Thomas foi ao trabalho no horário de sempre, costumava acordar às 6:30, tomar banho e um café da manhã, para então pegar o carro para ir para a sede de sua empresa, onde sempre chegava às 8, nem mais cedo e nem mais tarde. A sede da Kali S.A era um prédio de quatro andares próximo do famoso Shopping Pátio Brasil, o prédio era o coração da administração daquela grande empresa, que tinha corretoras físicas por todo o país e um sistema por internet muito sofisticado, a Kali S.A havia sido a responsável por popularizar investimentos nos mercados de capitais para pessoas mais humildes. Thomas Feigenbaum era conhecido dentro da sua área de atuação como o Anjo da Morte, um apelido irônico dado por seus adversários mas que ele aceitou de boa vontade e tornou sua alcunha, tal nome se dava devido à incrível habilidade que ele tinha de lucrar com operações envolvendo empresas em queda ou próximas da falência, ele vendia a descoberto e utilizava opções para garantir um lucro ridículo com as quedas, e se tinha algo em que Thomas Feigenbaum era especialista era farejar empresas ruins próximas da morte, por isso o apelido.
Aquele foi dia trouxe grandes problemas para ele, ele era o acionista majoritário da empresa e tinha 49 por cento das ações, o segundo principal acionista, Haroldo Silva, tinha 20, e o resto estava espalhado entre acionistas minoritários. O famoso banqueiro Eimael Félix, ridiculamente rico e o segundo homem mais rico do Brasil, havia feito ofertas de compra para 100 por cento das ações ordinárias a um preço 50 por cento mais alto que o valor de mercado, com tal oferta conseguiu arrematar os 50,4 por cento da empresa, o que lhe daria o direito de presidência. Eimael estava lá na sala onde os administradores se reuniam e explicou tudo a Thomas, ainda ofereceu que ele ficasse como um administrador, mas o homem virou as costas e foi embora apenas dizendo: — Ótimo. – Foi direto para outra sala onde ficava um de seus corretores e ordenou que vendesse todas as suas ações pelo preço que Eimael ofereceu, depois pediu que o dinheiro fosse tirado da corretora e mandado para o banco, após agradecer, foi pro carro e dirigiu até a churrascaria mais próxima. Lá, em tom festivo declarou que pagaria o rodízio de todos ali, e fez uma espécie de comemoração informal com desconhecidos, que envolveu grandes excessos de alimento e bebidas.
A verdade é que Thomas viu aquela situação aparentemente tão ruim como um sinal de que deveria mudar de vida, com a riqueza que teria vendendo sua parte da empresa com metade de acréscimo ele poderia muito bem viver o resto da vida tranquilamente, e no fundo, por mais que fosse hábil como empresário e investidor, tinha uma certa prioridade que não envolvia qualquer lucro ou valor material, por isso, tendo vendido a empresa ele teria recursos para ter uma boa vida e ter bastante tempo para se dedicar à sua tão preciosa arte.
Quando saiu do estabelecimento e caminhava até o carro, uma garota de cabelos negros à altura do ombro que vestia uma camisa da banda Misfits se aproximou em uma velocidade ridícula e pegou na mão dele.
— Por favor, me dá sua senha do cartão de débito?
Thomas sentiu uma sensação estranha, como se uma profunda força persuasiva espreitasse sua mente, por um momento sentiu que realmente obedeceria aquela estranha, mas voltou a si assim que percebeu o que estava acontecendo: — Usando mágica pra roubar? Isso envergonharia os deuses. – E segurou forte na mão dela, não pra machucar, mas que ela não fugisse.
— Como você sabe? – Puxou a mão de volta mas não fugiu, parecia interessada mas de forma alguma intimidada, era difícil imaginar que aquela pessoa pudesse sentir medo.
— Tenho algum treinamento nessas áreas, por que alguém com um dom tão especial ficaria roubando carteiras? Deve saber o mal que isso atrai pro seu futuro.
— Sabe como é, a vida tem suas necessidades e nem sempre fazemos o que é certo, não conheço muitos que sejam magos, por que não me leva pra sua casa para conversarmos?
— De novo tentando usar sua persuasão mágica? Eu deveria te detestar pelo que tentou fazer, mas estou tendo um ótimo dia e posso te ensinar alguns valores morais, e talvez você possa dividir seu conhecimento comigo, mas eu a menos deveria saber seu nome, não?
— Amanda, pode me chamar de Amanda. E você?
— Thomas Feigenbaum.
Thomas pôde sentir algo profundamente escuro em Amanda, ela não demonstrava com aquela simpatia e espontaneidade que a faziam parecer cativante mesmo quando pega na tentativa de praticar um crime, ele precisava saber o que era, e de qualquer forma, apesar de tudo, sentia uma certa inclinação natural a realmente simpatizar com ela, como se tivessem naturezas cujas polaridades se atraíssem pela mais legítima lei da física. Levou-a de carro até seu apartamento, reparou que embora as roupas dela estivessem razoavelmente sujas e parecessem bem usadas (embora certamente tivessem um estilo de rebeldia que lhe caía bem), assim que entraram no apartamento ela pôs a mão na boca e disse:
— Acho que sua sala é maior que a casa da minha família, nunca estive em um lugar tão grande e olhe que se tem alguém que esteve em muitas casas e apartamentos, fui eu.
— Eu gosto de espaço, mas repare que ao menos não fico desperdiçando dinheiro com mobília de luxo ou ornamentos de pura ostentação.
— Não veria diferença se fosse de luxo ou não. Me diz, a gente veio aqui pra conversar mesmo ou você quer tentar outra coisa?
— Conversar. – Ele se sentou no sofá, tentando ignorar as feições maliciosas da bela jovem, ela então se sentou de frente pro anfitrião, com uma perna sobre a outra.
— Que decepção, te achei bonito. Vamos ver, tenho 21 anos, desempregada, amo Horror Punk...
— Pare, quero que me diga como faz aquilo, como faz essa persuasão mental inacreditável, é claro que só não funcionou em mim pelo treinamento que tive.
— Por que eu contaria meus segredos para um estranho? E que treinamento?
— Porque no meu treinamento eu aprendi a conhecer um pouco da pessoa apenas de observá-la, uma cuidadosa leitura de sinais energéticos e mentais que apenas os mais perceptíveis podem diferenciar, mas você é um caso estranho, não acho que você seja uma pessoa com um mau coração, mas ao mesmo tempo é como se houvesse outra presença além da própria em você. Quero dizer, você não é oprimida por algum espírito do plano de yezirah?
— O que? Eu ouço a voz de Naamah na minha mente desde meus 5 anos, mas quando ao que é yezorá eu não faço ideia. Você parece realmente experiente então vou te contar tudo, meus instintos, que sinceramente raramente estão errados, me dizem que posso confiar em você, Thomas.
— Voz de Naamah? Me explica.
— Olha, é realmente uma longa história, mas vou te contar porque tenho certeza de que você é o único que poderá me ajudar, peço que não me interrompa até eu terminar.
Desde que me lembro eu escuto vozes na minha cabeça, a voz de uma mulher de voz gentil e elegante que conversava comigo. Ela parecia uma boa amiga e tentava cuidar de mim, ela sempre me disse que eu não respondesse em voz alta e que conversasse apenas com pensamentos, porque ela podia ver até as profundezas do meu coração e eu não podia esconder nada dela.
O nome dela era Naamah e dizia ser um anjo com milhares de anos encarregado de me acompanhar por toda a vida e me proteger, ela me ensinou muitas lições sobre a magia enquanto eu crescia e sempre me orientou a manter completo segredo sobre a existência dela e sobre as coisas que ela me falava e ensinava. Ela me ensinou a concentração, o auto-controle e a disciplina, para que depois aprendesse a mentalização, a projeção astral e o poder influenciar os outros com meus pensamentos, nunca me ensinou qualquer tipo de magia ritual, mas me especializou em coisas que eu pudesse fazer em qualquer lugar utilizando apenas minha mente. Por influência dela, cresci muito solitária e fechada, ela não queria que eu me envolvesse muito com os mundanos porque isso tiraria meu foco do treino, eu tive uma vida regrada e, mesmo me dedicando aos treinamentos mágicos, também Ainda assim precisava estudar e cumprir minha vida terrena, eu era uma ótima garota e era boa em tudo. Mas tudo mudou, meu pai começou a beber demais, coisa que ele só fazia com moderação antes, tornou-se um alcóolatra doente e nojento, passou a bater em mim, no meu irmão e na minha mãe, a querida Naamah não aceitou aquilo e me indicou que matasse ele. Eu não aceitei e então tentava usar minha mágica pra controlar a mente dele pra segurar a violência e simplesmente não funcionava, Naamah explicou que gente com embriaguez completa tem a mente desligada e funciona de forma automática e primitiva, de maneira que é impossível acessá-lo para ter qualquer tipo de controle, ela insistia que o matasse, mas eu não fiz isso, mesmo que minha vida se tornasse um Inferno, eu perdesse o desempenho na escola e minha evolução espiritual se estagnasse. Uma noite eu fui dormir e tive um sonho estranho em que andava pela casa, era estranhamente realista, então me esforcei pra acordar e descobri que estava na porta do quarto dos meus pais e com uma faca na mão; não foi difícil entender, Naamah estava me controlando, depois disso eu entendi o mal que ela representava e fugi de casa, abandonei minha antiga vida para proteger minha família do que há dentro de mim e hoje vivo sem direção, por isso mesmo quando eu apareço na minha velha casa, nunca durmo lá. Durmo na casa de estranhos, na rua, me sustento com roubos e pequenos golpes, tudo porque sei que ela pode voltar e fazer mal, ela me enganou por muito tempo mas nunca mais irá acontecer, eu não ouvi mais a voz dela desde aquela noite...
A noite em que fugi de casa, em que corri pelas ruas desesperada gritando mentalmente por "vá embora e nunca mais volte", com toda a vontade que ela me mesma me ensinou a ter, aquela vontade que a empurrava para longe. Mas não quero me arriscar e sei que ela pode voltar a qualquer momento, e embora eu soubesse quem Naamah fosse de acordo com a mitologia, ela parecia uma boa companheira e me dizia que todas as lendas e escritos sagrados estavam errados, que ela era apenas um libertadora da humanidade que queria trazer conhecimento e liberdade, eu acreditava, mas um ser que possuísse meu corpo para me fazer cometer algo tão horrível, ela é realmente a devoradora de bebês que é descrita nas histórias.
Thomas ouviu cada palavra dela com a mais completa atenção, sentiu um certo horror com boa parte dos fatos descritos, isso porque tinha certeza de que Amanda não estava sozinha e que o antigo demônio feminino estava com ela. Como o bom estudante de ocultismo que era, Thomas sabia que Naamah era uma poderosa rainha demoníaca, extremamente devassa, um espírito feminino que odiava a maternidade e devorava os bebês à noite como a abortista do mundo das sombras. Aquele ser tenebroso certamente ainda estava com Amanda, pois ele sentira uma escuridão profunda vindo daquela bela jovem, algo muito íntimo e escondido, o demônio estava muito bem escondido e fora de atividade, mas com certeza ainda estava lá. Ele mesmo tinha um espírito poderoso com o qual mantinha contado, uma antiga deusa com grandes poderes mágicos e uma sabedoria invejável, ele pôde ouvir a voz dela ecoando ao seu coração e dizendo "Ajude-a, você precisa ajudá-la", e como o devoto fiel daquela deusa que, diferente de Naamah, era justa e boa, disse com convicção à garota:
— Eu conheço essa entidade que você descreve e sei como te ajudar, mas você vai ter que ficar morando por aqui e aceitar ser minha aprendiz; você já tem uma base espetacular na magia, mas agora falta que alguém te direcione moralmente e te leve para fora dessa maldade toda. Se fizermos você renunciar completamente a esse demônio que te seguiu por toda a vida, e te trazer para o caminho da justiça, poderá se tornar uma benção para toda a humanidade.
— Você é maluco? Eu vou cortar sua garganta enquanto estiver dormindo, ela pode voltar a qualquer hora, se ela não voltou ainda é porque não teve uma oportunidade devida, ou então ela gosta do caminho de vadiagem perdida que eu sigo, não sei.
— Você contou sua história, agora falta ouvir a minha, quando terminar de ouvir, tenho certeza de que não terá medo de dormir na minha casa.
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