Skyfall
19 XVIII
Notas iniciais
As cenas que vi há alguns minutos atrás ainda estavam em minha cabeça. É como se elas não quisessem sair de lá tão cedo, e minha mente ficasse reproduzindo-as no meu cérebro sem parar. Tinha vários pontos de interrogação em minha cabeça, e nada estava facilitando para que eu esquecesse momentaneamente o que acabara de acontecer e voltasse a curtir a festa.
Subo as escadas tentando me equilibrar. Minha mente já estava trabalhando normalmente, e eu estava feliz por ter vomitado tudo que havia ingerido nas últimas horas. Pelo menos, a sensação de estar chapada e bêbada ao mesmo tempo passou, e eu me sentia no estado normal de novo. No entanto, desviar de adolescentes bêbados continua sendo uma tarefa muito difícil na minha própria festa.
Precisava ir ao banheiro. Não por estar me sentindo mal de novo, mas sim porque precisava pensar, e a música alta não estava ajudando. Eu detestava esse tipo de coisa, e nunca passou pela minha cabeça que seria eu a dona daquela festa, onde todos pareciam estar tendo o melhor dia da sua vida, menos eu.
É claro que foi constrangedor ter pessoas me cumprimentando, parabenizando e desejando felicidades. Tudo era culpa de Thalia, que fez questão de avisá-los que era o meu aniversário, mesmo não sendo. Embaraçoso seria uma eufemismo para descrever as expressões das pessoas quando eu dizia que meu aniversário era apenas em maio, afinal, levavam muito a sério quando alguém estava completando 18 anos de vida, o que não era meu caso.
Quando abro a porta do banheiro, tenho a infelicidade de encontrar alguém que faz o mesmo que eu, porém na parte de dentro, o que faz com que quase no trombamos. É a segunda vez que isso acontece, sendo que na primeira encontrei Calipso. Estava esperando uma companhia ruim dessa vez, mas meu corpo se relaxa quando reconheço os dois grandes olhos verdes me encarando com surpresa.
— Annie... — Percy diz, franzindo o cenho ao reparar melhor na minha expressão. — Você está bem?
Tudo estaria muito bem se eu não tivesse visto sua prima transando com seu primo há alguns minutos atrás.
— Estou. — pigarreio, para limpar minha voz, mas mesmo assim não pareço convincente.
— Você sumiu, eu fiquei preocupado... — não parecia tão preocupado quando estava conversando com Calipso. Ele abre um pequeno sorriso, e eu imito seu gesto tentando não prolongar a conversa, porém ele percebe o que estou fazendo, e percebe que não estou nada bem. Sua expressão se fecha no mesmo momento, e seu olhos fazem uma rápida averiguação para descobrir o que eu estava pensando. — Você está bem? Parece meio pálida... Aconteceu alguma coisa?
Eu poderia muito bem abrir minha boca e despejar tudo que eu tinha para falar. É muito difícil me manter de boca fechada enquanto minha cabeça continua a tentar me lembrar das cenas em minha cabeça. Era Thalia, a própria prima de Percy. Com Nico, que infelizmente também compartilhava um laço de parentesco muito forte com eles. Caralho, isso era tão errado que as palavras de Thalia rondavam minha cabeça, sendo bem específica que eu não poderia contar isso para ninguém, nem para Percy.
Percebendo meu estado que ficava cada vez mais pálido, Percy arqueia as sobrancelhas. É só então que me dou conta que estava pensando esse tempo todo, e não havia dado à ele um resposta.
— Não. Está tudo bem, é sério.
Aquilo parece convencê-lo em partes, já que ele me estende aquele sorriso.
— Pensei que estava com ciúmes... — ele murmura, dando de ombros. O maldito queria me provocar. É a minha vez de arquear as sobrancelhas como se não soubesse do que ele estava falando. — Calipso. Eu vi que você estava olhando aquela hora... E eu não sou nenhum idiota. Quando nos conhecemos eu disse que a ignorava todos os dias, e hoje, disse que só pensava em você. Acha que eu seria estupido o bastante para cair na conversa dela? Eu a dispensei como todas as vezes. Ela sabe minhas verdadeiras intenções.
Mesmo que não tenha pedido uma explicação sobre a falta de vergonha de alguns minutos atrás, fico feliz que ele tenha dado. Não precisava arrumar nenhuma discussão mais tarde por causa disso, já que o que ele falou é convincente e fazia sentido... No entanto, eu não estava pálida por causa do meu pequeno ataque de ciúmes.
— Na verdade, eu estou preocupada com algumas coisas da minha mãe. Preciso entrar em seu escritório, mas não tenho a chave.
Dou de ombros, feliz por ter soado convincente com minha desculpa. Assim, Percy não desconfiaria de Thalia e também acreditaria que não era o tipo de garota ciumenta, e pouco me importava com Calipso.
Ele fica alguns segundo calado, talvez processando a informação assim que acreditou nela. Vejo que feri seu ego quando desconversei sobre Calipso, como se ele estivesse esperando que eu ficasse furiosa de ciúmes, e eu não o fiz. Depois, seu semblante volta ao normal, e eu vejo os olhos verdes me fitando com atenção e uma pitada de malícia.
— Tenho uma chave mestra. Posso te emprestar amanhã se quiser, mas só se você aceitar sair comigo.
Ah, merda. Tudo estava indo muito bem, mas ele é Percy Jackson, ele sabe o que falar para uma garota, e sabe ganhar o que quer quando quer. Embora tenha sido uma mentira, a ideia de entrar no escritório da minha mãe para descobrir resposta é excepcional, e eu definitivamente não poderia recusar isso. Mesmo assim, se aceitasse ter a chave, teria que sair com ele, e dessa forma estava dando a Percy exatamente o que ele queria.
Se bem que não seria tão ruim assim sair com um cara fodidamente sexy apenas para uma chave.
— Tudo bem. Me pegue as sete.
Estava prestes a dar as costas e deixar Percy sozinho, quando uma cabeleira enrolada nos chamou atenção. Valdez subia correndo as escadas e quando me viu junto com Percy, seus olhos brilharam como se finalmente achasse seu objetivo.
— Percy, preciso falar com você.
— Pode falar... — ele respondeu, com o semblante confuso.
— Luke está lá embaixo procurando por você... — ele faz uma breve pausa. — Acho melhor você tirar ele daqui.
Percy puxa uma grande quantidade de ar para dentro de seus pulmões, e endireita os ombros como se estivesse se preparando para alguma coisa. Seus olhos encontram os meus por um minuto, e depois, ele os desvia, girando seus calcanhares na direção da escada.
Percy desde os degraus impacientemente, e eu olho para Leo em desespero.
— Ah, meu Deus, isso vai dar–
— Merda. — ele completa, saindo correndo em direção de Percy, e eu não perco tempo em seguir os dois.
Não sei onde Leo estava com a cabeça quando teve a brilhante ideia de pedir para que Percy tirasse Luke educadamente da minha casa. A única coisa que eu sabia era que os dois adoravam uma briga, e da última vez, Luke saiu tão machucado que eu achava que jamais iria vê-lo de novo. Achava que toda aquela merda de rivalidade tinha acabado e eu nunca mais precisaria ver os dois saindo nos socos.
Eu estava fodidamente errada.
Depois que desci as escadas não foi muito difícil descobrir onde Luke estava. A multidão de adolescentes estava concentrada na parte de fora da minha casa, no meu jardim. Peço licença para algumas pessoas que estão gritando e urrando naquela direção, e então vejo as costas de Percy atravessando a porta que dividia os dois cômodos para o jardim.
Quando finalmente consigo chegar do lado de fora, vejo o rosto de Percy mais vermelho do que um tomate quando vê Luke fazendo o que sabe fazer de melhor: ser um idiota. Ele estava bebendo da nossa cerveja e rindo como se nada tivesse acontecido. Uma mesa que foi posta no jardim para sustentar a bebida estava aos pedaços. Os pés estavam quebrados, e ela tombada para o lado com milhares de garrafas despencadas até a grama.
— Percy! — ele abre os braços em confraternização, deixando que a garrafa de cerveja caia no chão. — Eu sabia que você viria.
Sua voz estava embriagada e ele mal conseguia se equilibrar no chão. Seus cabelos loiros estavam emaranhados e os olhos azuis fundos. Seu rosto estava horrível. Completamente horrível. Sua bochecha tinha vários cortes sem curativo, o queixo estava com um grande hematoma roxo, e haviam cortes no seu supercilio. Eu sabia que aquilo foi culpa de Percy quando estávamos na Lótus, no momento em que ele chocou sua cabeça contra a mesa. Mas definitivamente, seu nariz era o pior de todos, com um enorme curativo que precisava urgentemente ser trocado.
— Eu sabia que você viria dar uma de herói... — ele desafia, andando alguns passos à frente. Percy permanece com uma pose relaxa, com as mãos dentro do bolso da calça jeans. — Acho que você não é tão herói quanto parece.
— Não quero repetir o que fiz há alguns dias atrás... — Percy diz, ainda com a posição tranquila.
— Ah, realmente, porque você se garante muito, não é, Perseu? — Luke dá mais um passo, e eu percebo que talvez ele fale a verdade. Percy conseguia vestir uma armadura e acertar um soco em Luke toda vez que estava distraído, mas agora o loiro já estava ciente disso. — Está sempre tão confiante, não é? Que tal alguma coisa para te fazer desequilibrar?
— Vá em frente.
— Rachel — Luke sorri, e vê Percy pela primeira vez engolir em seco e tensionar os ombros. Aquele maldito sabia exatamente o ponto fraco dele, e por algum motivo, a disputa entre Luke e Thalia estava envolvendo Percy junto, por algum motivo pessoal.
Mas é claro...
O negócio dele, além de provocar Thalia, é com você. Algo aconteceu, mas ele só quer descontar isso em você!, foi o que eu disse no dia que conheci Percy, assim que Luke começou a provocá-lo e eu fui obrigada a tirá-lo de lá. Mas agora isso fazia sentido. Agora tudo estava mais claro.
— Que merda está acontecendo? — sinto a voz de Thalia na minha nuca, mas não me atrevo a olhar para trás. Sei que sua respiração está ofegante e ela provavelmente está preocupada em Luke ter descoberto algo. No entanto, assim que agarro seu pulso, sei que ela pode perceber que o segredo estava seguro e que aquilo era entre eles dois.
— Luke está usando a única coisa que pode distrair Percy: o amor de sua vida — mesmo em um momento de tensão, não consigo deixar de enfatizar "amor de sua vida" ao ver a reação de Percy assim que Luke disse o nome dela.
O loiro sorriu ao perceber que algo em sua posição havia mudado. Ele estava conseguindo o que queria, e Percy estava fazendo exatamente o que ele queria. Ele estava perdendo o controle.
— Sabe o que houve umas semanas antes dela ir embora? — Luke continuava com o sorriso malicioso, andando de um lado para o outro no gramado. — Acho que você não vai gostar muito de saber.
— Fale — Percy pede, tão baixo que quase todos ao nosso redor não conseguiram escutar.
— Nós ficamos — o sorriso de Luke havia aumentado ainda mais ao ver Percy não conseguir manter a expressão. Eu sabia o que ele estava sentindo. Não como sentisse alguma coisa além de diferença entre os dois, mas a sensação de ser traído. — Foi mal, foi inevitável.
— Nós éramos amigos.
— Eu sei. Nós realmente éramos. Você deveria saber que ela era uma vagabunda. Como você pôde se apaixonar por alguém como ela? Namorando com você e depois transando comigo. Ah, não devemos esquecer que depois de ser fodida pelos dois, ela foi embora. Para sempre.
Merda. Eu poderia sentir Percy perder o controle aos poucos. Havia sido a merda de um choque e tanto descobrir que a garota que ele amava o traiu com seu melhor amigo, e mesmo depois de tanto tempo, o mistério de Rachel ter sumido voltou à tona.
— Você não chamou ela disso... — Percy ralhou, se referindo ao termo "vagabunda".
— Ah, eu chamei sim. Depois disso nos afastamos bastante, não é Perseu? Até chegar o dia que você me deu um soco na frente da escola inteira. Estou aqui para retribuir o favor. Não como se eu me importasse com aquele ditado "amigos antes das vadias".
Aquele foi o estopim. Dessa vez, Luke foi muito mais esperto em provocar Percy até que ele estivesse em seu limite. A história de Rachel era de fato uma das coisas que mais o afetava. Eu não conseguia imaginar como seria se a pessoa que eu amasse me deixasse de repente, e muito menos depois descobrir que ela me traia. Não poderia imaginar como seria para Percy receber essa notícia, mas eu teria feito exatamente o que ele fez: tentar acertar a cara de Luke em cheio com um soco.
O único problema foi que o loiro já estava preparado para receber aquele soco, já que esse era o princípio desde o começo. Percy fez exatamente o que ele queria.
Luke desviou do seu punho fechado, e logo em seguida deu um soco forte no maxilar de Percy que o fez cambalear para trás, caindo no chão com um baque surdo. Todos ao redor gritaram quando o loiro subiu em cima dele, dando mais um soco em seu rosto, que fora capaz de reproduzir um som tão alto que fez meu dedos tremerem.
— Isso é por ter me dado um soco no nariz! — Luke disse, após dar o soco. — Isso é por ter batido minha cabeça contra a mesa!
Ele deu mais um soco, e eu não consegui me mover diante da situação. Meus pés haviam criado raízes no chão e o ar de meus pulmões parecia ter se esvaído em uma lufada só. Olho para os lados, encontrando Nico e Valdez perplexos com a cena. Acredito que nenhum de nós acreditaria que Percy perderia essa briga assim tão fácil.
— Façam alguma coisa! Agora! — berro, assim que consigo recuperar meus sentidos.
— E isso é por transar com a garota que eu gostava! — ele deu um último soco antes de ser puxado bruscamente para trás por Nico e Leo.
Vejo que nenhum dos adolescentes ali tem menção de parar com a briga, apenas os dois, que puxavam os braços de Luke, que continuava a se debater para continuar a socar Percy no chão.
Saio correndo até o lugar no gramado que eles estavam, ajudando a puxar Luke dali, mesmo com medo de levar um soco sem querer. Thalia aparece ao meu lado, e com um pouco mais de força, conseguimos arrancar Luke de cima de Percy.
Não percebemos, apenas Luke, por que foi o motivo dele querer continuar com a surra, mas Percy estava sorrindo abertamente, com a cara manchada com seu próprio sangue. Ele ria maldosamente como se fosse a última coisa que fosse fazer na vida assim que Luke mencionou Rachel implicitamente, e isso só fez o loiro mais furioso. Mesmo assim, ele continuou rindo como se nada mais importasse.
•••
Molho o algodão com soro fisiológico e o deixo bem úmido para o que viria a seguir. Percy está sentado na bancada da cozinha com a pior cara emburrada que eu já havia visto. Ele resmungava de dor cada vez que me levanta para limpar seus machucados, virando o rosto logo em seguida por causa da ardência em sua pele.
Após Thalia ter dado um jeito de expulsar todos de casa, inclusive Luke, trouxemos Percy para a cozinha que ainda estava um pouco zonzo. Ele deveria aproveitar tanta mordomia, já que servíamos água e doces para ele. Em parte pareceu funcionar, após ter levado uma boa parte de seu rosto e limpado seu sangue do nariz.
Dirijo o algodão para o corte acima da sua sobrancelha percebendo seus olhos se fechando assim que encosto em sua pele. Soro fisiológico não deveria arder tanto quando parecia, mas a sua carne estava exposta, e isso sim deveria doer muito assim que encostasse qualquer coisa ali.
— Está doendo? — pergunto, inutilmente.
— Um pouco — confessa, abrindo um sorriso de lado e levantando seu olhos na minha direção. Por um momento fico perdida neles, esquecendo da minha tarefa de limpar seu machucado. — Onde aprendeu a fazer isso?
Pisco algumas vezes, tentando voltar para a realidade. Volto a limpar seu machucado, engolindo em seco.
— Na verdade, é a primeira vez que eu faço isso.
— Parece que fez isso a vida inteira... — comenta, e eu dou um sorriso de canto. Não estava disposta a conversar, e ele parece perceber isso, já que o silêncio se instala entre nós dois bruscamente. Após alguns segundos, ele pigarreia. — Acho que te devo algumas explicações.
Dou de ombros.
— Você não me deve nada.
— Annie... — Percy murmura, e eu volto minha atenção à ele. — Não quero que você pense que eu ainda tenho sentimentos por Rachel.
Eu detesto como o nome dela é pronunciado por ele. Seus lábios movendo-se vagarosamente com aquele sotaque britânico que nunca foi capaz de me irritar vindo dele.
— É exatamente o que eu estou pensando — ralho.
— Isso foi há muito tempo atrás.
— Quanto tempo?
— Dois anos.
Molho o algodão no soro fisiológico e volto a encostá-lo na sua pele sensível e machucada. Vejo ele apertar os olhos, e me questiono se aquele machucado deveria levar pontos ou não.
— E se você não sente mais nada por ela porque guarda uma foto sua no seu quarto?
— Ela foi muito especial pra mim — tento controlar a vontade de revirar os olhos, e talvez Percy tenha percebido. — Ela era boa, de verdade, não havia maldade nela. Era impulsiva, tagarela. Era a única coisa que eu realmente tinha na minha vida.
— Porque você fala dela no passado?
— Porque ela foi embora.
Engulo em seco ao escutar seu tom de voz grave e rouco ao dizer aquilo. Ele não fraquejou por um segundo. Talvez não fosse a primeira vez que ele dizia essa frase. Ela deve ter sido repetida diversas vezes no ano em que Rachel sumiu. Após algum tempo, deveria ser fácil se acostumar com a realidade, tanto que agora não sente nenhum remorso em dizer de forma fria o seu passado.
— Porque você acha que ela fez isso? — sussurro, continuando meu trabalho de limpar o sangue acima da sua sobrancelha.
— Eu nunca tive uma ideia e nunca quis pensar a respeito. Mas depois de hoje tenho algumas teorias.
— Acha que ela ficou confusa em ter que escolher entre você e Luke e então fugiu?
— Talvez — ele pondera, balançando a cabeça. — Ela era impulsiva o bastante para fazer isso.
— Parece que ela não era tão boa quanto você imagina. Namorando com você mas abrindo as pernas para seu melhor amigo.
Não queria ter soado rude, mas quando percebo o que realmente disse, é tarde demais. Meus músculos tensionaram e eu sinto o corpo de Percy também ficar rijo no momento em que digo isso. Sei que estraguei tudo, mas eu conseguia odiar aquela garota sem ao menos conhecê-la. A intenção nunca foi ofender Percy, mas não posso evitar o meu lado impulsivo agindo neste momento.
— Me desculpe. Não foi o que eu quis dizer.
— Tudo bem, talvez você esteja certa — ele confessa, mostrando um sorriso de lado. Meus ombros relaxam no mesmo minuto, tendo consciência de que não foi dessa vez que eu estraguei tudo.
Ficamos nos olhando por um tempo, embora meu subconsciente diga que eu fui uma vadia ao jogar isso na cara de Percy. Talvez meu rosto tenha corado, mas não percebi ao escutar uma terceira voz ser adicionada na nossa conversa.
— Ok, pombinhos, mas agora é hora de ir — Nico bate uma palma quando entra na cozinha, seguido por Leo e Thalia. Aquele som foi alto o suficiente para fazer com que eu me afastasse de Percy drasticamente, limpando a bancada da cozinha com os algodões sujos e levando tudo até o quite de primeiros-socorros.
— Levem Percy no medico, talvez ele precise levar alguns pontos — digo, sem olhar para eles.
— Tudo bem — Nico assente.
Percy desde da bancada e caminha em minha direção. Sinto meu corpo ficar rígido quando ele está perto demais. Puxo uma grande quantidade de ar ao reparar nos seus olhos verdes me fitando gentilmente.
— Obrigada por me ajudar — ele dá mais um passo para frente, fazendo com que nossos rostos ficassem tão perto a ponto das nossas respirações se intercalarem... Isso se eu me lembrasse de como era respirar. — Até amanhã, às sete horas.
Sua mão esquerda se apoia no meu rosto quando ele desvia a atenção dos meus lábios para depositar um beijo longo em minha bochecha. Aperto os olhos ao sentir o toque da sua boca tão perto da minha, e logo depois se afastando. Praguejo mentalmente ao perceber o efeito que meu corpo tem quando está tão próximo do dele, a ponto de me fazer esquecer onde estava e quem eu era.
Ele se afasta e toma parte ao lado de Nico e Leo, e eles conferem se estão com as chaves do carro, de casa e a carteira antes de caminhar até a porta da frente.
— Você não vem, Thals? — Leo questiona, e assim eu percebo que Thalia está com o corpo encostado na pia da cozinha como se não fizesse menção de sair dali.
— Eu e Annie precisamos conversar. Vou ficar por aqui. Nos vemos amanhã.
Engulo em seco porque sei o que está por vir. Eu não podia simplesmente dizer "não", mas não poderia evitar que aquela conversa aconteceria em breve.
Os garotos balançam a cabeça em concordância e eu os vejo sair pela porta da frente, deixando eu e Thalia sozinhas no cômodo.
•••
Deixo que a água quente tente livrar toda a tensão do meu corpo sobre o dia que havia se passado. Eu tinha certeza de apenas duas coisas: evitar ficar chapada novamente e evitar brigas.
Tomar banho era como uma anestesia para meu corpo. Quando morava em Nova York não tinha a mesma facilidade em fumar cigarros para deixar a nicotina fazer a tarefa de afastar qualquer tensão de meu corpo, e todas as vezes que eu me sentia nervosa ou algum problema acontecia, eu resolvia tomar banho.
Não sei quanto tempo demorou para eu descobrir que banhos aliviavam meu estresse diário. Com o passar do tempo, toda vez que algo ruim acontecia, eu corria direto para o banheiro para deixar que a água quente que despencava do chuveiro limpar todo o restante das preocupações. Toda vez que eu sentia raiva, medo ou insegurança, eu corria para o chuveiro com a finalidade de me tranquilizar.
Não poderia deixar de evitar que os vinte minutos que estava dentro do banho também serviam para evitar Thalia. Não trocamos nenhuma palavra até eu dizer que iria tomar banho, e boa parte desse tempo era para adiar a conversa que ela provavelmente teria comigo.
Tomo consciência de que minha avó ficaria muito puta se eu passasse mais um minuto gastando água, e então, em nome dela eu desligo o registo do chuveiro e me esgueiro para fora do box para alcançar a toalha fofinha que deixei pendurada para me secar.
Enrolo mais alguns minutos, desprendendo meu coque mal feito e observando o caos que estava meu cabelo assim que o olhei no espelho. As madeixas loiras estavam bagunçadas e despenteadas, mas como era Thalia que estava do outro lado da porta, não me importo em deixá-las assim, em conjunto com a minha maquiagem borrada.
Saio do banheiro para encontrar Thalia deitada no colchão ao lado da minha cama, que preparamos minutos antes para que ela pudesse dormir aqui. Ela mexia despreocupadamente no celular, com o brilho do visor sendo a única luz que iluminava seus olha elétricos prestando atenção em mim quando sai do banheiro.
Já havia me trocado na frente de Thalia uma outra vez, então não me senti envergonhada de colocar meu pijama. Subi até minha cama cheia de cobertores e me afundei dentro deles, deixando que eles tentem fazer o trabalho de me esquentar mesmo com o frio. Deito-me de lado, de forma que consiga enxergar Thalia virada de frente para mim com a cabeça nos travesseiro. Passamos alguns segundos assim até ela pigarrear.
— Você está tendo alguma coisa com meu primo?
Fico um tempo em silêncio pensando na resposta. Da última vez que me perguntaram isso eu respondi que não, e depois tive que aguentar Calipso dando em cima de Percy descaradamente. Mas era Thalia, não? Não deveria ter problema nenhum dizer essas coisas para ela, mesmo que eu não soubesse um rótulo certo para dizer o que estávamos tendo.
— Nós transamos.
Ela abriu um sorriso mínimo de aprovação.
— Eu sabia que isso ia acontecer. Quantas vezes?
— Apenas uma.
— Droga, vocês precisam fazer isso mais vezes.
— Não tenho tanta certeza disso.
Thalia arregala os olhos, arqueando as sobrancelhas.
— Você é a primeira pessoa que eu escuto dizendo isso. Não foi bom?
— Não! Foi bom. Muito bom. Mas sinto que se fizermos isso mais vezes alguém vai sair com o coração partido.
— Tá com medo de se apaixonar?
— Eu não me apaixono.
Thalia ri, fazendo com que sua risada ecoe por todo o quarto.
— Qual o nome? — ela pergunta.
— Nome de quem? — respondo, franzindo o cenho.
— Do cara que quebrou seu coração.
Engulo em seco, tentando livrar os pensamentos daqueles anos para longe de mim. Não é como se eu estivesse apaixonada por ele quando isso aconteceu, mas era o mais próximo que eu tinha de chorar por alguém que não sentia o mesmo que você.
— Não teve nenhum cara. Eu nunca me apaixonei.
— Então se você não se apaixona e Percy também não, vejo que não tem um motivo sólido para você se afastar dele.
— Que seja — tento evitar pensar em Percy naquele momento. Amanhã eu já o veria de novo. — E você e Nico? Como tudo aconteceu?
No desespero de tentar mudar de assunto rapidamente não dou conta de que havia tocado no assunto que estava tentando evitar. Seu sorriso se desmancha no mesmo minuto e ela toma uma postura séria. Thalia passa alguns minutos em silêncio, provavelmente formulando uma resposta.
— Nós éramos pequenos e tudo começou com uma brincadeira de criança. Isso não parou até a adolescência, e nós ficamos mais...íntimos. Tivemos nossa primeira vez juntos, mas sabíamos que não poderíamos contar para ninguém, senão nos julgariam e nossos pais nos separariam. Quando começaram a questionar nossa proximidade, eu e Nico combinamos de nos envolver com outras pessoas. Foi assim que meu namoro com Luke começou, e pareceu aliviar a tensão... Até ele colocar na sua cabeça que eu estava o traindo e espalhar para todos — Thalia respira fundo, e eu posso sentir o peso que as palavras têm agora. Mesmo aquilo sendo errado, não parecia. — O ponto é que... Nós não escolhemos quem amamos.
Mesmo quando você é criança, você sabe que amor entre primos é errado, quem diria irmãos. Existiam comprovações genéticas de que um filho assim sofreria complicações. Tudo no mundo tinha alguma explicação. Eu gosto o bastante de biologia para entender que o fato dessas complicações genéticas acontecerem tem um motivo. Mas mesmo assim, escutando Thalia falar desse jeito, sei que não parece tão ruim como na primeira vez. Parece compreensível, como se eles fossem apenas duas pessoas que se apaixonaram e temem a ficar juntas.
Acontece que seria difícil ficarem juntos. Eles não podiam ser como um casal normal, podendo apresentar para a familiar ter filhos juntos. A família era mesma, as chances de um filho nascer com complicações é de 50%. Além do mais, o que as pessoas falariam deles? Elas têm costume de julgar tudo e todos, e nem todo mundo olha para essa situação da mesma forma.
— Acho melhor dormimos — ela diz, depois de um tempo, virando de costas para mim. — Boa noite, Annie.
Fecho os olhos absorvendo essas informações. Fico pensando em como deveria ser para os dois nessa situação, mas então acabo começando mais um sonho que nem lembrava do momento que realmente cai no sono.
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