Sitra Ahra
1 Capítulo 1 - Thomas
Notas iniciais
Thomas caminhava com lentidão para o supermercado que ficava ao lado do apartamento onde morava, precisava comprar alguns vegetais para sua janta, ultimamente sentia uma menor necessidade de carne, atribuía isso a uma estabilidade que adquirira na vida em tempos recentes e que teria diminuído sua ansiedade. Estava próximo do supermercado, vestido ainda com suas roupas de trabalho, smoking e gravata, quando cedeu a um dos seus costumes mais usuais, assim que avistava um grande sebo no fim da quadra anterior ao supermercado, não deixava de entrar e conferir alguns dos livros que poderiam ter chegado. Aquele sebo, especificamente, costumava ter uma variedade invejável de obras, Thomas passou o olho pela prateleira onde ficam as obras classificadas como "outros" e já encontrou um título que chamou sua atenção, sua boca chegou a formar um sorriso tamanha sua satisfação com o achado, o pegou e levou até o velho e enrugado caixa, não havia fila.
— Esse aqui, Thomas? Deixe-me ver, 50 reais.
O rapaz pagou com seu cartão de débito e saiu satisfeito, fez suas comprar no supermercado e voltou para seu apartamento. Preparou uma janta simples envolvendo alface, batata e um pouco de presunto de peru, comeu com avidez para poder sem demora se atirar na sua mesa de leitura e descobrir que segredos um título como "Os Reis de Sitra Ahra" poderia esconder. Quem olhasse para a residência de Thomas Feigenbaum não poderia supor o tipo de renda que tinha, filhos de um rico empresário da área da distribuição de móveis, ele era dono de sua própria corretora na bolsa de valores e tinha revolucionário o mercado ao descobrir meios de facilitar o investimento de brasileiros em empresas estrangeiras sem nenhuma complicação, essa novidade introduzida por ele lhe rendeu uma riqueza que mesmo seu falecido pai jamais poderia sonhar para a família. Ainda assim, Thomas agia sempre como um cidadão médio e nunca utilizava sua posição social privilegiada como forma de facilitar qualquer coisa que fosse fazer, seu apartamento era em uma zona nobre mas não possuía nenhum tipo de luxo absurdo, era espaçoso, com três quarto, um dos quartos era onde dormia, outro era um escritório de trabalho onde ficavam seus papéis, livros profissionais e computador, e a livraria, que era o quarto mais espaçoso e onde colocava sua extensa coleção de livros.
Leu metade do livro naquela mesma noite, não passava de um romance com valor filosófico, mas para ele havia um encantamento especial em cada uma daquelas palavras, Thomas podia entender alguns dos misteriosos sentidos ocultos em cada palavra, ou pelo achava que podia, foi deitar-se antes da meia noite e pegou no sono imediatamente.
Em um barzinho muito mal frequentado em algum local de Taguatinga a jovem bebia sua garrafa de Cantina da Serra diretamente no gargalo, seus olhos castanhos claros brilhavam com a luz fraca do recinto enquanto o álcool descia pela garganta, não demorou mais do que alguns segundos pra que virasse todos os 750 mililitros diretamente para seu organismo. Sentado do seu lado havia um homem forte e um pouco mais velho que bebia cerveja, assim que ela tirou a garrafa da boca, ele abordou: — Você está acompanhada? Aceita um drinque?
— Não, gatinho, não gosto de gente pagando as coisas pra mim. – Sorriu com um jeitinho arrogante e puxou o homem pela nuca para beijá-lo, Amanda era uma dessas garotas que não conhecem o significado de inibição, gostava de beber para chegar a pontos ainda mais ousados em suas ações impulsivas, ele não resistiu ao beijo, era o que queria ainda que estivesse completamente surpreso com a atitude dela. Alguns minutos se agarrando por ali, eles pagaram suas contas e foram para fora, iam para o carro dele que estava estacionado na quadra ao lado, o que desejavam fazer exigia certa privacidade.
Quando o homem abriria seu carro com a chave, dois menores de idade apareceram com armas apontados para eles, usavam bermudas e bonés e nenhum tipo de máscara.
— Perdeu parcêro, passa o carro agora, e deixa que vamos levar a mina com nóis.
— Se acalmem, fofinhos. – Amanda pôs as mãos para o alto e os encarou com uma expressão que beirava o terror, poucos segundos depois os dois começaram a gritar e viraram um para o outro, logo davam tiros, balearam-se um ao outro várias vezes até que o primeiro morreu, e o segundo não sobreviveu mais do que alguns segundos depois de cair no chão.
— Mas que *** foi essa? – O homem pensou em voz alta, estava tão assustado que tremia, não que fosse um covarde, apenas achava que um acontecimento daquele ultrapassava todo nível possível de normalidade.
— Não se preocupe com isso, vamos logo para sua casa, ainda estou no clima. – Ela o puxou pelo braço, e não demorou para que ele se convencesse e a levasse para casa para que dedicassem o resto da noite a algo mais agradável.
Quando ela acordou de manhã nos braços do companheiro do qual sequer sabia o nome, levantou-se silenciosamente e foi embora levando a carteira dele que estava em cima da mesa. Pegou o primeiro ônibus que passou e passou todo o caminho até a rodoviária de Brasília ouvindo seu pequeno mp3 de bolso com fones de ouvido, as únicas coisas que Amanda levava consigo sempre que andava pelas cidades era dinheiro, uma faca e seu mp3 carinhosamente apelidado de Joe, dificilmente parava na sua “menos do que modesta” casa, onde o pai e seus dois irmãos moravam, ele bebia com frequência e às vezes batia nela, esse foi o primeiro motivo para que desaparecesse de lá e passasse metade das noites dormindo nas casas de estranhos depois de beber muito. Não que odiasse seu pai, ela sabia o quanto o problema dele era grave e que ele não tinha controle, certamente era um homem fraco, e no fundo ela não achava que a fraqueza fosse um mal verdadeiramente condenável.
Agora só queria sobreviver, não sonhava com um futuro melhor e precisava apenas viver cada dia por vez, fazer o tempo passar e levar dinheiro para sua família de vez em quando, Amanda Paulino não se importava de roubar, por algum motivo mesmo quando um ex-amante a via na rua depois de ser roubado, eram incapazes de se lembrar dela, então ela podia usá-los de novo e de novo, como se aquele bonito rosto pintado de rebeldia e raiva não tivesse nenhum significado para ninguém, como se aquelas feições não tivessem uma dona e o próprio eu dela não existisse como mais do que uma máscara mudando de noite em noite. Apesar da sua vida de crime e vadiagem, tinha alguns gostos mais dignos, naquela mesma manhã foi andando até chegar à uma grande biblioteca aberta ao público que havia na universidade daquele estado, ela ia até lá com certa frequência, obviamente não podia levar os livros para fora, tomar empréstimo, mas entrar lá e ler por horas era perfeitamente permitido, e foram os conhecimentos adquiridos em suas leituras solitárias a única a única razão para não ter se matado muito antes de chegar àquela idade, aquele era um bom hábito que durava alguns anos.
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