Notas iniciais
Enjoy!

"Broken dreams and silent screams"

No caminho de volta para a nave, Ravenna não lutou. Seu corpo doía pelas agressões de antes e sua força de vontade se esvaíra no momento em que um choque na coluna lhe deixara com as pernas dormentes. Senti-as formigar, sinal de que não perdera os movimentos, o que a deixava mais tranquila.

Não demorou muito para que chegassem à espaçonave, e Teemo seguiu direto para sua cabine, ignorando as indagações dos tripulantes por quem passaram. Os homens, apesar de confusos, riam. Aparentemente aquilo não era algo tão incomum naquela nave. O moreno trancou a porta ao entrar, despejando a jovem sobre o tapede felpudo no centro. Ela lhe lançou Um olhar furioso, do qual ele riu. Estava intrigado. Era, certamente, a mulher mais bela que já vira. Delicada, macia e com um cheiro suave e inebriante. A jovem era quase um pecado vivo e que o convidava a pecar com ela. Ele se afastou, sentando-se numa cadeira próxima e apoiando os cotovelos nas pernas e segurando o queixo com as mãos.

— Foi você que vi no mercado, ontem, não foi? — Ravenna apenas o observou. — A compra da arma era só um disfarce, ou realmente é usuária de magia? Eu posso sentir um vestígio em você.

Ela arregalou os olhos, surpresa. O rapaz se levantou novamente, aproximando-se e puxando a mordaça de sua boca. Ela ergueu os olhos para ele. Levava uma expressão intrigada. Então batidas na porta a sobressaltaram. Teemo destrancou a porta, que deslizou suavemente para dentro da parede e revelou um homem alto e forte.

— Capitão. Soube que trouxe uma prisioneira — o homem falou, a voz grave reverberando pela sala.

— Não diria prisioneira.

— A venderá?

— Veja — o moreno recuou, convidando o outro a entrar.

O homem se aproximou de Ravenna e seus olhos se arregalaram. Teemo parou ao seu lado, os braços cruzados na altura do peito.

— Ela é…

— Eu não sei o que ela é — disse o capitão.

— Uma sirena, talvez?

— Acho difícil. Se fosse, já estaria sofrendo com desidratação. Acho que é apenas uma humana com uma genética muito boa.

— Se a vendermos, nos dará muito dinheiro.

— Sem dúvida.

— Onde a encontrou?

— Aqui. A peguei revirando meu quarto.

— Na nave?! Como entrou aqui, ladra? — o homem indagou, baixando os olhos avelã para a jovem e não obtendo resposta. Teemo riu.

— Ela é teimosa, não vai conseguir arrancar muita coisa. Mesmo com o soro da verdade, foi difícil fazê-la falar — disse o moreno.

— Capitão… podemos vendê-la para as minas de Ganglia. Para ter entrado aqui, tenho certeza de que pagarão uma boa recompensa por ela.

O moreno não disse nada, levando a mão ao queixo e a olhando com ar pensativo. Para ter invadido a Sky Dragons sem disparar nenhum alarme, a garota era bem treinada. Ela lhe poderia ser útil na nave ou em algum trabalho, tinha certeza disso. Bom, ela lhe poderia ser útil de muitas formas, pensou com um sorriso malicioso.

— Não. Ficarei com ela, por enquanto — disse pensativo.

— Capitão? — Estranhou o homem.

— A ladra pode nos ser útil mais para frente. Despache Brannon e Chade, quero que vasculhem o esconderijo dela.

— Sim, senhor.

— Ah Hugo — chamou quando o homem já estava na porta. — Diga que não me interrompam.

O homem acenou com a cabeça, atravessando a passagem e desaparecendo do campo de visão de Ravenna. Teemo voltou a trancar a porta, aproximando-se da jovem e a virando com o pé. Com uma faca, ele cortou as amarras de seus pulsos e tornozelos, afastando-se em seguida.

— Levante-se, ladra.

Ravenna permaneceu deitada. Suas pernas ainda estavam dormentes e ela não tinha forças para se mover. Ele se aproximou, a puxando pelo cabelo negro e a obrigando a levantar. A jovem buscou um apoio, não encontrando, e caindo. Teria batido no chão se Teemo não a tivesse segurado.

— Consegue sentir suas pernas? — Indagou. A jovem concordou com um aceno de cabeça.

— Estão formigando, mas ainda não tenho controle sobre elas — falou baixo.

— Ótimo — ele a soltou.

Ravenna escorregou para o chão novamente, erguendo o rosto e lançando um olhar irritado ao moreno, que ria. Ele se afastou, contornando a mesa a suas costas e deixando-se cair sobre a cadeira atrás da mesma, as botas de couro preto apoiadas pesadamente sobre o tampo lustroso. Os olhos azuis continuavam fixos na jovem, como um lobo observando sua presa.

— Como entrou em minha nave? Eu sei que o prefeito lhe deu um mapa, mas mesmo assim, estes corredores requerem alguma habilidade.

— O mapa era bastante preciso. E seu fã clube me deu bastante informações também — respondeu a jovem. — Deveria pagar melhor suas amantes para ficarem caladas — a jovem sorriu.

— Um fã clube… E como acessou meu quarto? Precisaria de uma chave para isso.

— No mercado subterrâneo eu peguei um cartão em seu bolso que deduzi ser uma chave. Calhou de funcionar quando o usei.

Teemo arregalou os olhos levemente. Não percebera aquele furto. De fato, a garota tinha mãos leves. Enquanto vasculhava seu quarto, pouco ele escutou de seus movimentos. Também tinha uma boa memória, devolvendo tudo ao exato lugar em que estava. Era como se ninguém houvesse revirado suas gavetas. Isso o havia impressionado, e agora ela o surpreendia outra vez. O moreno riu baixo, satisfeito. Ela com certeza lhe seria muito útil.

— Você não é uma ladra qualquer. Aposto que seus clientes também não o são.

— Não lhe direi nada sobre meus clientes — retrucou irritada.

— Ah, você vai — ele ronronou.

Novamente batidas na porta a sobressaltaram, e Ravenna olhou por sobre o ombro quando escutou a tranca abrir. Dois homem entraram carregando uma sacola cheia e Eloy. A jovem assobiou e o gato levantou as orelhas, arranhando ao homem que o carregava e pulando ao encontro de sua dona que o envolveu em um abraço.

— Gato estúpido — o homem puxou um arma.

— Se o machucar, arranco seu braço — rosnou a morena.

— Deixe-a, Chade — Teemo interrompeu.

— Capitão. Isto é tudo o que encontramos — o outro homem se aproximou da mesa, depositando a sacola.

— Algo interessante?

— Não. Em sua maioria roupas e livros. Encontrei este computador, mas precisarei de algum tempo para desbloquear.

— Dê-me aqui — o moreno esticou a mão.

Ravenna, ainda com o gato nos braços, se levantou, caminhando até a mesa e apoiando-se na mesma. Os dois homens se entreolharam, mas mantiveram-se imóveis. Teemo ergueu os olhos para ela e sorriu.

— Quanto pagou para criptografarem seu notebook? — perguntou.

— O computador foi cortesia de um cliente.

— Sabe que estava sendo espiada, não é mesmo?

— Como? — Indagou surpresa.

Teemo não respondeu, virando o computador para a jovem. Na tela, um programa espião de Doreen estava aberto. E então uma contagem regressiva se iniciou. A jovem não teve muito tempo para agir, jogando o gato em direção a uma das cadeiras e puxando o computador das mãos do capitão, murmurando uma magia de proteção e criando uma barreira em torno do objeto, que estourou um milésimo de segundo depois. Ela fechou os olhos pela dor da explosão, suas mãos presas dentro da barreira.

— Droga! — Teemo pulou a mesa. — Brannon, feche a nave e suba as defesas externas. Prepare-a para zarpar e coloque os homens para circular.

— Sim Capitão!

Brannon saiu rápido enquanto Chade aguardava ordens. Ravenna havia se curvado sobre a mesa, as mãos ardendo e sangrando. Estava com os olhos fechados, evitando olhar para as lesões. A explosão fora controlada, mas o computador estourou da mesma forma, cortando suas mãos. Seus estilhaços agora estavam espalhados pela pela mesa e chão. Depois de despachar Chade com novas ordens, o moreno voltou sua atenção para a jovem que agora conversava com o gato.

— Deixe-me ver — ordenou, aproximando-se.

Ela não protestou quando ele puxou seus braços, examinando os ferimentos por um momento. Havia estilhaços em toda a sua palma, alguns tão pequenos que só sabia que estavam lá por conta da ferida aberta. Com cuidado, baixou suas mãos e segurou em seus ombros, obrigando-a a se erguer. Ela mantinha os olhos fechados.

— Venha, precisamos tirar esses cacos da sua mão.

— Não… — murmurou a jovem.

Ele a ignorou, agachando-se e passando o braço por suas pernas, tombando-a sobre seu ombro e carregando para fora da sala. A jovem estava incrivelmente apática, o que ele estranhou. O gato branco os seguiu miando, como num protesto. Quando chegou a seu quarto, deixou o gato do lado de fora e seguiu para o banheiro, sentando-a sobre a pia e procurando por uma pinça nas gavetas do gabinete.

— O que está fazendo? — Perguntou a jovem.

— Procurando uma pinça.

— Não. Por que está fazendo isso?

Ele parou por um segundo, dirigindo-se ao armário de vidro próximo a ele, pegando álcool e algodão, e voltando para perto da morena. Embebeu o algodão e puxou sua mão, escutando-a estalar a língua quando tocou em sua mão.

— Se eu quiser vendê-la por um bom preço, não pode estar danificada — respondeu.

Ravenna não disse nada, recostando-se na parede fria e fechando os olhos, sentindo a ardência em sua mão enquanto ele limpava o sangue e retirava os estilhaços. Fora um trabalho de muita paciência, e a jovem ficou surpresa com a delicadeza do capitão. Ele puxava os pequenos cacos devagar, atento a cada reação sua. Estava enfaixando a mão de Ravenna quando o comunicador em seu bolso soou.

— Harvoc, o que quer?

— Encontramos ele, Capitão.

— Leve-o para o porão. O verei quando terminar aqui. Harvoc, não o mate — disse o moreno.

— Eu posso fazer minha outra mão — disse a jovem.

— Não a deixarei aqui sozinha, ladra — retrucou.

— Ravenna — Ele ergueu o rosto confuso. — Meu nome é Ravenna. Sou uma ladra de aluguel e meu contrato com Markusi acabou. Não tenho mais nenhum motivo para rouba-lo.

Teemo apenas riu, terminando de enfaixar sua mão e passando para a outra. Aquela parecia pior do que a primeira, levaria mais de uma hora para tirar todos os estilhaços. Voltou o olhar para a jovem, que o encarava inexpressiva.

— Consegue andar?

— Sim.

— Então venha.

Ele não a ajudou a descer, dando-lhe as costas e seguindo para o quarto. A jovem piscou e pulou da pia e o seguiu. Quando saiu do quarto, Eloy se enroscou em suas pernas, miando. Com a mão enfaixada ela o pegou, seguindo Teemo até a escada e descendo até um corredor pouco iluminado e muito quente. Deviam estar próximos a sala de máquinas da nave. Havia diversas portas naquele corredor e o rapaz a guiou até uma das últimas, que levou a uma sala ainda mais escura, onde três homens aguardavam.

— Este é ele? — Indagou Teemo, entregando a caixa que levava para o mais próximo. — Termine de tirar os estilhaços da mão dela. Apague-a, se precisar — ordenou.

Chade voltou sua atenção para Ravenna, que estava encostada na porta, e se aproximou. Automaticamente a jovem escondeu a mão atrás do corpo, lançando-lhe um olhar desafiador. O loiro franziu a testa, frustrado.

— Não seja teimosa, garota.

— Posso fazer isso sozinha. Só me dê a pinça — retrucou.

O loiro ia retrucar, mas um grito chamou a atenção dos dois. Uma faca estava cravada na clavícula de um homem amarrado a uma cadeira. A jovem o olhou surpresa. Não havia notado sua presença até aquele momento. Teemo fazia perguntas sobre o computar que explodiu e seu envolvimento com o governo de Doreen. O homem recusava-se a falar, um golpe a cada recusa. O jovem capitão não era paciente, e em pouco tempo o chão ao redor da cadeira estava coberto de sangue. Impressionada, a jovem não percebera que Chade havia puxado sua mão até que ele tirou o primeiro caco.

— Ai! — Ela recuou, lançando-lhe um olhar irritado. — Me dê a pinça — pediu.

— Ravenna — Teemo chamou, e seu nome soou como uma ameaça.

— Sou perfeitamente capaz de tirar cacos da minha mão, obrigada — respondeu a jovem.

— Ravenna… — o homem na cadeira murmurou, chamando a atenção de todos na sala, que se viraram para a morena.

— O conhece? — Perguntou Teemo.

— Não — respondeu rápido.

O rapaz a olhou desconfiado, voltando-se então para o prisioneiro, que logo gritava de dor. Inconscientemente a jovem recuou até um canto da sala, por fim cedendo às insistências de Chade e deixando que tratasse sua mão. Ravenna não gostava de violência, ficando cada vez mais incomodada com os gritos e súplicas. Chade terminou de enfaixar sua mão e se afastou, enquanto ela abraçava o gato em seu colo. Eloy tinha toda sua atenção voltada para o grupo ao redor do homem agora quase morto.

— Chade. Fique de guarda, voltarei mais tarde — disse Teemo, por fim afastando-se.

— Sim, Capitão.

Ele deixou a sala, seguido pelos outros dois homens e deixando para trás Ravenna e Chade. Os dois se entreolharam, confusos. A jovem então se levantou e se aproximou do prisioneiro inconsciente. As feridas em seu tórax sangravam, e quando esticou a mão para toca-lo foi impedida pelo outro. Ela se afastou sem dizer nada, voltando para o canto em que estava. E então a nave estremeceu e um ronco ecoou por todo o andar, estremecendo as paredes, assustando-a. Escutou Chade abafar o riso e o olhou irritada.

— O que foi isso?

— A nave. Estamos no espaço.

No espaço. Ravenna sempre quis ver o espaço, imaginava como era navegar por entre estrelas, num mar de escuridão infinita. Deveria ser uma vista bonita. Ficaram por um longo tempo imersos em silêncio, até que o loiro o quebrou.

— Como está sua mão? — Perguntou de repente.

— Está bem, obrigada.

— Não se deixe assustar pelo o que viu aqui. O Capitão só estava fazendo seu trabalho — disse o loiro.

— Não estou assustada, apenas… Incomodada. Não gosto de violência.

— Você tem sorte, o Capitão se impressionou com você.

— Por isso estou viva ainda? — Perguntou irritada.

— Exatamente. Nós vamos vendê-la a um mercado de escravos em Ganglia, quando pousarmos. Você tem um rosto bonito… Muito bonito, na verdade, então conseguiremos vendê-la por um preço alto.

— Não serei uma escrava.

— Você não tem escolha — retrucou.

— Porque está me dizendo tudo isso? — Ravenna indagou após alguns minutos.

— Estou entediado, só isso.

— Eu posso tentar fugir, agora que sei o que farão comigo.

— Se tentar fugir, o capitão a matará.

Ela não respondeu, baixando os olhos para o gato que ronronava em seu colo. Passadas algumas horas, a jovem se levantou e seguiu para a porta.

— Aonde está indo? — Chade se levantou também.

— Não aguento mais ficar nessa sala com cheiro de sangue. Quero sair — reclamou a jovem.

— Está presa aqui, eu tranquei a porta.

— Então destranque.

— Não. Ficará até o capitão voltar.

Ravenna bateu com o punho cerrado na porta, o som do choque ecoando no corredor vazio do outro lado. Ela se virou, apoiando as costas no metal frio quando este deslizou, desequilibrando-a. Teria caído se alguém não a houvesse segurado.

— É a segunda vez que faz isso hoje, ladra — Teemo falou, provocando-a. Ela revirou os olhos. — Alguma novidade, Chade?

— Ele continua inconsciente, Capitão.

— Bem, deixe-o aí então. Suba.

— Obrigado, Capitão.

Teemo esperou até que o loiro desaparecesse de seu campo de visão e voltou sua atenção para Ravenna, que franziu o cenho confusa.

— Use sua magia nele.

— Por que o faria?

— Porque é uma ordem.

— Não recebo ordens suas.

Ela não viu o que a atingiu, uma dor irradiando em suas costas e a impedindo de respirar. Ravenna apoiou-se na parede, as mãos na garganta e lágrimas escorrendo de seus olhos. Seu corpo ardia por dentro, como se tivesse engolido brasas de uma lareira recém-apagada. E então a dor sumiu e ela puxou o ar com força, enchendo os pulmões.

— O que fez comigo? — Sua voz saiu arranhada.

— Assim como você, também sou um usuário de magia. Agora, use seu poder e faça-o falar.

— Eu não sei como — arfou.

— Está mentindo. O homem diz a conhecer, sabe seu nome. O que me garante que não são aliados?

— Porquê estou fugindo de Doreen — respondeu.

— Sabe — Teemo se aproximou, enroscando a mão em seu cabelo e puxando. — Para uma ladra, você mente muito mal. Ficará aqui até fazê-lo falar. Sem água e sem comida.

Ele a soltou e saiu, trancando a porta e a deixando a sós com o homem. Ravenna olhou para ele, preso na cadeira. Realmente não era capaz de fazer o que Teemo queria. Assim, lhe restava tão somente encontrar outra saída. Tinha de haver alguma naquela sala.

Três dias se passaram e Ravenna continuava na sala de tortura. Sua memória estava falha e lembrava-se apenas de alguns momentos naquele lugar. Teemo aparecia somente a noite, torturando o prisioneiro até que falasse. Em algum momento o homem não aguentou e contou a ele tudo o que sabia, sendo levado pouco depois. A jovem, por sua vez, fora deixada lá por mais um dia inteiro. A sala cheirava a sangue, mas isso já não a incomodava mais. Em realidade, não tinha forças para estar incomodada. Sentia seus olhos pesarem e o corpo fraco. Lutava contra o sono desde o primeiro dia, até que finalmente cedeu aos encantos da escuridão, e, recostando-se em um canto mais escuro, a jovem adormeceu.

Notas finais
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