Skyfall
17 XVI
Notas iniciais
Escolhi vestir uma roupa casual. Sei que não estava muito atraente com um suéter antigo, porém compensei a falta de estilo alisando os cabelos e caprichando na maquiagem. Não exatamente o tipo de coisa que eu era especialista em fazer, mas após algumas dicas de Thalia, passei a usar mais rímel e mais lápis para realçar meus olhos.
Por volta das 19h00, a campainha tocou, no exato momento que Percy disse que apareceria quando me mandou uma mensagem algumas horas antes. Desço as escadas mais rápido do que o planejado, com medo de minha avó resolver atender à porta antes de mim. Ela de fato, não poderia sequer pensar nos nomes daqueles adolescentes... Quero dizer, no sobrenome.
Agarro a maçaneta dourada e abro a porta, conferindo 4 adolescentes carregando mais coisas do que o absoluto. Thalia estava com duas garrafas de vodka, uma em cada mão. Nico estava de mãos vazias, porém enfiadas dentro do bolso, Leo estava com um pack de cervejas, pesado demais para seu peso. Por fim, Percy estava com um enorme bolo cor-de-rosa em seus braços.
Não sei muito bem como reagir ao vê-lo. Não vou mentir ao dizer que meu coração não se acelerou quando nossos olhos se encontraram. Eu não podia negar o efeito que ele tinha sobre mim. Seus olhos me atraiam como imãs de polos diferentes.
— Feliz aniversário! — Thalia gritou, levantando as garrafas de vodka para cima, em tom de comemoração. Agora sim eu havia entendido o porquê de Percy carregar um bolo, mesmo que ele fosse cor-de-rosa. — Desculpe pela cor do bolo, foi o único que encontramos. E ele estava bem em conta, se quer saber.
— O quê? — digo.
— O bolo. Festa. Aniversário.
— Thalia, meu aniversário é em maio.
— O quê?! Percy me disse que era uma festa... — Thalia retrucou, olhando para os três garotos atrás dela. — Nós temos a bebida, a comida, o pessoal e bagulho do Nico que está no bolso da jaqueta. Eu achei que nós iríamos ficar mais loucos que o Batman hoje!
Passo os olhos por todos eles, reconhecendo cada item que Thalia citou. Eu fechei os olhos em desespero, torcendo para que minha avó não tenha escutado que Nico estava com maconha dentro de seus bolsos.
— Ok, Thalia. Eu certamente estou vendo a bebida, a comida, e mesmo que não esteja vendo a droga do Nico, eu sei que ela está lá — falo a última parte em um tom mais baixo para que minha avó não escutasse. —, mas eu não estou vendo nenhum pessoal. O que você quis dizer com isso?
— Bem, eu achei que era seu aniversário... — Thalia começou, mas logo em seguida, Leo a interrompeu, vendo que ela estava sem jeito para dar uma boa explicação.
— Thalia deu seu endereço pra umas 300 pessoas, e elas estão vindo aqui com o desejo de fazer esse dia ser o melhor de sua vida.
Desta vez, deixo que todos eles vejam o desespero tomar conta de meu olhar. Cubro meu rosto com as mãos, impaciente. Imagino minha casa tomada por adolescentes bêbados enquanto minha avó pensa em um bom castigo para me dar. Eu definitivamente não fui feita para me adaptar a festas de arromba, amigos drogados e uma vida regada de álcool, drogas e sexo. Embora fosse muito excitante pensar dessa forma, festa nenhuma poderia acontecer na minha casa hoje.
— Thalia, vou te explicar uma coisa: minha avó está aqui, e por algum motivo, eu acho que ela não ficaria muito feliz com 300 adolescentes na sua casa.
— Annie, você é tão inocente... — Thalia diz, como se uma ideia surgisse na sua cabeça no mesmo instante. — Eu sempre tenho um plano.
Sinto passos ecoarem atrás de mim. Não preciso de muito esforço para reconhecer que era minha avó. Viro-me para trás, e ela já carregava um copo de uísque em uma mão, e na outra, um cigarro ainda intacto.
— Margareth! — Valdez berra, acenando para ela que abre um sorriso ao vê-lo.
— Leo! Você por aqui?
— Ah, meu Deus. Eles se conhecem... — escuto Thalia xingar baixinho, dando um passo à frente.
— Vovó, esses são meus amigos... — digo, afastando-me da porta para que os quatro adolescentes pudessem passar por mim.
Apresento-os para minha avó, que com uma carisma desnecessária, é extremamente simpática com eles. Nico foi mais tímido que o usual, e Thalia ainda mais agitada e extrovertida. No mesmo momento em que as duas se olharam, eu soube o que aquilo significava. Era o começo de uma amizade. Ela conseguiu engatar em uma conversa com minha avó mesmo segundos após terem se conhecido, e mesmo o amontoado de sorrisos extremamente gentis, eu queria muito acreditar que aquilo era verdadeiro.
Após minha avó ter cumprimentado todos, Percy andou um passo em sua direção, estendendo uma mão desprendida do bolo rosa.
— Vovó, esse é–
— Percy... Percy Jackson.
Sinto a culpa invadir meu interior com um baque surdo. As apresentações estavam indo muito bem, desde então. É claro que meu plano inicial era não revelar nenhum sobrenome, e era exatamente isso que eu estava prestes a fazer. Mas se Percy não fosse tão narcisista e orgulhoso, dizendo seu nome e sobrenome em bom tom, com aquele sorriso de canto completamente sedutor, nada disso teria acontecido.
Parece que os sorrisos morreram naquele instante. O meu e de minha avó. Primeiro ela, que no mesmo momento se lembrou da conversa que teve comigo, provavelmente. E logo em seguida eu, que percebi que Percy não tinha culpa. Não era sua obrigação saber de meus planos secretos.
O olhar de minha avó é lançado contra o meu, encarando-me com uma das piores expressões que eu já havia visto. Um misto de decepção e raiva, e eu poderia jurar que ela era capaz de me matar ali mesmo. Eu sabia as consequências agora, ela faria questão de contar a verdade para minha mãe.
— Olha! Você tem um cachorro!
A atenção é voltada para Thalia, que gentilmente estica os braços para o grande pastor-alemão de minha avó. Agradeço mentalmente por ela ter dito aquilo, que sendo proposital ou não, a tensão presente no lugar se dissipou no ar como fumaça.
— Qual o nome dele? — Thalia perguntou.
— Eddy. — respondo, e dois pares de olhos estão fixos em mim como se eu tivesse falado pela primeira vez que a terra era plana.
— Não acredito que você falou isso... — Leo adverte, batendo na própria testa.
— É Gutemberg. — minha avó complementa, com a voz dura.
Thalia não se importa com o nome do cachorro. Ela está muito feliz fazendo carinho em sua cabeça, orelhas, peito, patas... Ou ela realmente estava tentando ganhar a confiança de minha avó, ou Thaloa era o tipo de garotas que ama cachorros grandes.
— Tanto faz. — resmungo, dando de ombros. É um nome muito difícil de se pronunciar.
•••
Levo a garrafa de cerveja em minha boca mais uma vez. Já não sentia tão nitidamente o gosto ácido da cerveja atravessando meus lábios, na verdade, estava se tornando um pouco prazeroso.
Maldita seja Thalia que conseguiu ganhar a amizade de minha avó. O lado bom nisso, foi que ela nos permitiu beber tudo que trouxemos, sem pestanejar. Eu não era a maior fã de cervejas, mas confesso que cervejas com gengibre não era de se negar.
Percy havia terminado um pequeno pedaço do bolo que ele mesmo trouxe. Soube que era de abacaxi, mesmo que por fora fosse rosa. Eu adorava bolo de abacaxi, mas no momento, eu precisaria estar de estômago vazio para ficar o mais bêbada possível.
Percy estava com aqueles maravilhosos olhos verdes, reparando tudo ao seu redor. Ele inclina o garrafa de cerveja contra os lábios, e eu me pego surpreendentemente encarando aquela cena, e mordendo meu próprio lábios inferior por isso. Droga, eu ao menos conseguia controlar meu próprio corpo.
— Vocês estão fodendo? — sinto a voz de Nico atrás de mim, seu hálito fresco batendo no meu pescoço.
Viro meu corpo de repente, encontrando o garoto com os cabelos grandes encarando Percy, com um sorriso malicioso estendido a mim.
— O quê? — minhas bochechas coram involuntariamente. — Por Deus, não...
— Bem, eu acho que vocês estão fodendo. — ele alterna o olhar entre mim e Percy, enquanto ele ainda está com a garrafa de cerveja nas mãos. — Ele te foderia, isso eu tenho certeza.
— Como você pode ter tanta certeza assim? — provoco.
— Porque ele já disse... — arqueio minha sobrancelha em sua direção.
— Quando, exatamente?
— Acho que logo depois que ele te conheceu. Todas as vezes que conversamos depois disso, ele comentava que te foderia.
— Do jeito que você fala pareço uma prostituta.
— Ah, eu não interpretaria dessa forma... — Nico sorriu, oscilando o olhar para mim novamente. — Eu posso estar com uma mania dos infernos de falar palavrão, mas tudo isso é por causa de Thalia, admito... O jeito que ele fala parece mais como te colocar em um pedestal.
— Ele comentou com você se já transamos alguma vez? — testo, evitando pronunciar a palavra "foder" tão tranquilamente como Nico.
— Não comentou nada. — ele responde, e faz uma pausa dramática. — Mas por você ter feito esse tipo de pergunta, acho que estão fodendo.
Reviro os olhos, engolindo em seco quando sinto meu rosto esquentar. Merda, eu estava ficando vermelha de novo, e isso realmente não era algo tão comum, que acontecia com frequência. Nico ao meu lado percebe o rubor em minhas bochechas, e acaba soltando uma risada que me deixa mais vermelha ainda.
— Bem, eu vou indo. Com certeza sua avó e Valdez também estão fodendo, já que ele não para de conversar com ela. De qualquer jeito, seu príncipe fodedor está bem ali. Nos vemos mais tarde na hora de fumar do meu baseado. Falou.
Nico dá as costas para mim, encontrando Percy na porta da cozinha, quando os dois dão um aperto de mão estranho. Eu não sabia que eles eram tão próximos a ponto de discutir experiências sexuais tão constantemente. Principalmente as que eu estava envolvida.
Meus olhos e de Percy se encontram quando ele põe os pés na cozinha. Rapidamente, eu desvio o olhar, porque sabia exatamente o que acontecia se eu ficasse ali, parada, admirando o verde de seus olhos. Aquilo era um tipo de manipulação para fazer com que eu fizesse exatamente o que ele queria: me entregar... Eu passei uma noite inteira o evitando. Não seria agora que eu me renderia tão facilmente apenas com um pedido de desculpas.
— Gostou da cerveja? — sinto seu hálito bater no meu ouvido, e só então me dou conta de que ele está absurdamente perto.
— Hm-hn... — respondo apenas. Ele encosta os cotovelos no balcão da cozinha que eu estava, raspando de leve nossos braços.
— Você não se incomoda de Valdez ficar conversando tanto com sua avó? Quero dizer, parece que ele está dando em cima dela.
— Eles são amigos, não seja idiota.
Percy levanta as mãos na altura da cabeça, em posição de rendimento.
— Uau! Me desculpe, senhorita Grosseria e Cabeça Dura. Foi uma brincadeira.
Permaneço em silêncio por tempo demais. Talvez tempo demais para Percy finalmente notar que eu não falaria nada. Eu só queria ficar o mais bêbada possível para tentar esquecer os problemas, tanto da minha mãe, quando os relacionados à ele.
— Annie... — ele começa, virando seu corpo para ficar de frente para mim. Eu faço o mesmo, tentando parecer indiferente quando levanto uma sobrancelha sugestiva em sua direção. — Eu já disse desculpa.
— Isso não tem nada a ver com a brincadeira. Acha que eu ficaria brava por causa de Valdez e minha avó? Nico acabou de fazer a mesma piada antes de você chegar, e eu não estou choramingando por isso.
— Annabeth... — ele ri de lado, colocando as mãos na minha cintura. Foi uma idiotice ter tirado o suéter e ficado de regata apenas por que estava sentindo calor graças ao álcool. Senti seus dedos quentes encostarem na parte desnuda do meu quadril, fazendo com que um arrepio percorresse minha espinha. — Eu não estou falando sobre a piada. Estou pedindo desculpas por ontem.
— Ah... — percebo a gafe que havia cometido. Fecho os olhos e balanço minha cabeça, mas quando os abro novamente, eles encontra ameaçadoramente a imensidão esverdeada que analisa os traços do meu rosto com atenção.
— Eu realmente não queria ter gritado. Você precisa acreditar em mim agora. Eu sei que parece totalmente desastroso e instável, até um pouco obsessivo, mas eu não consigo tirar você da minha cabeça nos últimos dias.
Seu aperto em minha cintura se intensifica, e agora posso sentir suas duas mãos ali, envolvendo meu corpo pequeno em relação ao seu. Minhas mãos se espalmaram em seu peito sem ao menos perceber, e acontece o que eu temia. Estava completamente enfeitiçada pelo seu olhar que não conseguia mais me afastar. Nossos corpos estavam absurdamente perto, e minha mente gritava "não! Você precisa sair daí agora!", mas eu simplesmente não conseguia.
— Percy... — murmuro, apertando meus olhos com força. Quando os torno abrir, sigo a imensidão verde analisando meus olhos, minha bochecha, meus lábios... — Minha mãe realmente estragou meu dia hoje. Eu preciso muito de uma bebida que faça com que eu esqueça essa parte do meu dia... Você pode pelo menos tentar me ajudar a tirar os problemas da minha cabeça?
— Meu jeito de tentar tirar os problemas da cabeça é, digamos, um pouco diferente... — ele aproxima drasticamente do meu rosto, roçando nossos narizes. Fecho meus olhos, esperando o encostar de nossos lábios, que não vem...
— Aí, galera! — é a voz de Thalia. Nos separamos rapidamente, como se o que acabara de acontecer há alguns segundos atrás nunca tivesse acontecido. — Me ajudem a levá-la para cima.
Quando meus olhos encontram quem precisamente a Thalia estava falando, era tarde demais. Na poltrona que minha avó estava conversando há alguns segundos atrás, agora ela está dormindo tão serenamente que eu não acreditava que via aquela cena. Foi então que a ficha caiu...
— Você drogou minha avó? — praticamente berro, dando um passo até Thalia.
— Não droguei ela, apenas dei um remédio que uso para dormir, colocando no seu copo de whisky.
— Ah, meu Deus! Você drogou ela sim! — resmungo, escutando várias pessoas dizendo "se acalma Annie", mas aquele era o tipo de coisa que não deve se falar quando alguém está irritada.
— Annabeth, espera! Eu garanto que esse remédio vai fazer ela dormir tranquilamente, não tem nenhum tipo de alucinação. É seguro. Mas você mesma permitiu que eu executasse meu plano B, e agora precisamos tirá-la daqui e levá-la lá para cima antes que 300 adolescentes bêbados e estupidos apareçam aqui. E acho que você não vai gostar disso se sua avó estiver aqui embaixo, não é?
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