Skyfall
11 X
Notas iniciais
Tiro da minha bolsa meu maço de cigarros e um isqueiro. Por sorte, como a mesma é pequena e abriga poucos objetos, eu não tenho dificuldades em achá-lo, como de costume. Comprimo um de filtro vermelho entre meus lábios, levando a chama pálida e alaranjada até a ponta do cigarro, acendendo-o.
Puxo a fumaça, que entra direto para o meu pulmão em uma longa tragada. Meu corpo absorve o efeito da nicotina de imediato, deixando que os meus músculos tensos e rígidos, lentamente amolecerem, afastando também qualquer outro sinal de tensão em meu corpo.
Solto um suspiro exaustivo quando a fumaça escapa de meus lábios. Era incrível a facilidade com que um cigarro trazia-me mais confiança e auto-estima, livrando-me do estresse de recentes problemas... Não havia nada que um maço de cigarros não pudesse resolver, no meu ponto de vista.
Encaro as pequenas pedrinhas brancas, brilhando ao luar, bem embaixo dos meus sapatos. Brinco com algumas, prestando atenção ao som que emitiam toda vez que raspava meu salto ali. Fiquei poucos segundos brincando com aquele som, até que levo o cigarro de volta aos meus lábios, em uma intensa e magnética tragada, soltando a fumaça que restou em meus pulmões, e assoprando-a para longe.
Meus olhos fixam-se na fumaça que escapa da minha boca. Ela se dissolve aos poucos contra o ar, e eu continuo a prestar atenção na sua separação, até que ela percorre à uma direção mais ao noroeste, levando-me até onde encontra-se a porta do fumódromo, entreaberta graças a uma grande prevenção.
É inútil a forma como a fumaça tenta omitir seus olhos verdes, como joias em um lugar escuro. É como se eles simplesmente ignorassem o fato da neblina passando entre eles, sublinhando-a, e encontrando minhas orbes acinzentadas, alheia a qualquer tipo de movimento seu.
Seu terno é trajado completamente bem. A camisa social, juntamente com o paletó, realçam seus músculos por dentro do tecido. Eu não precisava ser muito inteligente para tentar adivinhar que o quê tinha ali embaixo, não era de se jogar fora. E aliás, ninguém precisava ser... Ele anda divinamente sobre o local do fumódromo, em minha direção, como se as pedrinhas brancas fossem feitas para reproduzirem aquele barulho de uma forma mais suave, apenas quando ele pisava. Seus cabelos, embora fosse uma ocasião especial estar no Lótus, estavam no caos sexy e diário. Os fios negros e lisos, espalhados pela sua cabeça de forma desorganizada, trazendo o seu visual cotidiano.
Ele já está perto demais para eu tentar organizar um pensamento raivoso em voz alta. Provavelmente, se eu pensasse na hipótese de xingá-lo, eu certamente acabaria o fazendo. Mesmo que eu estivesse prestes a despejar as cinzas de meu cigarro sobre sua pele pálida, até que a deixasse em carne viva, de alguma forma ele consegue inibir o efeito que tenho dele. Meu coração acelera, e minha saliva torna-se pegajosa. Ele não sabia que toda vez que chegava perto demais, meu corpo entrava em uma tensão estranha.
— Posso me juntar a você?
Meus olhos devem ter visualizado ele tão lentamente e descaradamente, que ele provavelmente estaria se sentindo desconfortável. Dou de ombros, tentando raciocinar a sua frase para longe dos meus pensamentos homicidas, (não sabendo que aquilo poderia ser ou não um indício de ciúmes) concentrando-me na nova tarefa de me manter estável a sua presença.
— Vá em frente. — ralho, levando o cigarro mais uma vez para os lábios, desviando meu olhar da imensidão verde, destacando-se no escuro do fumódromo.
Em poucos segundos, mesmos sem olhá-lo, escuto o nítido som do isqueiro sendo aceso, e em seguida, o barulho extasiante do tabaco queimando. Tento concentrar meu foco nas diferentes alternativas de adultos que encontravam-se no fumódromo. Mesmo que nos dias atuais, a pratica não fosse muito bem vista, na Europa, aquilo parecia ser venerado como um dos hábitos mais comuns.
— Por que está com essa cara? — o sotaque britânico estala aos meus ouvidos, tirando o foco das pessoas divergentes do local, embora elas tivessem algo em comum: o hábito de fumar.
Permito olhá-lo brevemente, por um segundo e então volto a prestar a atenção em uma linha horizontal imaginaria, tragando meu cigarro.
— O que você quis dizer com isso?
— Parece que algo está te incomodando.
Reviro os olhos. O que eu menos precisava naquele momento, era de alguém perguntando se estava tudo bem comigo. Às vezes, permanecer em silêncio, é uma das melhores opções que temos em diferentes situações.
— Eu só quero ficar sozinha...
— Algo aconteceu?
Fecho os olhos, contando mentalmente até 9 (sim, não 10, porque 9 é um tipo de número da sorte para mim) e mantendo minha respiração regulada. Percy não fazia o tipo do curioso, mas algo parecia indicar que ele estava querendo apenas ajudar. Por mais que eu não quisesse nenhum tipo de ajuda...
— Coisas sobre minha mãe — omito a parte em que o assunto se referia à ele. Talvez eu simplesmente não devesse contar esse tipo de coisa, não agora. —, você sabe como ela é, eu acho que já devo ter comentado.
— Pais são uma droga. — acrescenta. Faço questão de olhar para ele no momento em que seu cigarro está preso nos lábios, de forma pendurada, enquanto a mão livre está dentro da calça social.
— Nem me fale...
Não digo mais nada apenas porque quero que o assunto se encerre ali. Nunca foi o meu forte dialogar em relação aos meus pais. Gostava de desabafar com qualquer tipo de pessoa, dês de que fosse no momento certo. E, certamente, aquilo não era um momento ideal para tomar tal atitude.
Confesso que se até fosse Thalia em seu lugar, eu acabaria contando abertamente do assunto. Quero dizer, iria omitir quase todas as vezes que minha mãe disse Percy nas discussões dos últimos dias... E Silena, bem... Ela estava em outro continente, aproveitando nossa vida antiga de Nova York como se fosse nosso último momento. Não que Londres estivesse tão ruim como acreditava que fosse, mas a falta de diálogo pelo Skype nos últimos dias têm sido insuportável.
— Sabe, porque não vamos dançar? — pergunta, virando o corpo em minha direção de forma sugestiva.
O encaro de forma frustada, tentando entender o porquê daquela objeção. Arqueio uma sobrancelha em discordância, como se ele tivesse dito uma das piores besteiras que eu poderia escutar nos últimos tempos. Primeiro, ele tenta ser um tipo de conselheiro, e segundo, um dançarino.
— O quê? — Percy acrescenta.
— Você está falando sério?
— Ahn... — seus olhos verdes passeiam pelo resto do local, como se alguém estivesse presenciando uma cena trágica... Esse alguém até que poderia ser chamado de eu. — Estou. O quê tem de errado?
— Bem, eu não sou o tipo de garota que gosta de dançar.
— Mas é clássica. Lenta.
— Muito menos lenta.
Percy bufa, prestes a dar meia volta e voltar para o salão do Lótus, embora seu cigarro ainda estivesse aceso. Ele o leva até os lábios, dando uma profunda tragada, feita para queimar uma grande quantidade de tabaco, própria para o sobrar apenas metade de um cigarro em suas mãos.
— Que seja... — ele segura o cigarro entre os dedos polegar e médio, jogando-o no chão bruscamente, um típico Tyler Durden de Clube da Luta. — Aproveite a festa, Annabeth.
Percy gira o seu corpo em direção à porta do fumódromo, dando de ombros com as mãos no bolso da calça social. Eu até poderia estar sendo um pouco dura com ele, e uma pequena parte de mim me sentiu péssima quando via a imagem dele indo em direção à porta.
Eu poderia aceitar seu convite, aliás. Não por, exatamente, a dança, mas também o fato dos meus novos quesitos de liberdade com minha mãe... Era assustador saber que, por algum motivo desconhecido, eu deveria manter-me longe dele. Mas ao mesmo tempo, ele também era interessante.
Balanço a cabeça, contrariada com o que estava prestes a fazer, embora seja por alguma boa causa. Ajeito meu vestido, passando a andar na sua direção quando ele está prestes a sair do local. Os saltos chocando-se contra o chão de forma apressada, quase em uma oração para que ele não saísse por ali.
— Percy, espera! — grito, quando um de seus pés já está muito próximo próximo de sair do local.
Seu corpo vira-se rapidamente quando escuta minha voz. Eu devo estar com uma das piores feições do mundo, andando apressadamente e um pouco desesperada, tendo ao mesmo tempo, um grande plano sendo arquitetado em minha cabeça. Quando estou perto o suficiente, paro logo a sua frente, ficando cara a cara com o moreno dos olhos verdes, que vive me subestimando durante uma semana inteira.
— Mudou de ideia? — ele lançou um olhar sugestivo, arqueando as sobrancelhas.
Fora estar com uma raiva desesperadora pelo acidente da manhã, e agora ainda mais pela discussão com minha mãe, eu não precisaria escutar frases vindas dele naquele tom. Minha vontade era de revirar os olhos e lhe dar um soco no maxilar, mas para o meu novo plano, que ultrapassava todos os limites de agressão, ele precisaria estar intacto, afinal de contas.
Tomo parte ao seu lado, escorregando minha mão esquerda pelo seu braço coberto pelo terno, e então, sinto sua pele quente encontrar a minha. Entrelaço seus dedos nos seus, tentando não esboçar um olhar de rendida, e sim, confiante. Aquilo não era mais do que uma das tentativas de enlouquecer minha mãe, afim de conquistar minha busca do dia de liberdade.
Saímos do fumódromo juntos, de mãos dadas, voltando ao salão principal da festa, preenchido com uma música clássica que eu não fazia nem questão de reconhecer. O grande lustre acima de nós parecia estar prestes a cair durante qualquer segundo.
Mulheres bem vestidas conversavam com homens trajados com terno. Eu poderia reconhecer as joias mais caras penduradas em seus pescoços, trazendo tanta luminosidade quanto os lustres acima. Andávamos desviando de mesas e arranjos de flores, como se fossem obstáculos no nosso própria labirinto. Entretanto, os garçons nos enxergavam como um própria obstáculo, dando liberdade para que passássemos por sua frente toda vez que nos encontrávamos.
Bloqueio a passagem de um, encarando a bandeja em que ele carregava divergentes taças, todas preenchidas com conteúdo alcoólico. Decido escolher a que abriga o líquido amarelado, que eu reconheceria em qualquer lugar como champanhe. Não arriscaria qualquer uma das outras bebidas coloridas depositadas ali.
Levo a taça de champanhe até os lábios, deixando que o líquido amargo escorresse pela minha garganta. Tanto os olhos do garçom, quanto os de Percy, encaravam-me, talvez se perguntando se eu estava em um dia ruim ou apenas parecia um pouco desesperada por uma bebida, coisa que as pessoas que ocupavam a Lótus, certamente não fariam.
— Você é maior de 18 anos? — uma voz irreconhecível pergunta, e eu presumo que seja o garçom. Talvez ele tenha previsto com a segunda opção das anteriores citadas.
Termino a taça de champanhe, deixando-a vazia para que uma outra pessoa pudesse usá-la novamente. Coloco-a de volta na bandeja que o garçom carregava, voltando meu olhar para ele apenas para responder sua pergunta.
— Não, mas eu sou bonita. Isso serve?
Ele abre a boca para responder, mas eu não me importo. Apertando a mão de Percy com mais força para então, dar as costas para o garçom e continuar andando. Eu sei que Percy está olhando para mim agora, e talvez carregava um misto de confusão e indignidade. De qualquer modo, eu prefiro não olhar para trás.
— Com essa desculpa eu serviria o estoque inteiro de bebidas desse lugar. — sinto sua respiração bater em meu pescoço, com o tom provocante de sempre, e a essa hora, ele deveria estar sorrindo ao ver os pelos de minha nuca se eriçarem.
— Eu estava brincando... — dou de ombros, fingindo-me indiferente. — Eu só precisava aguentar uma bebida para isso.
— Isso o quê?
Não dá tempo de responder. No segundo seguinte, estamos na extremidade da pista de dança, e se minha mãe estivesse vendo isso de algum lugar, talvez o meu plano tenha dado mais do que certo, caso ela tenha cuspido toda a bebida que estivesse bebendo.
Permito-me olhar para Percy para saber o próximo passo que ele daria, mas ele apenas sorri, desta vez tomando a frente e puxando-me para o meio de alguns casais, novos e velhos, onde todos dançavam conforme a música clássica reproduzida por um piano.
Ele vira-se para mim, deixando as nossas mãos dadas ao mesmo lugar, porém esticadas e na altura de nosso ombro. Uma de suas mãos puxa a minha cintura, delicadamente, para mais perto, e a minha mão livre apóia-se no seu ombro direito.
Percy começa a se movimentar como se treinasse essa posição todos os dias. Eu não sabia dançar, e muito menos onde pisar. Ele levava a dança e ditava o ritmo com confiança, porém algo reproduzido de forma lenta, assim como a mídia que tocava nos fundos.
— Deus, eu não sei fazer isso... — sussurro, mais para mim do que para ele, embora ele pareça ter escutado.
Ele solta uma breve risada nasal, e eu tenho certeza de que vou ficar muito tonta se continuássemos nos movimentando no esquema da meia-lua. Tento não prestar atenção na proximidade dos nossos corpos. Talvez ele tivesse propositalmente, segurado minha cintura mais perto para que nossos rostos também ficassem. Eu conseguia sentir sua respiração batendo contra o meu nariz, e tentava a todo custo não encarar seus olhos esverdeados. Eu sabia que aquilo seria a perdição.
Por um momento, um misto da raiva que eu sentia dele e da minha mãe, tudo junto e misturado, se desapareceu. Eu consegui me concentrar por um minuto na tensão que nos envolviam, que juntava nossos corpos e tentava não escapar. Poderia sentir o cheiro de cigarro saindo entre seus lábios, e eu acaba por aspirar. E quando, de tanto prestar atenção, encarei seus olhos verdes mesmo sem querer, e foi ali que talvez eu me perdi.
— Eu não chamei ela para o jantar... — ele diz, tentando aliviar o clima que se formava entre nós.
— O quê?
Aquela frase tira dos meus devaneios. Eu pisco diversas vezes, voltando a escutar as vozes e encarar as pessoas dançando atrás de nós, não mais em segundo plano. Seus olhos continuavam a me encarar, e eu fiz uma nota mental de não passar tempo demais os observando, caso não quisesse ser hipnotizada.
— Calipso. Eu não chamei ela. Eu te chamei porque ela já estava lá, e pensei que você pudesse ajudar a me livrar dela.
Consigo desviar do olhar por um breve segundo. Encaro algo acima de seu ombro, enquanto ele se mantém na mesma posição, com o cenho franzido... Parece que toda a liberdade de tensão entre nossos corpos havia se esvaído no momento em que ele disse a última frase, falando sobre a sua noite passada.
— Nós não temos nada, Jackson... — comento, dando de ombros como se eu não estivesse sentindo nem um pouco de ciúmes, caso o que eu estivesse sentindo fosse realmente esse tal ciúmes.
— Mas eu realmente queria ter alguma coisa com você. — admite, atingindo meus olhos de uma forma que eu não conseguisse escapar do seu olhar. Por esse breve momento, eu continuo olhando para ele, tentando não demonstrar nenhum requisito da agitação dos componentes do meu corpo. — Eu te chamei lá para isso. Eu venho tentando ser legal com você, te oferecendo caronas, para isso. Acho que eu posso estar um pouco afim de você, Annabeth Chase...
Minha língua está seca e pegajosa. Acho que foram seus olhos, tanto tempo concentrados nos meus, que fizeram-me perder o foco. Ele estava perto demais para que eu ao menos ameaçasse a olhar para outro lugar que não fossem as íris verdes. Não só o efeito das palavras que ele dizia, mas também o modo com que fazia, deixada o meu corpo paralisado, como se raízes crescessem do chão e prendessem meus pés.
Em algum lugar daquele salão, sei que minha mãe estava olhando. Sei que ela estava furiosa com os malditos olhares que estávamos trocando. De fato, ela nunca havia visto nós dois juntos até agora, e no minuto em que aquela música acabasse, eu estaria encrencada, porém, por um grande motivo.
Além do mais, eu nem sabia o quê sentia por ele. Fora apenas um ciúmes por ter convidado Calipso invés de mim. Embora o jeito com que ele falou, pareceu deixar claro que ela não foi a segunda opção. Ela já estava lá, ele só precisava de mim para livrar-se dela.
Mesmo que o tom que ele disse e as coisas que disse fizessem com que eu acreditasse nele, eu sabia que ele nunca foi tão culpado desde o começo. Eu sou uma pessoa dramática por nunca acreditar nos outros, porém, agora, com seus olhos verdes concentrados nos meus, eu poderia ter certeza que ele de fato não estava mentindo.
— Não sou o tipo de garota que vai se derreter com declarações de amor, Jackson... — evito olhar em seus olhos, atraindo minha atenção para qualquer coisa longe de seu rosto. Ele estava tão perto que eu sabia que sua proposta era iniciar um beijo a qualquer minuto.
— Não é essa a intenção... — ele dá de ombros, olhando para o teto durante um minuto. Deixou claro as segundas intenções, e eu acabo soltando uma curta risada.
— Ok, você quer perdão? Eu dou isso para você. Está perdoado. Mas agora eu realmente preciso checar o quão puta minha mãe está antes que essa festa acabe.
Sei que no fundo, Percy está se perguntando do porque não dou outra coisa invés de perdão à ele, mas eu prefiro não fazer nenhum comentário adicional. Afasto-me gentilmente dele, olhando ao meu redor, afim de encontrar rostos conhecidos.
Eu poderia encontrar o rosto de qualquer um dos meus novos amigos, até porque não havia falado com nenhum deles desde o momento em que cheguei no Lótus. Entretanto, meu objetivo era um pouco mais peculiar, tendo em mente algo mais claro como material genético envolvido.
Depois de estar livre de Percy e nossa dança desastrosa, ele me dá um sorriso e diz que todos estão na mesa 53, e após terminar o que tenho para fazer, ir para lá. Assinto com a cabeça, girando meus calcanhares e andando na direção oposta à ele.
Meus olhos vagueiam todo o salão, e em menos de poucos segundos, eu a encontro na extremidade a minha direita. Seus olhos cinzas estavam escuros como uma tempestade. As linhas de seus dedos estavam brancas, devido à força em que segurava sua taça de champanhe. Entretanto, sua expressão continuava límpida, como se fosse a pessoa mais controladora de emoções do mundo. De alguma forma, ela conseguia emitir toda a raiva que sentia, depositando tudo na imensidão de seu olhos.
Caminho na direção da minha mãe ao mesmo tempo em que ela. Provavelmente, se estivesse atenta o bastante, sentiria o cheiro de cigarros e álcool vindo do meu hálito. Por um outro lado, ela sequer prestaria atenção em qualquer traço meu, importando-se apenas com ela e o que eu deveria fazer para nossa "família" dar certo.
— O quê eu disse para você há alguns dias atrás, e também, minutos? — ralha, levantando as sobrancelhas e encarando-me com a pose de super-mãe.
— Eu não me lembro, exatamente. Mas também não me importo.
— Se você quer seu castigo pelo resto da vida, parabéns, você acabou de conseguir.
— Olha só, eu não ligo pro seu castigo, ok? Eu não ligo pra nada disso. — esbravejo, remexendo-me enquanto gesticulava representando o redor do salão. Algumas finas marcas de expressão começaram a aparecer sobre o seu rosto. — Você me tirou de Nova York. Me tirou da minha família–
— Eu e sua avó somos sua família! — me corta, levantando um dedo em minha direção. Por deus, eu odiava aquela marca de queimadura no seu pulso toda vez que ela apontava o indicador em minha direção.
— ...você me tirou de tudo e de todos que eu amava, e quando finalmente esse lugar começa a valer a pena, você quer tirar a pessoa que o faz, também?!
Ela abre a boca para responder, mas depois a fecha, anunciando que não tem respostas para minha pergunta. Eu jamais conseguiria entender o motivo, ou o porquê de ela ser tão dura comigo e com meu irmão... Principalmente com Malcoml, que desde que eu possa me lembrar, sempre o tratou com o certo deboche que tem. Pela manhã, disse que ele era um imbecil e nunca poderia assumir a empresa... Ela deveria acreditar plenamente que era o único ser inteligente no mundo.
— Eu não vou falar de novo. Fique longe dele, entendeu? — sussurrou, depois de alguns segundos em silêncio.
Não tinha fôlego o suficiente para responder àquilo. Meu pulmão estava ardendo, e minha vontade era de gritar para que aquele salão inteira escutasse. Tento olhar aos redores, para apenas acostumar-me com o caos diário que venho enfrentando, mas nada funciona... Eu simplesmente não consigo seguir em frente sem ter respostas suficientes para tomar essa decisão.
Por um lado, eu poderia apenas aceitar que minha vida viraria um inferno caso eu escolhesse ficar com Percy. Eu sabia que minha mãe faria qualquer coisa para isso, inclusive, mandar-me de volta para Nova York... Ao menos, esse era o plano inicial: irritá-la ao ponto de ter que se livrar de mim. Mas se ele não fosse fodidamente bonito, e talvez eu até pudesse estar um pouco afim dele, tudo seria mais fácil.
Talvez, no fundo, eu não quisesse deixa Londres, no fim das contas. Nova York tinha tudo, exatamente tudo que eu precisava... Mas esse lugar, talvez tenha algo que eu ainda não descobri sobre realmente viver.
Você acha que está vivendo, que sabe seu futuro e o vê passar. Mas você não está realmente vivendo, só está existindo. Talvez nunca descobrimos exatamente a onde pertencemos, ou qual o propósito de estarmos aqui... Há alguns dias atrás, Percy Jackson disse que eu vim parar em Londres por alguma razão, e isso era culpa do destino.
Talvez ele estivesse certo. Tudo acontece por uma razão.
— Atena? — uma voz é adicionada na nossa conversa, que nos últimos segundos, estava silenciosa.
A voz era grossa e estridente. Eu tinha certeza de que reconheceria esse tom em algum lugar, e ele soava familiar para mim. Ela vem em direção das minhas costas, pois o olhar que minha mãe estendia através do meu ombro, era surpreendentemente devastador. Pelo menos, naquele segundo, ela conseguiu demonstrar uma expressão que não fosse deboche.
Espanto.
Olho para trás imediatamente, encarando uma figura grande demais para o me tamanho, e muito familiar. Os cabelos negros, dessa vez, estavam ralos. O homem tinha uma barba, não grande mas nem rala, e estava até mais charmosa. Mas, realmente, o que me chamou a atenção não fora nenhum desses aspectos, ou quaisquer outras características. Apenas uma, que era a imensidão verde no olhar, penetrante e oblíqua, similar a orbes que eu venho prestando muita atenção ultimamente.
O homem a minha frente era idêntico a Percy, apenas em uma versão mais velha.
— Poseidon... — minha mãe responde, engolindo em seco, como se tivesse descobrindo pela primeira vez que a Terra era redonda.
Estava em um dilema entre os dois. Focada no meio, meu olhar oscila entre um e depois outro. Enquanto minha mãe parecia ter sido feita de ferro, Poseidon, o homem a minha direita, carregava um simpático sorriso no rosto, como se estivesse reencontrando um bom e velho amigo.
— Já faz bastante tempo... — merda, praguejo, quando uma lâmpada se acende acima da minha cabeça, passando a assimilar os fatos.
Minha mãe assente com a cabeça, talvez tendo o mesmo efeito que eu tenho quando encaro a imensidão de olhos verdes de Percy. Era hipnotizantes, e quando o tal Poseidon gira seu pescoço, tornando a próxima vítima a ser encarada, acabo tendo a mesma reação que tenho quando Percy está me olhando. Era incrivelmente idêntica. A forma do olhar, o pequeno sorriso estampado no rosto com uma pitada de segundas intenções.
— Essa é minha filha, Annabeth... — escuto a voz de minha mãe atrás de mim, e a palma de sua mão encaixa-se na minha cintura. Ela provavelmente me apresentou porque Poseidon olhava em minha direção com as sobrancelhas arqueadas... Escuto minha mãe pigarrear, limpando a garganta para dizer as próximas palavras. — Annabeth, esse é Poseidon Jackson.
Eu sabia, era tudo que conseguia pensar. Eu sabia, eu sabia, eu sabia, eu sabia! Um milhão de vezes eu sabia. Eu reconheci os mesmo traços que, ultimamente, vinha prestando muita atenção. Eu só precisava de uma verdadeira confirmação. E aquilo, foi o bastante para acender minha teoria, e também de fazer-me pensar na proibição de ver Jackson & Cia.
— É um prazer conhecê-lo. — dou o meu melhor sorriso, olhando de soslaio para minha mãe prestes a convulsionar quando estico minha mão até a sua.
— O prazer é todo meu... — diz, levando minha mão até os seus lábios e depositando um beijo. Isso seria um ato típico de Jackson, e mesmo estando borbulhando de ódio de seja lá qual motivo, procuro manter uma posição intacta. — Deus, você é linda.
Engulo em seco diante do último comentário. Por mais que ele estivesse tentando ser gentil, qualquer um poderia enxergar qualquer segundas intenções. Além do mais, ele me olhava da mesma forma em que olhava para minha mãe. E talvez não estivesse ciente que eu estava afim de transar com o seu filho em todos os sentidos literais da palavra.
Pigarreio, desprendo minha mão da sua e encarando as duas silhuetas ao meu lado. Eles voltaram a se encarar daquele jeito esquisito. Minha mãe, obviamente, tentando omitir deus sentimentos, mas continuava com a mesma cara de deboche, desta vez, dirigida a ele. E Poseidon, uma típica feição Jackson, de sorrisos curtos e olhares penetrantes, entretanto, dirigidos a mim e minha mãe ao mesmo tempo.
Sinos começam a ecoar pelo local antes que qualquer um de nós possa dizer alguma coisa. Aquela tensão pendente em meu corpo fazia com que eu sentisse ainda mais raiva, seja lá qual for o motivo. Entretanto, apenas penso na costumeira frase "salva pelo gongo" e arregalo os olhos, como se tivesse acabado de lembrar de alguma coisa importante.
— O jantar vai ser servido. — presumo, observando os garçons se locomoverem de um lado para o outro, com bandejas diferentes das que eu havia visto. — Vou deixar vocês dois a sós.
Abro um sorriso cúmplice e dou um aceno de cabeça em direção a Poseidon. É um pouco difícil desviar de seu olhar, acredito que até mais do que Percy. Ele tem um olhar menos verde do que o do pai.
Giro meus calcanhares, ficando de costas aos dois e deixando-os sozinhos. Eu posso escutar a voz estridente da minha mãe, dizendo algo particularmente em tom nervoso, mas eu não consigo prestar atenção. Minha cabeça está borbulhando de raiva, estou prestes a tornar-me da cor de um pimentão e quebrar qualquer taça de champanhe que apareça na minha frente. O sorriso, um tanto quando simpático, que estendi aos dois, havia desaparecido.
Inclusive, havia perdido a minha fome.
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