Sky

4 Não era um amaciante novo.


Notas iniciais
Oi gente! HAHA, mais um capítulo de Sky.
Espero que gostem e obrigada pelo apoio que estão me dando, ajuda muito!
Capítulo maior que os anteriores, me desculpem por qualquer erro.
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Dedicado a Hélica minha linda. ♥

A cada dois minutos olhava disfarçadamente para o fundo da sala, onde o “anjo” parecia prestar mais atenção na aula do que ele. Não conseguiu nem ao menos perguntar seu nome, e estranhou MinWoo não apresentá-los como fazia com cada um da sala, ele era ou não era o novato perdido? Bem, perdido ele estava é na aula, a professora de inglês ditava sua forma de avaliação e o conteúdo a ser estudado ao longo do ano, mas sua folha de caderno se encontrava em branco e a ponta da caneta entre seus lábios, tinha mania de morder o objeto.

Pensando bem, era muito estranho não ter sido apresentado ao garoto, quando estava prestes a tentar algum contato com ele a turma entrou na sala, fazendo bagunça e falando alto. E ninguém ali pareceu notá-lo. Qual era o problema com eles? O garoto existia, tinha certeza, mas era como se ele fosse invisível ao restante dos colegas.

Balançou a cabeça negando para si mesmo que não estava louco, e ao olhar mais uma vez para o fundo na sala teve a confirmação. SiWan emprestava uma borracha do garoto misterioso naquele exato instante. O que provava que ele real. E tendo a prova resolveu se concentrar na aula, já que perdia informações importantes.

No intervalo acabaria com a dúvida.

x-x-x

Estava gostando do seu primeiro dia como professor, perguntava-se se o outro novato também estava realizado com sua profissão igual a ele. Sorriu mais uma vez para a turma do terceiro ano, que apesar da fama de ser a pior turma do lugar, estava se comportando além de suas expectativas. Todos acompanhavam sua narrativa enérgica sobre o general Park ChungHee responsável por um golpe de estado no país, e até mesmo participavam da aula, sabia que sua forma de lecionar era diferente, para um professor de história ele precisava mesmo ter cartas na manga, ou todos os alunos dormiriam enquanto ensinava.

Apresentava um vídeo feito por ele mesmo para explicar a matéria, uma animação bem duvidosa, os desenhos eram péssimos, na verdade apenas juntou as imagens em um programa qualquer. Mas sua intenção era ver os alunos perguntando, rindo e interagindo com o vídeo, que parecia ser feito por uma criança de oito anos de idade.

- Hey professor, aquilo é um sol? – Um dos alunos perguntou, e como tinha uma ótima memória sabia que seu nome era SunWoo.

- Não, é uma moeda. – Olhou para o vídeo e notou que não era muito bom em proporções, a moeda realmente parecia um sol de tão grande comparada ao resto da imagem. – Quis ressaltar o valor do dinheiro! – Inventou uma desculpa, que não funcionou e fez todos rirem e perguntar mais.

Respondia animado as perguntas dos alunos, parando o vídeo quando necessário e dando maiores explicações. Em pensar que era apenas a primeira aula, se a turma continuasse empolgada daquela forma ganharia um prêmio por domá-los. Porém, quando iria pausar o vídeo novamente a porta da sala foi aberta bruscamente, e um aluno entrou sem ao menos pedir licença por atrapalhar a aula, na verdade não parecia se importar com isso, pois passou na frente de MinHo como se ele não estivesse ali dando aula, e seguiu até sua carteira que era a última, e simplesmente se sentou não encarando ninguém a sua volta.

Não usava a calça social do uniforme, mas sim um jeans gasto e rasgado nas coxas e nos joelhos, all star no mesmo estado de total desleixo. Os cabelos castanhos eram compridos e passavam dos ombros, a franja desfiada cobria parte de seu rosto, e ele ainda usava fones de ouvidos, o que para MinHo era uma total falta de respeito, além da postura rebelde aquele garoto ainda escutava música dentro da sala de aula.

E se havia algo que MinHo não admitia era a falta de respeito, principalmente vindo de um aluno enquanto ele explicava a matéria.

Respirou fundo e se encaminhou a passos lentos até a carteira onde o garoto sentava parado e mudo como uma estátua de mármore. Os outros alunos apenas observavam, pareciam até mesmo acostumados com a situação, mas o professor tomar partido é que era novidade. Talvez ele não soubesse da situação de TaeMin.

- Gostaria de perguntar ao senhor se conhece a palavra “respeito”? – Perguntou seco ao aluno, surpreendendo os outros alunos por sua mudança drástica de postura.

- Acho que já ouvi falar. – O garoto respondeu, não olhando diretamente para o professor que em sua opinião era um “enxerido”. – Você não conhece? – Sorriu em deboche inclinando levemente a cabeça em direção ao homem. – Talvez devesse voltar a estudar, não sou eu quem tem que saber tudo aqui, é o senhor. – Disse irônico, dessa vez encarando o mais velho.

- Além de não ter respeito pelo ambiente de estudo, é também muito atrevido. – O encarou de volta, não deixando de notar a frieza que transbordavam dos olhos castanhos. – Acho que seus pais não o educaram corretamente.

- Ah, sim... – Riu fraco, se levantando e ficando quase na altura do professor. E olhando diretamente em seus olhos, continuou. – Eles estão mortos, diga isso a eles quando você também deixar essa sua vida medíocre. – Disparou pegando sua bolsa e esbarrando no professor ao sair da sala.

MinHo encarou atônito o aluno partir, ainda assimilando suas últimas palavras.

- Ih, errou feio professor. – Um aluno declarou, o que o fez despertar do pequeno transe.

- Você. – Apontou para ShinWoo. – Olhe a sala durante minha ausência, irei atrás dele. – Pediu antes de também deixar a sala.

E quando saiu o garoto não se encontrava mais no corredor, olhou dos dois lados e nada, talvez ele estivesse escondido em algum banheiro então tratou logo de correr e verificar os banheiros daquele andar, também não o encontrando. “Ele desapareceu como um fantasma”, pensou já cansado de correr, tinha verificado os dois andares do prédio e nada de achar o garoto. Suspirou cansado e se encostou em uma janela, observando o pátio ainda procurando alguém que ele nem ao menos sabia o nome, e que pelo jeito havia evaporado. Quando estava quase desistindo olhou mais uma vez através do vidro e viu a cabeleira castanha cruzar o portão do colégio sem ser repreendido pelo porteiro, ele apenas saiu como se tivesse passagem livre naquele lugar.

Respirou mais uma vez antes de sair em disparada até a saída da construção, iria encontrar aquela criança e lhe dizer boas verdades! Aquele comportamento era inadmissível, e caso o aluno quisesse frequentar suas aulas teria que se comportar de acordo com o ambiente que estava. Passou pelo porteiro que não perguntou nada, mas ele era um professor e não precisava de explicações e vendo seu estado, era óbvio que se tratava de um assunto sério.

Ao cruzar o portão se deparou com o rebelde encostado no muro displicentemente, parecia até mesmo estar o esperando, mas em seus lábios era possível ver um sorriso de deboche, principalmente quando os abria levemente para deixar a fumaça escapar de seus pulmões, pois entre seus dedos um cigarro repousava e era a válvula de escape de seu caos momentâneo.

- Fumando tranquilamente em frente ao colégio, e em plena luz do dia. – MinHo advertiu assim que o alcançou. – Você não tem limites? – O garoto não respondeu, tudo parecia uma grande piada para ele. – Hey, escute quando alguém mais velho fala! – Exaltou-se.

- Eu estou ouvindo, não sou surdo. – Retrucou. – Só não estou respondendo. – Tragou mais uma vez, inalando aquele mal que lhe fazia tão bem. – Sério, não perca seu tempo comigo, não vale a pena... – Avisou cansado de tanta gente se metendo em sua vida.

- A partir do momento que você entrou naquela sala, mesmo não tendo o mínimo de respeito necessário para frequentá-la, automaticamente você se tornou uma responsabilidade minha. – Declarou. – Então eu sou obrigado a perder meu tempo com você.

- Não estamos mais na sala. – Riu fraco, terminando de fumar e se livrando do restante do cigarro. – Já estou cansado de “bons samaritanos” tentando me dar lições de moral. Você com sua vidinha provavelmente perfeita jamais me entenderia. – O encarou, exatamente como antes. O olhar frio, arisco e cortante. – É melhor me deixar em paz.

- Eu não vou. – Disse firme segurando o braço do menor, que nem ao menos tentou se soltar. Ele parecia morto, apático demais para ter alguma reação. – Seja lá quem você for garoto, eu não irei desistir. – O soltou. – E me desculpe por citar seus pais, eu não sabia.

- É, não sabia. – Respondeu fraco, o olhar vago em um ponto qualquer além dos dois, além até mesmo do firmamento. – Assim como também não sabe de absolutamente nada sobre mim. Desista professor.

- Você também me deve um pedido de desculpas. – Contou até dez pela milésima vez naquele dia, como aquela criança conseguia tirá-lo do sério? – E é melhor voltarmos para sala. – Se virou. – Anda, vamos logo.

- Eu não vou pedir desculpas. – Riu dando um passo para trás. – E eu também não irei voltar, chega de aulas por hoje. – Respondeu se afastando.

MinHo apenas se virou, vendo o garoto se afastar com as mãos nos bolsos do casaco, caminhava de cabeça baixa, como uma sombra perdida no mundo. Havia algo além de frieza em seu olhar, seu sorriso, suas expressões eram mórbidas e lhe traziam uma sensação de angústia só em estar perto dele.

Porém, era exatamente por isso que insistiria no par de olhos gelados e castanhos. Descobriria o motivo de um garoto tão novo ser tão amargurado.

x-x-x

Conversava com JinYoung sobre o acontecido na aula de história, o amigo também concordava que o professor não tinha recebido nenhum aviso por parte do diretor sobre a situação de TaeMin, por isso o homem reagiu daquela forma, do contrário ele faria como os outros professores, apenas o ignoraria durante as aulas. Ordens vindas do próprio diretor, que não sabia mais o que fazer com o garoto sem lei, seu caso era delicado, e mesmo com o jeito torto dele, Baro o considerava seu amigo, e JinYoung também.

- Ah, cara... Será que o TaeMin se meteu em problemas dessa vez? – Perguntou, já estavam no intervalo.

- Acho que não, ele não é fácil de se lidar, e com certeza do jeito que o professor voltou para sala deve ter desistido dele. – JinYoung disse com um certo pesar na voz, os dois estavam sentados em cima de uma das mesas do pátio, e a maioria de seus amigos encontravam-se perto ou ao alcance de suas vistas. – Mas e a Sulli, não veio te procurar?

- Pare de bancar o engraçadinho, estamos namorando mas não nascemos grudados! – Deu um pequeno soco no ombro do amigo. – Ela deve estar no banheiro com as amigas. – Deu de ombros. – Logo ela cai nos braços do galã aqui. – Se gabou.

- Você não está com essa bola toda! – Riu. Baro era muito convencido, e bem explosivo, mas eram anos de amizade e estava acostumado, afinal estudavam juntos antes de ingressarem no ensino médio.

- Não, é você que está. – Disse apontando para um grupinho do segundo ano, onde JiYeon olhava de minuto à minuto para os dois, ou melhor, para JinYoung. – Ela é doida por você, por que não tenta?

- Ela é legal, mas não sei... – Olhou para onde a garota estava, mas seu olhar procurava por outra pessoa, que não estava ali.

- Aish, não me diga que... – Baro encarou o amigo abismado. – Cara, você é romântico, que nojo! – Fez uma careta. – Até quando você vai procurar a pessoa perfeita? Sério Jin, para de ser careta e dá uns pegas em alguém! – Era incrível como o amigo era bonzinho e certinho demais. – Não duvido nada essa sua boca ser virgem. – Disparou apertando as bochechas do mais velho, forçando um pequeno bico.

- Ai, isso machuca. – Se soltou, massageando as bochechas. – Você sabe que já fiquei com algumas garotas, mas sei lá, eu não senti nada. Entende? – Perguntou esperando que Baro o ajudasse.

- Não. – É, ele não ajudaria. – Você deve ter algum problema. – Concluiu. – Depois falamos com o L.Joe e ele arruma uma garota bem quente pra você! – Claro, aquela era a solução perfeita vindo de seu cérebro que naquele instante estava de folga.

Baro viu JinYoung apenas bufar impaciente, ele seguiria sua dica e tudo sairia perfeito. “Não há nada que você não resolva”, pensou sorrindo internamente por sua lógica perfeita, não percebendo que ele não tinha ajudado em nada o amigo.

Voltou a olhar mais uma vez para o grupinho de JiYeon, e se surpreendendo por ver o primo no meio, conversando com uma garota. Muito animadinho para o seu gosto, o garoto era ou não uma porta de tão sem graça? Na sua opinião claro que sim, mas a garota que conversava com Sandeul parecia discordar, só que também não se importou, ela era feia e tão sem graça como o primo.

“Eles se merecem”, disse para si mesmo.

Até iria praguejar mais um pouco contra o “casalzinho-zumbi”, mas YongGuk se aproximava acompanhado dos outros garotos da turma e de um garoto loiro de feições infantis. E se ele não estivesse enganado aquele era o meio irmão do amigo que era “calouro”, com certeza Bang queria apresentá-lo ao restante do grupo, e deixar bem claro que em Zelo ninguém tocaria, afinal sabia que ele era muito protetor em relação ao mais novo pois já ouvira estórias contadas por Bang de “como ele bateu em valentões que incomodavam seu pobre irmãozinho”, porém os valentões do colégio eram eles, e calouro não corria perigo algum.

Aliás, o único perigo que Zelo corria era o irmão sufocá-lo demais com tanta proteção.

x-x-x

Sandeul não deixou de reparar que o primo o encarava, devia estar checando se ele não tinha aberto a boca sobre o parentesco entre os dois, mas Qri falava tanto que não tinha nem ao menos o que responder as perguntas da garota, já que ela emendava um assunto no outro, e ele só capturava algumas partes.

O que estava realmente o matando de curiosidade era o acontecimento de mais cedo na sala, e por mais que procurasse com os olhos o garoto misterioso não o encontrava em nenhum canto, e sabia que ele não estava na cantina porque quando fora comprar seu lanche ele também não estava lá. “Eu devia perguntar diretamente ao MinWoo”, concluiu com Qri ainda falando de como a professora de matemática era chata.

- Me desculpe Qri, mas eu tenho que falar com o MinWoo. – Sorriu sem graça, puxando MinWoo do meio da rodinha em que ele estava com outras pessoas da turma.

- Aconteceu alguma coisa? – MinWoo preocupou-se, estavam um pouco afastados da rodinha de alunos. – Você parece apreensivo. – Analisou.

- Não, eu só quero saber uma coisa. – Esfregou as mãos em nervosismo. – Quem é o garoto que estava ao lado do SiWan na aula? Ele não está aqui, e pensei que você falava com todo mundo do segundo ano.

- Ah... – MinWoo pareceu pensativo. – Você deve estar falando do GongChan.

“GongChan”, então o anjo tinha um nome.

- Quem exatamente é ele? – Acabou abaixando o tom de voz sem perceber. – Ele não anda com vocês? – Disse se referindo ao grupinho de MinWoo.

- Ás vezes. – MinWoo disse simples, mas sabia que Sandeul queria maiores explicações. – Ele não é uma pessoa ruim, pelo contrário, é a pessoa mais pura que conheço. – Declarou. – Mas por causa dos acontecimentos do primeiro ano ele preferiu se afastar da turma. – Revelou.

- Acontecimentos do primeiro ano? – Sua curiosidade triplicou, o que poderia ter acontecido ao garoto?

- Até hoje ninguém sabe como, mas... – Pausou para escolher bem as próximas palavras, não queria assustar Sandeul. – O GongChan teve uma premonição. – Revelou, e viu o misto de surpresa e confusão tomar os olhos do ouvinte. – Ele não ouviu em lugar algum, não houve nenhuma fofoca ou boato, mas ele sentiu que o Zico iria armar algo realmente feio para um garoto que estudava com a gente.

- Estudava? – Sandeul pareceu confuso, será que alguma coisa tinha acontecido com esse garoto? E o tal Zico era mesmo perigoso a esse ponto?

- Sim, depois do acontecimento ele se mudou. – Viu a expressão de Sandeul se suavizar. – Então sabe se lá como o GongChan ficou sabendo, e impediu o grupinho dos valentões de dar uma surra no garoto. Eles já não gostavam muito dele, e então por causa disso o Channie virou o alvo deles, foi um ano muito difícil, o chamam de anormal.

Sandeul levou as duas mãos a boca surpreso, cometiam tais atrocidades no colégio? Baro participava disso? GongChan com sua imagem tão pura era alvo de gente tão baixa? E por causa disso vivia isolado do resto da turma que ao invés de apoiá-lo simplesmente davam as costas? E ele faria parte disso? Eram tantas perguntas que sua mente dava voltas e voltas, chegando a uma conclusão.

Não iria participar daquilo.

De alguma forma ajudaria, e se aproximaria de GongChan.

Nem que para isso ele também se tornasse uma vítima. Do próprio primo.

- Sabe, você meio que se torna como esse Zico e seu grupinho sendo omisso. – Confessou, encarando MinWoo, estava apenas sendo sincero.

- Eu sei. – O loiro suspirou. – Eu já falei pro Channie andar com a gente normalmente, mas ele se recusa com medo de alguém sofrer as consequências por causa dele. – Colocou uma mão no ombro de Sandeul. – Ele não é o único, quase todo mundo tem medo de ser mais um alvo dos malditos populares. Não é fácil ver alguém apontando e rindo da sua cara, te julgando pelo simples fato de você passar na frente deles.

Sandeul assentiu, mas na verdade ele não sabia mesmo como era estar no lugar de MinWoo ou de outro colega de classe, sempre vivera em paz com a mãe, e apesar de não ser popular jamais tinha ouvido palavras dão duras e amarguradas vindo de alguém que era oprimido de alguma forma.

A única dor que ele sentia era causada por ele mesmo, pela sua própria existência, pela perda da pessoa que mais amava, e não por causa de terceiros. Doeria mais? Não tinha como saber. Porque mesmo com Baro o tratando tão mal, não se sentia machucado, apenas não entendia ele agir dessa forma. E no fundo desejava ser enxergado como uma pessoa, mesmo sendo a pior delas.

E assim o intervalo acabou.

E o restante do dia passou, com sua mente ainda cheia de perguntas sobre o colégio, sobre GongChan e sobre o que faria dali em diante.

x-x-x

Batia o pé contra o chão em sinal de impaciência, o que não era novidade. Esperava Sandeul na esquina do colégio, as aulas já tinham terminado há exatos quinze minutos. Se soubesse que o primo iria se dar ao luxo de demorar teria passado mais tempo com Sulli, mas não, o “zumbi-sem-graça-metido-a-rei” não tinha avisado nada, e ele teria que esperar até o outro chegar no local combinado. Por causa do primo recusou todas as caronas e teria que voltar de metrô, estava explodindo de felicidade, só que ao contrário.

Com a paciência no limite e cansado de esperar, já ajeitava a mochila nas costas, pronto para partir sem o primo, ele que se virasse ou “fosse embora com a namoradinha”, porque no almoço viu Sandeul conversando de novo com a mesma garota de antes. Por ser um colégio de período integral poderiam almoçar na cantina, trazer algo de casa ou comer em um dos milhares de restaurantes que ficavam na rua do colégio, e por existir tantos restaurantes Baro conseguia sentir o cheirinho de comida vindo deles.

- Eu estou faminto, seu infeliz. – Praguejou alto, chutando a parede.

- Aish, já estou aqui. – Sandeul anunciou atrás de si, e recebeu um olhar maligno em troca. – Culpado, eu sei. – Assumiu não querendo levar bronca. – Mas só me atrasei um pouquinho. – Sorriu em desespero.

- Só um pouquinho? – Evitou gritar, ou seriam notados. – Da próxima vez eu te deixo! – Começou a andar sendo seguido de Sandeul. – Vê se presta atenção no caminho e aprende a voltar sozinho. – Bufou, enquanto atravessavam a rua. – Fica de namorinho e eu sou obrigado a esperar, vou contar pra mamãe!

- O que? – Baro era mimado demais! Céus. E que estória era aquela de namorinho? Mal conseguia conversar com uma garota! – Eu não estava de “namorinho”. – Fez aspas com os dedos. – Nem sei de onde tirou isso. – Franziu as sobrancelhas tentando acompanhar o ritmo de Baro ao andar.

- Ah, não sabe... – Bufou de raiva novamente, aumentando o passo. – Você não me engana, e pare de conversar e grave o caminho!

Sandeul até pensou em responder, Baro conseguia fazê-lo falar mais do que o costume, talvez porque não gostasse de mal entendidos entre eles, já era um incômodo na vida do primo, e a falta de comunicação entre eles só pioraria a situação. Quem sabe se conversassem se entenderiam?

Certo, era querer demais.

-

Naquele dia Baro ensinou o caminho de volta pelo metrô, mas também tinha uma linha de ônibus que passava em frente onde moravam, mas isso era coisa para aprender outro dia. Ao entrar no apartamento notou que a tia já se encontrava em casa, pois da sala conseguia ouvir a mulher cantando no chuveiro, mania que notou logo no primeiro dia que chegou ali. MinKi era anima demais, parecia ter dezoito anos e viver a vida intensamente, nada era motivo para tia desanimar, e o mais engraçado era o marido acompanhando seu ritmo enérgico.

Baro sempre reclamava que os pais não eram normais, mas Sandeul acabava se animando um pouco com o casal, era a melhor parte de morar ali, ser acolhido e cuidado.

Mesmo não merecendo.

O motivo da felicidade de MinKi ele ficou sabendo depois, ela e o tio iriam sair e jantar juntos em plena segunda-feira, eles saiam sempre, curtiam um ao outro renovando o casamento todos os dias. Caso viesse a se casar gostaria de viver um casamento feliz, pintar as paredes do seu futuro lar com alegria, e demonstrar essa alegria.

Seu tio chegou em seguida e foi para o quarto se arrumar, as oito os dois já se encontravam prontos e claro, deixando várias recomendações para os dois.

- Tem suco e refrigerante na geladeira, o telefone da pizzaria está no balcão e aluguei uns filmes de terror que com certeza são do seu gosto, Baro. – SunDong avisou. – Ah, Sandeul veja com ele ok? Vocês ficam muito separados dentro de casa, um na sala, o outro no quarto, chega disso! E durmam antes da meia noite, chegaremos tarde. – Deixou claro, afinal os dois tinham aula.

Depois de uma série de beijos distribuídos por sua mãe, ele finalmente estava sozinho em casa. Até olhar para o lado e ver Sandeul. Certo, nem tão sozinho, mas iria seguir o conselho do pai e assistir um filme na companhia do primo, principalmente por ele ter ficado branco como papel só de ouvir “filme de terror”, seria interessante amedrontar aquele “coelhinho-medroso-ainda-mais-sonso”.

- Eu vou tomar banho e você pede a pizza, ok? – Sorriu em uma falsa cordialidade. – Depois a gente vê um filme de demônios. – Disse já se encaminhando para ao quarto quase pulando de alegria.

Sandeul congelou, desde pequeno simplesmente morria de medo de filmes de terror, também tinha medo de aranhas, baratas, ratos, sapos... Mas filmes de terror conseguiam ser mil vezes piores, se fossem sobre espíritos e exorcismos com certeza não conseguiria ver, e perderia a chance de finalmente fazer algo com Baro. E o primo parecia tão animado com a ideia, não poderia fazer tamanha desfeita! Ele até pediu para ele encomendar a pizza, era um voto de confiança, não era?

Acreditava fielmente que sim, que Baro estava mudando e se acostumando com sua presença, tanto que até queria assistir um filme com ele! Era muito inocente e “tapado” para notar a verdadeira intenção do primo, então fez tudo direitinho, pediu a pizza, arrumou a sala usando a mesinha de centro para colocar a pizza, pratos, talheres e copos, até ajeitou as almofadas no sofá, separou os filmes evitando olhar as capas dos mesmos e foi tomar banho assim que Baro saiu do chuveiro.

O banheiro ainda estava repleto de vapor, o cheiro do perfume de Baro infestava o ambiente, mas não era ruim, tinha se acostumado com aquele cheiro amadeirado e forte, era como a marca do mais velho. Riu do pensamento bobo e tratou logo de tomar banho, vestiu uma roupa confortável e quentinha e logo já estava na sala com o mais velho, a pizza também já tinha chegado.

- Oh, me esperou para comer. – Disse surpreso se sentando ao lado de Baro. – Hm, trouxe o suco também... – Analisou. – Tem certeza que quer ver um filme de terror? – Quem sabe o moreno mudasse de ideia?

- Claro que esperei, não seria educado comer primeiro. – Baro sorriu irônico se servindo de suco. – Mas sabe Deullie, eu amo filmes de terror. – Pronunciou o apelido “carinhoso” de uma forma extremamente forçada, claro que Sandeul não notou. E deu ênfase no “amo” para não ter erro.

- Ah... – Sandeul ficou sem palavras ao ser tratado tão bem. – Se você gosta tanto, vamos ver de terror então. – Se esforçou em ser convincente, Baro não poderia saber do seu medo, mas suas mãos suavam frio que mal conseguia manter o copo de suco entre elas.

“Idiota, você não perde por esperar” pensou vendo o quanto Sandeul tremia de medo só pelo fato do filme ser colocado no aparelho de DVD. E quando o “show de horrores” finalmente começou não foi diferente, tentava manter sua atenção entre o filme, a pizza e a cara amedrontada do mais novo, que parou de comer na primeira morte. Ele apertava uma almofada contra seu corpo, mas não desgrudava os olhos da tela. “É muito idiota mesmo, se tem medo é só não olhar” concluiu óbvio.

O problema é que Sandeul não desistiria de ver o filme porque seria o mesmo que desistir de uma aproximação com o mais velho, então apesar do medo se mantinha firme em seu lugar, os olhos presos em imagens horríveis de sofrimento, o homem possuído se contorcia em seu exorcismo, e a face risonha do demônio aparecendo em flashes na tela conseguiam deixar o filme ainda mais aterrorizante.

Os olhos cheios de lágrimas não aguentavam mais, estava com medo, não conseguiria dormir tinha certeza disso! Sentia que a qualquer momento aquele ser pavoroso sairia da sequência de imagens e apareceria ali na sala. Tremia pálido, os lábios vermelhos de tanto serem mordidos em desespero, parecia uma garotinha, mas não conseguia evitar.

Foi quando a tela se apagou.

Baro desligou a televisão.

- É melhor pararmos por aqui. – Tinha ido longe demais, queria apenas dar uma lição no mais novo. – Eu vou levar essa bagunça na cozinha. – Disse se referindo aos restos de pizza e a louça suja. E como Sandeul não respondeu apenas se retirou para levar tudo até a cozinha e retornar em seguida.

Encontrando Sandeul na mesma posição.

- É melhor nós dormirmos, já são quase onze e meia. – Coçou a nuca não sabendo direito o que fazer, e dizer. O primo ainda parecia ter medo. – Vai ficar ai sozinho?

- Não! – Quase gritou. – Eu... Eu vou com você. – Se levantou quase tropeçando nas próprias pernas, estavam moles como gelatina.

Enquanto escovavam os dentes em silêncio, Sandeul se sentiu mal por estragar a noite, poderiam ter conversado, poderia ter sido menos medroso e quem sabe assim o mais velho não o tratasse de forma tão rude. Deitaram-se cada um em sua respectiva cama, as luzes foram apagadas e apenas o abajur que ficava na mesinha entre elas ficou ligado.

Baro se remexeu na cama, engraçado como havia dormido tão bem naqueles dias, um cheirinho agradável e suave desprendia de seus lençóis e de sua fronha, talvez um amaciante de roupas novo, depois perguntaria para sua mãe, não era hora de refletir sobre fronhas e lençóis, o sono lhe dominava naquele instante.

E se não fosse por um detalhe teria dormido profundamente ao fechar os olhos.

Na outra cama o mais novo não conseguia pregar os olhos, as imagens do filme se repetiam em sua mente como uma tortura, temia fechar os olhos e algo lhe acontecer, seu desejo era chorar não se importando se o primo riria ou não dele. Se fosse em outros tempos correria até o quarto de sua mãe e pediria um abraço reconfortante. Mas ele estava sozinho, sua mãe não habitava mais o mesmo plano que ele, talvez se pedisse ao céu para levar seu medo embora...

- Vem aqui. – Ouviu a voz de Baro soar baixa na outra cama. – Se está com tanto medo pode dormir aqui comigo, tem espaço. – Declarou por fim, se arrependendo no segundo seguinte.

“Patético Baro, mil vezes patético! Virou florzinha agora?” recriminou-se mentalmente. Porém Sandeul aceitou prontamente o convite, surpreso, muito surpreso, mas de alguma forma se sentiu aliviado, e acolhido de verdade pelo mais velho.

Que abriu espaço para Sandeul se acomodar, a cama era grande e era suficiente para os dois até mesmo manterem uma distância entre eles. O mais novo levou seu travesseiro e quando se cobriu com os cobertores do mais velho, tinha certeza que teria uma noite sem pesadelos, e ali era bem mais quentinho que sua própria cama.

Baro respirou fundo e encarou as costas de Sandeul, que apenas murmurou um sincero “obrigado” ao se deitar, e mesmo com o primo dividindo a mesma cama que ele ainda não acreditava no que tinha feito, era a maior loucura de sua vida permitir tal contato, não quando o outro habitante era seu inimigo! Poderia até sentir os cabelos castanhos roçando em seu nariz!

Foi quando percebeu algo que o assustou.

-

“O cheiro impregnado nos lençóis era dele. Não era um amaciante novo, era justo o perfume dele! Que agora estava ainda mais forte com a aproximação, parecia desprender do cabelo, da roupa, do corpo... Um aroma suave demais para um garoto. Que me anestesiou de tal maneira que simplesmente adormeci.”

Notas finais
E aí, o que acharam? Dei spoilers no twitter sobre o GongChan. keke. >_
TaeMin beeem sombrio, o que ele esconde?
O que acharam do final? Estaria Baro amolecendo?
Façam suas apostas e até o próximo capítulo. ♥