Sky
5 Meu coração congelado foi pintado de azul.
Notas iniciais
Preciso comentar que tô MUITO feliz com vocês? Preciso comentar que tô amando muito vocês?
Blue do Big Bang me inspirou no finalzinho do capítulo. Tive ajuda da Nie que me mandou a tradução da música.
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Enfim, bom capítulo.
Apesar de não ser um aluno exemplar, também não era um péssimo estudante, mantinha suas notas na média e quando se esforçava o resultado era claro em seus boletins, mas mesmo se esforçando não conseguia se concentrar na aula. Aliás, não conseguia se concentrar em nada desde que acordou com o “zumbi-medroso-chorão-com-cheiro-de-amaciante-vencido” dormindo em sua cama, como se ela fosse dele, e como se eles fossem um maldito casal! Tentava lembrar onde sua sanidade foi parar naquela hora, porque só chegava a conclusão de que estava louco e precisava de tratamento.
Um médico, ou melhor, um psicólogo, talvez um exorcista, um padre também poderia rezar uma missa por sua alma, e até mesmo poderia usar uma magia descrita nos livros do Harry Potter. Qualquer solução para explicar sua atitude, ou apagar as consequências dela resolveria seu problema. Porém, por mais que tentasse buscar um motivo convincente para sua extrema bondade e compreensão com o “SMV”, não conseguia, ele sentiu pena, e jamais admitiria sentir outra coisa além de ódio pelo primo, talvez desprezo, nojo, indiferença... Mas pena? Teria seu coração amolecido?
“Eu me deixei levar por aquele bebê chorão”, pensou analisando a situação. É, a cara de cachorrinho sem dono de Sandeul talvez fosse um motivo para ele ter sido tão receptivo, afinal quase dormiram de conchinha! Só de pensar na cena, seu rosto se contorcia de uma forma bizarra, um misto de nojo e surpresa. Ele era o mocinho, e Sandeul o lobo em pele de cordeiro, não tinha que ser bonzinho, e sim exterminá-lo.
Então duas alternativas surgiram em sua mente.
Como primeira opção ele poderia se aproximar de Sandeul, poderiam se tornar amigos, ele fingiria aceitar o primo, o enganaria, e no momento exato daria a cartada final contando que tudo não passava de uma grande farsa. Usaria e enganaria o mais novo. Perfeito!
E como segunda opção ele manteria o mínimo de contato, deixando bem claro o seu ódio, faria o mais novo sofrer de alguma forma, e por ele ser ingênuo seria também facilmente manipulável. E o melhor, aquele “pato-sonso” sofreria em silêncio, porque era idiota demais ao ponto de não relatá-lo a seus pais. Perfeito, em dobro!
Deliciou-se com as opções por alguns minutos. Qual delas escolheria? Achava suas atitudes até o momento leves demais, precisava ser direto e mostrar a Sandeul quem mandava ali.
Sorriu abertamente, escolhendo sua opção.
x-x-x
Há muito tempo sabia que a garota queria ficar com ele, aliás, quase todas as alunas desejariam estar no lugar dela, e o fato de finalmente ter cedido aos encantos da loirinha não era por ela ser atenciosa, também não era pela beleza que possuía, e muito menos por ela gostar dele. Mantinham-se agarrados, aproveitava do sentimento da garota para beijá-la sem pudores, a coitadinha estava tão entregue que suspirava em meio ao beijo, poderia até mesmo sentir os pelos dela se eriçarem conforme a prensava no armário. Em sua opinião a menina era ridícula e tola por acreditar que ele correspondia da forma como era esperado.
Ele só estava entediado.
Sua estranha personalidade era um mistério, até mesmo para quem convivia com ele. Não o julgavam, pelo contrário, todos os garotos de sua sala o achavam o máximo, claro, no começo pensaram que ele era um garotinho frágil como todos os outros “perseguidos” pelos populares, mas ele se mostrou tão perigoso quanto eles, e acabou entrando para o grupo, mesmo não curtindo ameaçar ninguém. Não iria perder seu tempo com algo tão fútil.
Quando se separou da garota deu um de seus belos sorrisos, mas era apenas fingimento, por dentro ele pensava em quanto ela estava delirando ao achar que eles teriam algo depois de alguns beijos. Ajeitou o cachecol que a menor usava em uma falsa cortesia, o que a fez corar instantaneamente. Riu mais uma vez e planejava beijá-la um pouco mais, porém quando deu uma olhada de lado viu quem menos desejava vindo em sua direção.
- Eu gostaria de conversar com você. – MinHo ditou seco, não conseguia agir de outra forma com o mais novo. – E a sós.
- Cara, é sério... Desista. – Deu de ombros voltando seu olhar em direção de Sunny. – Apenas ignore ele. – Disse para ela, tentando retomar o beijo, mas a menina já estava morta de vergonha por causa da presença do professor.
- De-depois nos falamos. – Respondeu fraco. – Até mais, e com licença professor. – Fez uma pequena reverência a MinHo em sinal de respeito e saiu correndo em direção a sua sala. TaeMin certamente não a procuraria.
- Ela é uma boa garota. – MinHo disse assim que Sunny se foi. – Eu sei que vai enganá-la, então por que age dessa forma? – Indagou.
Despois da conversa que tiveram no primeiro dia de aula, MinHo acabou recolhendo algumas informações sobre TaeMin, e uma delas era sobre sua rede de conquistas pelo colégio, e como ele nunca parava com uma garota. Ele parecia querer estragar tudo a sua volta, como se contaminasse as outras pessoas com seu vírus letal de indiferença.
- Além de professor também é conselheiro amoroso nas horas vagas? – TaeMin retrucou, era só o que faltava o professorzinho também se meter em sua vida particular. – Se o salário que ganha é insatisfatório, é melhor mendigar na rua do que se meter na vida dos outros. – Alfinetou, abrindo seu armário onde antes Sunny se mantinha encostada.
- Eu não limito meu trabalho como professor na sala de aula. – Respondeu cansado dos comentários ácidos do mais novo. – Se não tem respeito pelo ambiente de aula, poderia ao menos ter respeito pelas garotas que gostam de você, e não ficar com elas pelos corredores como algo banal, usá-las e depois descartar como se fossem algo reciclável.
TaeMin riu.
- E não são? – Desafiou. – São vadias, todas elas... Até a mais romântica faz tudo que eu quero por um motivo. – Mordeu os lábios olhando diretamente para MinHo, em seguida descendo uma de suas mãos até o meio de suas pernas. – Elas só querem isto. – Seu sorriso debochado aumentou ao ver MinHo entender seu gesto.
- Garoto atrevido, minha paciência tem limites! – O professor alterou-se, aquela criança não tinha o mínimo de pudor também. – Trate com mais respeito uma mulher! Ninguém é obrigado a sofrer as consequências por você ser um jovem totalmente transtornado! – Perdeu a paciência.
- Se não é obrigado por que insiste? – TaeMin quis saber, ignorando as outras palavras ditas pelo mais velho. – “Tô” achando que o professorzinho quer o mesmo que elas. – Disparou ainda rindo da situação, sua franja cobrindo parcialmente seus olhos lhe dava um ar ainda mais desleixado.
- Seus comentários ridículos não me afetam. – MinHo rebateu, vendo que os poucos alunos presentes no corredor observavam o decorrer da cena, mas falavam tão baixo que duvidava que eles eram capazes de ouvirem o conteúdo da conversa. – É meu dever como ser humano e como docente entender o Senhor Lee TaeMin. E tentar ajudá-lo.
- Você não será capaz de me ajudar, os que tentaram desistiram. – Fechou o armário após encontrar o que queria, um livro e um maço de cigarros, escondendo o último no bolso do casaco grosso que usava. – Ninguém irá me parar até eu conseguir o que quero. – Alertou antes de novamente deixar MinHo falando sozinho, como no dia anterior.
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“Eu faria de tudo para descobrir o que existia por trás da barreira imposta por alguém tão jovem, mesmo que seja lutar contra um mar em fúria. Mesmo que eu ultrapasse meus limites como professor, eu iria até o fim. Só não sabia se era por ele ser tão morto, ou por ele me trazer de volta a vida.”
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Tentava não rebolar enquanto caminhava para a próxima aula, ele tinha péssimas manias e deslocar seu pomposo traseiro de um lado para o outro era uma delas. Era inevitável mostrar o que tinha de melhor, sua inteligência, seu bom gosto, glamour, postura, sorriso... E claro, humildade. Sorria internamente ao notar o olhar de curiosidade dos poucos alunos que ainda estavam no corredor, ele era uma estrela e sabia como brilhar, e quando se deparou com a porta da sala do segundo ano, entrou em grande estilo.
Observou que a turma se calou com a sua entrada triunfal, o sobretudo preto contrastava com sua pele branca de porcelana, ele parecia um furacão destruindo tudo ao seu redor, mas uma devastação ocular. Usava também um cachecol colorido em tons de rosa, calça preta e coturnos na mesma cor, o inverno sul coreano resolvera castigá-lo naquela terça-feira, mas fazer do frio um aliado na moda era uma tarefa simples. Sabia que seus alunos estavam chocados, mas não perderia tempo, tinha muitos avisos a dar.
- Bom dia. – Disse cordialmente assim que depositou sua maleta sobre a mesa polida. – Sou o novo professor de artes, e já afirmo que as aulas serão menos cansativas que no semestre anterior. – Voltou-se para o quadro branco, escrevendo seu nome. – Sou Kim Kibum, e espero ter uma boa convivência com a turma.
Os alunos o cumprimentaram em coro, Key sabia que só estavam sendo educados em uma primeira impressão, para ele adolescentes eram verdadeiras pragas, mesmo ele não sendo um velho ranzinza tinha um humor muito estável.
- E com minha chegada o colégio só tem a ganhar, e o primeiro passo é o Clube de Teatro, como vocês sabem todo aluno deve ingressar em pelo menos um clube, e espero que escolham o meu. – Sorriu se sentando, já planejava uma atividade interativa com os alunos, e quando ia pegar sua pasta se deparou com algo inusitado.
Um bilhete.
“Eu sei que você é difícil, mas sabe, estou disposto a jogar até o final, porque quando eu vencer meu prêmio será você amassando os lençóis da minha cama. Tenho certeza que também deseja meu corpo nu, é inevitável. Confesso que você é extremamente atraente ou não tomaria uma atitude. (Ok, tomaria porque sou um sedutor nato.)
Eu quero você, o mais rápido possível.
Espero uma resposta.
Atenciosamente Kim Seu Dono JongHyun.
P.S: Gostaria que parasse de rebolar esse seu traseiro, ou não responderei por meus atos.”
A cara de pau de JongHyun era algo inédito, claro que era requisitado e cortejado por outros homens, gostava e se aproveitava disso, mas a forma que o colega de trabalho o abordava era inesperada, parecia um maníaco sexual! Key também apreciava a arte da cama, mas o tal JongHyun era um ogro que pelo jeito sabia cantadas de péssimo gosto. Em sua opinião o mais velho deveria ser daqueles homens que se gabam, mas não se garantem na cama, ridículo e esnobe, uma massa de músculos sem cérebro.
Alguém que jamais chegaria aos seus pés.
Porém, ainda tentando disfarçar sua surpresa com o recadinho picante e brega, tratou logo de esquecer aquilo, era melhor prosseguir com a aula.
x-x-x
Tomava seu suco sem muita vontade, ainda tentando absorver as informações das últimas horas, ou melhor, informações desde quando acordou. Por mais que se esforçasse em entender, não entendia. Por mais que tentasse encontrar uma lógica, não encontrava. A única coisa que fazia sentido era a certeza de tudo não ser um sonho.
Ele realmente dormiu ao lado de Baro.
Não, não se sentia como uma garotinha assustada, só buscava uma resposta para a mudança tão repentina do mais velho, porque já estava até mesmo se acostumando com o jeito frio e severo do outro. Talvez Baro sentisse pena, talvez um pouco de compaixão, ou foi só um momento de fraqueza, já que desde o acontecido eles não trocaram uma palavra sequer, nem ao menos um xingamento matinal Sandeul recebeu, o que o preocupava.
“Acho que agora ele me odeia ainda mais”, suspirou desistindo de comer alguma coisa, estava sem fome, não só pela relação dele com o primo ter aparentemente mudado, mas também por GongChan. Se não estava assustado com sua primeira preocupação, estava apavorado com a segunda, sentiu algo diferente quando olhava o garoto durante a aula de artes, sentiu algo emanando dele, algo bom que lhe trazia uma sensação de conforto, até mesmo pensava nele como alguém íntimo.
Como um amigo.
Mas como se eles não se conheciam? Nem ao menos trocaram uma palavra, e Sandeul jamais imaginou ter interesse em se aproximar de alguém, tinha receio de confiar nas pessoas, mesmo já sendo acolhido por MinWoo de uma forma que já passava o tempo e mantinha pequenas conversas com a turma A do segundo ano, ainda era estranho esse mundo onde outros habitantes moravam além dele. Admitia que também tinha vontade de se aproximar do primo, mas eles eram parentes, era normal querer algo assim, não era? Sempre viveu só com a mãe, porque o pai os deixou quando Sandeul era muito pequeno, então não sabia como era criar laços familiares.
Gostaria de tentar.
- Então Sandeul, já escolheu um clube? – ChunJi acabou o despertando de suas indagações.
- Ah, eu não sei. – Respondeu sincero. – Eu nunca fiz parte de um clube antes. – Envergonhou-se por ser tão sem graça perto dos outros, não costumava participar de nenhuma atividade escolar.
- Qualquer coisa a gente te ajuda. – MinWoo comentou com a boca cheia de arroz. – Eu faço parte do clube de atletismo, e garanto que é o melhor. – Disse recebendo um soco de HyungShik.
- Ele só fala isso porque alguns garotos que ele acha que são bonitos participam também. – HyungShik explicou a Sandeul. – Não dê ouvidos a ele, mas temos várias opções, só escolher algo que combine com você.
- Que audácia. – MinWoo já tinha se recuperado do soco e fazia uma careta para o amigo de infância. – Faço parte porque gosto, ok? E você só diz isso porque tem inveja do corpo perfeito de alguns! – Retrucou.
- Você só pensa nisso! – O garoto se levantou de repente, o que surpreendeu quem estava na mesa. Os dois raramente discutiam. – Sério MinWoo, já ficou ridículo essa sua mania por “corpos sarados”, para de ser tão fútil! – Praticamente gritou deixando o refeitório.
Todos ficaram chocados com a reação do garoto.
- Er, eu vou atrás dele. – MinWoo riu sem graça, não entendia algumas atitudes do amigo. – Sandeul, não se preocupe, o HyungShik anda meio estressado comigo. – Apertou o ombro do menor tentando se desculpar pela cena presenciada. – Tem um edital com os clubes perto da diretoria, só dar uma olhada lá. – Avisou antes de também sair.
Sandeul apenas assentiu, achou melhor ficar calado em relação a “briga” que presenciou, nunca teve um melhor amigo, então não saberia como agir diante da situação, apenas seguiu o conselho do loiro e também deixando a mesa foi em direção a diretoria.
Agradecia por ser hora do almoço, assim teria mais tempo para olhar o edital e decidir com calma o que faria. Enquanto se encaminhava até lá pensava nas opções, porque nunca participou de um clube antes, algo relacionado a esportes era melhor descartar, sempre fora muito desastrado. Se existisse envolvendo culinária talvez arriscasse, só não poderia ser algo que exigisse muita comunicação, não era bom em se expressar, falar em público... Engraçado que a única forma que conseguia se expressar claramente era através da música, e quando tomou coragem de mostrar ao mundo sua voz, logo depois o acidente aconteceu...
Cantar era uma maldição.
Ao lembrar-se do acidente seu coração se apertou, mas no segundo seguinte ele foi tomado de uma ansiedade sem igual. Era ele. GongChan estava bem ali na sua frente, olhando o edital e passando a ponta dos dedos sobre um papel. “De qual clube seria?”, indagou Sandeul mentalmente, era a sua oportunidade de puxar assunto com o garoto, que agora ele podia notar que era mais alto do que ele, mas suas feições tinham um ar doce, e seus gestos eram tão calmos que ele realmente parecia alguém mais novo. Não sabia como abordá-lo, não era apenas cumprimentar com um “oi, tudo bem?”, Sandeul não sabia fazer isso, era capaz de dizer “oi” e fugir dali.
Porém, ele não precisou dizer nada.
- Veio escolher um clube? – A voz do anjo soou divertida, as expressões de Sandeul eram claras, e ele facilmente pode notar o desconforto do menor.
- É, eu estou em dúvida. – Respondeu acanhando, e também surpreso por GongChan falar com ele de forma tão natural.
- Sabe, não precisa ser tão tímido ao meu lado. – O moreno viu que o outro parecia suar frio e medir suas palavras diante dele. – Mas tem alguma opção em mente, Sandeul?
- C-como você sabe meu nome? – Céus, GongChan era mesmo um vidente? Se sim, ele era muito bom, afinal eles não tinham se apresentado antes.
- Eu não tive uma premonição com o seu nome. – Respondeu, se controlando para não rir, era costume os outros alunos acharem que ele era um vidente, ou algo assim. – Eu ouvi quando algumas pessoas da sala o chamaram assim. – Explicou. – E acho que o vento andou sussurrando seu nome ultimamente... – Disse, mas parecia refletir sobre a frase, e ela não era destinada a Sandeul.
- Ah, entendi. – Coçou a nuca confuso, ele não tinha entendido é nada, principalmente aquilo de “vento” e “sussurros”, mas resolveu não perguntar. – E você, já escolheu uma atividade? – Certo, ele estava conseguindo manter uma conversa.
- Sim. – GongChan sorriu, o menor era exatamente como ele imaginava. – Vou participar do clube de teatro, e acho que seria bom se você também participasse. – Claro que Sandeul não o entenderia, mas ele sabia bem o que estava dizendo. Ele sentia que havia algo que o outro precisava libertar, algo preso dentro de si, e estar em um palco era a solução perfeita.
- E-eu não sou capaz de participar de algo assim. – Confessou, mas não obteve resposta de GongChan, porque ele simplesmente o puxou, se colocando em sua frente como um escudo.
- Fique parado. – Sussurrou para Sandeul tentando escondê-lo.
Em vão.
- Hm, que cena interessante. – Zico se aproximava com seu grupinho seleto de amigos, e não perderia a oportunidade de mexer com GongChan. – O anormal encontrou companhia? – Riu debochado.
- Pelo jeito é um patinho medroso. – Baro que estava com eles disparou, fingindo que nunca tinha visto Sandeul antes.
- Não sei como você não desistiu de estudar aqui. – Zico encarou GongChan, seus olhos em fúria só por vê-lo. – Seu lugar é em um manicômio, moleque estranho. – Praticamente cuspiu suas palavras. – Pelo menos tem um lado bom, tenho mais um ano inteiro para fazer da sua vida um inferno. – Declarou, empurrando GongChan e por consequência Sandeul que estava atrás dele.
- Zico, deixe eles pra lá. – JinYoung disse cansado das atitudes do amigo, tentando disfarçar a urgência em sua voz. Então Gongchan ainda estudava no mesmo colégio que ele, de certa forma o preocupando, mas seu lado egoísta agradecia.
Ainda poderia vê-lo.
Mesmo vendo ele se machucar dia após dia, e miseravelmente não o protegendo como gostaria. Era um inútil, um fraco, um maldito egoísta que apenas queria manter seu vício, observar o garoto de longe, eram de mundos distintos, e jamais se aproximariam.
- É, JinYoung tem razão. – Zico pareceu refletir. – Só estamos no segundo dia de aula, depois me divirto com você. – Se referiu a GongChan. – Com você, e com quem atravessar o meu caminho. – Encarava Sandeul pela primeira vez, adorando o que via.
Uma nova vítima. Frágil e quebrável.
- É melhor nós irmos, er, a hora do almoço está acabando. – Dessa vez era HimChan tentando acalmar os ânimos.
Zico e os outros concordaram, mas antes de irem Baro ainda lançou um olhar indecifrável para Sandeul, como se o repreende-se, como se o avisasse do que estava por vir.
Não teria piedade como na noite anterior.
- Você está bem? – Sandeul perguntou assim que o grupinho sumiu do seu campo de visão, alguns alunos fofocavam baixinho sobre o acontecido. Ninguém era corajoso o suficiente para falar ou fazer alguma coisa. – Ele não te machucou? Machucou?
- Não. – Acabou respondendo mecanicamente, algo o instigava. – Por que o Baro te olhou daquele jeito? – Foi direto. – Senti uma sensação ruim vindo dele, mas não era em minha direção, era... Na sua. – Na verdade ele tinha sentido outras coisas além do que tinha dito, mas não falaria.
Ainda.
- Eu não notei. – Mentiu. – Nós nem ao menos nos conhecemos... – Mentiu novamente, e se sentia culpado por não ser sincero com GongChan, mas ele simplesmente não podia falar a verdade.
- Não parece, ele te olha como se o conhecesse, e muito. – Encarou Sandeul, absorvendo suas expressões, elas tinham muito a dizer. Quando as palavras não saem, o corpo fala e nos entrega. – Mas depois falamos sobre isso, não é bom que vejam você comigo. É perigoso.
- Eu não tenho medo. – Sandeul respondeu, o que não era mentira. Ele não tinha medo de Zico, e muito menos do que ele poderia fazer, porque talvez seria um favor. A única coisa que temia era o desprezo do primo, apesar de nunca ter tido uma família grande, acabara por se apegar a ideia de ter uma. – Eu gostaria de falar com você novamente. – Confessou.
- Então entre para o clube, a primeira reunião é amanhã. – Apontou para o edital. Não custava nada arriscar, e sua intuição dizia que Sandeul apareceria no dia seguinte. – É melhor eu ir, e não fale comigo até lá.
E partiu na direção contrária ao grupo de Zico.
Com algo perturbando a sua mente.
-
“Não era a primeira vez que o via, e também não era a primeira vez que não o decifrava. Uma névoa densa me impedia de vê-lo claramente, e só de ficar no mesmo ambiente que ele sufocava, como se o ar quisesse arrancar minha alma.
Arrancá-la para depois entregar a ele, em uma bandeja de um cristal mais puro que o céu.
JinYoung... Era tudo que sabia sobre ele. Um nome.
Uma página em branco.”
-
Durante a tarde fez o que GongChan mandou, não voltou a falar com ele depois do almoço, então apenas se concentrou nas aulas, tentando não pensar muito nas palavras dele sobre Baro. Porém, enquanto voltava para casa não pode deixar de notar que Baro estava diferente, não reclamou por ele ter atrasado, o mais velho não disse nada sobre Zico ou GongChan, estava mais frio que o normal, mais indiferente. Sandeul sentia-se invisível perto dele, e mesmo que não admitisse tal atitude o machucava, e por estar em pleno processo de cicatrização de uma ferida, não percebia quando outras se formavam.
Queria perguntar se estava tudo bem, assim como fez mais cedo com GongChan, mas mesmo vivendo com Baro há uma semana não tinha liberdade para perguntar, seria como invadir o espaço criado entre eles, mesmo que na noite anterior ele aparentemente tenha diminuído.
Caminhavam em um silêncio quase sepulcral, Baro sentia raiva de tudo a sua volta, das pessoas nas ruas, de Sandeul e de si mesmo. Apesar de estar bem à frente do mais novo, o vento frio parecia espalhar o cheiro dele, intoxicando e quase o fazendo vomitar. Devia existir uma maneira de se livrar dele, já tinha pensado em milhares delas, mas nada daria certo, seus pais jamais concordariam em mandar Sandeul para longe.
Ele mesmo teria que resolver aquilo.
Quando chegaram a estação de metrô, já sabia exatamente o que fazer.
Respirando fundo, começou a caminhar mais rápido, não olhando para trás em nenhum momento, precisava calcular a hora perfeita. Apertava a mochila contra seu corpo, sentia a temperatura baixar cada vez mais, era o inverno se fazendo presente. Só que por dentro estava quente, quase suando em antecipação, e aumentando seus passos manteve seu plano, o fluxo de pessoas era caótico, passava entre elas quase como um raio, só mais alguns passos, só mais alguns segundos...
E quando pisou firme dentro do vagão, respirou aliviado. Olhando para trás pela primeira vez.
Sorrindo ao ver Sandeul pelo vidro da porta automática. Do lado de fora do metrô.
Estava livre, finalmente livre.
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Sandeul ainda tentou alcançá-lo, mas era inútil. A multidão quase o engolia, não lembrava qual caminho seguir e qual trem pegar, na verdade nem o endereço dos tios sabia. Conforme avançava contra as pessoas temia o pior, caso se perdesse não saberia como voltar para casa. Quando avistou a mochila de Baro novamente se tranquilizou, porém sua sorte durou pouco, o primo entrou em um vagão, sem olhar para trás, sem ele...
O que viu foi o sorriso de satisfação do mais velho ao deixá-lo. E os vagões sumindo pelos trilhos.
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“Minha mente gritava: Corra. Mas minhas pernas se mantinham presas ao chão, pela terceira vez eu era abandonado. Primeiro por um pai omisso, depois a vida tirou quem eu mais amava. E agora ele me abandonava, sem nenhum arrependimento ou culpa. Eu estava teimando contra o destino, minha missão na terra era ser um solitário, e mesmo assim eu ainda tentava lutar contra isso, por apenas um motivo.
Meu coração congelado foi pintado de azul.”
Notas finais
Spoiler: Mais GongChan e JinYoung no próximo capítulo.
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Beijos e até.
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