Skyfall
2 I
Notas iniciais
Pior do que mudar de país, é só mudar de colégio após o período letivo já ter começado há algum tempo.
Se isso acontecesse há alguns meses atrás eu provavelmente estaria, no mínimo feliz. Quero dizer, pelo menos eu poderia estar em Nova York, que mesmo não sendo um lugar em que todos conheciam todos, eu pelo menos conhecia a cidade, os lugares, as escolas, os amigos mais próximos...
O que eu quero dizer, é que eles não estariam, praticamente, do outro lado do mundo. Estariam ao meu alcance. Eu continuaria os vendo em um período regular, não constante. Mas, ao mínimo eu poderia tocá-los, abraçá-los, e vê-los sorrir toda vez que nos víssemos. Tudo isso, pelo simples motivo que eu estaria lá, seja qual for a situação. Eu estaria presente no sentido físico.
Mas é claro, o mundo não é sempre as mil maravilhas que imaginamos, e eu tenho que me contentar com apenas as últimas lembranças passadas em solo americano.
Meu quarto não estava a bagunça que eu acreditava estar. Vovó disse que final de semana passado, ela havia o preparado para a minha chegada. Mas isso foram apenas pequenas vantagens minhas, já que minha mãe teve que se virar com tudo sozinha. Contudo, ele estava vazio.
Não no sentido literal da palavra, mas ele estava vazio. Bem, todos os moveis estavam no lugar, as paredes estavam pintadas de um branco gelo, tão transparentes quanto o clima lá fora. A colcha, também branca, estava impecável sobre minha nova cama. A escrivaninha com o notebook e porta-lápis, estavam fora do meu alcance. A overdose de branco e alguns nuances de cinza, estavam em seus devidos lugares.
Mas quando eu quero dizer vazio, eu digo que ele está escasso de memórias. Não foi marcante na minha vida arrumar um quarto na casa da minha avó...menos se o motivo fosse o divórcio de meus pais, e minha consciente vinda à Londres, com passagem só de ida.
Então, isso sim seria um marco bem ruim na minha história.
Mas não havia memórias o suficientes para me prender ali. Nenhum objeto que me fizesse recordar minha antiga vida em Nova York. Quer dizer, os discos de vinil pendurados na minha parede, e a diversidade de fotos do Morrisey (que eram mais constantes do que as em família), me faziam lembrar, talvez um pouquinho, a minha antiga vida.
As roupas que eu havia escolhido para o meu primeiro dia de aula, eram no mínimo, confortáveis, e também me trazem boas lembranças. A camisa bege clara, com um Pop Art de uma mulher tragando um cigarro, cobria meus shorts de lavagem clara, mas não a minha meia-calça preta, que se estendia intacta até os meus pés, dos quais calçava meu mais novo coturno e também aliado.
Eu sabia que na Inglaterra fazia frio, mas foda-se, eu não estava ligando. Eu precisava causar uma boa impressão.
Agarro minha mochila nos ombros assim que escuto pela milésima vez os ruídos da buzina. Saio de meu inútil quarto, do qual eu não possuía nenhum afeto até o momento, e percorro o caminho do corredor até a escada de madeira, onde choco os coturnos com tanta força, que minha mãe os queimaria, caso escutasse.
O pastor alemão da minha avó, (do qual não fazia questão de decorar o nome, então resolvi apelidá-lo gentilmente de Eddy, em homenagem ao Iron Maiden), estava barrando a grande porta de entrada, coberta de verniz, da casa de minha avó. Quando fiz menção de me aproximar, ele liberou o espaço para que eu, por fim, girasse a maçaneta e colocasse os pés para fora daquela casa.
Havia arrependido no mesmo momento que saí de ter vestido meia-calça.
Aquela história de saber que o continente europeu é um belo bloco de gelo, não estava nos meus planos. Relutei toda a caminhada até o carro, estacionado próximo a calçada – embora fosse um caminho curto. E, quando estava prestes a tocar no paraíso, que se chama maçaneta, lembro-me que o banco do passageiro fica no lado esquerdo.
Contorno o carro, bufando em desprezo. Não haviam motivos piores para odiar tudo nessa cidade, se não fosse o fato de eu apenas ter que morar ali.
Abro a porta do passageiro e me esgueiro para dentro do veículo, agradecendo aos deuses pelo ar-condicionado confortável que abrigava os estufados de couro. Ao meu lado, minha avó está muito preocupada em girar as chaves e dar partida no carro, do que olhar para o meu rosto congelante.
— Onde está minha mãe?
Ela acelera, posicionando o veículo no meio-fio, em uma velocidade que seria multada nos Estados Unidos.
— Um bom-dia para você também. — resmunga, no mau-humor habitual, que eu bem conhecia da minha família — No escritório, arrumando suas papeladas, ou seja lá o que forem. Ainda bem que ela tirou tudo aquilo do sofá de casa, estava rezando para Gutemberg rasgá-los... Enfim, ela pediu para que eu te levasse à escola.
— Quem diabos é Gutemberg? — pergunto, ignorando deliberadamente o fato de minha mãe ao menos estar presente para me levar na escola, justo no meu primeiro dia de aula — Ela não se cansa dos chefes dela? Aposto que já arrumou um aqui em Londres.
— O cachorro, Annabeth — vovó revira os olhos, passando a mão nos cabelos loiros envelhecidos, até a altura de seu queixo — Ela é a chefe. E não fale assim de sua mãe. Atena é... Complicada.
Solto um longo suspiro, preparando-me mentalmente para um discurso que foi muito usado nos últimos dias.
— Complicada seria um eufemismo — dou ênfase na última palavra, apenas para mostrar o quão péssima eu me sentia em relação à ela —, porque se ela amasse à mim, Malcoml e ao papai, não largaria tudo para transar no escritório de seu chefe.
— Isso se chama amor, Annabeth.
— Amor?! — praticamente berro — Amor seria o que ela tivesse, caso me deixasse lá com meu pai e Malcoml, ao invés de me trazer pra essa maldita cidade.
Ela não diz mais nada, e apenas entra em uma avenida movimentada, que facilmente poderia ser denominada como uma das principais. Talvez porque essa seria a décima vez que brigariamos por esse assunto, ou talvez ela só estava despreocupada demais com o fato de minha mãe ter estragado nossas vidas.
Atena Chase parecia viver um romance adolescente, em alguns momentos. De fato, ela nunca havia deixado de lado esse instinto. Mas ela também parecia uma policial dentro de casa, sempre cobrando e reclamando, o que gerava uma nova discussão todo dia.
Tiro meu celular do bolso, desbloqueando a tela e clicando no ícone de mensagens no visor. Digito rapidamente, o suficiente para minha avó não ver. Infelizmente, aquele era um dos poucos meios que eu tinha de me comunicar com meu irmão, Malcoml, que estava em solo americano, no entanto.
Vovó está pirada, dizendo que a palhaçada que mamãe fez, foi amor. Tenho escapatória?
Bloqueio minha tela, e o deixo em cima da minha perna. Rolo meus olhos para o lado, apenas para ter a certeza de que vovó não está me observando, porém ela está muito mais concentrada no tráfico na sua frente.
Alguns minutos, e então, ele apita, avisando que uma nova mensagem havia chegado.
Mate as duas e pegue o primeiro vôo à Nova York. É apenas um conselho, lembre-se disto.
Seguro o repuxar de meus lábios ao ler aquilo. Fico feliz em reparar que ele não havia mudado nada desde a última vez. E, é claro que ele não digitou aquilo em um sentido literal, mas eu sempre soube que os jogos violentos no Play Station 4, influenciavam sua personalidade.
É tentador, mas eu acabaria sendo pega... De qualquer forma, como estão as coisas aí?
Suspiro, recordando as últimas memórias que eu tinha de Malcoml. Ele é 3 anos mais velho que eu, já cursando a faculdade. E esse foi o grande motivo de não poder sair de Nova York.
Depois de minha mãe ser pega abrindo as pernas para seu chefe, minha vida nunca mais foi a mesma.
Eu ainda poderia escutar os gritos de meu pai quando ele descobriu. E não demorou muito após tantas brigas. Acho que, no fundo, todos nós sabíamos. Mas isso soava tão devastador que ninguém conseguia acreditar, de fato. Estava diante de nossos olhos, mas quanto mais perto estávamos, mais não conseguíamos observar... E geralmente, quando duas pessoas se separam, uma delas tem que sair de casa. Maldito seja Malcoml e sua faculdade, que garantiram uma vaga em Manhattan, enquanto eu fui obrigada a ser deportada, junto com minha mãe, para Londres, apenas porque ela havia morado sua adolescência inteira aqui, junto com minha avó, antes de ir para Nova York e conhecer meu pai.
Eu jamais a perdoaria por me tirar das pessoas que eu realmente amava.
O visor acende mais uma vez, mostrando a mais recente mensagem de Malcoml. Meu dedos não hesitam em pegar o celular novamente, e abri-la o mais rápido possível, tentando de alguma forma obter algum gostinho de Nova York.
Está tudo dando certo. Papai até aprendeu a cozinhar bem, se você quer saber. Como vai a escola? Ouvi dizer que as coisas aí na Inglaterra são um saco.
Estava prestes a digitar as primeiras letras de algum palavrão tão horrendo, que talvez fizesse me sentir um pouco melhor, por estar expressando verdadeiramente, a minha reação sobre aquela cidade e minha nova vida. Mas então, minha avó estaciona o carro próximo a calçada, em um aviso próximo de que havíamos chegado.
— Está gostando de Londres? — vovó finalmente vira os olhos em minha direção, com a sobrancelha levemente arqueada.
— Você quer dizer chás que me deixam parecendo um balão d'Ág–
— Por que se não tiver, vai detestar o colégio. — ela bufa, fazendo um gesto para que eu me apressasse — Mas não se preocupe, você fará amigos e inimigos para a vida inteira.
Engulo em seco, ao escutar aquele estridente sotaque britânico dizer "vida inteira" em um doloroso conselho. Apenas balanço a cabeça, evitando ao máximo dizer qualquer palavra que denunciasse que eu era apenas uma americana entrando no colégio quase na metade do ano. E, a partir dali, eu assumiria esse papel.
Abro a porta do passageiro, me deparando com as primeiras impressões da escola. Vários nuances do verde da grama, que se estendiam por longos 100 metros entre uma escadaria pavimentada, onde era parcialmente ocupada por jovens esperando que a aula começasse. A mesma escadaria, provavelmente me levava para a porta do colégio, da qual eu não conseguia ao menos enxergar. Tudo que via eram apenas as paredes erguidas por tijolos em tom tabaco, estendendo torres e cada vez mais torres, me lembrando um castelo medieval da Inglaterra.
Engulo em seco com a minha nova periódica visão de todas as manhãs. Respiro fundo, tentando abrigar a maior quantidade de ar em meus pulmões, prestes a enfrentar o cotidiano do inferno matinal.
Minha postura não condiz nada com as emoções que eu sentia por dentro. Eu caminho de forma tranquila, deixando que o único som presente na minha aérea delimitada, fosse o baque surdo das coturnos, chocando ruidosamente contra o chão.
Em poucos segundos, eu soube que não havia nada que eu conseguisse fazer melhor naquele momento. Meus passos estrondosos pelo pavimento claro, me levam até o começo da grande escadaria, onde eu ajusto minha postura pela milésima vez, e então, subo. O mais alto que consigo.
Era como se eu realmente não prestasse atenção em muita coisa a minha volta. As garotas de saia e meias cor porcelana até o joelho, que pararam a conversa que aparentava ser extremamente interessante. Ou até os garotos que estavam descendo os mesmos degraus que eu, dos quais o pescoço virou-se completamente para observar melhor. Dentre, as diversas pessoas, que subiam e desciam aquelas mesmas escadas, (que mais pareciam um castelo feito de gelo) que pararam para poder, de alguma forma, prestar atenção. E eu não olhei para nenhum deles, em nenhum dos momentos em que eu subia a escadaria interminável.
Eu simplesmente podia sentir o olhar deles queimando em minhas costas.
Retiro meu celular do bolso, dessa vez determinada em responder Malcoml. Era a minha única distração, e talvez a que seria capaz de me mostrar indiferente àquela situação, fingindo como se eu realmente não ligasse.
Você tem razão. A escola é uma droga.
Clico no botão de enviar, e volto a guardar o aparelho em meu bolso traseiro, invisível devido ao comprimento de minha camiseta larga o suficiente para ser considerada um modelo masculino.
Quando os degraus intermináveis parecem, por fim, acabar, encontro a lustrosa porta de entrada, que não é nada mais do que palmos maiores e que minha altura, em questão de largura, e duas Annabeths, em altura. São tingidas de um negro obscuro, que denota a escuridão e tristeza... Ou apenas seja aquilo, mais um motivo meu, capaz de convencer-me que aquele não era o meu lugar.
Quando esparramo as mãos pela porta principal, eu tive certeza que os pares de olhos direcionados à mim na escadaria, não eram nada comparados aos de agora. Suspiro, tentando me garantir de que aquilo foi apenas pelo ranger das duas portas negras, que coincidentemente, pareciam gritar "bem-vinda ao inferno".
Grunhi, tentando me acostumar com aquela excitação de todos observando atentamente meus passos... Eu não tinha a mínima ideia do que fazia naquele colégio, e nem por onde começar. Mas como a sortuda que pessoa que um dia fui denominada por esse dom, lembro-me de minha mãe fazendo algum comentário sobre meu armário ser indicado pelos números 212, coincidentemente, o meu perfume e aliado preferido.
Talvez fosse esse o motivo de ter permanecido em minha cabeça tão facilmente.
Meus coturnos estreiam o piso impecável daquele corredor do colégio, dentre milhares que eu poderia enxergar a distância... A parte de dentro, não era muito diferente de fora. As paredes ainda eram totalmente preenchidas por tijolos na coloração menos saturada de um vinho, fazendo aqueles corredores parecerem desastrosamente medíocres e sombrios. Mas que, não menos, eram totalmente chamativos e marcantes.
Os armários estão espalhados por todas as extremidades, dessa vez, na coloração de vermelho vivo, como se não estivesse sendo tão velho assim, e na verdade, acabados de sair de uma loja, em novíssimo estado. Começo a procurar os números estampados a procura do meu, e quando estou quase na metade do corredor de números pares, alheia a qualquer zombação, eu o encontro.
Procuro na minha mochila as chaves que minha mãe bondosamente me dera, e a giro na fechadura do armário 212. Ele se abre, mas para a minha nem-tão-surpresa-assim, ele está completamente vazio.
— Perdida?
Estaco, completamente paralisada no chão, meus pés presos no piso lustroso quando eu finalmente noto que alguém havia falado comigo, por mais constrangedor que aquilo pareça.
Viro-me para a direção da voz e não me sinto mais incomodada ao ver mais um clichê britânico me encarar com um sorriso escárnio e malícia. Seus cabelos são de um loiro arenoso comum na Inglaterra, e os olhos azuis são mais escuros que os meus, ou o restante dali. O que significava que era totalmente indiferente, ao meu ver. Seus nariz tinha um corte pequenininho, ainda sem ter começado a regenerar-se, e o local estava vermelho e inchado.
— Não sei o que fazer. Apenas sei o número do meu armário. — dou de ombros, fechando a pequena portinha do 212 com uma força desnecessária.
O loiro a minha frente mantém o mesmo sorriso, com as mãos pousadas dentro dos bolsos dianteiros da calça jeans.
— Já tentou a secretaria? Eles podem te oferecer um registro e seus horários — murmura, se divertindo com o fato de ter sido a primeira pessoa a vir falar comigo. Ele sacode, pigarreando e tirando uma das mãos o bolso, estendendo em minha direção — Sou Luke Castellan, estudo aqui há mais tempo do que posso me lembrar, e você...?
Inclino minha mão até a sua, onde a sacudo em um gesto amigável, tentando ignorar deliberadamente o seu sotaque, e minha nova aversão a palavras ditas em tom bonito.
— Annabeth Chase. Não faço a mínima ideia de onde é a secretaria.
— Acho que posso te levar lá, Annabeth Chase. Você não é daqui, é?
O loiro, mais conhecido agora como Luke, gesticula para que eu acompanhasse-o, agora andando lentamente pelo corredor como se tivéssemos todo o tempo do mundo.
— Não. Sou de Nova York. Me mudei para cá fazem, no mínimo, uns 3 dias — balanço a cabeça em concordância. Eu falhei em ocultar a minha verdadeira identidade. Preciso de uma nota mental que me lembre de não abrir a boca quando for extremamente necessário.
— Isso parece legal. — Luke indaga, de forma amigável.
— Acredite: não é nem um pouco legal.
Não queria ter soado rude, até porque foi uma gentileza aquele garoto ter feito o favor de me mostrar o "botão START do jogo". Eu sabia que os britânicos eram extremamente educados (e pelo que eu pesquisei, eles veneram muito o hábito de fumar), mas não fazia o menor esforço para me transformar em uma pessoa legal. Ainda que, de todas as pessoas que eu havia passado os olhos naquela escola, algumas até parecessem interessantes. Mas sou orgulhosa a ponto de não dizer isso em voz alta.
Paramos no meio do corredor, de frente para duas portas marrons, de madeiras envernizadas em um tom escuro, combinando estrategicamente com o restante do colégio. A palavra "secretaria" estava talhada em cima das mesmas portas, em bege.
— Chegamos — anuncia Luke, apontando em direção à porta — Eu não posso entrar nem se quisesse. Passo mais tempo ali do que nas aulas, na verdade. Mas estou carregando uma advertência nas costas, e se aparecer lá, existe a grande probabilidade de ser massacrado. Boa sorte.
Arqueio uma sobrancelha, mas balanço a cabeça sugestivamente e murmuro um "obrigada" como resposta. Rumo em direção daquela porta, ciente de que o tal Luke ainda estava me olhando. Ele poderia ao menos fingir que não, caso eu não estivesse tão atenta à isso.
Quando cruzo a entrada da secretaria, posso definir a sala basicamente constituída por mogno, e mármore. As paredes eram pintadas em um bege amarronzado, e o chão era revestido por um piso lustroso que simulava pedras. Plantas que chegavam a ter o meu tamanho, estavam espalhadas por cada extremidade do local. Atrás de um grande balcão de mármore, três secretarias estavam digitando furiosamente nos teclados do computador, cada uma em suas devidas mesas. Uma garota estava virada de costas para mim, conversando com uma das secretarias que parecia estar mais atenta na tela do seu computador, do que naquele tagarelar britânico.
O baque surdo dos coturnos se chocando no piso ruidosamente, fez com que naquele silêncio ensurdecedor, as quatro cabeças presentes na sala se virassem em minha direção. Dentre todas as secretárias iguais (que usassem óculos, e cabelos presos em um coque frouxo), escolho a da ponta, que antes estava ignorando a garota com quem se dirigia.
— Oi, sou nova aqui. Me indicaram a secretaria para me passar os meus horários e quaisquer outras informações que eu não estou ciente, porque, ahn... Estou perdida.
Encaro meus próprios sapatos, pronta para receber alguma pergunta que seria parecida com um "de onde você vem?". No entanto, a secretaria abre a boca para dizer alguma coisa, mas a garota que antes estava tagarelando, a corta.
— Annabeth Chase, certo? — ela indaga, e eu giro minha cabeça em sua direção. Ela tinha o meu tamanho, mas a primeira coisa que eu consegui reparar, foram seus olhos elétricos, em um azul mil vezes mais chamativos do que o europeu cotidiano. Seu rosto era sardento, com o nariz fino e empinado, e lábios que formavam o desenho de um coração. Seus cabelos eram escuros. Mais escuros que minhas coturnos, e batiam nos seus seios. Usava uma maquiagem preta, que apenas realça aquele olhar divertido, mas também aterrorizante e persuasivo que ela me estendia, esperando uma resposta.
— Como sabe meu nome? — É a única coisa que consigo dizer.
— Caramba! Eu sabia que você era americana. Ninguém muda de colégio no meio do ano. — a garota dá alguns pulos de alegria, apontando o dedo indicador no meu rosto, como se estivesse feliz com ela mesma por ter confirmado sua teoria. Ela recompõe suas estruturas, levantando o papel pardo em suas mãos até que eu possa enxergar meu nome talhado em letras enormes — Horace Green. Quem estuda em um colégio com esse nome? Eu sabia que ele não ficava na Inglaterra. E, ah... Eu estou encarregada de te mostrar a escola. Tomei uma detenção porque briguei com meu ex-namorado no meio dos corredores, tudo porque ele me chamou de cachorra... Se meu primo não tivesse me segurado, eu mesma teria batido nele.
Abro a boca para responder, mas ela meneia com a cabeça em direção à porta e passa a fazer o caminho inverso do que eu fiz, andando despreocupada até que saíssemos da secretaria. Porque eu, obviamente, acompanhei ela. Caso contrário eu estaria perdida.
— Espero que ele esteja pior do que você, então. — murmuro, ao mesmo tempo que passamos pelo corredor que estava antes.
— Ah, só fisicamente, eu diria. Meu outro primo deu um soco no seu nariz enquanto eu gritava escandalosamente. O maldito só recebeu uma advertência! Enquanto eu, uma detenção, e esse mesmo primo, Percy, uma suspensão. A vida é tão injusta, eu sei...
Paro para analisar os fatos durante um instante. Em algum momento, lembro-me de ter notado o nariz do loiro, Luke, completamente destroçado. E ele também havia comentado que está carregando uma advertência...
— Por acaso seu namorado é... Luke Castellan? — arrisco.
— É. Vai me dizer que ele já deu em cima de você hoje? — disse, em tom indiferente.
— É, talvez. Ele se ofereceu para me mostrar a secretaria. Sem ele, provavelmente essa hora eu estaria perdida na sala de qualquer classe que não fosse a minha.
— Não se engane com ele. Sempre foi um idiota. Mas eu achava divertido namorá-lo. Eu sei, era bem ridículo. — a garota arqueia as sobrancelhas, como se estivesse xingando-se mentalmente por ter tomado decisões erradas na vida. Então ela se recompõe, erguendo a sua mão até a altura da minha cintura — Sou Thalia Grace.
— Annabeth Chase — aperto suas mãos pequenas e unhas pintadas de um esmalte preto. Thalia Grace era o mais próximo que eu tinha achado de melhor naquele lugar.
— Eu sei disso — revira os olhos, em tom monótono, mostrando pela segunda vez o papel pardo com meu nome talhado. — Presumo que você não ache interessante saber seus horários agora. Eu preciso te apresentar aos meus amigos. Acho que eles nunca viram um dólar na vida deles.
— Um dólar?
— Sim, um dólar. Alguém que veio dos Estados Unidos... Você era de onde, mesmo?
— Nova York — o aperto em meu coração denuncia as saudades que eu sentia da ilha de Manhattan. Eu apenas tinha as memórias da cidade que nunca dorme. E não seria tão cedo voltar para lá.
— Puta merda, o que você está fazendo em Londres? — Thalia acusa, arregalando os olhos azuis elétricos para mim.
— Boa pergunta... — suspiro, tentando acompanhar o ritmo desenfreado de seus passos pelo corredor — A verdade é que meus pais se divorciaram, então minha mãe me arrastou junto para a casa da minha avó, que bem, ahn... É aqui.
— Deve ser horrível largar tudo que você ama em outro país. — Ela bufa, e minha mente incendeia algum tipo de afeto por aquela garota, por no mínimo tentar colocar-se em meu lugar para descrever exatamente o que eu sentia — Nova York é um sonho. Se eu pudesse, largaria meu pai e a imbecil da minha madrasta aqui em Londres, e pegaria o primeiro vôo para lá.
— Bem, quando fizer isso, não esqueça de me chamar...
Ela para no meio do corredor escuro e levanta a mão esquerda em um aceno. Sigo a linha de seus olhos eletrizantes para observar onde eles estavam parados. Dois garotos estavam agarrados as suas mochilas como se a vida dependesse disso, olhando Thalia de volta. Um deles tinha os cabelos totalmente pretos e vestia um moletom tão negro quanto os cabelos de Thalia. Mas não era só essa característica que chamava atenção. Os cabelos totalmente pretos, eram longos, batendo na altura de seus ombros. O outro, parecia relativamente mais novo, com a altura diminuída e os cabelos encaracolados quase por cobrir sua visão. Ele aparentava ter uns 14 anos, mas Thalia Grace não parecia ter o estilo de fazer amizades no jardim de infância.
Caminhamos até eles ao mesmo tempo que eles caminham até nós, fazendo com que encontrássemos na metade do caminho. Em todo trajeto, ambos olhos presos em mim como se eu fosse um alienígena, abduzindo o planeta Terra.
— Garotos, essa é Annabeth Chase — Thalia gesticula em minha direção, quando já estamos racionalmente perto, e depois alterna o olhar para os dois à nossa frente — Annabeth, esses são os garotos... E, ah! Ela é americana.
Levanto minha mão direita em um aceno, esboçando um sorriso e murmurando algo como um "oi", baixinho. Argh, eu até poderia ter tentado esconder minha nacionalidade se Thalia não tivesse aberto a boca.
— Você continua sendo péssima em apresentações, Thals — o garoto alto, vestido de preto, com cabelos grandes e coturnos idênticas às minhas, diz, e depois se vira para mim — Eu sou Nico di Ângelo, e esse é Leo Valdez. Ele pode até parecer ser mais novo, mas não se engane. É mais inteligente do que nós todos.
Solto uma risada nasal quando o outro garoto, Leo, esmurra o braço de Nico, e os três ao lado começam a rir de algo que parecia uma piada interna. Ótimo, era tudo que eu precisava. Fiquei mais concentrada em observar os detalhes do cabelo de Nico. Até que combinava com ele, e chamava atenção.
— Eu e Nico somos primos. — Thalia explica-se, oscilando o olhar entre Nico e eu.
— Oh, então foi ele que esmurrou seu ex-namorado?
No momento que digo isso, os olhos de todos, parecem voltar diretamente para o chão. Aparentemente, aquele era um assunto do qual não gostavam muito de comentar. Thalia era a única que parecia realmente se divertir contando as histórias.
— Não, esse é Percy. Mas ele não está aqui. Aliás, ele nem pode dar as caras na escola hoje porque levou uma suspensão. — Thalia arqueia a sobrancelha, tentando intensificar o fato do garoto ter levado uma suspensão. Ela, de fato, odeia injustiça — Mas, hoje à noite tenho uma apresentação no St. George's, um pub aqui perto, e ele vai. Quero dizer, todos nós vamos. Não é todo dia que eu arrumo uma grana para sustentar a minha relação de amor e ódio com o álcool.
Dessa vez, eu permito-me rir, misturando minha gargalhada desleixada com a das outras três pessoas ao meu redor. Thalia recupera uma parte do seu fôlego, e então gira a cabeça para mim como se ela e os outros dois garotos, estivessem brilhando em ideias.
— Você poderia ir junto, Annabeth. Não é todo dia que uma americana se junta ao nossos lustroso grupo de família feliz. — Ela abre um sorriso típico de família americana, e eu até penso em comentar algo, mas não sei como seria a relação de um britânico ao ouvir isso.
Em vez disso, apenas sorrio, dessa vez mostrando os dentes.
— Tudo bem — balanço a cabeça em concordância —, parece ótimo.
— Perfeito! — guincha, batendo uma palma ao dizer isso — Valdez pode roubar um carro e te buscar na sua casa. Tudo bem por vocês?
Reviro os olhos e sorrio. Aquela garota, tanto como os outros dois, parecem venerar a alegria e as risadas o dia inteiro. Ela estava sempre arranjando um jeito de colocar uma piada em tudo, o que a tornava mais engraçada por dizer em um tom monótono.
Eu não precisava que terminasse o dia para saber. Talvez, eu até tivesse gostando um pouquinho de Londres, no fim das contas...
Fale com o autor