minha voz sai falha, em um fio.

— Eu que deveria pedir desculpas. Te chamei de vadia.

Seu tom de voz está mais calmo e eu me permito rir contra seu pescoço. Nos afastamos minimamente, e não consigo esconder a emoção de ter lidado com isso da melhor forma possível. Eu gostaria de passar um dia inteiro repetindo minhas desculpas para Thalia, mas acho que mesmo assim, não seria suficiente.

— Desculpa por ter te empurrado. Eu não queria e–

— Não precisa se desculpar — ela me alerta, segurando fortemente nos meus ombros. — Eu fui uma vadia com você. Como eu pude acreditar em Luke? Demorei um tempo para perceber isso, e quando percebi, fui atrás dele e me contou a verdade.

— Como ele descobriu, então?

— Meu irmão, Jason. Eles olharam os registros telefônicos. Posso apagar as ligações, mas elas não somem da conta... É uma questão de tempo até meus pais ficarem sabendo.

— O que você vai fazer até lá?

— Esperar — ela dá de ombros, mas pela tensão em sua voz sei que está preocupada. — Nico e eu vamos dar um jeito.

Olho por cima de seu ombro e encontro o garoto de cabelos grandes sorrindo na minha direção. Eles confiavam em mim, agora eu sabia disso. Eu deveria apoiá-los agora mais do que nunca.

— Desculpas pelo cabelo — digo, finalmente, envergonhada.

Thalia ri, dando um passo para trás e ajeitando os fios.

— Não foi nada. Até achei estiloso. Foi o melhor presente de aniversário.

Arregalo os olhos, a abraçando imediatamente.

— Feliz aniversário, a propósito — ela ri, e eu escuto as risadas dos dois meninos ecoarem perto de mim. Me afasto deles e percebo que estou em casa. É a primeira vez que me sinto em casa em Londres, e a sensação é indescritível... Mas a voz de Nico parecia desesperada no telefone. Franzo o cenho, passando os olhos pelos três assim que já estou longe de Thalia. — Espera... Vocês todos estão bem. Nico parecia preocupado no telefone, como se algo tivesse acontecido...

Chega a ser engraçado como a expressão dos três se contorce em uma feição de dor e arrependimento, sendo que antes estávamos sorrindo abertamente como se nada tivesse acontecido. O pânico invade meu peito, temendo pelo que está por vir.

— Annie... — a voz de Nico soa pesada e tensa, se perdendo no meio da própria frase.

— O que aconteceu?

Não é necessário muito esforço para perceber o que está acontecendo. Os olhos dos meus amigos se concentram em algo atrás de mim, e eu giro minha cabeça naquela direção. Um vulto de cabelo vermelhos vivos sai do banheiro, caminhando na nossa direção. Não hesito em reconhecer os olhos verdes e as sardas espalhadas pelo rosto, combinando estrategicamente com seu ruivo natural. Ela é ainda mais bonita pessoalmente, e eu me impressiono com a forma que a reconheço, sem ao menos ter a visto uma vez.

É ela. É Rachel Elizabeth Dare.

Notas finais
MUITAS PESSOAS ESPERAVAM POR ISSO, mas fazer oq, alguém pensou que seria agora? Pois é, a relação dos dois já tava complicada, porque a annie tá assustada demais com essa coisa do Percy ter matado alguém, e agora vai complicar ainda mais. Qual vocês acham que vai ser a reação do Percy? Xoxo, Kydd ❤️