Skyfall
21 XX
Notas iniciais
Percy fechou a porta do quarto atrás de si, ainda rindo com as duas cervejas na mão. Perdi a conta de quantas cervejas havíamos tomado, e agora eu me sentia levemente alterada por conta da bebida. De fato, eu nunca havia gostado tanto de cerveja assim.
— Mais uma? — ele pergunta, controlando a risada. Eu balanço a cabeça, pegando a garrafa de sua mão, já aberta.
Não consigo evitar o jeito que me sinto assim que escuto sua risada. Eu raramente a escutava, e hoje isso estava sendo mais frequente do que as outras vezes. Confesso que a sensação era boa, quase que magnífica. Talvez não existisse som melhor para escutar do que aquilo.
Seu quarto ainda era o mesmo de antes. Ainda encontrava o azul em quase todas as partes. Entre as quatro paredes, apenas uma era azul, enquanto as outras três brancas. Ainda que o tapete ao lado da cama e sua colcha seguissem esse tom. A poltrona que Percy se sentou ao dormir na primeira vez que vim aqui, ainda está lá, intacta, na frente das cortinas creme, tampando a imensidão de vidros que levavam a visão até às ruas agitadas. Eu adoraria ter um desses no meu quarto, simplesmente adorava o movimento e a agitação.
Dou um gole na minha cereja novamente, caminhando até sua escrivaninha e deixando a garrafa ali. Um sorriso percorre meu corpo quando noto que um porta-retrato estava faltando, e coincidentemente, era o de Rachel. Ele realmente estava falando sério quando disse que não sentia mais nada por ela, e eu deveria tentar confiar nele pelo menos uma única vez.
Sinto seus passos atrás de mim, e Percy logo para ao meu lado, indicando com a cabeça o aparelho de som logo a minha frente. Seus dedos ágeis apertam alguns botões, e em poucos segundos, uma música conhecida começa a tocar pelo quarto. Ele tinha um ótimo gosto musical, muito similar ao meu, devo confessar. Logo meus dedos começam a batucar ao som de Crystalised do XX.
— Seus irmãos não vão acordar? — me questiono, virando a cabeça na sua direção. Percy balança a cabeça conforme a música, e eu entendo que ele está completamente sintonizado na batida para querer tirá-la.
— Estamos sozinhos.
Pela intensidade da sua voz baixa e rouca, sinto os pelos da minha nuca se eriçassem. Vejo no olhar de Percy que ele já está notavelmente alterado, senão não teria se esgueirado até minha direção, ficando de frente para mim. Eu também sentia o efeito da bebida fazendo efeito, me dando coragem para fazer coisas que eu talvez não faria se estivesse tão sóbria.
Percy pegou minha mão, me puxando levemente para o encontro de seu corpo.
— Dança comigo.
Solto uma risada, que foi acompanhada pela sua de bom grado.
— Você deveria ficar bêbado mais vezes... — murmuro, apoiando minhas mãos nos seus braços cobertos pela jaqueta preta para que eu não caia no chão.
Nossos corpos estão visivelmente próximos. Não consigo conter essa proximidade agora, muito menos afastar a tensão que nos envolve. Posso sentir sua respiração se misturar com a minha sutilmente, e uma bolha de ar nos envolver como se estivéssemos sozinhos, sem nada ao nosso redor. Me pego sem querer observando seus olhos. É uma fascinação muito grande para mim, mesmo que até um pouco perigosa. Desço o olhar para suas bochechas rosadas pelo calor que estávamos sentindo, e olha que fazia um frio escandaloso do lado de fora da casa. Logo estou em seus lábios, admirando seu contorno e sentindo uma vontade incontrolável de tomá-los para mim, junto com outras partes do seu corpo.
— Se você continuar me olhando assim eu vou enlouquecer.
Sua voz me desperta, e já me acostumo com os arrepios que passam pelo meu corpo. Suas pupilas estavam dilatadas de desejo, e pela forma que estou agindo, percebo que não estou muito diferente dele.
Quase que em uma velocidade perfeita, nossas bocas se juntam pela milésima vez no dia. Seus lábios estão quentes, e na junção dos meus, é o suficiente para fazer com que eu perca meus sentidos. Não era capaz de sentir mais nada, apenas seu gosto se misturando com o meu, despertando o desejo que emanava de meu corpo desde a primeira vez que nossos olhos se encontraram.
Suas mãos estão indecisas, e então contornam a lateral do meu corpo até se fixarem na minha cintura, apertando-a contra o seu corpo. Meus dedos rapidamente se enroscam nos seus fios negros, explorando-os como se fosse a última vez. Definitivamente, eu não seria capaz de quebrar aquele beijo agora.
Ele se torna mais voraz, com Percy explorando cada parte da minha boca com vontade. Seus passos fazem com que eu caminhe para trás, voltando a me encostar contra a bancada atrás de mim. Não sinto dor, por mais que aquilo tenha sido feito de forma brusca. Tudo que consigo sentir é o desejo desesperador que eu estava evitando até então, de sentir seu corpo colado ao meu.
Com esse pensamento, minhas mãos escorregam até seus ombros, passando por dentro da sua jaqueta e fazendo pressão para que ela deslizasse pelos seus braços. Logo ela já está no chão, e Percy imita o gesto com meu casaco. Não consigo sentir frio. Parece que cada parte do meu corpo está em chamas, e por onde seus toques passavam, gradativamente eu passava a pegar fogo.
Ele morde meu lábio inferior, descendo os beijos para meu queixo, maxilar e pescoço. Minhas mãos seguram com força sua blusa assim que sinto sua boca percorrer toda a minha extensão, mordendo, beijando, sugando, e deixando Percy fazer um bom proveito daquela região. Sei que provavelmente precisaria esconder algumas marcas depois, mas estava disposta a retribuir esse favor à ele mais tarde.
Suas mãos passam por baixo de meus joelhos e eu rapidamente entendo o que ele estava tentando fazer. Deixo que ele me erga encima da sua escrivaninha, e eu rodeio minhas pernas na sua cintura. Um gemido involuntário escapa da minha boca quando sua intimidade encosta na minha, e eu posso sentir o volume na sua calça. Seus beijos no meu pescoço não se cessam, e eu arranho sua nuca com força quando ele o faz. Suas mãos grandes entram por baixo da minha blusa, tocando a pele da minha cintura. Aperto ainda mais sua cintura com a minha, em um pedido mudo para que ele se livrasse daquela peça de roupa.
Ele entende o recado, passando o tecido pelo meu tronco e jogando em algum lugar do chão. Finalmente, seus beijos descem para meu colo quente. E uso o adjetivo quente porque estou mesmo pegando fogo, quase que no sentido literal da palavra. Não quero me privar do me desejo, apenas deixo o tesão tomar conta de mim assim que sua boca encontra o vale de meus seios.
Seus dedos deslizam pela pele nua das minhas costas, encontrando o fecho do meu sutiã. No momento seguinte, Percy desliza a peça pelos meus braços, dando uma atenção especial com o olhar para aquela região. Percebo que na verdade, ele nunca havia me visto nua, realmente. Na única vez que transamos, estávamos devidamente vestidos.
Não consigo conter o prazer que se forma em meu ventre assim que ele põe os olhos em mim. Consigo distinguir as emoções que ele estava sentindo, assim como eu. Ele se aproxima lentamente, espalmando as mãos nas minhas costas e tomando meus seios com sua boca. Sua língua faz um trabalho invejável, rodeando meu mamilo e sugando-o. Tudo que consigo fazer, além de controlar meus gemidos, é arquear meu corpo na sua direção, pedindo por mais.
Meu corpo está tão quente que consigo sentir o suor se formar sobre minha pele. Percy afasta os lábios de meus seios e volta a me beijar. Dessa vez, tomo liberdade de puxar o tecido da sua camisa bruscamente para cima, até que ele esteja totalmente fora do meu alcance de visão. Aquilo só poderia ter sido esculpido por algum deus, com seus músculos fortes e definidos. Não decido onde colocar as mãos. Deslizo-as pelo seu peito, chegando até os ombros, e ele suspira contra meu queixo quando raspo minhas unhas de leve.
Me inclino na sua direção para poder alcançar a área exposta do seu pescoço. Deslizo os lábios por ali, chegando no seu lóbulo e mordiscando. Em resposta, Percy aperta fortemente minha cintura, e eu posso o escutar arfar no meu ouvido. Sinto o seu cheiro, naturalmente maravilhoso, e não resisto ao prazer que meu corpo me proporciona assim que penso no cheiro do seu corpo sobre o meu.
Ele me retira da escrivaninha, deixando-nos em pé novamente. Meus joelhos fraquejam, e se Percy não me segurasse tão forte, eu provavelmente teria despencado. Gememos em uníssono contra o lábio um do outro assim que nossos troncos nus se encostam. A sensação da sua pele tocando a minha era triunfante, e eu estava buscando sempre por mais.
Desabotoo o botão da sua calça jeans, puxando-a levemente para baixo. Percy termina o trabalho, retirando o tecido e chutando calças, tênis e meias para longe, ficando apenas com sua boxer preta. Ele faz o mesmo comigo, e eu repito os seus gestos, permanecendo com minha calcinha. Embora eu o quisesse muito, queria aproveitar aquele momento o máximo possível para guardá-lo em minha mente.
Seus braços me apertam como se tivessem medo de que eu recuasse. Ele começa a andar para trás, chegando cegamente até sua cama, e caindo por cima de mim estrategicamente. Percy abre minhas pernas, para se colocar no meio delas, voltando a juntar nossas bocas em um beijo voraz. Seu tronco raspando em meus seios conforme ele me beijava só tornava tudo mais excitante.
Suas mãos apertam minhas coxas expostas, fazendo mais pressão nas nossas intimidades para que eu sinta o quanto ele está excitado. Tento reprimir um gemido beijando-o, mas é quase impossível. Os sons se resumiam em gemidos, arfadas, palavras desconexas e ofegantes. Seus dedos se enrolam no elástico de minha calcinha, e Percy se afasta, deixando o tronco na vertical para que pudesse retirar o último pano que cobria meu corpo.
Se abaixa até a altura de minha coxas, e eu mal consigo raciocinar de tanto prazer. Ele abre minhas pernas, colocando ambas por cima de seus ombros largos e se afunda no vão entre elas.
Sinto um beijo molhado bem no meu sexo. Sua respiração quente não ajuda em nada na hora de controlar minha sanidade. Ele estava gostando de me controlar, estava gostando de me provocar. Podia sentir seus lábios se curvarem em um sorriso quando levantou os olhos e provavelmente viu minha expressão carregada de tesão. E foi provavelmente isso que fez com que ele tivesse um pingo de piedade e passasse a língua por toda a minha extensão calmamente.
Agarro o lençol tentando controlar meus gemidos, agora provavelmente altos. Sua língua começa a trabalhar maravilhosamente, fazendo movimentos que eu mal sou capaz de notar. Fecho meus olhos com força, deixando que seus beijos molhados se prolonguem por mais tempo. Ele deveria estar se divertindo com minha expressão, acariciando minhas coxas enquanto alternava os beijos entre minha intimidade e a parte inferior delas.
Aquilo estava me matando. Toda vez que estava me sentindo maravilhosamente bem, ele se afastava propositalmente. Estava corada só de perceber seus olhares para o meu sexo. Isso quando decidia abrir os olhos e me torturar, vendo a cena excitante de Percy se afundando entre minhas coxas, me chupando com vontade.
Não conseguia reprimir meu tesão. Cada simples gesto seu me levava a loucura. Minhas pálpebras não conseguiam permanecer abertas por mais tempo. Meu peito subia e descia conforme minha respiração descompassada. Eu não conseguiria aguentar mais tempo se Percy continuasse me acariciando daquela forma.
— Eu quero tanto você, Annie — ele murmura contra meu sexo, dando mais um beijo molhado ali. Gemo em resposta, sentindo seus dedos acariciarem minhas coxas. — Preciso de você, agora.
— Por favor, Percy — suplico, agarrando seus fios negros com a ponta dos dedos, fazendo menção para que ele finalmente cumprisse nossos desejos.
Ele sorri, se afundando em meu sexo uma última vez antes de se afastar. Seu corpo sobe até o meu, tomando meus lábios para si. Posso sentir meu próprio gosto ali, e posso sentir também o desejo desesperador que tenho de querê-lo dentro de mim.
Como se lesse meus pensamentos, Percy abre a gaveta do seu criado mudo, retirando um plástico metálico. Ele se ajoelha na cama, se livrando da boxer e revelando sua enorme ereção. Não consigo conter o calor entre minhas pernas ao ver aquela cena, aguardando ansiosamente para que ele colocasse o preservativo.
Percy volta aproximar o corpo do meu, agarrando minha coxas quando posiciona o seu membro na minha entrada. Nossas testas estão coladas, e seus olhos esverdeados estão complemente fixos nos meus. Sinto-o me penetrar lentamente, centímetro por centímetro, e seu rosto se contorce em uma expressão prazeirosa, carregada de tesão quando percebe que já estava inteiramente dentro de mim, como um só.
Um gemido manhoso escapa de minha garganta quando o sinto me invadir, lento e duro. Minhas unhas arranham suas costas sem dó, provavelmente deixando marcas avermelhadas por onde passavam. No entanto, aquilo parecia agradá-lo, e meus gemidos serviram de combustível para que ele começasse a estocar em um ritmo lento, mas gradativo.
Seus olhos estavam fixos nos meus e eu não posso evitar de reparar na conexão que nos prendia. Seu rosto se contorcia de prazer conforme ele investia, colando nossas testas. Era triunfante escutá-lo gemer sem pudor contra meus lábios, seus dedos deslizando fortemente por cada centímetro da minha pele exposta. Parecia agora como algo essencial para me manter viva. Tê-lo dentro de mim era tão essencial quanto respirar.
Não estava muito diferente dele. Estava evitando gemer muito alto, mas cada vez que ele investia, cada vez mais rápido, eu não conseguia conter. Só conseguia pensar o quão prazeiroso e excitante aquilo estava. Tentava descontar meu prazer arranhando suas costas e mordendo seu ombro, queixo, lábios. E Percy retribuía na mesma intensidade, hora ou outra tomando meus lábios para si em um beijo desajeitado por conta das estocadas e dos gemidos não abafados.
Seria possível morrer de prazer? Por que eu nunca havia sentido isso antes.
Não sei quanto tempo permanecêssemos ali. A única coisa que eu sabia era que havia perdido completamente a noção do tempo. Não queria que a noite acabasse tão cedo, e se fosse possível, queria ficar para sempre ali. Em um desses momentos, nossos olhos se encontraram. Conseguia perceber o desejo explícito no seu olhar, enquanto ele continuava a se movimentar sobre mim.
Com um último gemido, mais parecido com um urro de ambas partes, em uma última investida longa e forte, chegamos ao nosso orgasmo juntos. Era incrível a facilidade com que nossos corpos conseguiam se conectar na cama. O jeito que eles se encaixavam e respondiam o outro sem algum ensaio. Eu conseguia sentir exatamente o que ele sentia. Conseguia sentir todo o desejo, o tesão, as emoções... Como se fossemos apenas um só.
Percy quebra um beijo que ele mesmo havia começado após termos chegado ao nosso clímax. Ele permanece alguns segundos me olhando, sem sentir vergonha alguma ao passar tanto tempo decorando minhas expressões. Após alguns instantes, ele cai ao meu lado, passando o braço por cima de meus ombros.
— Porra — ele sussurra, e eu percebo que ele tem o costume de soltar algum palavrão assim que atinge seu ápice. Rio com esse pensamento.
Estava tão ofegante que não pude fazer nada além de ser arrastada até deitar em seu peito. Meu corpo parece querer se quebrar em mil pedaços, e eu mal consigo respirar novamente. Minhas pernas estavam tão fracas e bambas que eu tinha a impressão de que jamais voltaria a andar. Bastou os dedos de Percy começarem a acariciar meus fios loiros e suados para que eu deixasse o cansaço tomar conta do meu corpo de uma só vez.
— Isso foi... — Percy começa ofegante, e eu vejo que ele não tem a respiração controlada o suficiente para formular uma frase.
— Eu sei — concordo, soltando o ar em uma lufada só. Seu peito ainda subia a descia debaixo da minha cabeça. Raspo minhas unhas de leve ali, acariciando aquela região e desenhando algumas formas desconexas e talvez não existentes.
Percy ergue o corpo com dificuldade, provavelmente por causa do cansaço. O vejo retirar o preservativo e dar um nó, jogando-o no lixo ao lado da cama. Ele volta para debaixo das cobertas, estendendo o braço na minha direção, e eu não me recuso em aproximar nossos corpos, abraçando seu corpo, e ele faz o mesmo com minha cintura.
Estava completamente devastada, destruída e implorando para um sono. Seu polegar começa a acariciar meu rosto gentilmente, e mesmo com seus olhos presos em mim, eu me permito fechar os meus e aproveitar o cansaço.
— Está com sono? — ele pergunta. Concordo sugestivamente com a cabeça, e sua risada bate em minha testa. — Aproveite para descansar. Eu posso te acordar mais tarde.
Não consigo falar, muito menos tenho tempo para formular uma resposta. O sono já havia tomado conta de mim, e eu não era mais eu mesma no momento que adormeci nos seus braços, que me envolviam com precisão e transmita calor, conforto e... Segurança.
•••
Estava demorando no chuveiro. Minha mãe chegaria em casa pela manhã, e em meio a madrugada, eu ainda estava acordada por dois motivos: a transa que acabara de ter, e o fato de que tinha uma chave mestra em minhas mãos.
Passei longos minutos debaixo da água no chuveiro. Eu estava realmente precisando relaxar, não que sexo não fosse bom parar livrar o estresse; muito pelo contrário. Mas mesmo dormindo alguns minutos contra o peito quente de Percy, aquilo não foi o suficiente para tirar o meu cansaço. Fora o fato de que não consegui cochilar até o caminho de minha casa.
De fato, aquela noite foi a melhor.
Boa parte daquele banho foi gasto pensando nela. Eu estava ainda um pouco extasiada e minha mente resistia a relembrar os últimos momentos com Percy. Seu corpo suado encima do meu, suas mãos nas minhas coxas, seus dentes puxando meu lábio inferior. Seria pouco ao dizer que aquela foi a melhor transa da minha vida.
Desligo o registro do chuveiro decida a tomar mais uma decisão na minha vida. Me enrolo na toalha felpuda e seco todo o meu corpo molhado com certa pressa. Meu pijama já está separado, então deslizo minhas roupas íntimas junto com aquelas peças pelo meu corpo, penteando meus cabelos desajeitadamente.
Sigo pelo corredor com a chave que Percy havia me dado. Ela era a única salvação que eu tinha, e talvez a maior resposta que eu poderia ter em alguns anos. O quarto de minha avó já está com a porta fechada, e eu agradeço mentalmente por isso. Ela sequer desconfiaria do que estava acontecendo.
No fim do corredor, a última porta era do escritório de minha mãe. Ela parece tão tenebrosa agora, como se uma certa sombra rondasse o seu redor. Poderia enxergar aquela parte com tons levemente mais escuros, e eu não pude controlar o desconforto que crescia dentro de meu peito. Um desconforto bem conhecido. Eu estava sentindo um pouco de medo.
Encaixo a chave na fechadura como uma combinação perfeita. Tão perfeita quanto o sítio ativo de uma proteína. Um esquema de chave e fechadura. Preparo meus dedos trêmulos e tirar as chaves, mas não consigo. Quando percebo o que está acontecendo, o pânico invade meus pulmões.
Aquela não era a chave certa.
Retiro a chave novamente, olhando ponta a ponta da mesma. Volto a encaixar na fechadura, dessa vez pedindo que por misericórdia aquilo funcionasse. O que eu mais precisava era descobrir a verdade sobre minha própria mãe, sobre minha própria família.
Com um pouco mais de força, a chave gira e a porta se abre, como se minhas preces realmente tenham funcionado. Solto um suspiro após o susto, mal conseguindo controlar os batimentos em meu coração. Parecia que a qualquer momento eu poderia parar de respirar. Meus pulmões ardiam, quase não conseguindo abrigar a pouca quantidade de ar que eu sugava para dentro. Apenas uma coisa passava pela minha cabeça: eu haja finalmente conseguido, eu estava no território proibido.
Meu peito lateja, e eu rapidamente entro no escritório atrás de mim. Fecho a porta como se aquilo pudesse me proteger de qualquer coisa.
Grandes prateleiras são empilhadas em quase todas as paredes, encontrando livros e revistas. Uma grande mesa está no fundo da sala, com dezenas de papéis espalhados pela mesma. A única cadeira está me mandando algo sugestivo, como se praticamente me convidasse a sentar ali. Fico bons minutos observando a mobília daquele lugar, tentando encontrar característica de minha mãe em cada coisa que havia dentro do seu escritório. Todos os moveis eram escuros, assim em conjunto com o cômodo. A escuridão lembrava minha mãe.
Os minutos seguintes se resultaram em observar as coisas e procurar pistas. Começo pelos livros nas prateleiras e pelas revistas, mas tudo que vejo são futilidades da arquitetura. Não tinha ideia do porque tantos papéis, e então volto minha atenção para eles.
Caminho até a mesa centralizada, observando grandiosos números nesses papéis. Apesar de querer seguir a mesma profissão de Atena, não fazia menor ideia do que era aquilo tudo. Mais tarde eu perguntaria, mas algum instinto me dizia que aquilo representava uma grande quantidade de dinheiro.
Observo muito contratos, com a assinatura de minha mãe presente em todos. Encontro um caderno, mas ao folhear, tudo que vejo é a caligrafia de minha mãe representando algumas contas e textos do trabalho. Muitos esboços, de prédios, interiores de casas, algumas contas geométricas e até mesmo desenhos que não faziam jus ao seu trabalho. Ela era uma ótima desenhista, mas não me lembrava de ter visto algum desenho seu que não se relacionava com sua profissão.
Depois de vários minutos, finalmente dou atenção a uma caixa encima da mesma mesa. Quando chego mais perto, tudo que posso encontrar são tralhas e coisas que seriam jogadas no lixo. Mesmo assim, não resisto em continuar a olhar, e mais tarde, encontro um quadro de vidro quebrado bem no fundo do recipiente.
Quando reparo na foto envelhecida pelo tempo, quase esqueço de como é respirar.
Mesmo com a imagem embaçada e envelhecida, eu consigo reconhecer uma versão mais jovial de minha mãe. Ela era incrivelmente parecida comigo quando mais nova, mas ainda sim, não foi aquilo que me intrigou. Um rosto extremamente familiar estava bem ao seu lado, e eu quase penso que aquela fora uma foto tirada de mim e de Percy, mas então eu reconheço os olhos mais verdes do que o normal, o cabelo mais negro que o normal e a aparência mais igual ao de seu filho do que o normal.
Poseidon e minha mãe estavam abraçados como se tivessem intimidade há anos. Ambos braços estavam esticados, mostrando a marca de queimadura que eles tinham no mesmo lugar. E eu nunca sequer havia notado nessa semelhança entre os dois, mas felizmente, ela explicava muita coisa.
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