Notas iniciais
HEYYYY GIRLS, (and boys eu n sei se tem boys, se tiver, me digam, apareçam, sinal de fumaça... Como preferirem) Eu demorei 15 dias, e foi proposital. Aliás, foi até por uma boa causa... Eu percebi que muitas pessoas que tavam nos últimos capítulos, não comentaram nesse, e então eu fiquei esperando que elas aparecessem, dando um tempo para lerem o capítulo e afins. Eu não deveria postar em véspera de carnaval porque a maioria de vocês podem ir viajar. PORÉM, como eu sou uma autora muito boa (❤️), invés de postar depois do feriado, posto antes, sabendo dnv que muita gente n vai comentar ndishdbdudb. O que eu queria é que vcs aparecessem e me deixassem feliz :) tipo, só manda um review falando sobre o que acha da história. Sério, é muito importante pra mim e vcs não sabem como. Eu fico feliz, recebendo qualquer tipo de crítica. Acho melhor eu parar de falar aqui, porque senão as notas vão ficar GIGANTESSSSS anywayyy nos vemos lá embaixo! Kisses ❤️

A continuidade da luminosidade dos postes passavam periodicamente conforme o carro se movimentava. O rosto do garoto ao meu lado, com a luz acesa apenas por estes, transformando em um misto de sombreados a cada um metro de distância, onde havia uma escuridão, e no minuto seguinte, quando estávamos embaixo do poste, luminosidade.

O carro se movimentava em velocidade média, e eu não me recordava dele ter parado em algum farol alguma vez... Também não fazia a menor ideia de que horas eram. Talvez eu mal estivesse me importando, mas a ideia de pegar o celular, ou arranjar algum relógio mais próximo, trazia um cansaço para o meu corpo de imediato.

Desde que Percy anunciou que me levaria para sua própria casa, um silêncio enlouquecedor tomou conta do ambiente em que estávamos. E fora todo o desconforto que sentia, me sentia vulnerável a tensão que puxava a nossos corpos, tornando um clima entre nós dois incapaz de manter-me tranquila.

E se parar para pensar, o único fato histórico e marco da personalidade, era o divórcio de meus pais, que me trouxe para a Inglaterra. Poderia parecer um jeito simples de se apresentar para alguém, mas era muito mais do que isso.

Era minha vulnerabilidade, meu novo mantra e karma. Percy perguntou se eu acreditava em destino. E para a sua surpresa, eu respondi que não. Também com o divórcio, aprendi que desacreditar no amor é algo simplesmente comum. Amor verdadeiro é suicídio, e se algum dia ele perguntar-me isso, ficarei feliz em responder aberta mente e acabar com suas expectativas.

Mas a questão não seria a minha vida em particular, e sim a dele. Ele sabe tudo que interessa sobre mim. Sabe o meu marco histórico, sobre os cigarros. Não existe nada mais interessante do que isto... Mas quanto à ele, nada. Um simples vazio sobre um garoto de sei-lá-quantos-anos, com problemas para controlar a raiva, que batizou um martini com meu nome.

Minha língua, pronta para soltar as palavras, já sedentas por informações. E eu não fazia a mínima ideia se isso era considerado certo ou errado.

— Por que se mudou para Londres?

Seus olhos verdes arranjavam um contraste com os postes de iluminação. Mas ao contrário do que eu imaginava, no minuto seguinte, em vez de se encontrar apenas um breu, a imensidão verde esmeralda, continuava a ser a única coisa que eu poderia ver em seu rosto, de forma nítida.

Entretanto, ele não disse nada... Talvez fosse só a bebida que causava uma desaceleração no meu cérebro, fazendo com que as ações e movimentos fossem produzidos em câmera lenta. Mas então escuto um suspiro, e meus olhos viram-se em sua direção.

— Você faz perguntas de mais, nova-iorquina...

Arqueio uma sobrancelha, decepcionada porque eu precisava de respostas. Sempre fui uma pessoa curiosa, principalmente nas que acabo de conhecer. Mas aquilo com Percy Jackson não era só curiosidade. Era interesse. Era algo mais que eu não sabia descrever o quê.

Percebo que o carro está indo cada vez mais para a lateral direita, e de repente, Percy está fazendo uma das maiores manobras para estacionar em uma simples e única vaga no meio-fio. Eu detestava dirigir. Detestava carros. Em Nova York, o trânsito era um inferno, e não importava a ocasião, sempre optávamos pelo metro. De preferência com ar-condicionado.

— Seus pais não ficarão bravos porque está levando uma garota bêbada para sua casa? — murmuro, abrindo a porta e descendo do carro, quando noto que Percy já fez o trabalho de estacioná-lo corretamente.

Me encosto na porta até perceber a silhueta de Percy chegando perto de mim. Meu ouvido a prova de sons, escutando apenas o que quer escutar. Ele continuou andando reto, em direção à casa a nossa frente, e fez um gesto com a cabeça para que eu o acompanhasse.

— Meus pais tem uma agência de turismo. Por isso, eles quase sempre estão viajando. — comenta, procurando as chaves de casa no bolso da calça jeans. Seguimos por um caminho pavimentado, entre jardins muito bem cuidados, até uma porta de entrada da cor porcelana, bem a nossa frente. — Mas meu irmão está. Com sorte, ele já está dormindo. E amanhã de manhã ele tem aula.

— Você tem um irmão? — pergunto, enquanto ele gira as chaves pela porta de entrada.

— Dois. Mas o mais velho já está na faculdade, e então fica por lá... Graças à Deus.

Quando Percy abre a porta, não consigo reparar em muitos detalhes. Estou bêbada demais, é muito desinteressada para isso. Sei apenas que tudo é revestido por cores claras e cremes, e então, de repente, estou sendo conduzida para uma escada imensa localizado no centro do andar debaixo.

Percy está atrás de mim, e sinto sua mão em algum lugar do meu corpo, para arranjar apoio e eu não despencasse escada abaixo. Ele murmura algo como "já estamos quase chegando", e então, me vejo no meio de um corredor imenso, cheio de portas.

— Eu preciso me lembrar de que não posso beber coisas muito fortes. Tenho problemas com álcool. — grunhi, enquanto Percy me encaminhava para a última porta à esquerda.

— Alcoolismo?

— Não! — resmungo, e ele abre a maçaneta dourada — Fico alta demais, e muito rápido.

Escuto uma risada, e então posso reparar em poucas características do quarto que eu julgo ser o de Percy. Uma cama de casal gigantesca está centralizada no meio do quarto. Ao seu lado, um criado mudo e um tapete da cor azul, assim como a colcha da cama. Do outro, uma imensidão de vidros, como uma janela, tampado por parte com uma cortina creme e uma poltrona ao lado da cama... Em frente à mesma, uma grande mesa com computador, folhas espalhadas, e muitas canetas desorganizadas. Logo acima, uma televisão presa contra a única parente diferente das demais, sendo da cor de um azul-marinho.

— Você quer uma roupa emprestada? — sinto sua respiração bater em meu pescoço, e eu assinto com a cabeça.

Ele vai até o armário embutido na parede ao contrário da de vidro, e alcança uma camiseta velha, de cor branca. Eu espero que aquilo sirva, pois deveria ter o dobro do meu tamanho. Talvez, mais tarde eu agradeceria, caso não deixasse transparecer minha calcinha.

Faço um gesto para Percy se virar e começo a me despir. Ele se mantém de costas para mim enquanto me livro de toda minha roupa, exceto roupas íntimas e minhas meias. Visto a camiseta branca que ele me deu, e então murmuro algo que anunciasse que estava pronta.

Seus olhos verdes passeiam por todo o meu corpo, fazendo uma breve averiguação. Eu até poderia ter resmungado algo, mas nessa altura, eu já não ligava tanto assim. Para mim, era até que um elogio que alguém como ele fizesse isso.

Dou alguns passo à frente, indo em direção à cama. Me jogo nela assim como uma criança se joga no pula-pula. Aquele era o meu único conforto no momento, e eu o abracei com todas as minhas forças, subindo até os travesseiros e me afundando nele de bom grado.

Percy contornou as extremidades da cama, indo parar ao meu lado esquerdo, e sentando-se na poltrona. Ele tinha um pequeno sorriso enquanto me observava enfiar-me dentro dos lençóis. Desta vez, eu posso sentir mais do que a queimação do seu olhar em minhas pernas. Eu sinto meu corpo se arrepiar em resposta, e o ar ser drenado de meus pulmões em um só fôlego.

— O que está olhando? — minha voz sai em um tom divertido, enquanto estou ajoelhada na cama, de forma que meus calcanhares tocam minha bunda.

— Você.

Seu sorriso de lado mostra a pitada de malícia que ele não fazia questão de omitir. Talvez ele até estivesse achando a cena engraçada, mas não dessa maneira. Seria fácil demais acreditar nele, para o meu próprio bem.

— Você acha que eu sou igual as outras garotas, que vão acabar com você na cama. — afirmo, mais para mim, do que para ele. No entanto, acabo dizendo alto o bastante, com um tom divertido embriagado.

Fico de quatro, jogando meu par de mãos para cama e engatinhando em sua direção, até a extremidade, onde a poltrona se localizava.

— Eu não sou só uma garotinha que teve os pais divorciados, tive que mudar para Londres, e estou carente, louca para deitar nessa cama com você e gemer seu nome à noite toda. — digo, com um tom irônico e ainda sim embriagado. Ele ainda tem o sorriso em seus rosto, mostrando divertimento nas coisas que eu dizia.

— Tenho certeza de que não é.

— Então não espere que eu vá te chamar para deitar aqui comigo, porque você vai ficar bem aí — aponto para a cadeira, voltando a posição ajoelhada na cama —, e se chegar perto de mim, eu te mato.

Faço a simulação de uma arma com meus dedos, e a estico em sua direção. Minha boca reproduz um som similar ao de um tiro, como se eu estivesse o acertando, e então, deixo que meu corpo caia de costas para o acochado da cama. E desta vez, eu me enfio debaixo das cobertas, com direito a travesseiros macios, um sono agradável, e um garoto sexy me encarando enquanto eu dormia.

•••

Tenho a impressão de que estou dormindo há muito tempo. Meus olhos pregados e meu pescoço (que parece estar sem ossos), imploram por mais tempo naquela cama.

Não sei quem me acordou, mas quando abro apenas o olho direito para a checagem, não encontro nada. Nem um vestígio que alguém esteve ali antes de mim. Talvez fosse a luz da imensidão de vidro da parede à minha frente, já que as cortinas estavam esticadas ligeiramente para o lado, deixando que um fio grosso de luz atingisse bem os meus olhos.

Janelas de vidro, camas confortáveis, cortinas...?

Quando a afirmação faz questão de chegar ao meu cérebro, e então a ficha cai como um raio atingindo a terra, me levanto bruscamente, deixando que meu corpo repousasse na cabeceira daquela cama gigante onde adormeci a noite passada.

Eu não tinha uma cama gigante, ou tão confortável quando essa. E também não tinha um sono tão bom quanto esse desde que cheguei em Londres.

Olho ao meu redor, deixando que minha cabeça se acostumasse com a ideia de que eu passei a última noite fora de casa, com uma pessoa totalmente estranha, e perguntei-me em que estado de consciência eu estava quando aceitei o convite.

Se essa pessoa fosse Percy Jackson, e fosse fodidamente bonita, eu acabaria aceitando.

Coloco a mão em minha cabeça, tentando aliviar os primeiros indícios de uma dor de cabeça que estava prestes a me avassalar toda. Eu não sabia se me xingava mentalmente, ou me recompunha para ir embora o mais rápido possível. Crio coragem para abrir os olhos, e os vagueio pelo resto do quarto. Nem uma pista de que alguém estava por ali. Nem mesmo a porta, que parecia ser a do banheiro, estava fechada.

Me levanto rapidamente, em um movimento brusco, tentando achar as roupas esquecidas no chão. Agarro minha bolsa com todas as minhas forças, e arranco meu celular dali.

17 ligações perdidas. Todas de minha avó. Outras 29 ligações, desta vez, de minha mãe.

Mesmo em Londres, eu sabia que ela tentaria ser uma mãe responsável. De fato, ela nunca vai conseguir. Eu mal a vejo, sempre passando mais tempo no trabalho do que em casa. E eu nunca entendi o seu problema com ganhar dinheiro, mas era como um vício para ela. Eu sabia que quando ela ganhasse dinheiro o suficiente, faria questão de se mudar para o melhor apartamento/casa que encontrasse.

Não respondo as ligações em uma tentativa de ligar de volta. Tiro a camisa que Percy me emprestou na noite passada, e começo a vestir minhas roupas antigas, desesperada para que ninguém passasse pela porta do quarto.

Lembro-me que Percy disse algo sobre seus pais nunca estarem em casa porque tem uma agência de viagem. Donos de hotéis, cruzeiros... Eu aposto que seria algo assim. E, essa era a única informação sólida – tirando os irmãos – que eu tinha dele.

O motivo dele ter-se mudado ainda martelava em minha cabeça, mas eu não fazia questão de o deixar em primeira posição. Eu tinha novos problemas para resolver, que com sorte, seriam o mais rápido possível.

Depois de vestida, abro a porta do quarto e vejo-me na imensidão do corredor da noite passada. Provavelmente, a casa estava vazia. Mas enquanto caminho até a escada que me levaria para o andar debaixo, o som audível da televisão ligada, ecoa pelos meus ouvidos.

Por mais que eu tente não fazer barulho enquanto desço degrau por degrau, aquilo soa impossível. Conforme vou descendo, posso enxergar a imagem da televisão reproduzindo um jogo de pôquer regravado. Rio com o pensamento de um novo vício que descobri, e então percebo que estou no fim da escada.

Caminho até a direção da sala espaçosa, vendo Percy sentado no sofá. Eu havia esquecido de como ele era realmente bonito. E principalmente pela manhã. Seus cabelos estavam bagunçados, os fios negros ainda sim aparentavam ser macios, e os olhos verdes vidrado na imagem a sua frente, como se ele fizesse suas apostas internamente. Vestia um moletom azul marinho, que parecia o confortar contra a minha fria fora da janela.

— Bom dia, Annabeth Chase. — ele fala, sem tirar os olhos da televisão. Então, quando estou prestes a responder algo, ele se vira para mim, com um sorriso — Acho que você se lembra do que aconteceu na noite passada, então eu não tenho o que explicar.

— Eu lembro. — balanço a cabeça, como se dissesse em um tom de arrependimento.

— Ainda bem, porque seria um vergonha ter que explicar que tinha uma garota deitada na minha cama, vestindo só uma camiseta, e eu não pude fazer nada.

Apesar dele falar isso em um tom normal e indiferente, sinto o mesmo calafrio passar pelo meu corpo como se fizesse sempre o mesmo efeito.

— Eu perdi a escola, não foi? — ignoro deliberadamente sua afirmação, apenas porque não tenho algo para responder em altura.

Percy se levanta, ajeitando o casaco do moletom. Ele ainda conseguia ficar bonito vestindo qualquer roupa.

— Sim. Mas eu achei que seria ruim te acordar. Imaginei que estivesse cansada. Mas se você quiser, eu posso te levar para casa. De qualquer jeito, eu não poderia colocar os pés na escola para te deixar ali. Fui suspenso.

— Eu até poderia ser educada e responder que não precisa. Mas eu não conheço porra nenhuma dessa cidade, e provavelmente vou me perder na primeira esquina.

Percy ri, e balança a cabeça em direção à porta. Ele pega as chaves e carteira na mesa, e me alcança quando eu estou caminhando na direção que ele havia apontado.

Eu até poderia ter recusado a carona pela vergonha de que estava passando, por esse garoto que acabei de conhecer, ter mais envolvimento na minha vida do que qualquer outro naquela escola. Eu não gostaria de passar alguns minutos dividindo o mesmo carro que ele. Aquela tensão que unia nossos corpos que nem imãs me assustava, não me deixava de alguma forma ficar mais tranquila. Mas por algum motivo que eu precisava saber, ela também me fazia criar forças para chegar cada vez mais perto.

Ele abriu a porta e deixou que eu passasse primeiro. Depois daquela overdose de verde, flores e arbustos, que eram normalmente conhecidos como jardins, lá estava o seu carro, estacionado no mesmo lugar da noite passada.

Não hesitei em caminhar até ali tranquilamente, tentando deixar de lado aquela vontade de afundar no subsolo e não sair de lá por 1) vergonha de ter feito uma burrice ao ir para a sua casa, 2) ter dormido com suas roupas, e abusar da sua hospitalidade, deixando que ele me levasse até minha nova casa, e 3) me sentir atraída por ele apenas porque tinha um rosto bonito e belas palavras, fazendo-me em 17 anos inteiros, me sentir intimidada e subjugada.

Eu não gostava de admitir que isto estava me fazendo idiota. Quer dizer, eu nunca fiquei tão sem jeito na frente de outros garotos. E se eles saiam da minha vida, isso soava completamente normal e não fazia questão de ir atrás de nenhum. Se por acaso Percy soubesse disso (incluindo minha vergonha desnecessária e as bochechas constantemente coradas), ele se sentiria um sortudo.

Talvez ele fosse muito sortudo.

Entrei em seu carro, o contornando para entrar no banco do passageiro, cujo sempre se localizava no lado esquerdo. Se fosse um dia normal em Londres, eu até poderia citar o mesmo motivo dezenas de vezes na minha lista odiosa do país. Mas por algum motivo, desta vez eu não liguei.

— Onde você mora, Annie?

Sua voz me tirou dos pensamentos infinitos de minha mente, trazendo-me de volta à realidade de bancos estofados de couro. O sotaque britânico saia completamente convidativo vindo dele.

— Sou vizinha do Leo. O pequeno, de cachos.

— Grande Valdez. — Percy girou as chaves do carro, logo em seguida acelerando e dando partida no veículo — É o seu dia de sorte. Ele não mora muito longe daqui... Para falar a verdade, acho que moramos todos muito perto.

— Você diz nós como eu, você, Thalia e Nico...?

— Sim, nós. — seus olhos estão fixos na rua a sua frente, por mais que nenhum carro estivesse por ali seja lá que horas fossem. Porém, seu semblante parecia sério, como se fosse uma coisa óbvia. — Somos todos amigos, certo?

— Eu esperava que fôssemos... Mas acho que ainda não posso ser considerada uma amiga. Os conheci ontem.

— Não seja ridícula — ele riu pacificamente. Seus dedos dedilharam o bolso de seu moletom, tirando um maço de cigarros e um isqueiro. Ele tirou um, e o comprimiu nos lábios — Vocês americanos tem um terrível dilema de achar que existem panelinhas escolares em todos os lugares.

Sua voz saiu abafada por causa do cigarro preso em seus lábios. Contudo, ele levou o zip-lock até àquela altura, e o acendeu.

— Tem razão. Eu só espero que não se esqueçam de mim no próximo dia de aula.

— Eu posso te dar a certeza de que isso vai ser um pouco difícil.

Acabo esboçando um sorriso sem perceber. Com sorte, Percy não notou, já que o olhar estava vidrado nas ruas à frente. Ele guardou seu maço e isqueiro no bolso do casaco, e voltou a prender as duas mãos no volante, uma com o cigarro em dedos.

Mais uma vez, o silêncio prende entre nós. Nunca gostei de permanecer quieta durante muito tempo, e se fossem em outras ocasiões, eu já teria aberto a boca para começar a balbuciar qualquer coisa.

— A idade mínima para dirigir aqui na Inglaterra são 18 anos, não é? — quebro o silêncio de uma vez, uma pouco receosa, mas de alguma forma, confio em meus instintos.

— 17. Mas como você passa cerca de 12 meses aprendendo, só pega sua carta quando tem 18.

— Então você tem 18... — afirmo.

— Tenho. — ele solta uma leve risada, talvez pela quantidade de perguntas que eu estava fazendo.

— Está explicado porque o barmen não questionou os martinis.

Ele solta uma outra risada baixa. Deus, eu poderia escutar isso o dia todo.

— Eu vou bastante no St. George's, Annie.

O silêncio domina o veículo novamente. Sempre eu, sem respostas para as suas palavras. Ou talvez meu interior, se contraindo para responder algo a sua altura. Ele leva o cigarro até os lábios de novo, e aquela cena divina dos mesmo puxando a fumaça, depois soltando vagarosamente, faz minha garganta ficar seca. Porra, o quê está acontecendo comigo?!

— Posso ligar o rádio? — pergunto, já levando o dedo naquela direção.

— Fique à vontade.

Meus dedos tocam no botão de ligar do mesmo, cujo estava preso no painel. Mesmo que fosse só uma tentativa de não deixar que o assunto pendente entre nós acabasse, fico feliz por começar a tocar algo que eu gostasse, no mínimo.

— Você gosta de The Smiths? — pergunto, vislumbrada por ter Morrissey cantando aos meus ouvidos. — How Soon Is Now é como um hino para os anos 80.

— Você gosta? — seus olhos se voltam para mim durante um milésimo, mas no instante seguinte, está de volta para as ruas.

— Sim. Morrissey é vegetariano, irritado, e odeia tudo e todo mundo. É legal.

Uma gargalhada rouca ecoa de sua garganta, como se ele estivesse rindo pra valer do que eu falei. E não era em um sentindo ruim, como se fosse alguma besteira. Às vezes, as coisas simplesmente saem quando eu não me controlo para fechar a boca. E vê-lo rir daquela forma diante de mim, era como receber um Oscar.

— Você acredita em inferno? — ele pergunta.

— Não.

— A escola é um... — permito-me rir igual ele, mas não de uma forma forçada. Ele se deixa levar pelas minhas risadas também, mas em alguns segundos, já estamos nos recompondo novamente. Ele se recupera, e puxa uma quantidade de ar para dentro de seus pulmões, com o olhar sublime no meio-fio à sua frente. — Kurt Cobain, Quentin Tarantino, Brando, DeNiro, Pacino... Todos eles largaram o colegial.

— Você tem um gosto e tanto, Percy Jackson. — comento, deixando que meus olhos vão de encontro aos seus, presos nas ruas. Mas então ele se vira para mim, rapidamente — Confesso que me surpreendeu, um pouco.

As esmeraldas caribenhas se desviam novamente para as ruas, desta vez, ele carregava um sorriso no rosto, exibindo seus dentes perfeitamente alinhados, sorriso digno de molhar calcinhas.

— Acho que você descobriu o propósito.

Reconheço a vizinhança em um ímpeto, e no segundo seguinte, Percy está estacionando seu carro em frente à casa de Valdez. Obviamente, ele não sabia qual das duas era a minha, por isso resolveu parar ali.

O enjoo constante de andar de carro acaba. Eu sempre detestei, e como sempre digo, andar de metrô em Nova York era mil vezes melhor e mais tranquilizante do que de carro. E eu teria que achar um jeito de decorar as linhas do trem para algum lugar que seja mais longe do que minha escola.

— Obrigada por me trazer até aqui. — seus olhos estão presos em mim agora, mas eu não desafio-me a encarar de volta. Agarro minha bolsa que estava no meu colo, e prendo os dedos na maçaneta, prestes a abrir a porta.

— Te vejo amanhã na escola?

Abro-a, e em um instante, estou pulando para fora do carro. Quando percebo que ele está falando comigo, paro e viro-me, ficando entre a porta e o veículo. Vacilo no seu olhar por um instante, principalmente quando ele transmite uma pontinha de esperança. Tento dar meu melhor sorriso, e solto o ar em uma lufada, concordando com a cabeça.

— Sim. — olho para os meus próprios sapatos, tentando me desvencilhar de seus olhos. — Ainda vou arranjar um jeito de te recompensar pela carona.

— Aposto que vai conseguir.

Sorrio sem mostrar os dentes, e então fecho a porta, tendo noção de que ele ainda está me olhando, conforme caminho até a calçada. Mesmo com todo o trajeto do jardim da frente, até o caminho de pedras que me leva até a porta e suas pilastras, eu sei que ele está me olhando. Somente quando estou frente à frente com a fechadura, tirando a chave de minha bolsa, escuto seu carro dar partida, fazendo o caminho inverso para ir para casa.

Giro as chaves e abro a porta. Quando sinto o odor predominante de casa de vó, toda a tensão se esvai de meu corpo como fumaca se dissipando no ar. Talvez fosse a tensão de nossos corpos, ou o fato de precisar estar em casa. Mas, quando me lembro do que estava prestes a enfrentar, sou dominada por um outro tipo de tensão: o medo.

Medo de ficar de castigo e não poder ter noites como estas, provavelmente.

A casa está em um silêncio. Pelo menos, é isso na sala de estar. Conforme dou passos para conferir se estou mesmo sozinha, escuto pequenos barulhos de vidros e louças, vindo da cozinha.

Caminho até lá com a melhor pose que tenho. Aquele semblante de "não fiz nada de errado, não pode me culpar por isso". Mas quando chego lá, vejo que não preciso disto. Vovó está debruçada no balcão centralizado do cômodo, com o seu diário copo de uísque na mão, e um cigarro na outra. Seu maço esta jogado ali, e ela olha fixamente enquanto dá uma tragada. Finalmente, quando nota minha presença, seus olhos parecem mais brilhantes do que antes. E também inquietos.

— Deixe-me adivinhar: minha mãe está trabalhando?

— Por onde você andou?! — seu semblante espantado mostra o quanto fui motivo de preocupação na última noite. Ela se desdobra do balcão, e caminha alguns passos até mim.

— Eu disse que ia sair com meus amigos... — respondo, em tom monótono. Era quase convincente, pronta para repetir a dose mais vezes, garantindo que foi tudo bem e era óbvio adolescentes saírem e passarem noites fora.

Sua feição muda, como se lembrasse de algo, e depois solta uma suspiro.

— Sim, eu sei... — ela gesticula com o cigarro, virando as costas lentamente, e fazendo o caminho inverso até chegar onde estava. — Sua mãe estava morrendo de preocupação.

— Por favor, diga-me que ela está realmente morta.

— Annabeth! — adverte, e eu me remexo onde estou, levando um curto susto pelo tom de voz, quase nunca usado comigo. — Nunca mais fale assim. E eu falo sério. Precisa parar com essa agonia de odiar a sua vida. E sua mãe.

— Eu não odeio minha vida. Odeio aqui, e odeio minha mãe temporariamente por ser o motivo de eu estar aqui... E foi só uma brincadeira.

— Vocês adolescentes... — ela leva o cigarro até os lábios, puxando a fumaça até que sua boca esteja cheia dela. Em seguida, diz as palavras com ela escapando pelos seus lábios — Sempre acham que tudo é o fim do mundo. Mas nunca é. — balança a cabeça em negatividade, e permanece um tempo assim. Posso julgar que está pensando em todos os seus anos de vida, arrependimentos e erros, lembrando de como foi quando tinha minha idade. Então, seu semblante se acalma, e ela volta e olhar-me. — Como foi a noite?

— Legal, eu acho... — meus pés, involuntariamente, começam a perambular a cozinha, em um gesto como se um pequeno filme das minhas última horas, passasse pela minha cabeça. — Eu conheci um garoto.

Levanto um pequeno sorriso monótono para minha avó, como se não significasse nada demais. E talvez fosse isso. Não era um grande detalhe, ou marco histórico. Entretanto, seus olhos chegam a bilhar tanto, que ofuscam o pequeno raio de sol que atravessa a janela logo atrás dela.

— Jura? Como ele é?

— Ahn... Diferente.

— Estranho?

— Não, apenas diferente... — franzi o cenho, tentando recordar algumas características predominantes. Mas é claro que não posso incluir cigarros na conversa. — Ele é o oposto de mim. Quieto, mal sei muito de sua vida, é confiante e eu nunca sei o que responder para ele de um jeito que eu não pareça uma idiota. Isso nunca aconteceu.

— Querida, dizem que os opostos se atraem... — seu tom de voz esboça um mínimo de felicidade, e ela parece estar dando mais confiança do que eu imaginava. Era tudo que eu menos precisava.

— Isso serve para imãs. Somos pessoas.

Meu tom indiferente, como se tivesse acabado de escutar uma besteira, faz com que vovó revirasse os olhos. Talvez só fossem os hormônios que me fizessem ficar tão estúpida ultimamente, mas sou de escorpião, então provavelmente, signos tinham um dedo nisso.

— Mas então... — ela bate as cinzas de seu cigarro em um cilindro de vidro, o isqueiro, completamente sujo pro resto delas. — Como é o nome deste rapaz?

Resolvo ignorar esse "rapaz" apenas para não chateá-la como venho sendo costumada a fazer, como uma completa mala sem alça. Maldito sejam os hormônios e signos.

— Percy. Percy Jackson.

O sorriso pendente em seus lábios, que era constante até agora, de uma hora para outra, desaparece. Assim como a fumaça que subia da ponta do cigarro, e encontra o teto. Ela simplesmente some em partículas, até que seus olhos não possam vê-la mais.

Subitamente, sem perceber que estava com um sorriso mínimo, ele também se desmancha. Apenas porque sua expressão muda radicalmente, de pacífica, até que ela se transforma em algo brutal e cruel. E não que tivesse vivido muito tempo com minha vó, já que raramente íamos para Londres, e ela sim que nos visitava em Nova York, mas eu nunca a havia visto assim. Era como se ela estivesse brava. E de verdade, com direito a maxilar travado e tudo mais.

Seus passos se alongam e ecoam pelo resto da cozinha silenciosa. Ela anda vagarosamente até mim, sem tirar seus olhos do meus rosto, averiguando qualquer sinal que ele procurasse demonstrar. Como se ela tivesse me testando.

— Escute aqui — por mais incrível que parecesse, sua voz estava tão baixa, produzida em um sussurro, que eu mal pude escutar. Porém, o tom duro não havia deixado ir, e isso fez com que eu engolisse em seco — Você não pode continuar vendo este garoto.

— O quê?

— Você não tem ideia de quem ele é. De quem sua família é.

— Vó, foi só uma noite. Nós nem nos beijamos.

— É bom que não encoste mais nenhum dedo nele. — seu dedo indicador se levanta em minha direção. As unhas bem pintadas de um tom vinho, parecem garras prontas para rasgar minha garganta. — Se você fizer isso, vai se arrepender, Annabeth.

— Vovó, a senhora está exagerand–

— Fique longe dele. E da sua família. — seu olhar não vacila por um segundo, e eu posso enxergar meu próprio reflexo horrorizado além dele. — Eu espero não ter que repetir essa conversa mais uma vez.

A tensão pendente que fez meu coração acelerar a ponto de querer sair de minha boca, é quebrada quando ela se afasta com rapidez. Minha respiração está ofegante, e tudo que posso fazer, é acompanhar seus passos que seguem em direção à sala.

— Pode me dizer pelo menos o porquê?!

Esperava por uma resposta, mas nada acontece. Apenas a observo, até que seu corpo esguio não esteja mais em meu alcance, e ela some de vista.

Notas finais
SEPA VCS N ESPERAVAM POR ISSO, massssss vem aquela grande dúvida sobre o que aconteceu entre a família da Annie e do Percy. Oq vcs acham? Palpites? Perguntas? Declarações? Quem sabe eu até dou uns spoilers nos comentários ❤️ heheheheeheh De novo, ressaltando, comentem aqui embaixo o que vcs estão achando da história. Se eu devo continuar ou parar por aqui pq tá ficando chato/parado, é opinião de vcs e eu queria muito saber oq vcs acham. ❤️ ALIÁS, amanhã (5) SF faz 1 mês!!!!! ❤️UHUL VAMOS COMEMORAR. Que tal vcs me presentearem com reviews lindos, favoritos e QUEM SABE uma recomendação? Ok, não, parei. Muito cedo pra isso... Ou não. Espero que vcs tenham gostado ❤️ Xoxo, Kydd