Skyfall
22 XXI
Notas iniciais
O sinal que anuncia o fim das aulas toca, e antes mesmo dele se cessar, todos os alunos presentes naquela sala de levantam e andam em direção à porta. O professor de Química, Apolo, claramente fica desnorteado, se perdendo no meio da explicação.
Guardo minhas coisas dentro da mochila e caminho até sua direção. O professor mais lindo dessa escola está arrumando relatórios e organizando-os dento da mochila. Eu sabia que pelo menos a metade da ala feminina do colégio só comparecia as aulas por causa do deus grego que nos lecionava, mas na primeira oportunidade para se retirar da aula de Química, ela é sempre bem-vinda.
— Professor? — pigarreio, atraindo seus olhos intensos para mim. Ele parece surpreso.
— Annie? Posso ajudar?
Além de ser o professor mais lindo, consequentemente era o único professor que eu tinha uma afinidade maior. Era quase como um dos meus melhores amigos, e só faltava compartilhar segredos íntimos para atingir essa base. Se ele fosse o velho careca de Geografia, eu certamente não permitiria que ele me chamasse de Annie sem ter intimidade comigo primeiro.
— Eu andei pensando sobre o que o senhor falou... — Apolo me lança um olhar incomodado ao chamá-lo de senhor — o que você falou — corrijo, imaginando que um professor de 28 anos não seria tão velho assim — e eu acho que quero me inscrever para as Olimpíadas de Química desse ano.
— Nossa, isso é ótimo! — ele sorri. Eu entendia porque as garotas facilmente se derretiam com ele, o cara era maravilhoso. — Eu fico muito feliz que você reconsiderou minha ideia.
— É, eu também — tento sorrir, enquanto ele procura na sua mochila alguma coisa, mas depois aperta os olhos em frustração. — Aconteceu alguma coisa?
— Não, é só que... Eu esqueci a folha de inscrição para você assinar.
— Ah, eu posso voltar amanhã, quem sabe?
— Tenho medo de você mudar de ideia até lá — ele ri, e eu o acompanho. — Deixei ela no meu carro, você se importaria de ir até lá comigo?
— Não, é claro que não — aperto minha mochila nos ombros, vendo-o colocar a sua nas costas e seguir em direção à porta. — Na verdade, tem mais alguma coisa que eu queria falar com você.
— Você está grávida?
Arregalo os olhos, enquanto meu professor gato de Química abre a porta da sala de aula para adentrarmos no corredor, onde vários alunos desesperados pelo término das aulas estão circulando.
— O quê?! N-não–
— Eu sei, Annie, só estou brincando. Você parece preocupada com alguma coisa.
Deve ser porque minha mãe já teve um caso com o pai do cara que eu estou transando.
— Não é nada — dou de ombros, parecendo convincente. — Eu comecei a assistir Breaking Bad, igual você sugeriu.
— Sério? — Apolo parece surpreso. — Que bom que você seguiu meu conselho. Está gostando?
— Bastante! — sorrio, fechando meus olhos logo em seguida por estar na parte de fora do colégio. O sol de fim da tarde atingiu em cheio meu rosto. — É a típica série de professor de Química.
— Realmente. Todos os professores de Química do colégio assistem.
— Você sabe fazer metanfetamina?
— Se eu ganhasse um euro cada vez que escutasse isso, eu estaria muito rico — ele ri, e eu acabo por rir junto. — Se eu soubesse, não estaria trabalhando aqui.
Enquanto estamos rindo, percebo um grupo de garotas nos encarando. Elas estão dando risadinhas e cochichando umas com as outras, como se de fato não percebêssemos que aquilo era para nós dois. Quero dizer... Para meu professor gostosão de Química, que deveria provocar fantasias sexuais com boa parte das suas alunas.
Apolo percebe os olhares, e rapidamente vira o rosto.
— Não fica cansado das cantadas? — pergunto.
— Que cantadas?
— Das suas alunas. Qual é, não sou cega. Eu sei que elas ficam se oferecendo.
— Eu já me acostumei — admite, mas não de uma forma gananciosa ou maliciosa, apenas convincente. — Já tive um problema há uns dois anos atrás com esse tipo de coisa.
— Que problema? — meus olhos brilham por conta da curiosidade.
— Isso não é assunto entre aluna e professor — Apolo arqueia a sobrancelha em minha direção, e depois volta a olhar para frente. É quando eu percebo que estamos em frente ao seu carro, e ele o destranca, abrindo a porta do banco traseiro onde tinha mais uma mochila com mais papéis dentro.
— Assim como a história de um professor de Química que produz metanfetamina... — soprei, e Apolo volta-se para mim com um papel em mãos. — Quando você me indicou Breaking Bad, achei bem suspeito.
— Ok, saidinha, mas isso já está virando antiético... — meu professor estende o papel para mim, e eu o apoio em seu ombro forte para assinar meu nome. — Eu até te ofereceria uma carona até sua casa, mas isso seria antiético também.
— Eu sei, professor — dou ênfase na frase, dando o papel em sua direção e ajeitando uma mecha em meu cabelo. — Se contente com sua historinha sobre alunas sozinho. Você vai ficar me devendo essa.
— Sabe que eu nunca vou contar o que aconteceu, não é?
— Não. Não sei de nada.
Apolo revira os olhos, abrindo a porta do motorista enquanto eu me afasto aos poucos do seu carro.
— Você é impossível, garota.
Se eu e meu professor não fossemos amigos, eu acharia que Apolo estava tentando me cantar.
— Eu sei.
Giro meus calcanhares e resmungo "tchau", contrariada pela minha curiosidade incontestável, que dessa vez não foi atendida. Aperto a mochila em meus ombros, caminhando até a saída principal do colégio, e então vejo Thalia parada na esquina com seus primos.
A primeira coisa que faço é seguir pela direção oposta, mesmo que dê trabalho ir até minha casa. Eu não deveria estar ignorando-os, mas na verdade, eu precisava fazer isso. Aquela foto havia me intrigado de formas que era difícil compreender.
Meus pensamentos estavam tomando conta de mim há horas. Minha mãe já estava em casa esse horário, mas eu ainda não tinha a visto. E nem pretendia fazer isso tão cedo, já que estava ficando difícil imaginar como seria olhar em seus olhos depois de tantas mentiras, de tantos segredos. Eu deveria estar com um discurso pronto sobre a foto que havia achado nas suas coisas, mas eu não tinha. Eu nem sabia como começar uma conversa sem que me exaltasse um pouco. O motivo dela que me impedia de ver Percy tinha a ver com um relacionamento do passado.
Passar o dia fugindo deles foi difícil, principalmente de Percy, já que dormimos juntos um dia antes. Toda vez que estava prestes a encontrá-lo – ou alguém dos nossos amigos – eu dava meia volta, concentrando-me em prestar atenção nas aulas... Não sabia porque estava fugindo, mas eu percebi que precisava ter minhas respostas antes de tomar qualquer impulso sobre o que fazer com minha vida.
A única coisa que eu mais quero no mundo, é a verdade. Eu sempre fui uma pessoa que não gostava muito de mentir, e rapidamente consigo reconhecer uma mentira, sendo boa ou ruim. Era muito difícil tentar suportar minha própria mãe fazendo isso comigo, ela, alguém que deveria me conhecer mais do que qualquer outra pessoa.
Meus pensamentos estavam ocupando minha mente com velocidade, tanto é que meus passos também se tornavam mais rápidos com o passar dos minutos. Minha respiração estava totalmente desregulada, e antes que eu notasse, já estava em frente à porta de minha casa. Meu cérebro trabalhou no caminho corretamente, de forma automática. Eu não conseguia identificar mais nada enquanto tentava preparar um discurso bom o suficiente para arrancar a verdade de minha mãe.
Meus dedos trêmulos tocam a maçaneta gelada da porta rústica da casa de minha avó. Quando entro para dentro da residência, um som música preenche meus ouvidos, assim como risadas vindas da cozinha. Arqueio uma sobrancelha, largando minha mochila na porta e caminhando até a direção dos barulhos.
Meu coração parece parar por um instante diante da cena que vi. Era quase cómica, senão trágica. Minha mãe estava cozinhando com a ajuda de minha avó, e pela mesa montada e completamente arrumada, sinto que aquilo era uma ocasião especial. Atena também não está vestindo as típicas roupas de seu trabalho, e sim um moletom cinza escuro, sem maquiagem mas ainda sim com um sorriso gratificante no rosto. Minha avó não estava muito diferente, sua voz preenchendo o cômodo juntamente com a risada de minha mãe.
Diante do meu mau-humor habitual, não deixo de pigarrear para atrair a atenção de ambas.
As vozes se cessam e dois pares de olhos cinzas se voltam na minha direção. O único som presente é o rádio tocando alguma música de época, e eu quase rio da situação. Espera que a expressão das duas fosse de desprezo, mas na verdade, eu vejo minha mãe sorrir para mim.
Arregalo os olhos ao perceber que aquele sorriso era sincero. Acho que eu não o via desde que era muito pequena, talvez com uns cinco anos de idade, ou pela primeira vez que falei a palavra "cérebro" de forma errada. Uma sensação nostálgica invadiu meu peito, me lembrando do dia que ela estava fazendo torta de palmito na cozinha da minha antiga casa, e quando eu cheguei, ele se virou para mim e sorriu daquele jeito.
Não era um sorriso debochado, que gritava "eu sou melhor do que você". Era minha mãe verdadeira ali, feliz, e alheia de preocupações.
— Oi — murmuro, desviando do seu olhar naquele momento. Não conseguia passar mais um minuto o sustentando.
— Chegou bem na hora do jantar — avisou, limpando as mãos no pano da cozinha. Minha avó se apressou em colocar a comida na mesa, tomando seu lugar em uma das cadeiras desocupadas.
— Foi sua mãe que cozinhou. Se a comida está ruim a culpa é toda dela.
— Ah — resmunguei, nem um pouco disposta a tentar entra na conversa animada e divertida delas.
Me sento em uma das cadeiras mesa de jantar que ficava na cozinha. Estrategicamente, estou de frente para Atena, observando seus movimentos sutis e maternais enquanto colocava a comida no meu prato. Minha carranca não poderia estar pior. Aqueles movimentos e o sorriso já eram suficientemente ruins parar estragar o que restou de meu dia.
— Mãe, adivinha com quem eu aprendi a cozinhar? — Atena ralha, olhando de canto para minha avó. É claro que foi com ela, porque com a risada de Margareth, posso sentir a felicidade tomando o lugar da mesa em que elas conversavam.
— Desculpe, prometo não criticar — minha avó experimenta alguns dos legumes cozidos e arregala os olhos em aprovação. — Estranho como mesmo depois de anos sem cozinhar, isso aqui está bom.
— Verdade?
— Sim — minha avó vira-se para mim e eu rapidamente desvio o olhar para meu prato intacto. — Experimente você, Annie.
Observo os legumes enfileirados que minha mãe acabara de colocar nos pratos. Não estou com vontade de comer, e tudo por causa da conversa que estava planejando ter com Atena. Quando experimento da sua comida, um gosto nostálgico também me invade, e aquela sensação de mãe que não sentia há tempos, aparece.
— Está muito bom... — confesso, encarando os olhos cinzas de minha mãe como se fosse um reflexo dos meus.
— Que bom.
— Porque toda essa janta? — questiono.
— Deu tudo certo em Nova York... — ela sorri, experimentando sua janta. Atena troca um sorriso cúmplice com minha avó. — A empresa está crescendo bastante. Logo poderemos comprar um apartamento só nosso.
Ignoro o fato de que ela e meu pai estavam oficialmente separados. Não que por algum motivo eles possam voltar, mas a esperança é a última que morre. E se mudar da casa de minha avó não era bem uma notícia boa – mas para ela, se o dinheiro está entrando, tudo bem – já que ficar sozinha com aquela bruxa seria o fim dos tempos.
— Entrei para a Olimpíada de Química — resolvo contar, para tentar encaminhar o assunto para algo que fosse bom e do meu interesse. Recebo olhares aprovativos na minha direção.
— Isso é ótimo! — minha mãe diz, e minha avó sorri em minha direção. A felicidade está estampada no rosto de Atena, e eu tenho que controlar a vontade de revirar os olhos. — Você é brilhante, é muito inteligente, eu confesso. Vai ser um prazer que você assuma a empresa quando tiver idade suficiente.
Já escutei esse assunto outras vezes, mas aquela frase me dá arrepios na barriga. Eu sabia a "admiração" que ela tinha, mas hoje, algo estava diferente. A comida, a janta em família, os sorrisos, os olhares, a conversa. Tudo, exatamente tudo, estava me lembrando a parte boa da minha infância. Olhar nos seus olhos agora era impossível, já que eles transmitiam uma simpatia desconhecida por mim. Eu não conseguia encontrar a Atena Destruidora de Lares ali. Pela primeira vez, ela estava sem armaduras, totalmente livre das armas que sempre usa para me punir.
Algo estava errado. Era quase como um aviso para que eu não pergunte sobre a foto que encontrei.
Mas como sempre, eu a ignoro.
— Confiar a empresa em mim? Confiança conquistada é difícil, e isso nós não temos — chiei, comendo uma cenoura amanteigada despreocupadamente.
— Como assim?
— Achei que para termos confiança, precisamos compartilhar segredos — continuo, e agora eu consigo ver seu olhar se tornando forte novamente, consigo perceber que ela está começando a tomar a postura de sempre, lembrando-me da mãe que eu conhecia e muito bem. — E isso não vem sendo muito frequente nessa casa.
— Vá direto ao ponto — praticamente cuspiu as palavras à mim.
— Poseidon — me limito a dizer. Vejo sua pele empalidecer e eu reconhecer a expressão que vi no dia da Lótus quando ela o viu depois de sei lá quantos anos. — Eu descobri tudo.
— Não tem nada para descobrir — ela desvia o olhar, deixando o guardanapo de lado na mesa e arrastando a cadeira para se levantar.
— Você guarda uma foto com ele no seu escritório, eu vi.
Ela para no meio do caminho, como se raízes se prendessem em seus pés. Lentamente, seu corpo se vira na minha direção com o cenho franzido e o olhar tão intenso que meu corpo estremeceu.
— Você entrou no meu escritório?
— Entrei — respondo com firmeza.
— Suba — ordenada, meneando com a cabeça a escada. — Agora.
Obedeço o que ela diz com um sorriso sarcástico no rosto. Passo por ela e nossos ombros se chocam simultaneamente. No trajeto dos degraus da escada até meu quarto, não consigo deixar de pensar na chance que joguei no lixo de apaziguar as coisas com minha mãe, mas não consegui evitar. Mais do que nunca eu precisava descobrir a verdade.
Minha mãe fecha a porta atrás de mim e eu me viro, ficando frente à frente com seus olhos cinzas intensos sobre os meus. Posso enxergar o pânico ali, e estávamos tão perto que poderia enxergar minha própria expressão em suas pupilas. Eu não estava muito diferente dela.
— Eu vou te explicar tudo. Você precisa saber o suficiente.
— Eu não preciso saber o suficiente — minha voz esta falha, e eu mal consigo pronunciar as palavras sem sentir meu corpo estremecer. — Eu preciso saber tudo.
— Calma — ela pede, com o olhar debochado. — Você vai entender. Até onde você sabe?
— Eu só vi a foto, e estou dando a chance para você me contar tudo.
— Tudo bem. Você precisa ter conhecimento de algumas coisas... — Atena respira fundo, olhando para cima. Começo a pensar que talvez a situação seja mais complicada do que eu imaginava.
— Conhecimento é poder — proferi, tentando um sorriso sarcástico em sua direção.
Seus olhos cinzas encontram os meus. Um calafrio percorre todo o meu corpo.
— Poder é poder — sua voz é dura e fria. — E eu aprendi isso muito cedo.
Meus dedos estão tremendo, e suas pontas estão geladas. Não sei ao certo onde colocar minhas mãos, então cruzo meus braços embaixo do meu busto. Meu coração bate tão forte que o sinto vibrar em cada músculo de meu corpo. Finalmente, apesar de tudo, eu iria descobrir o que está acontecendo com minha família, e mal conseguia raciocinar de tanto nervosismo.
— Eu sempre sonhei em ser arquiteta, desde que era uma menina. Mas quando o Ensino Médio chegou, eu comecei a ter as complicações que toda pessoa tem. Estudos, provas, faculdade. Precisava me dedicar mais se quisesse passar para uma faculdade boa e depois exercer a profissão... — sinto seus passos passarem ao meu lado, e no segundo seguinte, minha mãe se senta na cama, olhando para baixo. — Sempre fui uma excelente aluna, mas no segundo ano do colegial, os professores não "puxavam o meu saco" mais. Eles tinham um novo alvo.
Meu peito infla por conta da quantidade de ar que meus pulmões abrigaram. Não sei nem se sou capaz de respirar, já que meu corpo se prepara para a parte da história que estou prestes a ouvir. Meu cérebro trabalha a milhão, distribuindo pensamentos para o meu subconsciente. Começo a formular diferentes alternativas para a mesma história, todas envolvendo Poseidon e Atena juntos.
— Os irmãos Jackson eram os melhores em tudo. Em qualquer matéria eles conseguiam tirar sempre a melhor nota. Zeus, de longe, era o mais esperto, inteligente, atraente e persuasivo. Chegava a ser cruel o jeito com que ele resolvia as coisas. Parecia ter monopólio sobre tudo naquele colégio, influência em tudo. Qualquer coisa tinha o seu dedo ali — seus olhos cinzas encontram os meus, provavelmente para ver se eu estava prestando atenção. — Eu não conseguia ir bem nas provas porque os professores sempre me comparavam a ele. E então, quanto mais ele subia, mais eu descia. Com o tempo eu percebi o que tinha que fazer para que minhas notas aumentassem, já que caso, ele tomaria o lugar na faculdade que era minha, desde o princípio... Duas semanas foi o suficiente para Zeus estar na ponta de meus dedos, envolto em todos os meus planos. Eu não estava mais descendo, naquela hora. Estava subindo junto com ele.
Agora seus olhos não transmitiam mais o pânico. Eles estavam duros e fixos, e aos poucos, o sorriso debochado começa a aparecer em seu rosto. A ganância, o poder, a arrogância; todos os seus maiores defeitos estavam começando a transbordar novamente. Em estava virando a Atena que eu conhecia.
— Eu passei a ser quem eu era antes assim que comecei meu relacionamento com Zeus. Você ficaria surpresa com o poder que uma mulher pode ter só de abrir suas pernas — engulo em seco diante daquela afirmação. Pela primeira vez em muito tempo, começo a sentir o nojo que senti quando descobri que minha mãe havia traído meu pai. — Minhas notas aumentaram, os professores voltaram a me elogiar. Aos poucos, eu e Zeus formamos o casal mais perfeito que aquele colégio poderia ter algum dia. Todos invejavam nosso relacionamento utópico... Um dia, Zeus me levou para sua casa para estudarmos Geometria. Ele precisava de minha ajuda, e eu me gabei por isso. Foi só ele ir ao banheiro, que Poseidon apareceu no quarto sem aviso prévio, ver de perto quem eu realmente era. E então, nos conhecemos.
Senti meus olhos arderem e eu reconheci aquela sensação. Eu não chorava há tempos, e nunca fui de chorar por tristeza. As lágrimas sempre apareciam por conta da raiva. Meu corpo parecia querer explodir, e as lágrimas serviam para isso. Elas liberavam o excesso de estresse acumulado em muito tempo.
— Você conheceu seu filho, ele não deve ser muito diferente do pai. Eu sempre tive uma fascinação pelos seus olhos. Acho que foi assim que comecei a me sentir atraída por ele — sua confissão faz meus pelos se eriçarem. Uma sensação que eu conhecia muito bem só de imaginar aqueles olhos voltados para mim. — Logo eu ia para casa de Zeus para ver Poseidon. Começamos a nos encontrar escondido e nos apaixonamos. A marca que eu tenho no braço, e que você provavelmente viu na foto, fizemos juntos, para não esquecermos um do outro.
— Zeus... — murmuro, tentando encontrar as palavras certas. — Foi interesse? Apenas interesse?
— Sim.
— Ele descobriu sobre Poseidon?
— Não. Eu precisava das notas boas para a faculdade. Quando descobri que fui aceita em Yale, eu e Poseidon fugimos para Nova York.
— Espera... Poseidon foi para Nova York com você? — minha voz soou fraca e frágil.
— Sim. Depois eu conheci seu pai, me apaixonei e nós terminamos. Ele voltou para Londres e soube que se casou com uma tal de Anfitrite. Depois se casou com Sally, provavelmente a mãe do seu namoradinho. Mas pelo que parece, está com Anfitrite de novo.
Não conseguia conter as lágrimas que escapavam de meus olhos. Agora que tudo estava bem claro, conseguia entender que fosse só aquilo, o motivo era mais desnecessário do que imaginava.
— É só isso? — minha voz é entrecortada com o meu choro.
— Tem coisas que ainda não é o momento certo para saber... Um dia você vai entender, e vai se arrepender.
Não consigo prestar atenção nas coisas que ela diz, e as lágrimas embaçam minha visão. Meu coração bate tão forte que eu tenho a impressão de que ele vai pular de minha garganta a qualquer momento. Afasto dois passos, andando de ré até a porta. Minhas pernas estão bambas e eu nem sei como estou de pé naquele momento.
— Eu odeio você... — sussurro, alto o suficiente para ela poder ouvir. Seus olhos cinzas se arregalaram ao escutar aquilo. As lágrimas começam a escorrer e elas molham todo o meu rosto, deixando um gosto salgado. — Eu odeio você desde sempre. Desde que colocou seu trabalho na frente da família, desde que desprezava Malcolm e eu sem motivos. E eu continuo te odiando por você me trazer para essa merda de lugar, e por você ser egoísta e gananciosa o tempo todo. Você não permitir que eu veja Percy por causa de um relacionamento do passado... É loucura!
— Acredite em mim, Annabeth! Um dia você vai acabar descobrindo e vai se arrepender, mas enquanto isso, fique longe dessa família para o seu próprio bem! Eles são ruins, gananciosos, pensam apenas neles mesmos... Me escute uma vez na vida, esse garoto não deve ser muito diferente!
— O quê ele tem a ver com Poseidon? Ou vai me dizer que ficou com ele também?
— Não, Annabeth! Não seja ridícula!
— Eu não estou sendo ridícula, e não vou me afastar de Percy agora. Você não me permitir vê-lo é orgulho, porque não consegue suportar que alguém tenha a vida um pouco melhor do que a sua.
— Tudo bem então! — ela se levanta da cama, seu olhar me dando calafrios toda vez que ela erguia o queixo em minha direção. Seu maxilar estava trincado, os dentes cerrados. — Vamos lá, descubra. Faça o que você faz de melhor: bisbilhote. Uma hora você vai descobrir, e vai se arrepender pelo resto da sua vida. Vai desejar mil vezes que tivesse se afastado enquanto tivesse tempo, e então não teria que sentir tanta... dor.
Seu olhar penetrante chega a ser doentio. Engulo em seco, tentando não prestar atenção nas coisas que ele me transmite. Uma mistura de raiva, ódio, orgulho, prepotência. Diversas qualidades que chegavam a me assustar toda vez que ela sorria de canto, mostrando sua típica face do deboche.
— Tudo bem — limpo meu rosto molhado com as costas de minha mão. — Eu vou descobrir.
Dou as costas, abrindo a porta de meu quarto e a fechando com força atrás de mim. Senti a casa vibrar com o barulho estrondoso que ecoou pelo corredor, e minha avó provavelmente deveria ter se assustado com aquilo no andar debaixo. Estava irritada demais para prestar atenção naquilo. Tentei segurar as lágrimas e organizar meus pensamentos, mas tudo parecia ser em vão.
Eu iria procurar saber o outro lado da história.
Eu iria procurar Poseidon Jackson.
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