Sitra Ahra

3 A Deusa Misteriosa


Desde pequeno que eu sou um leitor compulsivo, tanto de literatura quanto de assuntos científicos, meus principais interesses sempre foram pela literatura fantástica e pelas ciências exatas. Como eu sou filho de pais muitos ricos, quando eu tinha nove anos eu fui sequestrado por um grupo de bandidos que me atirou em um porão sujo, eles não me amarraram e até me alimentam com um mínimo de razoabilidade, mas qualquer coisa que eu falasse do tipo "me solta por favor", ou "me traz água" resultava em surras dolorosas, e aqueles mal feitores sempre ficam à porta vigiando, não havia janelas e eu sofria sozinho em uma escuridão quase completa, aúnica luz que alcança meu cárcere era a que vinha pelas frestas da única porta ali, onde sempre tinha um bandido guardando. Achei que ia morrer, estava deitado no chão chorando silenciosamente já que eles se enfureciam se eu fizesse barulho, deitado ali esperando por meu fim eu ouvi a voz que me trouxe de volta a vida e a esperança, ela soou com uma severidade incomparável mas que também trazia uma sensação de pureza e justiça que nunca havia sentido antes. A voz disse:

— Thomas, não tenha medo pois estou contigo, eu sou a deusa da morte mas também a deusa da justiça, eu vim para te salvar e te trazer comigo. Confie em mim, levante-se com toda a sua força e vá até a porte, quando estiver lá grite e exija que eles abram, quando seus sequestradores aparecerem diga a eles que quer ser libertado e voltar para casa, diga como toda a confiança e vontade que puder e tudo dará certo.

Aquilo parecia um tipo de tolice que me mataria com certeza, ao menos seria o que me viria ao pensamento em condições normais, podia estar alucinado por causa da exaustão física e do terror, mesmo assim a convicção daquela voz me faz acreditar que não era um delírio, que realmente um ser superior vinha ao meu auxílio. Não tinha nada a perder, por isso levantei com as minhas últimas forças e andei usando as mãos para conseguir me orientar na aterrorizante escuridão até chegar à porta, bati forte nela e gritei como a suposta deusa ordenava: — Abram! Abram! Abram agora, estou mandando, eu exijo que abram!

Que medo que eu senti naquela hora, mas é assim que descrevemos a coragem, é a capacidade de agir mesmo quando se sente medo, logo eles vieram xingando e abriram a porta, segurei o terror que quase paralisava meu corpo quando vi os rostos perversos, mesmo assim declarei como a voz estava dizendo na minha cabeça naquele exato momento, e minha voz se sincronizou com a da deusa: — Exijo que saiam do meu caminho e fiquem quietos enquanto eu vou embora. — Mal acreditei quando eles mudaram suas expressões para a mais completa submissão e se afastaram, pude andar até a porta, mas antes ainda ordenei a eles mais instruções da deusa: — Você com a cicatriz no pescoço, pegue seu carro e me leve para casa, os outros fiquem quietos.

O homem com cicatriz veio comigo enquanto eu saía e me levou até o carro, logo estávamos dirigindo, a voz me instruiu a não falar mais nada, como eles haviam me sequestrado logo na entrada da minha casa, o sujeito soube me levar até em casa, assim que chegamos pedi que o homem me entregasse a arma dele e me esperasse (como a deusa ensinou), fui até o portão e chamei pelos meus pais. Claro que eles chamaram a polícia e logo estavam lá, pegaram o sequestrador no carro, que pareceu sair do encanto e ficou desesperado a ver que estava cercado por policiais civis, fizeram com que ele os levasse até o esconderijo onde os sequestradores estavam, foram todos apreendidos, julgados e presos. A única coisa que ficou difícil de explicar foi dizer como eu fugi, mas a voz me orientou a dizer que o homem da cicatriz havia se arrependido do crime e quis me devolver à liberdade e se entregar, embora todas as ações dele fora do encanto dissessem o contrário. Mas quem era aquela voz? Como ela havia realizado um milagre tão sublime e surpreendente?

Perguntei mentalmente várias e várias vezes a ela, aquela respeitável e temível voz feminina, quem era ela, entretanto a voz se recusava e apenas dizia que era uma antiga deusa da morte e que havia decidido me proteger. Ela me acompanhou por muitos anos e me iniciou nas artes mágicas da mesma forma que fez com você, foi um treino secreto e íntimo, embora envolvesse algumas magias rituais, eu o terminei quando fiz 18 anos e foi só nessa época que ela me revelou sua identidade, que ela, que me fez estudar os principais sistemas de esoterismo e me aprofundar na arte da cabala, que ela declarava ser o mais completo sistema para o conhecimento do mundo visível e invisível, uma forma de se faeer analogias entre todos os planos da criação, útil tanto para a vida mundana quanto para o aprendizado mágico.

— Espere, como você sabe que essa deusa não é uma farsante má como minha Naamah?

— Porque sua guia te ensinou mágica mas não te ensinou nenhuma moralidade, certo?

— É verdade, e me mandou matar meu pai.

— Minha deusa já mostrou sua face para mim em sonhos, ela sempre me orientou a agir com justiça, me repreendia com severidade a cada mau pensamento meu, a cada ato de imoralidade, ela não permitiu que eu seguisse por um caminho de maldades ou mentiras, pois ela ama a verdade e a justiça e tudo que ela faz e ensina mostra que esse amor e devoção são sinceros. Minha deusa é o ser mais puro que existe, ela se cobre com a pele de um leão para demonstrar sua coragem e convicção, eu a amo e venero com profundidade, mas não tanto quanto venero a Justiça, que é o que ela me ensinou a amar acima de tudo. É por isso que não quero você continue sofrendo, pois está claro que você merece ser recompensada pelo quanto sofreu, e que você precisa ser salva do terrível risco que tem de, mesmo tendo um coração bom, ser atirada pelas condições de um destino cruel em um caminho de trevas.

— Ela está sempre com você?

— Não, até meus 18 anos, no dia em que terminei meu treinamento, ela me acompanhava o tempo todo, hoje em dia a deusa só procura eventualmente, geralmente para me dar alguma meta ou conselho. E agora ela me incubiu em terminar seu treinamento e te manter longe do caminho de maldade e escuridão dos demônios.

— Me fale mais dessa tal de cabala.

— Eu vou falar muito, muito mais sim, mas apenas se você aceitar formalmente treinar comigo e se comprometer a ficar longe de crimes e outros atos maus.

— Eu aceito sim, não entendo muito bem porque sua deusa me escolheria para esse tipo de coisa, mas eu aceito, não tenho nada a perder e você me inspira confiança. Mas por que você não diz o nome da sua deusa para mim?

— O nome dela? Depois de um tempo revelarei, ela não gosta de ser conhecida por mortais em quem não tenha a mais estrita confiança. Começaremos o treino amanhã, avise sua família que agora tem um amigo e um lar, que está segura e bem, assim talvez eles parem de se preocupar com a garota que passa todos os dias no meio da rua roubando carteiras.

— Eu não sei o número deles, eu teria que ir visitá-los pessoalmente e eu não quero isso.

— Tudo bem, me dê o endereço e eu mesmo irei lá de carro, você pode ficar aqui.

— Sua deusa realmente confia em mim desse jeito?

Ele se silenciou um pouco, dando a impressão de que procurava se comunicar com a entidade.

— Sim.

Notas finais
Capítulo curto