Notas iniciais
Enjoy :)

"Can we pretend that airplanes in the night sky are like shootin' stars
I could really use a wish right now, wish right now, wish right now"

Quando recobrou a consciência, Ravenna percebeu que já não estava mais na sala de tortura. Seu corpo doía, mas se forçou a levantar da mesma forma. Estava em um quarto. Simples, com uma cama e uma cômoda, mas era melhor do que continuar naquele lugar gelado. fechou os olhos novamente, voltando a deitar e levando a mão ao cabelo. Estava oleoso e ela própria sentia-se suja. Quando escutou passos, abriu os olhos.

— Oh! Está acordada…

— Chade. Onde estou? — Perguntou a jovem em um sussurro.

— Na Sky Dragons ainda. Paramos em uma lua para abastecer.

— Então a nave está parada?

— Nem pense em fugir, não conseguirá mesmo se usar sua magia — a jovem arregalou os olhos. — Não se preocupe, só eu e o Capitão sabemos. Você é uma coisinha bem perigosa, conseguiu assustar até mesmo o Capitão com o que fez lá em baixo.

Enquanto conversava, Chade preparava algo sobre a cômoda, virando-se então com uma bandeja na mão e sentando na beirada da cama. Ele a ajudou a se levantar, colocando um travesseiro a suas costas para que ficasse mais confortável.

— Chade… O que eu fiz?

— Você não se lembra? — Indagou surpreso. — Diga“aah”- disse, erguendo uma colher de sopa no ar.

A jovem não protestou, ciente da fraqueza de seu corpo. Tomou a sopa em silêncio, perdida em seus pensamentos. Não havia feito nada no tempo em que ficou presa naquela sala, tinha certeza disso. Sua lembrança era vaga, mas tinha consciência de Teemo na sala e da conversa com o prisioneiro. Estava tão distraída, que não percebera nem mesmo quando o loiro recolheu a bandeja, acordando somente com o som da colher batendo no chão metálico.

— Onde está meu gato?

— Pelo navio. Ele é um gato bastante ativo — o loiro sorriu.

A jovem suspirou aliviada e reparou que sorriso de Chade logo desapareceu de seu rosto, dando lugar a um expressão consternada quando ele se sentou novamente a sua frente. Ela franziu um cenho para ele.

— Veja… Tome cuidado enquanto estiver aqui, está bem? — Disse o loiro. — Eu não tenho interesse nenhum em mulheres, então não tem de se preocupar comigo, mas os outros não assim e você é uma garota muito bonita, então tome cuidado.

Ravenna ia falar quando porta do quarto se abriu, chamando a atenção dos dois, e Teemo adentrou o local seguido por Harvoc e um outro homem, baixo e troncudo. O loiro havia se levantado, cumprimentando os presentes.

— Capitão. Harvoc, Otto.

— Chade — Teemo cumprimentou, aproximando-se. — Tenho um trabalho para você; Harvoc e Otto o acompanharão.

Os três saíram em silêncio, e por alguns segundos, nem Teemo nem Ravenna se pronunciaram. A jovem levantou os olhos âmbar para o rapaz, que continuava recostado na parede ao lado da porta, os olhos fixos nela, que sustentou seu olhar. E então ele se aproximou e puxou uma cadeira para se sentar, apoiando-se nos joelhos.

— O que aconteceu com o prisioneiro? — Ravenna disparou, impedindo-o de falar.

— Você não se lembra?

— Não.

Ele comprimiu os lábios, como se em um dilema. Ravenna aguardou até que o rapaz decidisse falar.

— Quando desci, no dia seguinte, você estava… falando, enquanto dormia. Não era uma língua conhecida. Pensei que estivesse alucinando e disse a Chade para lhe dar um tranquilizante. Funcionou por algumas horas, mas durante a noite acordamos com gritos e quando cheguei você tinha matado o homem.

— Como…?

— Não sei. Parecia que algo a havia possuído ou coisa parecida, e sugado a vida daquele soldado. O homem parecia uma fruta seca, com uma expressão de horror no rosto.

Ravenna não disse nada, incomodada e furiosa consigo mesma. Havia perdido o controle de seus poderes outra vez. Isso sempre acontecia quando não controlava suas emoções e era frustrante. Teemo se inclinou mais para frente, estalando os dedos perto de seu rosto e a fazendo olhar para ele. O que vira naquela sala fora muito além do que poderia imaginar. Aquela garota não era comum, longe disso, mas então o que era?

— O que é você, Ravenna? — Indagou sério.

— Eu não sei. Eu nasci com essa magia e isso é tudo o que sei — disse a morena. Teemo se recostou, pensativo.

— Seja o que for, me fez mudar de ideia. Você é minha agora, assim como esse seu poder — ele disse, apontando para a jovem.

Ravenna franziu o cenho, confusa, e olhou para si, buscando algo em seu corpo, quando tateou o pescoço e sentiu um metal fino. Olhou ao redor e levantou rápido, tropeçando quando suas pernas falharam e correndo para o deveria ser o banheiro. O espelho sobre a pequena pia não era o melhor, mas servia para o propósito. Na base de seu pescoço repousava uma argola prateada, uma pequena pedra incolor presa a ela como um pequeno pingente. Voltou ao quarto furiosa, avançando em direção ao moreno, que segurou seus braços. A jovem, ainda fraca, caiu de joelhos, apoiando-se em sua perna.

— O que fez comigo? — Indagou.

— É um colar de pedra de controle. Ele me permite força-la à minha vontade — disse Teemo, exibindo o brinco em sua orelha. O pingente era feito da mesma pedra do colar.

— Você não pode fazer isso — murmurou a jovem.

— Não só posso, como o fiz. Agora, levante — ordenou.

— Não.

Ravenna resistiu. Podia sentir a pressão da ordem negada sobre seu corpo, mas se recusava a aceitar que a prendesse e usasse como bem quisesse. Não era uma marionete. Muitos outros tentaram subjuga-la, dominar o poder adormecido dentro de si, e nenhum foi capaz. Não seria desta vez diferente. A jovem fechou os olhos, abrindo-se psíquicamente e deixando fluir sua magia, espalhando-se por seu corpo, crescendo dentro de si. Aos poucos a pressão foi desaparecendo, dando lugar a já conhecida queimação de quando exigia demais de si. Seu corpo não era capaz de aguentar toda a magia que tinha dentro de si, de modo que teve de sela-la, mas este selo se quebrava em alguns momentos, seja por sua vontade ou não. Não permitiria que roubassem sua liberdade, nem que tivesse de destruir aquela nave inteira.

Teemo teve de agir rápido quando a garota se ergueu, afastando-se dele e juntado as mãos diante do corpo, uma esfera negra se formando entre elas. Nunca vira nada como aquilo e algo em sua mente lhe gritava para impedi-la de prosseguir, ou todos naquela nave se resumiriam a cadáveres. Como na noite anterior, Ravenna parecia inconsciente, como se dominada pela própria magia ou algo que a controlasse. Naquele momento, a pedra não surtia efeito algum, exatamente como o mago que a dera disse que aconteceria.“Quandoacontecer, cubra-lhe os olhos, mas nunca se coloque a sua frente. Isso acalmará o corpo e o selo que o contém o dominará”, explicou o homem quando lhe entregou as jóias. O moreno avançou em sua direção, escorregando no chão e esgueirando-se por trás da jovem — por pouco não conseguira, dado que ela recuava — tapando seus olhos e torcendo para que a tática funcionasse. Por uma fração de segundos, no momento em que a tocou, sentiu como se o tempo parasse, um novo mundo se apresentando diante de seus olhos e desaparecendo em um flash. A esfera negra desaparecera e as mãos delicadas da jovem tocaram a sua.

— Ravenna? — Chamou.

A jovem não respondeu, lágrimas escorrendo por seu rosto. Ela tremia e suas mãos apertavam a de Teemo levemente. Ravenna soltou o corpo, deixando que o rapaz a sustentasse, jogando a cabeça para trás e encostando em seu ombro. Seus olhos estavam fixos no teto, vazios. Ele não disse nada, apenas esperando.

[…]

No convés, agora fechado por um teto de vidro, a tripulação se reunia, aguardando o pronunciamento do capitão que logo se junto a eles. Os homens se aglomeraram a seu redor, todos falando ao mesmo tempo, como se fossem um grupo de aves barulhentas. Teemo ergueu a mão aberta no ar, pedindo silêncio.

— Capitão. É verdade que decidiu manter a garota ladra na nave? — Indagou Harvoc.

— Sim.

— Ela será uma escrava? — Indagou Otto.

— Não.

— Será parte da tripulação, então? — Perguntou Chade.

— Também não. Ravenna é uma arma.

Os homens o olharam surpresos. Não esperavam por uma resposta como aquela.

— Ela é uma ciborgue, Capitão? — Indagou Brannon.

— Não. Ravenna é humana… eu acho.

— Não tem certeza do que ela é? — Indagou outro tripulante, Glem.

— Não. Sua aparência é humana e sangra como um, mas há algo nela que não me parece certo — disse o moreno.

— É boa como uma humana, também, capitão? — Indagou outro, causando risos no grupo.

Teemo esboçou um sorriso, mas não respondeu, limitando-se a balançar a cabeça em negativa. Os homens logo começaram a falar juntos outra vez, alvoroçados com a novidade. Era a primeira vez que uma mulher viajava na Sky Dragons e estavam curiosos para saber mais sobre a garota que chamara tanto a atenção de seu capitão. Chade aproveitou a bagunça para se aproximar de Teemo.

— Capitão, onde ela está agora? — Perguntou.

— A deixei na sala de banho — respondeu. — Ela quase nos explodiu agora — sussurrou o moreno.

— Ela o que…?! — Exclamou o loiro.

— Fale baixo, Chade! — Repreendeu Teemo, puxando-o para longe do grupo. — Desconfio que Ravenna seja uma daquelas magas que contam as histórias da Biblioteca de Scio.

— Impossível… Essas magas desapareceram junto com o planeta em que viviam, quando a estrela da galáxia 13 explodiu — disse o loiro.

— Não acharia tão impossível se tivesse visto o que vi. Isto aqui — Teemo mostrou o brinco — é inútil com ela.

— Acha que ela está escondendo algo de nós?

— Ela está escondendo muitas coisas, mas creio que nem ela saiba o que ou quem é de verdade. De toda forma, não é um poder do qual abrirei mão.

O loiro apenas concordou com a cabeça, pensativo. A história das magas era antiga e tida como uma lenda, uma forma de justificar e encobrir a verdade do que houve com a galáxia 13. Os boatos eram de que fora um erro do Conselho que causara a destruição da estrela. De toda forma, era razoável que fizesse uma pesquisa, apenas para limpar sua mente. Teemo, também absorto em seus próprios pensamentos, voltou a realidade com o silêncio súbito que se instalou no local. Voltou-se para onde estavam os demais tripulantes, percebendo que tinham suas atenções fixas em algo. A jovem logo surgiu em seu campo de visão.

Ravenna estava hipnotizada. Subira até a área externa pronta para enfrentar Teemo, furiosa com tudo o que lhe fizera até o momento, mas ao abrir a porta e ver a imensidão negra a sua frente, a jovem congelou. Não prestou atenção nos tripulantes adiante, que falavam alto. Tão pouco prestou atenção em qualquer outra coisa, seguindo até a ponta do convés, apoiando-se na barra de proteção e inclinando-se. Estava maravilhada. Por um momento esqueceu-se de onde estava e o que a levara até ali. Ao longe podia ver uma galáxia, bela e imponente. Um cometa passava por cima da nave, distante, majestoso.

— A vista daqui é bonita, não?

Ravenna olhou de soslaio, logo voltando sua atenção ao universo. A nave parecia imóvel, apesar da velocidade em que seguia. Teemo a observou, aguardando uma resposta.

— Ravenna?

— É diferente de tudo o que já mostraram em meu planeta, mas igual a tudo o que vi em meus sonhos — disse a jovem.

— Sonhos?

— Sim.

— Já saiu alguma vez de seu planeta, Ravenna?

— Não. Eu sei o que vai dizer — ela o interrompeu antes mesmo que começasse a falar. — Lhe emprestarei minha magia, mas com algumas condições.

— E quais são?

— Primeiro, eu quero que tire esse colar de mim; segundo, eu serei parte da tripulação, e não uma serva; terceiro… — a jovem se interrompeu.

— Qual a terceira condição? — Indagou curioso.

— Não pensei em uma terceira condição — confessou aborrecida.

— Ótimo. E não aceito suas condições — respondeu o moreno. — Você é uma prisioneira em uma nave pirata no meio do espaço, não creio que tenha muitas opções de fuga e nem poder de barganha.

— Não serei uma serva — retrucou a jovem.

— Não. Você será minha arma viva. Com o poder que tem, podemos conquistar uma galáxia inteira.

— Não funciona assim. Eu não tenho controle sobre meus poderes.

— Já pude perceber isso — ele respondeu e ela revirou os olhos. — Agora, por mais agradável que eu ache a visão que tenho no momento, você deveria repensar a forma como se veste.

Teemo tinha um sorriso cínico no rosto, enquanto a jovem arregalava os olhos e seu rosto assumia uma tonalidade escarlate. Estava tão furiosa com toda a situação que sequer reparara no que vestia, simplesmente pegando uma camisa qualquer no closet do capitão e seguindo para a área externa do convés. Olhou por cima do ombro, avistando a tripulação que os encarava com curiosidade e muitas intenções e voltou rapidamente o olhar para o capitão, que se divertia.

— Roupas! — Exclamou. — Essa é a minha terceira condição.

— Essa condição eu aceito. — Ele lhe esticou a mão.—Temos um acordo, Ravenna, a ladra.

[…]

Por mais que a jovem odiasse admitir, a vida na nave pirata, até o momento, não estava de todo ruim. Bem, estava ali havia apenas uma semana, o suficiente para aprender e entender como funcionava a hierarquia entre os tripulantes. Por mais que se dissessem uma família e que não havia distinção entre um e outro, as patentes eram implícitas e aceitas passivamente.

Harvoc era o braço direito do capitão, assumindo o comando da nave sempre que este se ausentava. Era ele o responsável, também, pela organização de pedidos e tratativas com clientes. Otto e Glem representavam a força bruta e executavam a maioria dos trabalhos, liderando equipes quando solicitações de maior complexidade. Dentro da nave, cuidavam da manutenção de máquinas. Chade e Brannon eram o navegador e o intelectual do grupo, sempre perdidos em meio a mapas e livros na biblioteca ou na sala de navegação. Os demais tripulantes, um total de seis outros homens, apenas seguiam ordens e cuidavam dos demais afazeres da nave, mas com a presença dos robôs não havia muito trabalho, de modo que passavam a maior parte do tempo no convés jogando e bebendo e falando besteiras.

Ravenna estava abaixo desses homens, na base da pirâmide hierárquica. O que a salvava dos abusos era o fato de o capitão a manter sempre por perto, como um animal de estimação. Aonde ele ia, ela deveria seguir, e ele passava a maior parte do tempo em seu escritório, perdido em relatórios que deveria submeter ao Conselho Anexo e conversas intermináveis com contatos dos mais variados. Presa na sala, a jovem se deixava perder em extensas leituras. Era isso ou morrer de tédio em menos de um ciclo solar. E estava justamente em um desses momentos imersão quando o som de algo se quebrando lhe chamou a atenção. Olhou ao redor assustada.

— O que fez? — Indagou ao ver vidro estilhaçado por sobre a mesa de Teemo e sangue em sua mão.

— Nada — respondeu seco.

— Isso não parece nada — comentou, voltando sua atenção para o livro.

Teemo a ignorou, verificando o corte em sua palma em busca de cacos de vidro, enfaixando a mão em seguida. Estava furioso, mas manteria a pose calma. Ao menos por enquanto, até porque precisava esfriar a cabeça. Não acreditava que havia deixado aquilo acontecer. Levantou e seguiu até a estante onde ficavam os arquivos de missões concluídas, buscando nos discos os nomes dos executores do trabalho em questão.

— Ravenna, busque Harvoc, Otto e Glem — ordenou.

A jovem levantou os olhos do livro, mas não se moveu. Ele caminhou até ela, puxando o livro de suas mãos e o fechando com um baque poeirento, e a puxando da poltrona.

— Não me provoque — rosnou.

— Solte-me — disse desvencilhando-se do moreno. — Você deveria aprender a controlar seu temperamento.

A jovem saiu resignada, esfregando o braço vermelho e seguindo para o convés. Era sempre um porre quando tinha de interagir com a tripulação. À exceção de Chade e Harvoc, os homens não a respeitavam em nada, cumprindo tão somente as ordens do capitão. Era irritante, mas a jovem se esforçava para ignorar. Reunidos os três, que agora cochichavam entre si, Ravenna os guiou pelos corredores até a sala de Teemo, que os aguardavam na porta com uma expressão de poucos amigos.

O que se seguiu após o fechamento da porta não foi agradável ou bonito. Ele estava furioso e descontava a raiva nos três homens a sua frente com palavras afiadas e ameaças veladas. Otto, exatamente como outros haviam comentado, provocava o moreno com respostas sarcásticas e gestos insolentes. Ravenna sabia que Teemo estava em seu limite quando se recostou na mesa e segurou o tampo com força, até que os nos de seus dedos ficassem brancos. Algo lhe dizia que aquilo não terminaria bem.

— Bem, Capitão, se o cliente não é capaz de dizer se o objeto é verdadeiro ou não… — começou a falar Otto.

— Cale-se — rosnou Teemo, deixando os outros dois em alerta, que recuaram.

— E estou errado por acaso? Não é minha obrigação sab-

O homem, troncudo e forte, fora arremessado para trás e bateu violentamente contra a porta. Apontada para ele estava a arma que Teemo comprara no dia em que ele e Ravenna se conheceram. A jovem reconheceu o uso de magia e se aproximou de Teemo. Otto levantou com uma expressão rabugenta e avançou na direção do moreno, que se esquivou do golpe desferido com facilidade e contra-atacou, derrubando o outro.

— Seu trabalho era recuperar e entregar o verdadeiro medalhão, e nem isso você foi capaz de fazer — rosnou Teemo, aproximando-se de Otto, que se erguia, e o segurando pela gola da camisa. — Eu não o tirei de Orácion para que me roubasse ou colocasse minha tripulação e minha nave em risco. Onde está o medalhão?

O tom de sua voz era baixo e ameaçador. Harvoc e Chade apenas assistiam a discussão, encostados na parede um de cada lado da porta como guardiões. Ao que parece, Otto tinha um passado complicado e um temperamento difícil, o que causava muitos atritos entre ele e Teemo. A jovem se perguntou por que raios então o moreno decidira recrutar aquele homem para seu bando. Reparo que a mão do capitão ainda sangrava, manchando a faixa que se soltava aos poucos.

— Não está comigo, se é o que quer saber — retrucou o baixo.

— Você a vendeu? — Teemo arregalou os olhos.

— Eu precisava do dinheiro.

Outro golpe, desta vez com maior ferocidade, e Ravenna teve certeza de que um dente voou pela sala. Que nojo, pensou. Otto voltou a se erguer, limpando o sangue que escorria da boca cortada com as costas da mão. Teemo avançou em sua direção, desferindo um novo golpe na boca do estômago e outro em sua nuca. Desta vez, Otto demorou a se levantar, mais uma vez sendo preso pelo colarinho da camisa, agora retorcido nas mãos do moreno.

— Eu lhe disse uma vez, se colocar minha nave e minha tripulação em perigo, eu o mato — sibilou Teemo. O outro apenas sorriu com escárnio.

— Se me matar, nunca descobrirá onde está o medalhão — retrucou.

O que aconteceu a seguir foi muito rápido, e quando a jovem se deu conta, o corpo de Otto estava caído sobre a poltrona onde antes estivera sentada — agora tombada — e Chade o socorria enquanto Harvoc se esforçava para conter Teemo. Por um breve momento, Ravenna pensou que Otto estivesse morto. Não que se importasse com aquele ogro, mas violência e morte eram duas coisas que realmente a desagradavam, e já bastava tudo o que vira até aquele momento. Trêmula, ela se aproximou do capitão, que discutia com Harvoc, e tocou em seu braço chamando a sua atenção.

— Você está perdendo a razão — a jovem falou baixo.

Teemo baixou os olhos para a garota que, apesar de inexpressiva, estava trêmula. A mão delicada em seu braço era quase uma carícia, tão suave era seu toque. Mãos de ladra. Por um momento ela apenas sustentou seu olhar, determinada, até que suas bochechas adquiriram um leve tom rosado e ela desviou os olhos âmbar, fazendo com que os cantos dos lábios do moreno se curvassem em um discreto sorriso.

— Está bem — Ele voltou-se para Chade. — Leve-o daqui e descubra onde está o medalhão.

O loiro concordou com um aceno de cabeça, passando o braço musculoso do amigo por sobre os ombros e o ajudando a levantar. Otto saiu em silêncio, resignado. Harvoc, que apenas observava, voltou sua atenção para a jovem.

— Como fez isso? — Indagou. Ela lhe lançou um olhar confuso.

— Deixe isso para lá — disse Teemo. — Enquanto eu estiver fora, deixarei a nave sob seu comando.

— O que faremos com Otto?

— Apenas fique de olho nele. E peça a Chade e Brannon para que me enviem a localização do medalhão pelo comunicador.

— Como desejar, Capitão.

O moreno agradeceu, dando um tapinha no ombro do outro, e deixou a sala. Ravenna o seguiu e já estava na porta quando Harvoc a segurou.

— Diga-me, como o fez parar? Eles já brigaram antes e não foi fácil contê-los — disse o homem.

— Eu realmente não sei — respondeu a jovem, soltando-se.

Teemo a aguardava ao final do corredor, recostado no batente do portal que levava a escada. A jovem o obsrrvou desconfiada, o meio sorriso a irritando profundamente. Quando a olhava assim tinha a sensação de que algo ruim lhe aconteceria. E então ele lhe deu as costas, descendo. Seguiram em silêncio até os aposentos do capitão, nos fundos do segundo andar.

— Espere aqui, não demorarei — o moreno indicou o sofá da antessala.

Ravenna não gostava de receber ordens de Teemo, mas sabia quando não provocar o rapaz. Enquanto ele desaparecia no interior do quarto a jovem aproveitou para observar o local. As únicas vezes em que estivera ali foram quando invadiu a nave e quando teve as mãos cortadas por estilhaços. Sempre visitas rápidas e experiências não muito agradáveis. Aproveitaria aquele momento para investigar um pouco sobre o capitão.

A antessala era mobiliada de forma minimalista e com objetos modernos. Sobre a mesa de centro havia alguns livros e revistas espalhados e sobre a lareira um cubo holográfico contendo a imagem de um menino e um homem de cabelos alaranjados e barba falhada. Reconheceu o menino pelos olhos azuis, tão claros quanto o mar de sua terra natal. Ficou observando a imagem dos dois por um longo tempo, abraçados e rindo como aquela foto tivesse sido tirada no dia mais feliz de suas vidas. Quando se afastou, percebeu que Teemo a observava.

— Desde quando está aí? — Indagou.

Ela o olhou de cima a baixo, analisando suas roupas. Tinham um ar sóbrio e elegante, deixando-o mais de acordo com sua posição dentro do grupo. O casaco preto de botões e gola alta parecia realçar o contraste de sua pele com o cabelo escuro.

— Não muito — ele avançou em sua direção. — Vamos, não temos muito tempo para perder — disse o moreno, puxando-a.

— Teemo, aonde vamos? — Indagou a jovem.

— Resolver a merda que Otto fez — respondeu, irritação permeando sua voz. — Mas você não pode aparecer assim em um palácio — murmurou.

Ravenna o seguiu confusa, uma sensação de que não gostaria do que estava por vir. Seguiram até o hangar, onde algumas naves pequenas estavam estacionados. No centro, já preparada para decolagem, estava uma que, aos olhos da jovem, parecia um pássaro. Eles entraram e a porta se fechou com um rangido.

— Ravenna, sente-se, vamos decolar — avisou Teemo, tomando o assento do condutor.

A jovem correu para a poltrona vazia e escutou o rapaz abafar o riso, mas o ignorou, mais preocupada em se entender com o cinto daquele troço, em vão. A nave arrancou antes que conseguisse afivelar e a jovem se agarrou aos braços, observando com olhos arregalados enquanto deixavam a nave principal e se lançavam ao espaço.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.