Skyfall
7 VI
Notas iniciais
Eu vi aqueles olhos me encararem durante 17 anos de minha vida. Eles nunca iriam mudar sua verdadeira face.
Dizem que os olhos são as janelas da alma, que é ali que você descobre o que é real ou o que não é. Mas além disso, além das chamas que incendiavam meu corpo, além da aflição, tudo que eu enxergava, eram alguns nuances de puro ódio me irradiando conforme aproximava-se.
Ela estava impecável como sempre. Os cabelos escuros, com o corte na linha do queixo, as mesmas tempestades em sua íris, e seus lábios finos, e aquela perfeita linha dura em seu maxilar. Fora isso, ela sempre tinha o olhar com uma de suas sobrancelhas arqueadas, mostrando sua cara de deboche.
Eu sou muito melhor que você, ela deveria pensar, quando olhava-me assim.
— Entre no carro. — ordenou, sem mais delongas. Controlo minha vontade de bufar e contorno o veículo, abrindo a porta do passageiro. Somente quando já estou acomodada no banco, ela abre sua porta de forma apressada e se joga com as mãos no volante. Sua irritação era visível. Tanto como nas suas feições, como o som audível que se instalou no carro quando ela bateu a porta com força, fazendo-me estremecer.
— O quê vai fazer agora? Me trancar em um porão e não me deixar sair até os 18 anos?
— Não seria uma má ideia depois do que fez. — seu tom de voz saiu entre dentes, e ela girou a chave do carro, ligando-o. — Eu até posso aturar você sumir por uma noite, mas Percy Jackson, não!
Minha boca se arregala em um perfeito O, completamente chocada. Eu praticamente havia esquecido desse grande detalhe... É claro que minha avó falaria para minha mãe. Eu não sei o que sabiam sobre Percy Jackson e sua família, mas também não me interessava se eram coisas boas ou ruins.
Eu apenas não conseguia entender esse complicado ódio pela família Jackson. Eu não conseguia ver algo de ruim nele, fora a fachada de quebrador de corações. Eu não deveria confiar totalmente em minha avó. Afinal de contas, ela não era tão diferente de minha mãe, era?
— Você está me dizendo que não ficou nem um pouco brava porque saí e passei uma noite fora, perdi aula no dia seguinte, mas está brava porque conheci Percy Jackson?
— Eu até poderia te perdoar por essa noite. Eu passei a madrugada inteira te ligando, e sua avó apenas me disse que você saiu com uns amigos. Tudo bem que foi seu primeiro dia de aula na Inglaterra, mas você precisava avisar! Só ficamos tranquilas porque aquele vizinho, Leo Valdez, disse que você dormiu na casa de uma amiga! — disse, em um fôlego só, enquanto acelerava o carro em uma velocidade que eu seria jogada para trás se não tivesse com cinto de segurança. Fiz uma nota mental de agradecer Leo amanhã... — Mas Percy Jackson, não!
Bufei, em um tom irônico.
— Mas o quê tem de errado com ele, mãe?!
— Tudo! — ela gesticula, virando o olhar em minha direção. Eu rapidamente me encolhi no banco do passageiro. — Quer dizer, eu nem sei nada sobre esse garoto! O importante é não manter a convivência, porque ele deve ser igualzinho a família.
— O quê tem de errado com a família dele, mãe?! Nem você, nem a vovó falaram sobre isso.
— Não é do seu interesse... — murmurou, apoiando uma mão em seus lábios, enquanto a outra continuava no volante.
— É claro que é de meu interesse! — praticamente berro, fazendo sua cabeça virar em minha direção ao mesmo tempo. — Como você quer que eu fique longe do garoto se nem me diz o porquê?!
Quando chegamos em um farol vermelho, ela breca bruscamente o carro, fazendo que o impacto me leve um pouco para frente. Mas no fim das contas, finalmente estava parada, sem uma louca dirigindo, capaz de bater o carro qualquer hora.
— Escute aqui, Annabeth... — seu tom de voz era baixo agora, e ela tinha o dedo indicador apontado para mim. Aquela maldita queimadura que ela tinha perto do pulso, continuava a me incomodar mais do que a pose durona quando ela fazia isso. — Você não vai manter contado com esse garoto. Tudo que eu faço, é para o seu bem... Então trate de se controlar, ou sua vida vai virar um inferno. Entendeu?
— Já é um inferno. — resmungo baixo, sentindo Meus olhos marejarem. Mas aquilo não era chorar por tristeza, e sim, por raiva. Tentar livrar todo o ódio dentro de mim. — Isso não é justo!
— A propósito, você está de castigo. — viro meu corpo inteiro em sua direção, observando a indiferença e expressão de deboche enquanto sua cabeça estava virada no sentindo da direção. — E só poderá sair para uma festa ocasional, que irá acontecer sexta-feira.
— Que festa é essa? — pergunto, tentando recompor-me ao ver que tudo já estava praticamente fodido.
— Acontece algumas vezes por mês, para pessoas convidadas é bem conceituadas, no geral. E se você quer sair da casa de sua avó e mudar-se para a nossa própria, temos que arranjar alguns investidores no meu projeto. — se uma coisa que eu detestasse em minha mãe, fosse pior do que ela falar de trabalho, eu com certeza não seria a mesma. — Só alta elite, então vista-se adequadamente. Chama-se Lótus.
— Lótus?
— Os donos são uns russos. Os convites giram em torno de 500 até 5.000 euros. Eu espero que vista-se adequadamente, e eu falo sério.
— Que seja... — ralho, praticamente recebendo um olhar amaldiçoado de minha mãe ao meu lado.
Ela acelera quando o sinal abre, e não encontramos nenhum sinal desde então.
Fora pensar em toda a restrição de minha mãe e minha avó, embora seja sem motivo, acabava-me levando à loucura. Como elas podiam proibir algo sem explicação? O pior de tudo, me deixar de castigo... Eu não ficava de castigo desde os meus 15 anos, eu acho.
Mas o fato mais estranho, é saberem algo sobre a família Jackson que as desagradaram. Eu não fazia ideia do quê, mas precisava descobrir o mais rápido possível.
Tiro o meu celular do bolso do casaco de moletom, lembrando que estava sem falar com Malcoml há mais ou menos um dia... Por mais que a ansiedade de voltar para Nova York não seja a mesma como antes, eu conseguia sentir mais falta dele do que de qualquer outra coisa naquele lugar.
Vovó definitivamente é uma traíra. Não deveria falar assim dela, mas é a verdade.
Clico no botão de enviar e espero que em uma hora como essa, Malcoml esteja acordado por causa do fuso-horário. Alguns minutos depois, meu celular vibra, e checo se minha mãe não está me observando naquele momento.
O quê ela fez agora?
Meus dedos digitam rapidamente, batendo em um baque surdo contra a tela do meu celular. Eu poderia ser capaz de quebrá-lo ali mesmo, apenas tentando colocar algum excesso de emoções.
Conheci um garoto antes de ontem. O nome dele é Percy Jackson. Por algum motivo, quando contei isso para minha avó, ela entrou em desespero, e abriu a boca para minha mãe... Mas adivinha só? Ela não ficou nem um pouco brava porque passei uma noite fora, mas sim, porque o conheci... Disse para ficar longe dele e de sua família.
Apago o visor do celular antes de minha mãe notasse que estava mexendo. Não que ela fosse restringir isso também, mas caso ela lesse a conversa, eu estaria de castigo minha vida inteira.
Eu deixei você namorar?
Malcoml...
A resposta não veio de tempo imediato. Eu esperei alguns minutos, tentando disfarçar ao máximo que não estava totalmente entretida na conversa. Logo, em cima de minha coxa, meu celular começou a vibrar, anunciando uma nova mensagem.
Se você quer meu conselho, esse é: fique longe. Não desse garoto, mas da mamãe. Nunca foi fácil descobrir os segredos dela, e você pode acabar se arrependendo. Além do mais, se ela descobrir que você anda bisbilhotando, sua vida acabou.
Obrigada pelo apoio moral.
Aperto o botão de bloquear a tela e não vejo o visor acender.
Por que diabos Malcoml também estava tentando encobertar nossa mãe? Aliás, ele até não estava fazendo isso de propósito, mas eu esperava uma resposta mais parecida com "Sim, vá fundo, banque Sherlock Holmes e faça a ficha da sua vida. Descubra os seus segredos mais obscuros, e depois use-os contra ela."
Mas nada disso aconteceu.
Sinto o carro estacionar, anunciando nossa chegada. Saio de meu transe, vendo a visão cotidiana da vizinhança a minha frente. Minha mãe nem se deu ao trabalho de me chamar, e quando eu vi, já estava fechando a porta do veículo bem ao meu lado.
Faço o mesmo que ela, praticamente jogando-me para fora do carro em uma rapidez impressionante aos olhos de quem visse. Faço a caminhada entre o pavimento da calçada, que passa pelo jardim e chega na porta de entrada entreaberta, cuja minha mãe provavelmente deve ter deixado.
Entro em casa e fecho a porta atrás de mim, girando as chaves na fechadura. Quando viro-me, vovó está sentada no sofá, assistindo uma entrevista com Russell Crowe e murmurando algo para minha mãe, parecido com "Ele é lindo, não é?".
— Obrigada. — agradeço em tom irônico, olhando para ela, mencionando o fato de ter entregado-me para minha mãe maluca.
Antes que pudesse ouvir os gritos de minha mãe quando ela disse para tratar minha avó de maneira adequeada, eu lanço a mochila nos ombros novamente, e subo as escadas correndo para o andar de cima.
•••
Depois de um banho que não foi o suficiente para me fazer relaxar após o incidente do fim da tarde, meu dia não poderia estar pior.
Eu estava planejando deitar na minha cama e acordar só daqui uns três dias. Com sorte, uma semana... Eu poderia até tomar alguns remédios que era habituada a tomar para dormir mais tranquila, mas quando nós mudamos para Londres, minha mãe jogou tudo fora, e recusou-se a comprar mais cartelas.
Então fiquei no dilema de ficar deitada na cama, com os olhos pregados e uma dor de cabeça dos infernos por ficar pensando em incríveis possibilidades para minha mãe não me deixar ver Percy Jackson.
Levanto-me de uma vez, caminhando em meio à escuridão até a parede mais próxima. Localizo o interruptor com os dedos, e acendo as luzes, trazendo um pouco mais de conforto ao ambiente.
— Deus, eu achei que tinha desmaiado ou coisa assim. São apenas oito horas da noite, Annie.
Estaco onde estou, meus pés criando raízes no chão e meu cérebro dizendo para não me mexer. Achei que estava ouvindo vozes, mas com um pingo de coragem, viro minha cabeça e consigo enxergar nitidamente minha janela aberta, e através dela, Leo Valdez na sua. Com direito a cabeça para fora e cotovelos apoiados.
— Você me deu um susto. — justifico, relaxando minha postura e caminhando tranquilamente até a minha janela. Fiquei na mesma posição que ele, indignada com a proximidade que permitia-me conversar em um tom de voz normal com ele. — Obrigada por dizer à minha avó que dormi na casa de uma amiga, antes de ontem.
Seus olhos estão semicerrados, mas quando digo isso, ele demora um tempo para perceber do que estou falando, e então os arregala.
— Ah, sim! Quando na verdade você estava na casa do Percy... — ele abre um sorriso malicioso — E hoje chegaram juntos na escola.
— Não aconteceu nada, e... Foi só uma carona. Nos encontramos em uma lanchonete por coincidência.
— Entendo...
O silêncio instala-se em nossa conversa, mas talvez fosse eu e minha cabeça preocupada que não deixava-me falar sobre qualquer assunto banal e aleatório sem me preocupar com toda história da proibição de encontrar Percy Jackson.
— Leo — chamo, e seus olhos cobertos por alguns cachinhos, voltam-se para mim. —, você conhece alguma festa chamada Lótus, da alta sociedade?
— Ah, sim... Meu pai vai todo mês, ou final de semana intercalado, lá. É um ótimo lugar para fazer negócios. Acho que deve ser por isso que todos os nossos pais vão.
— Graças à Deus não estou sozinha nessa...
— Você vai?
— Depois de receber um castigo, minha mãe disse que preciso me vestir adequadamente para essa festa e eu não faço a menor ideia do que seria isso.
— Se vestir bem, ahn... Usar vestidos de gala e essas coisas.
— Não do jeito de se vestir, Leo! — rio, ajeitando meu cabelo em um coque frouxo. — Eu digo essa festa. Mas, pelo menos não vou ser a única de lá.
— Ah, não vai mesmo. Todos costumam ir.
— Obrigada pela ajuda — agradeço mais uma vez —, mas agora preciso falar com alguém...
— Sem problemas... — ele sorri minimamente, levantando a mão em um aceno rápido. — Te vejo amanhã então.
— Até.
Fecho as cortinas para impossibilitar a visão de Leo Valdez me observando no meio da noite. Caminho até o notebook ligado, na minha escrivaninha, e passo os dedos no mouse, para que a tela acendesse.
Ela se abre justamente no aplicativo do Skype. Meus olhos rolam pela página da contatos esperando encontrar algo interessante. Mas o que eu vejo, é muito mais do que interessante. O que eu vejo, é capaz de fazer com que meu dia, pela primeira vez, tenha valido a pena.
Silena Beauregard estava online.
Clico no botão verde ao lado da nossa conversa, sentando-me na cadeira em frente ao notebook. Aguardo alguns segundos, escutando impacientemente a música da conferência tocar, e de repente, sua foto se expande por toda a dela. Mas dessa vez, ela se transformou em um vídeo, sendo produzido ao vivo.
Ela estava no mesmo lugar de sempre. O computador no fundo de seus quartos. E mesmo que estivesse perto da hora de dormir, ela estava impecável, mesmo sem usar maquiagem.
Eu sentia falta de escutar seus gritos quando aparecia razoavelmente desleixada na escola. Sentia falta de todas as aulas que ela me dava para esconder olheiras. Sentia falta dos mil penteadora de cabelo que ela fazia na hora de dormir. E mesmo estando em outro país, em outro continente, ela não havia mudado nem um pouco.
— Você atendeu! — berro, abrindo um sorriso de felicidade ao vê-la sorrindo para câmera. — Deus, eu achava que nunca mais iria conseguir falar com você.
— Meu Deus, Anns... Aí está tão ruim assim para sentir saudades de mim? — ralhou, franzido o cenho.
— Eu não estou com saudades de você — falei em alto som, esbanjando ironia. —, mas aqui está tão ruim que tudo me sujeita a falar com a pessoa mais insuportável.
Silena soltou uma risada, ajeitando seus cabelos presos em um rabo de cavalo... Ela realmente era a pessoa mais insuportável que eu conhecia. O tipo de pessoa que eu jamais lancharia todos os dias na escola. Que fala sobre cabelo, unhas, maquiagens, garotos... Mas mesmo com todos esses "defeitos", eu acabei adquirindo um pouco dela em mim, quando fui embora.
— Eu aposto que não está ruim. Você sempre foi muito exagerada.
— Tem razão. Não está tão ruim... — sussurro, revirando os olhos ao dizer aquilo.
— Já sei: tem algum garoto por aí que te fez perceber que sua vida não é o fim do mundo, como você sempre acha que é.
— Eu estou realmente começando a achar que você me conhece mas do que deveria.
— Ah, meu Deus! — Silena começou a bater palmas e dar gritinhos de alegria. Bem, era tudo que eu precisava no momento. O famoso surto de uma patricinha, do qual eu apenas encarava sem expressão até que eles terminassem. — Vocês já transaram?
— Eu realmente achei que você diria a expressão "fazer amor", e não algo tão carnal como transar. — faço as aspas com os dedos, encarando algum ponto da tela do meu notebook — Mas não aconteceu absolutamente nada. Além disse, eu só o conheci.
— É porque desde que eu te conheci, você sempre "transou" com as pessoas... De uma forma carnal, tenho que dizer — ela imita o meu gesto de fazer aspas com os dedos, e depois sacode as mãos — Enfim, me conte mais sobre ele. Qual o seu nome?
— Percy Jackson, mas... Silena, não leve isso a sério, ok? Eu nem posso vê-lo mais, de qualquer jeito.
— O quê você quer dizer com isso?
— Eu não sei o que aconteceu, mas minha mãe me deixou de castigo por isso. Ela disse para ficar longe dele e da sua família.
— E você vai obedecer ela?
— Eu vou, é claro. — engulo em seco, apenas por pensar na possibilidade de alguém fodidamente sexy como ele, levando um pé na bunda de alguém como eu. — Ou você quer que eu fique de castigo pro resto da minha vida?
— Ela só está exagerando, assim como você. Eu não acho que deveria deixar isso para trás... Por que ela odeia ele e a família, mesmo?
— Eu não sei, Silena. Esse é o problema. Tudo aí, em Nova York, era mais fácil de resolver.
— Então tente descobrir. — diz, como se fosse óbvio.
— E por onde eu começo?
— Bem, eu não sei nada sobre esse tal de Peter Jackson, mas obviamente foi algo que eles fizeram. Você pode começar tentando descobrir pelo passado... E bem, eu te conheço muito bem e sei que você não vai deixar sua mãe sair por cima dessa. Você pode usar isso como uma forma de... irritá-la.
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