Notas iniciais
Enjoy!

"Sweet dreams are made of this

Who am I to desagree"

Ravenna acordou naquela manhã com o sol batendo em seus olhos. Esquecera novamente de fechar a persiana. Um suspiro pesado lhe escapou os lábios rosados enquanto se levantava. Seguiu para o banheiro, escovando os dentes e tomando um banho rápido. Ainda enrolada na toalha a jovem seguiu para a varanda do apartamento, observando a cidade sob seus pés. Um sorriso moldou seus sábios, desaparecendo rapidamente ao escutar o toque do comunicador — uma esfera de quartzo rosa. Quem poderia ser, tão cedo? Ao tocar a esfera a imagem de um homem de terno e denso bigode apareceu dentro do objeto.

— Ravenna.

— Bom dia para você também, Prefeito — disse com ironia. O homem revirou os olhos.

— Tenho um trabalho para você.

— Que tipo de trabalho?

— Uma nave pirata pousará em Calámya dentro de alguns dias. Quero que recupere uma carga em posse dos piratas.

— Está me pedindo para roubar piratas espaciais, Markusi? — indagou incrédula.

— Exatamente.

Por um momento ela apenas encarou a imagem do homem, que permanecia com uma expressão impassível. Passou a mão pelo cabelo negro, pensativa. Piratas espaciais não eram como os piratas de seu planeta e sabia disso. Além disso, nunca chegara nem perto de uma nave espacial. Como entraria em uma?

— Markusi, não sei se sou a melhor pessoa para esse trabalho… Sequer vi uma nave espacial em minha vida — disse.

— Eu sei disso, mas estou sem opções Ravenna. Você é a única que acredito ser capaz de sair com vida daquela nave — disse.

— Você não está sendo muito persuasivo com esse discurso, Prefeito.

— Não sei como ser delicado, me desculpe. A nave que está em posse do que quero se chama Sky Dragons. Acredito que já tenha ouvido falar deles.

— Algums rumores apenas.

— Imaginei. São piratas famosos, comandados por um jovem capitão prodígio, Teemo Skydragon. Acredito que a caraga de que falo estará sob seus cuidados.

— Cada vez menos atrativo. Você tem alguma informação sobre a nave e a tripulação? Se tiver um mapa, ainda melhor. Quanto mais informação, mais preciso será meu trabalho — disse a jovem.

— Eu lhe enviarei a papelada através de um Droid esta tarde.

— Prefeito, quanto tempo tenho para me preparar?

— Três dias.

Ela não disse nada, encerrando a comunicação e caindo pesadamente no sofá ao lado. Não tinha ideia de como executaria aquele trabalho. Desde seus dezessete anos, quando deixou o grupo mercenário com que trabalhava e comprou um apartamento em Emerald City — sua atual morada — a jovem trabalhava como ladra de aluguel. Do ponto de vista desafiador, era um ótimo trabalho, e como se destacara por suas habilidades, conquistara grandes clientes — a maioria, membros da alta sociedade e do governo. Além disso, o pagamento era bom e lhe garantia uma vida confortável.

A jovem passou a manhã preparando-se para a pequena viagem. Calámya era uma cidade que ficava a poucas horas de viagem de Emerald City e famosa por suas tavernas. Como uma cidade de pouso, o número de visitantes era alto, o que era perfeito para o disfarce da ladra. Ravenna estava fechando sua mala quando escutou um miado baixo, voltando a abri-la e encontrando entre as roupas um simpático gato branco.

— Eloy! Você não pode ir comigo desta vez — ela disse, encostando o nariz em seu focinho rosado.

Ela colocou o bichano sobre a cama e fechou a mala, levando-a para a sala. Agora faltava apenas o mensageiro chegar para que pudesse partir. Enquanto aguardava, pesquisou um pouco sobre os piratas que roubaria. O ex-capitão havia sido membro do Conselho Intergaláctico e o atual capitão não era tão mais velho do que ela e estava no comando há pouco mais de 3 anos. Sua inexperiência — e provável arrogância — lhe dava uma vantagem. Sorriu satisfeita. Sua tripulação era bastante diversificada, com membros de cada planeta, a maioria da Galáxia 10. A nave era famosa e possuía até mesmo um fã clube. Perfeito!Pensou animada. Ali havia todo tipo de informação sobre a tripulação e nave, incluindo fotos.

O capitão foi quem mais lhe chamou a atenção. Cabelo negro e olhos azuis cristalinos. Um sorriso torto e cheio de significados e que parecia esconder algo. Era um sorriso que lhe dava arrepios e também a irritava. Fechou o notebook ao mesmo tempo em que escutou um piado vindo de sua janela. No beiral um passarinho mecanico de cor acobreada piava. O mensageiro. Ela pegou a ave, colocando-o no bolso do casaco, e saiu.

[…]

Calámya City fazia jus ao nome. A cidade era o caos. Barulhenta, movimentada e com cheiro de álcool, era famosa em toda a galáxia e atraía centenas de turistas todos os dias. Seua bares eram famosos e super lotados, funcionando ininterruptamente. Mas o que realmente atraía os piratas para a cidade era o mercado subterrâneo, onde se podia encontrar de tudo — desde que pagasse o preço. Ravenna costumava visitar o mercado uma vez ao ano, para se abastecer de munição e conhecer as novidades do mercado.

Depois de se estabelecer e fazer o reconhecimento da cidade e da área de pouso, planejando rotas de fuga durante a noite, a jovem decidiu usar seu segundo dia para visitar o famoso mercado. Passeava por entre as barracas pequenas e amontoadas, parando em uma e outra para ver algo que lhe chamasse a atenção. Um objeto em particular a havia interessado. A olhos leigos era uma simples pistola de plasma, mas com as modificações corretas era uma arma de destruição em massa nas mãos de um usuário de magia. Estava negociando com o vendendor quando uma pequena bolsa de couro de lagarto dourado caiu pesadamente sobre o balcão de pedra rústica, atraindo a atenção dos dois.

— Levarei a arma — disse o rapaz atrás de Ravenna.

Ela se virou rápido, pronta para discutir, quando percebeu quem era. Seu queixo caiu e ela precisou de alguns segundos para se recompor. Não podia acreditar na sua sorte. Parado bem a sua frente estava ninguém menos que Teemo Skydragon.

— Quer que a embrulhe, senhor? — o vendedor indagou.

— Não.

— Espere. Essa arma é minha! — Exclamou a morena. O moreno arqueou uma sobrancelha e riu.

— Claro.

Ele pegou a arma e guardou no bolso interno do caso, afastando-se. Ravenna apenas o observou desaparecer entre a multidão.

— Você vai deixa-lo sair assim, moça? — O vendedor indagou.

Ela sorriu para ele, exibindo o cartão em sua mão e se afastando. O homem piscou sem entender, balançando a cabeça e voltando a organizar sua mercadoria. A morena seguiu na mesma direção que Teemo, avistando-o em uma tenda pouco tempo depois. Ela o segiu de longe, observando e aprendendo. Não bastava conhecer o histórico, precisava conhecer o inimigo de perto. Quanto mais aprendesse sobre ele, mais fácil seria seu trabalho.

[…]

Teemo passou o dia no mercado subterrâneo e quando voltou à superfície já havia escurecido. A jovem de antes ainda o seguia. Percebera que ela o seguia hâ um tempo, talves esperando um momento em que estivesse sozinho para lhe roubar a arma. A observara negociar com o vendedor. Era boa, poderia se dar bem em sua tripulação. Mas uma mulher em uma nave só com homens? Precisava ponderar. A testaria primeiro.

Seguiu para o bar, vez ou outra prestando atenção na jovem que ainda o seguia. Ela usava uma máscara preta, o que dificultava ver seu rosto, mas pela linha do maxilar, era bonita. Sua voz também era atraente. Cristalina, como um sino. Entrou n'O Traverso, bar famoso pela coleção de bebidas de vários mundos e produção própria de Choppe de Barbs. Procurou por uma mesa afastada da bagunça, mais ao fundo e esperou pela jovem que não entrou. Soltou um suspiro pesado, tomando um grande gole da bebida que lhe fora servida. Queria saber quem era ela.

Ravenna seguiu para o hotel em que se hospedara, afundando-se na banheira de água quente e relaxando. Não acreditava que quase caíra na armadilha do capitão. Ele a atraíra até o bar, e ela o seguiu até quase o ponto em que não teria volta. Ele era mais esperto do que imaginou. Sua postura também a impressionara, sem nenhuma abertura. E ele ainda carregava duas pistolas com ele. Isso a deixara um pouco nervosa.

Ergueu as mãos, posicionando-as em concha e observando a água que se acumulara em sua palma. Vitrae Incantatem, murmurou. A água turvou-se por um momento, exibindo, em seguida, a imagem de Teemo. Ele continuava n'O Traverso. Era uma magia simples que funcionava desde que houvesse líquido próximo ao alvo. A morena passou a noite o observando beber, até que, próximo ao amanhecer, o feitiço se quebrou quando ele finalizou a bebedeira.

Era o terceiro dia. Markusi a encontraria ao entardecer para receber a mercadoria roubada. Precisava colocar seu plano em ação. Segundo fontes do fã clube, Teemo tinha um sono pesado, principalmente após uma noite de bebedeira. Pela conversa que escutara entre ele e alguns de seus homens na noite anterior, a tripulação ficaria fora no período da tarde para cuidar de tarefas genéricas, como abastecimento da nave, suprimentos e afins. Ou seja, era a sua chance de entrar e recuperar o objeto. Segundo as informações de Markusi, o que ela deveria recuperar era uma caixa lilás de tamanho pequeno e que estaria em posse do capitão. Sob nenhuma hipótese deveria abrir a caixa.

Pegou o pássaro sobre a cômoda e abriu mais uma vez o mapa holográfico da nave. Ela possuía três níveis: o superior, metade aberto e onde ficava a cabine de navegação, o do meio reservado para a tripulação, e o mais baixo era onde ficavam o depósito e sala de controle. Conforme o mapa, os aposentos do capitão ficavam no fundo da nave e, segundo as informações passadas, ele mantinha a caixa lilás com guardado em algum lugar daquele quarto. Ravenna teria de ser furtiva e muito silenciosa, pois entraria enquanto ele dormia. Olhou para o relógio em seu pulso e desligou o pássaro, pulando da cama e seguindo para o banheiro. Pouco depois, vestia seu disfarce — uma peruca loura e roupas típicas de turistas interioranos. Carregava consigo uma pequena bolsa, dentro da qual levava alguns apetrechos que poderiam lhe auxiliar em seu trabalho. A máquina fotográfica em seu pescoço, um modelo antigo que comprara em uma loja de bugigangas, complementava o disfarce. Olhou-se no espelho uma última vez, inspirando profundamente e deixando o quarto.

A cidade estava movimentada como sempre, o que a agradou. Quanto mais pessoas nas ruas, melhor era sua camuflagem. No caminho até a área de pouso, a jovem se deu ao luxo de parar em algumas lojas e até mesmo comprou uma roupa nova para si. Um lenço de tecido leve e cor azul royal mesclado com branco que lhe lembrou do céu noturno. o enrolou ao redor do pescoço quando se aproximou da área de pouso, descartando a enorme sacola em um lixo próximo. A área de pouso estava movimentada além do normal com três grandes naves se aproximando. Funcionários de plataforma corriam de um lado para o outro, preparando-se para receber as gigantes que se aproximavam. A jovem seguiu adiante em busca da nave que invadiria, avistando-a logo a frente. A couraça furta-cor era inconfundível, brilhando imponente sob a luz da estrela que iluminava aquela galáxia. Ravenna parou a uma distância segura, tirando da bolsa um pequeno espelho em formato de concha e conferindo o disfarce. Tudo no lugar, ela seguiu em direção à Sky Dragons.

Inicialmente, a fim de verificar a posição da tripulação e quantos ainda estavam na nave, a jovem fingiu tirar foto de várias outras espaçonaves e também da paisagem, como se fosse uma turista em sua primeira viagem, vigiando a saída principal da nave e o tráfego de pessoas pela área. Aproximou-se aos poucos, esgueirando-se para uma porta lateral e digitando a senha que Markusi lhe passara. Suspirou aliviada quando a luz vermelha mudou para a cor verde e a tranca da porta de abriu. Entrou a passos leves e silenciosos, deixando seus sapatos do lado de fora — escondidos atrás de uma lixeira — para garantir uma maior furtividade. Andava a passos curtos, com cautela, atenta a qualquer som ou sinal de movimento. Ligou o pássaro robô e abriu o holograma do mapa, prendendo a ave em seu ombro e seguindo em frente. Segundo o mapa, estava no andar superior e precisava atravessá-lo para chegar à escada que levaria aos andares mais baixos. Além dela, havia outras duas pessoas ali, reunidas em uma sala não muito longe de onde estava.

Passar por elas não deveria ser um problema, desde que tomasse cuidado com as armadilhas espalhadas pelo local. Essa era uma das maiores dificuldades, a nave era extremamente bem protegida internamente. Com tecnologia de ponta, a nave reconhecia seus tripulantes e eliminava eventuais transgressores que ousassem se aventurar em seu interior. Câmeras, detonadores por pressão e até mesmo robôs contribuíam para a segurança. A maioria estava concentrada no terceiro andar, onde ficava o depósito, o que mostrava a confiança do capitão e tripulação em suas próprias habilidades. Por sorte, o mapa conseguiu apontar, com relativa precisão, aonde estavam as armadilhas de cada andar. A primeira, um detector laser, encontrava-se a poucos metros de Ravenna. Aproximando-se, a morena puxou um borrifador portátil de dentro de sua bolsa e liberou a fumaça dentro do frasco, revelando as linhas luminosas. Não seria fácil passar, mas a jovem já vira piores. Fechou o casaco que usava, prendendo a bolsa dentro dele, e alongando-se. E então ela avançou, pulando a primeira faixa e pousando graciosamente entre outras duas, esgueirando-se por baixo das seguintes e contorcendo-se para passar por mais três, em alturas diferentes, mas na mesma direção.

Quando finalmente alcançou o outro lado, a fumaça já se dissipava. Deixou um suspiro escapar por seus lábios e seguiu adiante, olhos fixos no mapa e ouvidos atentos a qualquer som. logo pode escutar a conversa. Dois homens falavam alto, como se estivessem discutindo.

— É claro que não! O Pacerssão e sempre serão os melhores jogadores de Space Roots.

— Você está delirando, Glem! Duvido que consigam chegar até as semi-finais este calendário — riu o outro. Ela não podia deixar de concordar com ele.

Um estalo fez a jovem parar, escondendo-se em um armário próximo enquanto passos pesados ecoavam no corredor. Olhou ao mapa, um dos pontos“T”(deTripulação) se movia em sua direção. Logo o outro o seguiu.

— O que foi, Glem?

— Pensei ter visto uma luz… — disse confuso.

— Vê? Você está delirando! Vamos voltar para o jogo e aproveitar enquanto o capitão está dormindo — disse.

— Falando no capitão… Acha que ele vai trazer aquela garota de quem falou hoje cedo?

— A morena do mercado? Duvido… Esta nave não é lugar para mulheres!

Ravenna escutou um dos homens rindo maliciosamente e revirou os olhos. Melhor do que ser surda, pensou. Aguardou alguns minutos antes de deixar o armário, atenta a qualquer sinal de movimento no mapa. Os dois homens haviam retornado à sala e discutiam acaloradamente sobre beleza e mulheres. Ravenna seguiu adiante, tomando um caminho alternativo que levou para longe dos tripulantes. Não demorou muito até que topasse com outra armadilha. O chão quadriculado indicava sensores de pressão e pequenas ranhuras nas paredes denunciavam as armas escondidas. No mapa, conseguia ver a localização aproximada dos sensores. A morena sorriu, lembrando-se da vara retrátil que comprar no dia anterior, puxando-a da bolsa e preparando-se para pular. O caminho até a escada não foi difícil, mas algo lhe dizia que o pior ainda estava por vir.

Conforme a informação de Markusi as escadas da nave eram pouco usadas, o que as tornava o esconderijo perfeito para Ravenna. A ladra sentou em um degrau e avaliou os objetos em sua bolsa. Nada que pudesse ajuda-la caso topasse com um robô. Teria de contar com sua magia, a qual não gostava de usar. Inspirou fundo, estudou mais uma vez o mapa do andar inferior e devolveu o pássaro ao seu ombro. Evitando o caminho com armadilhas, a jovem conseguiria chegar aos aposentos do capitão sem grandes problemas. E aí começaria o problema. Enquanto o rapaz dormia a jovem teria de vasculhar o quarto atrás da caixinha lilás de Markusi. Estava torcendo para que as informações do fã clube fossem verdadeiras.

Ravenna passou pelas armadilhas com facilidade, o mapa de Markusi indicando todas com precisão. Precisava lembrar de lhe agradecer por isso. Estava agora parada diante da porta que a separava de sua gorda recompensa. Ponderava sobre suas ações e elaborava planos de fuga caso o moreno acordasse. Puxou do bolso do shorts o cartão que roubara no outro dia, aproximando-o do leitor da porta. Prendeu a respiração, tensa, até que um apito baixo soou e as porta se abriu, deslizando para dentro da parede e revelando uma antessala imersa na penumbra e um tanto bagunçada. A jovem seguiu com cautela, os olhos escaneando tudo o que pôde antes de a porta se fechar. Piscou algumas vezes até que seus olhos se acostumassem à escuridão e continuou. Com as mãos leves tateou a mesa de centro, os dois sofás e o bar e então seguiu adiante, frustrada. Estava se arriacando demais por aquele trabalho, Markusi teria de lhe pagar um adicional.

Ravenna congelou ao escutar uma voz baixa, quase um suspiro de palavras. Voltou sua atenção para a fontem do som: o capitão adormecido em uma suntuosa cama flutuante. Aguardou alguns segundos antes de continuar sua busca. Nada na cômoda, nem mesmo entre as mil porcarias na gaveta. Não queria ter de se aproximar muito dele. Andava na ponta dos pés, com cuidado para não pisar ou chutar qualquer objeto jogado no chão. Céus, que homem bagunçado!pensou balançando a cabeça em sinal negativo. Aquele quarto parecia que não via um robô de limpeza há séculos. Olhou ao redor em busca de um armário, avisando uma passagem que a levou a um closet extremamente organizado. Aquilo não fazia sentido. Quando adentrou, uma luz suave se acendeu automaticamente e ao fundo um robô apitou. A jovem agiu rápido, pulando sobre a bancada e desativando o robô com sua magia. Aguardou por um tempo, vasculhando o local com os olhos — a caixa não estava visível. Teria de olhar gaveta por gaveta, e havia várias ali. Não fora uma tarefa fácil, e no fim, ainda não encontrara a bendita caixa. Restava agora um único lugar. Na ponta dos pés, e com toda a delicadeza que conseguiu reunir, a morena se aproximou da cama, agachando-se diante do criado-mudo ao seu lado e abrindo lentamente a primeira gaveta. Teve de reprimir um grito ao finalmente ver o objeto lilás que buscava.

— Você demorou para encontra-la, ladra — alguém cantarolou ao seu lado, surpreendendo-a.

Ravenna levantou rápido, afastando-se e guardando a caixa em um bolso interno do casaco ao mesmo tempo que puxava a arma em suas costas. Um estalo e uma luz iluminou suavemente o quarto. Sentado na beira da cama estava Teemo, a arma que comprar no outro dia apontada para a jovem. Ravenna estalou a língua, frustrada e recuou um passo, ao mesmo tempo em que ele sorriu e sua visão escureceu.

[…]

Ravenna tinha a sensação de estar em movimento, como se andasse em uma carruagem velha nas ruas esburacadas de Calámya City. Seu corpo doía e quando tentou esticar os braços, algo a impediu. Forçou-se a abrir os olhos, piscando algumas vezes para se acostumar à iluminação. Não estava em uma carruagem, mas sendo carregada como uma caça abatida. Suas mãos e pernas estavam amarradas, e quando tentou se debater algo lhe picou a coxa, enviando ondas elétricas por seu corpo. Desorientada, tentava descobrir aonde estava ou quem era seu sequestrador. Aquelas botas polidas não lhe eram estranhas.

— Ora, ora, Prefeito Markusi — uma voz macia soou no momento em que o homem parou de andar.

— Teemo… Ravenna?! — Escutou o outro exclamar surpreso.

— Você tem coragem, devo admitir… Para mandar uma ladra em minha nave; e tudo por causa de algo tão pequeno — Teemo ronronou, rolando a caixa entre oa dedos.

Ravenna voltou a se debater, em vão. Tudo o que conseguiu foi que o moreno a jogasse no chão. Seu rosto e braços arderam com o impacto com o solo áspero. Tinha certeza de que estava sangrando. Virou-se em decúbito dorsal, encarando o pirata que ria. Markusi a olhava com olhos arregalados, pálido e trêmulo.

— Deixe-a ir, Teemo — pediu o mais velho, erguendo as mãos.

O capitão puxou a arma do coldre em sua perna e apontou para o prefeito, que engoliou em seco. Ravenna olhava de um para o outro, tentando pensar em uma forma de escapar. Sua magia não era ofensiva, de modo que não tinha como recorrer a ela para se soltar das amarras.

— Achei que tivesse aprendido sua lição, Prefeito. Não é a primeira que manda atrás de mim, e eu já estou perdendo minha paciência. Até agora, matei seus enviados, e está ladra será meu último aviso. Se tentar me roubar novamente, o farei implorar para morrer — ameaçou o moreno, irritado.

— E-eu compro a caixa de você! Por favor, não a mate — pediu o outro. O moreno sorriu.

— O que ela é para você, Markusi? — Indagou Teemo, baixando os olhos para Ravenna.

A jovem, por sua vez, o fitava com irritação. Enquanto Markusi e ele conversavam ela tentava cortar a amarra de suas mãos, escondidas sob seu corpo. E então Teemo colocou o pé sobre seu estômago, depositando todo seu peso sobre ela. Se não fosse a mordaça em sua boca, seu grito teria ecoado pela viela escura quando a dor subiu de suas mãos para seus ombros. Se continuasse a pressiona-los dessa forma, ele os deslocaria. A falta de ar se fazia cada vez mais presente, enquanto o capitão se divertia com seu sofrimento. Era visível em seus olhos o prazer sádico que sentia com toda aquela cena. E então ele voltou os olhos para o prefeito, congelado onde está, os olhos arregalados fixos na jovem que lutava para se soltar.

— N-N-Nosso envolvimento é estritamente p-p-profissional. D-Deixa ir, por favor — pediu o homem.

— Não. Ela me parece mais importante para você do que a jóia nesta caixa — retrucou o moreno, retirando o pé de cima da jovem e se agachando ao seu lado. — Eu ficarei com os dois. A ladra e a jóia. Um rostinho bonito assim vai me render bastante no mercado negro de Offshore.

— Não, por favor. Eu preciso dessa jóia… Eu te pago o quanto quiser…

Teemo abriu um sorriso perverso, fazendo calafrios percorrerem o corpo da jovem. Ela voltou a atenção para o prefeito, que suava frio. Como havia se metido naquela furada? Sabia desde o início que entrar naquela nave não era boa ideia, mas não sabia recusar um pedido do prefeito. Não ele, que lhe havia sido tão bom no passado. Quando seus olhares se encontraram, ela balançou a cabeça. Aquele pirata não hesitaria em mata-los se o irritassem demais. Markusi engoliu em seco, entendendo o gesto e erguendo as mãos no ar.

— Façamos uma troca, Markusi. Eu te dou a jóia, mas a ladra é minha. E eu e minha tripulação teremos imunidade total em sua cidade — disse Teemo, se erguendo e se aproximando do homem.

Markusi olhou para Ravenna, perdido. Se desse imunidade aos piratas, sua cidade seria destruída, sem sombra de dúvidas. Além disso, estaria perdendo sua melhor profissional, o que lhe traria um grande prejuízo. Em troca, teria a jóia. Um objeto carregado tão somente de sentimentos, aqueles que nutria pela filha perdida anos atrás em um horrível acidente a caminho da escola. A jóia que a garotinha usava era a mesma guardada na caixa em posse do capitão. O suor escorria frio por seu rosto, sem saber o que fazer. E então Teemo lhe jogou a caixa, a qual pegou atrapalhadamente.

— Seu tempo acabou, e a minha paciência também. Não se esqueça de nosso acordo, Prefeito.

O moreno levantou a jovem com facilidade, jogando-a sobre o ombro e se afastando de Markusi, que os olhava impotente. A jovem deixou escapar um suspiro e lançou um último olhar ao amigo que provavelmente nunca mais veria.

Notas finais
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