Skyfall
24 XXIII
Notas iniciais
O sorriso que estava desenhado nos lábios de Silena era contagioso. Seu abraço era tão apertado que dificultava minha respiração, tornando cada vez mais difícil a entrada de ar pelos meus pulmões. Sempre soube que ela gostava de reencontros dramáticos, e seu gritinhos faziam jus à isso. Eu sentia falta de tudo nela, até do cheiro do seu perfume de morangos.
Como ela conseguia permanecer tão bonita mesmo depois de passar horas em um avião?
— Eu estava com tanta saudade! — confidenciou, me apertando mais forte, mas assim que tossi, ela afrouxou o abraço e se distanciou de mim alguns centímetros; o suficiente para me olhar nos olhos. — Puxa vida, você está um caco!
Entortei meus lábios, sabendo que aquilo era verdade. Como alguém conseguia passar horas e horas em um avião e ainda sim continuar impecável? Bem, esse alguém é Silena, que não tinha nem uma olheira e o rímel estava perfeitamente uniformizado nos seus cílios. As bochechas coradas davam um tom mais saudável a sua pele, mas por conta da euforia do momento e da dificuldade com que respirávamos, suas maçãs ficaram ainda mais rosadas. Eu não tinha o direito de reclamar de nada, estava péssima mesmo, já fazia muito tempo que eu não chorava, e minhas olheiras denunciaram isso. O brilho labial da minha melhor amiga quase ofuscava meus olhos, me deixando com vergonha dos meus lábios rachados e ressecados.
É claro que ela falaria da minha aparência, afinal aquela é Silena Beauregard.
— Também senti muitas saudades — voltei a abraçá-la, apenas para desviar seu olhar crítico do meu rosto fodido. Me sinto aliviada assim que ela ri contra meus cabelos. — Como chegou aqui? Por que ninguém me avisou? Vai ficar por quanto tempo?
— Calma, calma... — sua risada superficial ecoou pelo quarto, e ela finalmente se afastou de mim. — Sua mãe pediu para que eu passasse um tempo com você. Estranho, não é? Ela e sua avó combinaram tudo.
Minha mãe não seria capaz de fazer aquilo. Ela não seria capaz de ser tão legal comigo depois de tudo, sendo a pessoa fria e impessoal que ela é. E por ser desse jeito, sei que por trás de tudo, ela tinha algum plano para tentar me destruir ou fazer com que eu me arrependesse de algo.
Mas merda, era Silena, minha melhor amiga desde sempre, e era maravilhosamente bom escutar sua voz sem ser pelo microfone de um computador.
— Que bom que você está aqui... — sorrio, mas antes de pensar em algo a dizer, escuto alguém pigarrear ao meu lado.
Eu havia me esquecido da presença de Thalia, que estava sentada despojadamente na minha cama, nos encarando com as sobrancelhas erguidas. Nunca pensei que vislumbraria uma cena como essa; aparentemente, as únicas duas amigas da minha vida no mesmo cômodo.
Mas o impressionante, é que os olhos elétricos de Thalia estavam fixos em Silena como se fosse capaz de penetrá-la. Eu já deveria ter imaginado. A personalidade delas são completamente distintas, exatamente o oposto uma da outra. Eu nunca sequer pensei na possibilidade delas se conhecerem, e agora que cogitei, sinto que seria uma péssima ideia. Somente pelo olhar, podia ver que o ódio estava se instalando e tomando conta do local.
— Já vou indo, Annie — Thalia se levanta da cama e caminha tranquilamente até nossa direção, estendendo sua mão direita para Silena. — Sou Thalia, prazer.
O sorriso dela é falso e contagiante. Eu havia me esquecido de apresentá-las, talvez pela situação e pela minha falta de palavras no momento. Assim que Silena direciona sua mão de encontro a de Thalia, os olhos azuis elétricos descem para aquela região com um olhar... enojado. Mordo o lábio para segurar o riso preso em minha garganta, dessa vez me limitando a não escancarar a boca.
— Silena.
— Hm, vamos acampar mais tarde, você pode ir se quiser — fala em um tom de descaso, livrando-se do aperto de mão e Thals volta a olhar para mim com um sorriso amigável. — Nos vemos mais tarde, Annie. Tchau, Sabrina!
Thalia dá as costas para nós duas e se vira em direção à porta, rumando até que seus passos atingem o limite do quarto e ela desaparece no corredor. Minha cabeça vira involuntariamente para Silena, que olha para o lugar o qual Thalia passou com as sobrancelhas unidas, seu rosto mais vermelho que o comum, exalando a irritação pelos poros.
— Ela me chamou de Sabrina?
— Chamou — seguro uma risada ao ver seus olhos azuis incendiando a porta do quarto com o olhar.
— Tchau, drogada! — acenou na direção, embora dissesse baixinho, o suficiente para que Thalia não escutasse, a expressão carregada de cinismo.
— Você julga muito as pessoas.
— Vai me dizer que ela não é drogada?
— A única coisa que vou dizer aqui é que achei muito engraçada essa interação das duas. Nunca imaginei que um dia vocês se conheceriam, mas depois de hoje, era de se esperar que vocês se odiassem.
— Claro — Silena revirou os olhos. — Sou sua melhor amiga e ela é uma intrusa, além de se vestir muito mal.
— Nem todo mundo gosta de rosa.
— Não ligo. Ela não pode ocupar meu lugar.
•••
Silena não parava de falar desde que entramos no carro. Com um pouco de esforço e um sorriso convincente, minha mãe permitiu que fossemos acampar no aniversário de Thalia. Não imagino como, mas Silena tem dons que são infalíveis até com minha mãe, a pessoa não-influenciável e cabeça dura. Talvez ela só estava querendo que eu me afundasse cada vez mais nessas amizades e em Percy, e só assim eu perceberia que seria uma tragédia, como ela mesma previu.
Percy. Ele não estava no carro conosco. Enquanto Thalia mantinha uma expressão de descaso, Nico dirigia, Leo e Silena conversavam sobre assuntos superficiais e eu, bem, encarava a paisagem noturna de dentro do carro, Percy não estava aqui. Quando criei coragem o suficiente para perguntar onde o maldito estava, e após algumas brincadeiras ao meus respeito, finalmente me disseram que ele gosta de andar com o seu próprio carro.
Revirei os olhos. Aquela era uma típica atitude de Percy. Sabia que deveria manter-me afastada dele – e isso inclui psicologicamente –, principalmente depois das ameaças de minha mãe e dos avisos de Thalia, mas era algo quase impossível. Quanto mais tentava não pensar no seu toque, na sua risada, nos seus beijos, eu sempre acabava por mergulhar em um mar de lembranças muito profundo para voltar à superfície.
Tudo poderia ser um plano de minha mãe: ela convidar Silena para passar uma semana em Londres, permitir que fossemos acampar junto com a família que ela mais detesta no continente, para então, de algum jeito, me mostrar que eles não são quem realmente parecem ser.
Não vai funcionar. Não vou cair no seu joguinho. É Silena, e eu vou me divertir com minha melhor amiga e dar uns beijos no cara que estou transando.
Não necessariamente nessa ordem.
Começamos a entrar em uma parte mais afastada da estrada, com arbustos e pinheiros espalhados. A noite ajudava a insinuar o clima sombrio pela floresta, mas pelo tom presunçoso de Nico, ele sabia onde estava. Capturando algumas partes da conversa enquanto estava entediada, descobri que não era a primeira vez que estavam ali, mas sim, pareciam conhecer o lugar como a palma da mão.
Nico estacionou sua van no meio da estrada de terra, próxima ao início da floresta. Em um súbito de sanidade, achei um carro preto, estacionado logo à frente, um tanto quanto familiar. Só depois de juntar os fatos, me deparei que provavelmente seria de Percy. Ótimo, ele já está aqui. Não vou conseguir me concentrar nem fodendo.
— Nós quase morremos — esbravejou Thalia, abrindo a porta do passageiro e saindo do carro. Os sons da sua coturno são audíveis enquanto ela contorna o veículo até chegar no porta-malas. — Se você não passasse tanto tempo conversando com Sabrina, Nico, talvez a estrada teria sido mais tranquila. Você dirige mal de qualquer jeito.
Um barulho estrondoso ecoa pelo ambiente, e só então percebo que Thalia está realizando a tarefa de retirar as malas do carro sozinha. Silena revira os olhos, amargurada. Se tinha uma coisa que ela mais detestava, era quando as pessoas erravam o seu nome... Na verdade, ela era mais superficial ainda, e odiava mesmo quando a insultavam pelas costas.
— É Silena, já disse mil vezes... — diz baixinho, e Leo ao seu lado ri, passando a mão em seus ombros.
— Não esquenta, ela só está com ciúmes.
Mordo o lábio inferior para segurar uma risada. Puxo a maçaneta da porta do carro, me jogando para fora, finalmente sentindo os pés tocarem o chão em uma sensação de alívio. É indescritível a sensação de passar horas no veículo e depois esticar os músculos, exercitando-os. Vendo que Nico seguiu os mesmos passos de Thalia, resolvo fazer o mesmo, tomando minha mochila em mãos.
— Ciúmes o caralho, Valdez! Eu escutei isso! — Grace berrou de volta, terminando de tirar todas as malas e fechando o porta-malas em um baque. — Eu não faço o tipo que tem ciúmes, porra.
A boca suja de Thalia não me incomodava mais.
— Alguém pegou as cervejas? — Nico perguntou.
Silena abre a porta do carro, equilibrando uma caixa de isopor pesada demais para ser sustentada por uma garota igual ela. Pelo canto dos olhos, vejo que Thalia apertou as pálpebras em desespero, logo em seguida lançando um olhar raivoso para Nico, quase como se dissesse "vai deixar ela carregar isso mesmo, seu imbecil?". Bem, eram palavras boas para ela, até que delicadas, considerando seu histórico.
— Estão comigo! — Silena abriu um sorriso de dar inveja, andando em nossa direção despreocupadamente. Não precisava de muito para ver que Nico estava olhando para ela com outras intenções, e o mesmo pôde-se dizer de Leo. Silena era bonita demais para não deixar os caras de pau duro – embora eu acredite piamente que ela é virgem, já que sempre muda de assunto quando eu pergunto.
— Annie, foi uma benção trazer sua amiga — Nico deu um tapinha no meu ombro, e eu pude reparar no seu tom ambíguo. Em troca, recebe um murro de Thalia, que logo volta os olhos para minha melhor amiga.
— Sabrina, cuidado para não desequilibrar no salto e deixar as cervejas caírem. Faço você ir a pé até o posto de gasolina para repor o estoque.
Grace ajustou sua mochila nos ombros, e seguiu cantando barulho com as coturnos para o meio da floresta. Faço o mesmo que ela, mas antes, vou de encontro a Silena, tomando a caixa de isopor de suas mãos por precaução. Ela estava usando mesmo saltos. Aliás, botas de saltos. Eu avisei para ela colocar um tênis ou qualquer coisa do gênero, mas Silena não acreditou.
— Deixa isso comigo — digo, me referindo as cervejas. Ela sorri em resposta, me acompanhando para dentro da floresta, cercadas por pinheiros.
— Ela está sendo rude — o tom em sua voz mostra o quanto está chateada, também falando baixinho para que Leo, atrás de nós, não escutasse.
Abraço o isopor contra meu corpo e meu moletom folgado. Não estava arrumada para uma festa, e sim para dormir. Já deveriam ser dez horas da noite, e estávamos perambulando uma floresta "sombria", mas ainda sim, todos estavam dispostos para beber... E ainda tinha Percy. O que ele acharia de mim quando me visse com uma calça jeans e um moletom da NYU que roubei de meu irmão antes de sair dos Estados Unidos?
— Me desculpe por isso — confesso, tomando impaciência por sempre pisar em gravetos e acabar por fazer barulhos. — É o jeito dela, só uma maneira de demonstrar que está com ciúmes.
— Ciúmes? — Silena arqueia uma sobrancelha. — De quem ela poderia ter ciúmes? Leo parece muito novo para ela e Nico é seu primo. Não faz sentido.
Engulo em seco ao tentar pensar em uma resposta adequada para Silena... Ela não poderia fazer a menor ideia sobre o caso de Nico e Thalia, certo? Mesmo que ela fosse de outro país e não tivesse contato com mais ninguém, ela não deveria saber. Não. Ela poderia acabar contando sem querer parar alguém, ou fazer piadinhas a respeito. Talvez até usasse isso como uma maneira de atingir Thalia, devolvendo suas provocações... Mas Silena não fazia esse tipo. Talvez eu pudesse contar a ela o motivo de tanta grosseria. Pessoas que falam mal pelas costas de Silena, são as mais detestáveis, não é?
Não. Eu não poderia contar. Ou poderia?
Eu fiz uma promessa. Não vou fazer isso com Thalia.
— Ela e Nico são melhores amigos desde sempre, acho que ela tem ciúmes de todas as garotas com quem conversamos — minto, mas pela expressão convicta de Silena, ela parecia ter acreditado. — Tem boatos de que ela que escolhe as namoradas dele, só porque quer o seu bem.
— Você disse que ela tem ciúmes de todas as garotas? — pergunta, após um tempo em silêncio. Travo meu maxilar, pronta para a disparada de perguntas que eu bem conheço. Balanço a cabeça em um "sim". — Então porque ela não tem ciúmes de você?
— Porque eu estive interessada em Percy desde que coloquei meus olhos nele — digo a primeira coisa que me vem na cabeça, colocando a caixa de isopor no chão assim que percebo que Thalia e Nico encontraram um lugar para montar as barracas.
— Bom saber que o sentimento é recíproco.
Escuto a voz conhecida bem atrás de mim, mas demoro um tempo para reconhecê-la. Acho que foi o estado de choque, fazendo com que meu peito apertasse tanto que ele poderia ficar do tamanho da palma da minha mão. E, falando nelas, as pontas de meus dedos ficam geladas e começam a tremer. Giro meus calcanhares, e quando encontro as duas esmeraldas pregada em um rosto conhecido, esqueço de como respirar.
— E-eu... — começo, analisando a curva do sorriso de Percy, inclinada em um riso malicioso. Que horas o maldito havia chegado? Como eu não percebi que ele estava perto?
Minha boca se abre diversas vezes, mas nada sai. Eu não sabia se aquilo era verdade ou não, mas disse apenas para tirar Silena do meu pé, não era para Percy ter escutado. Narcisista do jeito que é, usaria isso como meu ponto fraco.
Droga, minhas palavras ficaram ainda mais embaralhadas quando meus olhos admiram seu maxilar trincado, com a barba por fazer. Hoje ele não estava usando jaqueta de couro, mas sim um suéter preto, que ficava justo em seu torso e marcava seus músculos pelo tecido. Olho para baixo, analisando sua calça jeans de lavagem escura e meu olhar recai na sua intimidade. Merda, ele de ter percebido. Volto a olhar para cima e engulo em seco ao encontrar as chamas verdes me incendiando, esperando uma resposta.
— Oi — é o que eu consigo dizer depois de gaguejar centenas de vezes.
— Oi, linda — sua mão se encaixa na minha cintura, depois estacionando na minha lombar e me puxando de encontro ao seu corpo. A sua mão livre vai de encontro ao meu maxilar, aproximando nossos rostos, até eu deixar que minhas pálpebras caírem e sentir seus lábios macios prensado contra os meus.
Nós estávamos muito fodidos.
Sou pega de surpresa com o beijo, então demoro a colocar minhas mãos nos seus ombros. A mão que estava no meu rosto escorrega para minha cintura, e Percy se inclina na minha direção enquanto aprofunda o beijo, pedindo passagem com a língua.
Merda, aquilo estava uma típica cena de cinema, onde o herói beija a mocinha no final feliz... No caso, eu tinha uma grande plateia observando aquilo, escutando algumas rosadinhas no fundo. Era a primeira vez que eles nos viam beijando em publico, embora desconfiassem de que algo estava acontecendo entre nós.
Não sei por quanto tempo ficamos assim, mas quando nos separamos, Percy carregava um sorriso torto nos lábios. Fiquei parada encarando o esverdeado de suas íris e sentindo meus lábios formigarem, implorando por mais do seu beijo.
Não posso fazer isso, preciso me afastar.
Caralho, eu sou muito confusa... Nós estávamos muito fodidos.
— Vocês acabaram de se beijar?! — a voz de Leo acaba com o silêncio do momento.
— Não, Valdez — Percy ri, soltando minha cintura e arqueando as sobrancelhas na direção do garoto. —, acabei de pedir a Annabeth em casamento. Não está vendo a aliança no dedo dela?
Paraliso onde estou, descendo o olhar até meu dedo anelar por precaução. Todos imitam o gesto, e Valdez uni as sobrancelhas.
— Não.
— Então é porque não tem, idiota — Percy bate com a palma da mão na sua testa de leve, e Thalia gargalha sonoramente.
Silena olha para mim com um olhar curioso. Sei exatamente o que ela está pensando e prefiro bufar em resposta. A essa hora, sei que ela já descobriu que esse é Percy e provavelmente estava planejando nosso casamento e nomeando nosso futuros filhos.
Nós estávamos muito fodidos.
— Não — alerto, com um olhar ameaçador em sua direção. — Preciso de uma bebida.
Abaixo, abrindo a caixa de isopor e capturando uma latinha de cerveja. Quando me levanto, me deparo que estou entre Percy e Silena, e percebo que esqueço de fazer as devidas apresentações.
— Ah, Silena, esse é o Percy. Percy, essa é a Silena, minha amiga de Nova York.
— Já escutei falar muito de você, Silena — Percy sorriu amigavelmente e eu dei longos goles na minha cerveja com a finalidade de me deixar preparada para o resto da noite.
— Eu também já ouvi falar de você, Percy.
— Bem ou mal?
— Muito bem.
Quase me engasgo nos goles, limpando minha boca por causa da cerveja derramada no canto dos lábios.
— É mentira — me dirijo a Percy, que carregava um sorriso malicioso.
— Aham — é só o que ele diz, se afastando depois de me olhar de cima a baixo.
Termino o conteúdo da latinha de cerveja em um só gole, lançando à Silena um olhar mortalmente destrutivo.
— Eu vou te matar.
— Ele te chamou de linda! — seus olhos brilham enquanto ela sussurra para mim, certificando que nenhum dos meus amigos estavam nos escutando. — Está mais sério do que eu pensava!
Nós estávamos muito fodidos.
— Não enche.
Amasso a latinha com as mãos, e sem me preocupar muito com o meio ambiente, a arremesso no chão, uma vez que a mesma quica e para centímetro de onde todas as nossas bolsas e mochilas estão, encostadas em uma árvore grossa.
Algumas horas depois, um cigarro pendia em meus lábios enquanto descansava minha cabeça no peito de Percy. O álcool já circulava livremente pelas minhas veias, e eu não me importava; enquanto o ingeri para dar-me coragem a ignorar Percy, eu fiz completamente o contrário, cedendo aos seus beijos intensos e quentes na frente de todos.
— Eu me lembro do dia em que Thalia apagou o cigarro naquele idiota do Jake porque ele tirou sarro de Leo à noite inteira — Nico falou, batendo de leve no ombro da prima. — Foi merecido.
— Justiceira, então? — bati as cinzas do meu cigarro na fogueira, o calor repentino subindo pelos meus braços e me aquecendo momentaneamente.
— Foi como Nico disse, merecido — ela respondeu, dando de ombros.
— Annie fez uma vez algo parecido para mim — Silena murmurou, bebendo seu suco de uva integral. — Tinha essa garota, Clarisse, que me bateu um dia na escola.
— Não consegue se defender sozinha? — Thalia endireitou a postura e Silena encolheu os ombros. Sei como ela estava se sentindo, Thalia já havia começado a exagerar.
— Não é desse jeito que você está pensando — os olhos aflitos de Silena se voltaram para mim, e ela meneou com o queixo em minha direção. — Conta para eles, Anns.
— Não foi nada demais — deixo a fumaça escapar pelos meus lábios enquanto murmuro as palavras.
— Conta.
Pela súplica no olhar de Silena, bufei, levando o cigarro a minha boca mais uma vez, tragando.
— Está bem... — solto a fumaça, descansando a nuca no ombro largo de Percy. — A Clarisse era tão grande que parecia uma montanha. Um dia ela encheu o saco de Silena e eu disse para cair fora, fim.
— Não foi bem assim que aconteceu — Silena revira os olhos. — Ela bateu de frente com a garota e deixou ela se borrando nas costas.
Nico riu, olhando para mim.
— Como você fez isso?
— Eu perguntei se ela iria me bater também, e depois usei minhas táticas de filmes e séries para deixá-la nervosa e com medo.
— Annie ficou gritando "me bate forte, baralho!" — me imitou, trocando a palavra "caralho" por "baralho", e eu ri. — Disse que se Clarisse encostasse um dedo nela ou em mim de novo, ela iria ter medo de pisar na escola novamente.
— Annie, não me leva a mal, mas você não é tão grande assim para desafiar uma menina dessas? Como ela acreditou? — Thalia pergunta, mas antes que eu pudesse responder, Silena me corta:
— Ela meio que deixou entendido que conhecia uma galera da faculdade do irmão dela e começou a fazer um monte de ameaças. Clarisse nunca mais olhou nas nossas caras e Annie ficou sendo parabenizada por todos.
Percy atrás de mim riu, e eu revirei os olhos. Silena não fazia ideia de como aquilo estava soando como "High School Musical".
— Vocês tinham quantos anos? — sua voz rouca causa arrepios em meu ouvido.
— Acho que quatorze — respondo, apagando o cigarro no chão. — Estou cansada, acho que vou dormir.
Me levanto e dou boa noite a todos, entrando na barraca armada ao redor da fogueira. Seria um sacrifício dormir ali, mas ajeitei as cobertas de uma forma confortável, alguns minutos depois sentindo Percy entrar na barraca e se aconchegar ao meu lado, abraçando minha cintura.
•••
Acordo sentindo um calor indescritível pelo meu corpo. Não sinto o braço de Percy rodear minha cintura como antes, e nem mesmo o calor do seu corpo contra o meu. De alguma forma, eu sentia que ele havia saído dali a pouco tempo, já que escutava risadas e uma música baixa.
Não fazia ideia de que horas eram. Procuro meu celular entre as cobertas e vejo que são quase quatro horas da manhã... Que porra eles estavam fazendo acordados essa hora?
Me levanto, saindo da barraca e deixando que meus pés façam barulho mas folhas secas que cobriam o chão. Percy estava sentado próximo a fogueira, fumando um cigarro. Thalia e Nico estavam no mesmo lugar desde a última vez que os vi, como se ao menos tivessem dormido. Silena estava com uma coberta enrolada no corpo, conversando animadamente com Leo enquanto comiam salsichas.
Dou alguns passos largos, tentando me situar e me acostumar com o barulho da música assim que as pessoas ali me estendem sorrisos como quem diz "você finalmente acordou!". Em um dos meus passos, vejo que piso em algo que não são folhas secas, e sim uma latinha amassada e cerveja.
Me abaixo até o chão, segurando o metal entre minhas mãos e olhando ao redor. Bem a minha frente, tinha uma árvore grande, onde eu me lembrava de terem colocado nossas malas e mochilas... Coincidentemente, eu também me lembrava de ter apresentado Percy e Silena ali, com o pensamento gratificando de precisar de uma bebida.
É mentira, me lembro a dizer, o coração na boca enquanto Percy tem aquele sorriso malicioso no rosto.
Aham, murmura, se afastando, e por completo instinto de raiva, amasso a latinha entre os dedos e a jogo no chão, perto das mochilas.
Meus pensamentos são cortados quando volto minha atenção para a mesma latinha, agora em minhas mãos. Olho ao redor, ligando os pontos, e ainda assim, não encontro as nossas mochilas onde eu havia as visto pela última vez.
— Quem mexeu nas coisas? — pergunto, deixando a latinha cair das minhas mãos.
— O quê? — Thalia solta a fumaça do cigarro que tragava, com o cenho franzido e uma expressão confusa.
— Onde estão nossas coisas? — insisto, olhando ao redor. Ninguém diz nenhuma palavra. — Você mudaram de lugar?
— Eu não mexi nelas desde que chegamos — Thalia levanta as mãos para o alto, e todos começam a murmurar um "nem eu" em uníssono.
— Você dormiram? — minha respiração começa a ficar descontrolada, e eu começo a ter dificuldades em me mandar calma.
— N-não exatamente, eu... — Grace gagueja.
— Vocês dormiram ou não?!
— Talvez! — ela confessa, se levantando e olhando para os lados. — Eu e Nico estávamos conversando e acabamos cochilando, mas acordamos agora pouco!
— Se algum de vocês está tentando nos assustar, para agora — alerto, olhando fixamente para Leo e para Silena, mas o seu olhar amedrontado não significava outra coisa além de medo. — Leo?
— Eu não fiz nada, eu juro! — ele responde.
— Isso não é engraçado gente! — digo, olhando ao redor tentando procurar algo. — As nossas coisas estavam aqui antes de dormimos!
— Ei, linda, relaxa — Percy se levanta e caminha até mim, envolvendo o braço na minha cintura e tentando fazer com que meus olhos se percam nos seus para me desconcentrar. — Você está gritando com a gente, tenta se acalmar. Deve ser apen–
A frase de Percy é cortada por um dos barulhos mais altos que eu já ouvi. Ele paira no ar sonoramente, e além dele, só posso escutar a música baixa e o som do vento forte, bagunçando meus cabelos e impossibilitando minha visão quando tento descobrir de onde ele veio... Demoro tempo demais para algo em minha cabeça me dizer que eu conheço aquele barulho.
— Isso foi um–
— Tiro — Percy completa minha frase, e acho que nunca vi seu rosto empalidecer tanto assim. Em questão de poucos segundos, escutamos o mesmo barulho, seguido de um gritinho de Silena. — Merda. São tiros.
Nós estávamos muito fodidos.
— Abaixem a porra da música! — ordeno, e Leo rapidamente desliga o som. Silena se levanta e caminha até a minha direção, se agarrando ao meu braço.
— Annie, o que está acontecendo? — seu cenho está franzido em uma expressão estranha, mas percebo que eu estou da mesma forma que ela. — Eu não gosto disso.
— Está tudo bem, Si.
Mas não, não estava nada bem. Nós estávamos muito fodidos.
Nunca pensei que sentiria tanto medo na minha vida algum dia. Achava que sentir ou não a sensação de pânico era uma escolha do seu próprio corpo, e eu conseguiria me controlar se quisesse. Mas na verdade, não. Quanto mais tentava me acalmar, mais meu coração batia forte como nunca.
O barulho se dissipou mais uma vez no ar, e minhas pernas bambearam.
— A fogueira! — Percy retirou sua jaqueta e começou a abanar o fogo. Mais um tiro. — Me ajudem a apagar a droga da fogueira, merda!
Nico rapidamente começou a pisar na brasa até que cada vez ficasse mais escuro. Mais um tiro. Mal conseguia enxergar os tons ao meu lado, e apenas me prendia a Silena enquanto os barulhos ficavam cada vez mais perto.
Mais um tiro.
Finalmente os garotos conseguiram apagar a fogueira. Meu coração batia acelerado em meu peito e eu começava a sentir indícios de uma falta de ar insuportável. Encontro os olhos verdes de Percy na escuridão, e tento fazer com que isso me tranquilize e desconcentre, mas não é o suficiente, eu ainda sentia aquela sensação de meus pulmões ficarem cada vez menor.
Mais um tiro. Três tiros seguidos logo em seguida.
Nós estávamos realmente fodidos.
— Merda, nós vamos morrer — Leo gemeu, passando as mãos nos seus cachos desesperadamente. Thalia desferiu um soco em seu braço.
Nós estamos muito, muito...
— Cala a porra dessa boca, imbecil! — sussurrou. Mais um tiro, dessa vez mais perto.
Fodidos.
— Fiquem quietos! — sussurra Percy, andando até meu lado e entrelaçando nossos dedos.
Nós estávamos muito...
Quatro tiros seguidos. Silena solta um gemido desconfortável no meu braço livre para não fazer nenhum barulho.
Muito, muito...
— Vamos morrer, vamos morrer, vamos morrer... — Leo diz baixinho, como se fosse a sua única oração.
Fodidos.
Nós estávamos mesmo fodidos.
De repente, os tiros param, e tudo que consigo escutar é o barulho do vento forte nos meus ouvidos. Folhas secas são esmagas por sapatos. Passos se aproximam perto de onde Thalia está. Ela olha para trás e eu espero pelo pior, mas tudo acontece rápido demais.
Um corpo aparece no meio dos arbustos, e antes que eu pudesse alertar alguém, Thalia desfere um soco bem no maxilar do sujeito, coberto por uma máscara preta. Seu corpo fica bambo e ele cai no chão, atraindo a atenção de todos nós.
Desprendo meus pés do chão, deixando Percy e Silena para trás enquanto caminho na direção da Grace. Olho para sua mão e depois para o corpo no chão, percebendo que ela está machucada e bastante vermelha, talvez por conta do soco.
Nós estávamos muito.
Percy passa ao meu lado como se fosse um vulto, e se ajoelha no corpo jogado no chão. Ele puxa o gorro preto para cima, revelando cabelos loiros e olhos azuis semicerrados. Não demoro muito tempo para reconhecer aquelas características e sentir o pânico diminuir do meu peito, até que de repente, os motivos que trouxeram o loiro aqui ficam transparente como água no meu cérebro, e eu sinto mais pânico ainda.
— Luke?! — Thalia berra, massageando as têmporas e soltando uma risada sarcástica. — Você é realmente muito fodido.
Muito. Muito. Muito.
— Oi, Thalia — o loiro diz, desnorteado por conta do soco. — Que belo murro. Muito obrigado.
Nós estávamos muito fodidos.
— Que merda você está fazendo aqui? — ela resmunga, tentando controlar a sua raiva, e de repente, começa a andar de um lado para o outro. — Você nos assustou pra caralho, seu cuzão!
— Filho da puta — Percy pragueja baixinho, se afastando do loiro jogado no chão e dando espaço para que ele se lesmadas e massageasse o maxilar dolorido.
— Foi você que pegou nossas coisas, não foi? — pergunto, mesmo sem querer, e surpreso pela minha atitude, os olhos maldosos de Luke Castellan se cravam em mim e ele fecha a cara em uma expressão confusa.
— Eu? Não. Eu vi uns caçadores ilegais as roubarem e vim aqui avisar.
— Caçadores ilegais? — Leo murmura baixinho, entendendo o motivo dos tiros.
— Sim, caçadores ilegais. Atrás de coelhinhos e essas coisas, não vocês.
Minha expressão fica confusa por um instante. Mas que porra caçadores ilegais tinham a ver com essa história? E além do mais, porque pegaram nossas mochilas? Não apostaria muito em dizer que eles iriam vender tudo e ganhar uma boa grana, mas o que ganhamos com essa informação, foi que ao menos sabíamos de onde vinham os tiros. Eu já estava me mijando nas calças achando que Luke tinha uma arma.
Mas de qualquer forma, nós estávamos muito fodidos.
De repente, quando o silêncio foi substituído por uma galhada estrondosa de Luke – que já estava de pé –, todos nós franzimos o cenho sem entender.
— Estou brincando. Fui eu quem roubou as suas coisas.
— Porque você fez isso? — continuo.
— Porque achei que seria engraçado. E foi mesmo — respondeu, e depois afinou a voz. — "Uh, apaguem as luzes!", "Uh, nós vamos morrer!".
— Você é um babaca de merda — cuspiu Thalia, dando as costas e cruzando os braços. — Que porra você está fazendo aqui, de qualquer jeito?
— Qual é, Thals. Você me conhece. Sinto cheiro de festa e estou lá — deu de ombros, e depois passou os olhos pelo corpo de Thalia por livre e espontânea vontade, como se quisesse dizer "estou fazendo isso porque simplesmente posso". — A propósito, hoje seus peitos estão estupidamente grandes.
Ao escutar aquelas frase, Percy caminhou bruscamente até o loiro, que ainda tinha um sorriso malicioso no rosto. As mãos dele se agarram na camisa de Luke, o puxando até os dois ficassem com os rostos furiosos próximos demais, dessa vez com expressões sérias e violentas.
— Qual é o seu problema?! — Percy grita, e talvez eu nunca tenha o visto tão furioso.
Nós estávamos muito fodidos.
— Vamos lá, Rambo — Luke zombou, aceitando a agressividade de Percy. — O você quer? O meu sangue?
— Eu quero saber que merda você está fazendo aqui! Toda vez que estamos nos divertindo você aparece, e ainda nos assustou pra caralho dessa vez. Se manda, porra!
— Você quer saber o que eu estou fazendo aqui?!
— Quero!
Os olhos azuis de Luke se voltam lentamente na direção de Thalia. Antes, a garota que parecia furiosa e segura de si, agora ganhou uma expressão amedrontada e visivelmente preocupada. Grace estacou os pés no chão, e um soluço escapou de seus lábios assim que juntou forças o suficiente para respirar.
Não sei quando tempo eles ficaram se olhando dessa forma, mas os olhos azuis elétricos de Thalia não estavam mais tão elétricos assim. Eles estavam caídos para baixo em uma expressão triste, cansada e assustada, quase como se houvessem perdido todo aquele brilho. Fora a primeira vez que eu vi algo parecido antes. Fora a primeira vez que eu vi Thalia sem a máscara que ela carregava o tempo todo.
— Você não me quer mais, não é, princesa? — Castellan pergunta, com a voz mais baixa dessa vez.
Nós estávamos muito fodidos.
Thalia abraça o próprio corpo e engole em seco, segurando as lágrimas que estavam prestes a rolar pelos seus olhos.
— Não — responde tão baixo que fica quase impossível de ouvir sua voz como um fio, já que acaba se misturando com os ventos uivantes da floresta.
Nós estávamos muito fodidos.
— Ela não me quer mais, Perseu — Luke se volta para Percy, que tinha os olhos esverdeados furiosos. — Ela não me quer mais porque passa tempo demais com o pinto do primo na boca.
— Luke! — Thalia grita, para tentar a abafar suas palavras, mas é tarde demais.
E tudo que Percy faz, é rir. Uma gargalhada sonoro que sobressalta o choro de Thalia.
— Você é um palhaçada. Eu e Thalia?
— Quem disse algo sobre você?
Nós estávamos muito fodidos.
As risadas se cessam e as esmeraldas caribenhas se voltam para Thalia em prantos e Nico mais pálido do que o normal. Tanto um quanto outro estavam assustados e sem conseguir dizer uma palavra. Eu também não conseguia, já que era como se sentisse as dores de Thalia. Não sabia o que chegava a ser mais trágico: a ingenuidade de Percy ou o fato de tudo acontecer durante a festa de aniversário da Thalia.
— Na Lótus eu disse. Eu disse que ele estava mais perto do que achávamos, mas ninguém acreditou.
Percy soltou a camisa de Luke e deu curtos passos na direção de Thalia, tentando controlar a respiração e organizar os pensamento.
— Foi uma vez, certo? — ele disse, e Thalia negou levemente com a cabeça enquanto chorava desesperadamente. — Foi uma vez. Na sua festa de sete anos, quando éramos crianças. Foi uma brincadeira, não foi? Foi só uma.
Thalia dessa vez negou com mais veemência, soluçando logo em seguida. Percy colocou as mãos na cabeça, e se eu o conhecia muito bem, sabia que ele estava tentando se controlar.
Nós estávamos muito, muito, muito, fodidos.
— Eu preciso sentar — disse, sua voz parecendo um fio, e ele se agachou nas folhas secas.
— Percy, cara... — Nico começa, mas se perde nas próprias palavras. Luke toma iniciativa e se aproxima de Percy, agachando na sua frente.
— Ei, cara, acho que você não entendeu muito bem — ele segura um sorriso, e fala como se estivesse explicando para uma criança de cinco anos. — Seu... primo... fodeu... sua... prima... tipo, múltiplas vezes.
— Eu entendi.
— Você não vai fazer nada?
— O que você quer que eu faça?
— Não sei, bata em mim, por ter soltado a merda no ventilador. Ou em Nico, por fazer isso pelas nossas costas.
Percy se levanta, e é acompanhado de Luke. A expressão em seu rosto é irreconhecível. Acho que ele está com tanta raiva que eu nunca o havia visto desse jeito antes.
— Você é apenas um fodido mesmo — cuspiu as palavras.
— Eu sei — Luke riu. — Eu até bateria no magricela ali, mas não sinto raiva, apenas nojo. Não é, princesa?
A cabeça do loiro se voltou para Thalia, que além dos olhos marejados, agora tinha fúria. Muita fúria.
Nos estávamos muito, muito, fodidos.
— E como você chegou a essa conclusão? Ninguém sabia!
E antes que Luke pudesse responder, os olhos furiosos de Thalia se voltaram para mim.
Eu estava muito fodida.
— Você sabia — ela aponta um dedo na minha direção, e todos os pares de olhos presentes ali, se voltam para mim.
Quase não conseguia distinguir a decepção presente no olhar de Percy, ou a indignação no olhar Nico, ou a confusão no olhar de Leo e Silena. Thalia apressou os passos na minha direção, e quando eu pude perceber o que ela estava fazendo, ela me empurrou forte, fazendo com que eu cambaleasse para trás.
— Você é tão vadia!
— Thalia, eu não disse nada!
— Ah, não?! — me empurrou mais uma vez, tão forte quanto a última. — Você era a única pessoa que sabia, porra!
— Thals, eu juro, eu n–
— Você me disse no primeiro dia de aula que ele foi a pessoa a te orientar naquela escola! Você me disse! Eu deveria saber que vocês eram amigos, por isso não interrompeu a briga dos dois na sua casa! — Thalia apontou para Percy e Luke em um canto, antes de me empurrar mais uma vez. O loiro tinha um sorriso vitorioso no rosto.
— Thalia, olha para ele! É isso que ele quer! Você sabe que eu nunca faria isso com você — recebo mais um empurrão, e tento segurar seus braços, gritando para Luke: — Seu filho da puta! Diz que é mentira!
— Vadia! — no momento que ela vai me empurrar de novo, seguro seus ombros.
— Thalia, para!
Não percebo o que acontece no momento, mas depois meu cérebro produz as imagens periodicamente, como se estivesse em câmera lenta. Cansada dos seus empurrões forte, desfiro um empurrão em Thalia que vale por todos eles, tão forte, que ela acaba tropeçando em um pedaço de pedra atrás de si, e bate a cabeça em uma das árvores, caindo no chão levemente.
Seus olhos cheios de vida ficam turvos. Ela se esforça para os manter abertos, colocando a mão nas têmporas. Um filete de sangue escorre pela sua testa no mesmo momento em que ela toca, e quando volta a enxergar a palma de sua mão, ela está manchada por um líquido viscoso e vermelho escuro.
Thalia estava sangrando. Thalia estava machucada.
Nós estávamos muito fodidos.
Uma mão gelada toca meu pulso e eu percebo o toque familiar de Percy. Estava em um estado de transe de não saber nem o exato momento em que ele veio até mim, mas antes de me dar conta o que está acontecendo, ele me puxa para longe, fazendo com que minas pernas dessem passos apressados na direção oposta aos nossos amigos.
— Vamos embora, Annie.
Começamos a correr entre os pinheiros, muito alheios à situação. Não conseguia parar de pensar na minha atitude infantil, que acabou por ser drástica. Minha respiração estava entrecortada, e no caminho que percorremos, não conseguia parar de repetir as palavras "eu juro, eu não contei nada pra ele e nem para ninguém", até que Percy segurasse meus dois ombros e respondesse "eu acredito em você, Annie".
Reconheço o veículo preto de Percy, abrindo a porta do passageiro e me acomodando no estofado de couro, dando um alívio as minhas pernas e aos meus pulmões. Percy repete meu gesto, mas tira as chaves e dá partida no carro, cantando pneu.
Aquela era uma cena que eu já havia visto. Era exatamente igual o dia da Lótus, quando corremos sem parar para respirar até seu carro, nos acomodando nos estofados com respirações ofegantes.
— O que a gente faz agora? — pergunto, para completar o meu flashback.
Percy se mantém calado, entrando na estrada novamente e dirigindo aparentemente sem direção. Seus dedos procuram os meus, e nós os entrelaçamos no meio dos bancos.
— Sempre seremos eu e você, Annie — ele responde com os olhos fixos na estrada. — Sempre seremos eu e você.
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