Singelas Ameaças
17 Dèjá vu
Notas iniciais
Point of View – Lauren
Mesmo detestando mudanças, estava ajudando Dinah e Camz a fazerem uma surpresa para Sofi. Camila trocaria de quarto, mudando suas coisas para o antigo sótão e o quarto antigo de Camila ficaria para a irmãzinha dela, aumentando assim o quarto de Dinah, que mudaria para o antigo da Sofi pois a DJ ficava no quarto de visitas da casa, que realmente era pequeno para alguém com tanta roupa. Uma loucura que já estava me deixando tonta!
O novo quarto de Camila estava impecável. Ela conseguiu arrumar aquilo sozinha, enquanto trabalhava, estudava e cuidava de tudo naquela casa. Minha admiração por ela apenas cresceu quando vi que estava fazendo de tudo para que Sofi gostasse do novo quarto, que decorou do jeito que Sofia iria adorar! Dinah tinha ajudado Camila na pintura, pois eu ainda não podia fazer muito esforço com o braço e mesmo assim, fiz vários desenhos de que sabia que Sofi iria gostar. Com a estadia na casa de Camila, acabei me apegando muito a irmãzinha dela, que estava interessada na minha "profissão". Sabia que Camila não tinha ideia das nossas conversas até porque, se soubesse que a pequena e protegida irmã estava interessada em dançar num palco para várias mulheres apenas "pela arte", ela com toda certeza teria um treco ou algo do tipo.
Apesar da insistência de Normani, passei apenas o final de semana com ela. Mani e Ally fizeram um bolo de cenoura que, posso afirmar, é a comida preferida de Allyson e a partir desse final de semana, a minha também. Normani sabe fazer coberturas como ninguém! Só o que me deixou aflita foi a imagem da mãe de Mani, praticamente definhando na cama.
Câncer no pulmão e nos brônquios. Desde que conheço Normani, sei da enfermidade da mãe dela, que fumava muito quando Mani era pequena. Era policial e agora, aposentada mais cedo, ficava com a filha única. Mani era completamente fiel à mãe, nunca deixava sozinha ou sem cuidados. Trabalhava no clube apenas para um extra para os remédios caros que a mãe precisava ou até para si mesma, quando ficava gripada. Imunidade fraca, nunca bebia nem fumava... Até a primeira vez que a vi descontrolada.
Alguns meses antes de conhecermos Dinah e Camila, o pai de Mani aparecera na porta da boate. Quando Mani viu, desabou em seus braços. Eles nunca foram brigados, mas o Senhor Hamilton não teve escolha ao deixá-las. Eles trabalhavam juntos na polícia, ele como investigador central e ela, como analisadora junto a uma equipe que gostava sempre de relembrar os nomes. Acho que para não perder o hábito... Quando a mãe de Mani ficou doente, ele teve que mudar de país, atrás do alvo da investigação, deixando sua família para trás.
Soube da história toda quando, na noite que viu seu pai em frente à boate, apenas para deixar um abraço na filha, Normani se descontrolou. Voltou ao bar da boate, já fechada, junto com algumas meninas que ficaram para ajudar no ataque de nervos da Normani. Ally não sabia o que fazer então, como experiência própria, sabia que ela precisava encher a cara. Bêbada e chorona, nos contou sobre seu passado doloroso. Seu sonho de ser bailarina sempre ali, dentro do seu peito que não suportava deixar a mãe numa casa de repouso.
Já ajudei a pagar alguém que cuidasse da Senhora Kordei, para que assim Mani pudesse fazer sua performance. Éramos muito próximas e mesmo doente, a mãe de Normani conseguia fazer com que eu sentisse falta dos meus familiares.
— O que acham da gente assistir um filme, agora? — Ally sempre dava a ideia de algum romance pois nunca vi mulher mais romântica e sonhadora, apesar de pé no chão. Ainda não sei como estava solteira mas tirando meu foco nostálgico, prestei atenção na conversa que estavam tendo.
— Tenho uma ideia melhor! Por que não tentamos entender o porquê os capangas do Jin fizeram isso?! — Mani cismava em chamar o chefe de Jin, apesar de não saber qual seu nome, sua aparência ou seu sexo.
— Mani, tenta parar um pouco. Você já tá me assustando com essa obsessão! — A verdade era que eu estava com medo de descobrir algo que eu não queria ou sempre temi e claro, medo de alguma delas se envolverem demais e acabarem feridas.
— Não é obsessão, Laur! É medo de que aconteça de novo. — Ambas cuidando de mim. Deitada nas pernas de Ally enquanto ela fazia cafuné, senti o peteleco que Mani deu em minha perna, me fazendo bufar. — Eu tenho vocês como melhores amigas, ouviu? Não sabe o quanto fiquei desesperada!
— Eu sei, Manibear. Eu sei... Só não queria ter que envolver vocês nisso também. — Ambas riram, ironicamente.
— Tarde demais pra isso, Senhora Cabello. — Rindo, levantei do sofá com dificuldade, indo bater na cabeça de Normani. Sem imobilizador no braço, agora apenas usava um imobilizador em forma de oito nas costas, que deixava meu ombro sempre firme. Irritava e eu não via a hora de poder parar com a fisioterapia a noite e voltar a dançar normalmente, com meus movimentos fortes no braço.
Depois da fisioterapia na clínica perto da casa de Camila, ia direto buscar Sofi. Camila havia mandado uma mensagem dizendo que já estava tudo pronto e queria ver a cara de Sofia quando soubesse da mudança pois algumas horas com minhas melhores amigas e Camila já havia mandado uma mensagem, dizendo que ela e Dinah haviam terminado a mudança toda, sozinhas. Dinah era ótima em montar e desmontar coisas, tanto que ficou encarregada de montar o guarda-roupas enorme que Camila tinha, para o sótão.
As duas se viraram bem e assim que a semana estava acabando, minha curiosidade falava mais alto. Por que Dinah morava com Camila, afinal de contas? Camila com certeza precisaria de ajuda, pois mesmo sendo maravilhosa, era apenas uma! Jovem demais para tanta responsabilidade. E aquela minha curiosidade transformou-se em perguntas que faria assim que estivesse sozinha com ela de novo.
Mesmo confiando minha vida a Dinah, que mostrou-se uma grande amiga, ainda tinha curiosidade. E Normani não queria perguntar a DJ pois não queria "ser invasiva demais". Elas não haviam decidido o que eram ainda, mesmo não precisando de um rótulo e não sendo muito tempo, percebia-se de longe que uma completava a outra.
— Hey, Ally, tá na hora! — Todas de banho tomado, limpamos a bagunça que havíamos feito a tarde, na casa de Normani. A mesma estava com a mãe, no quarto principal da pequena casa enquanto Ally estava dando retoques em sua maquiagem, mesmo não precisando de empecilhos para mostrar sua beleza.
— Tem certeza que não quer dormir aqui, Lauren? — A pergunta em forma de grito de Normani, me fez rir. Chegando perto da porta aberta do quarto, vi sua mãe sorrindo também. Estava impossibilitada de fazer muito, não conseguia nem ao menos tomar banho sozinha e mesmo assim, não deixava de sorrir sempre que me via.
— Tenho sim, Mani. Foi bom passar a tarde com vocês mas vou acompanhar a Sofi pra casa. Dormir lá na Camila de novo. — Deixando sua mãe assistindo TV confortavelmente, fechou a porta do quarto enquanto eu acenava para Senhora Kordei, que sorria acenando devagar com uma mão só.
— Dormir, né?! Uhum, sei. — Nossas risadas fizeram eco pelo estreito corredor que separava os dois quartos da casa. Tinha o banheiro, no meio, com a porta aberta de onde Ally nos olhava pelo espelho.
— Quer dizer que vocês já chegaram nesse nível? Já? — Escorei meu corpo no batente da porta, enquanto ria de apertar a barriga. Elas eram impossíveis juntas!
— Yah, ela chegou. Preciso mostrar quem manda hoje! — Normani bateu em minha bunda enquanto Ally corava, rindo. Elas nunca quiseram saber demais da minha vida sexual até porque, eu não tinha parceiros fixos. Até agora, pelo menos.
— Ah, qual é, Laur?! Você com essa pose de "Mulherão" sempre usando preto... aposto que é passiva de tudo, huh?! — Normani era abusada! Você oferece a mão e ela arranca seu braço inteiro!
— Não é porque você é passiva que eu também tenho que ser, ok? — Se não fosse negra, teria corado ainda mais que Ally, que quase entrava no espelho, escondendo o rosto e provavelmente querendo sumir pela nossa conversa.
— Você é ridícula! Eu ainda nem sei o que sou. — Gargalhando, beijei a bochecha de Mani que olhava para baixo, com vergonha. Ela ainda era virgem e Dinah, pelo que ela havia dito, não tinha tomado ciência do fato ainda. Imagino a cara de Dinah quando tentava ir mais além com Mani, sendo sempre cortada... Aposto que formava o bico que ela fazia quando Camila trocava o canal da TV de propósito.
Saindo da casa de Normani, acenamos enquanto Ally dirigia sem pressa. Fomos conversando sobre como o clube estava indo bem, alternando entre Beckie e Mani, como principais. Beckie sempre foi doida para ter uma performance só dela e comigo fora, ela mandava bem. Tinha curvas ótimas apesar de ter apenas 1,54 de altura.
— Tá entregue. Sorte sua que não precisa de camisinha, hein?! — De santinha não tinha era nada! Ficava sem graça por ser uma das poucas heterossexuais envolvidas com o Clube Heels, e mesmo não acostumada com esse tipo de conversa, não deixava de fazer piada.
— Sorte a minha Camila não ser do tipo que usa brinquedos. — Gargalhando de sua vergonha, sai do carro com minha mochila. Ally havia me deixado em frente à escola de dança de Sofi. Assim que o carro arrancou, ouvi vozes altas enquanto me aproximava da porta de madeira da escola, vendo Sofi andando e rindo com duas garotas, acenando para o homem que usava collan. Provavelmente o professor.
— Hey, Lauren! — Acenando e puxando suas duas colegas para mais perto de si, enquanto andava mais rápido, gritava no meio da rua. Ela e Camila tinham a personalidade parecida porém, Camila era mais discreta e preferia que as pessoas não a notassem enquanto Sofia era o tipo de garota que quanto mais atenção receber, mais irá querer aparecer. De uma maneira boa e engraçada, não o tipo de garota que fazia de tudo para que fosse notada.
— Hey, Sofi! Como foi a aula? — Dois costumeiros beijos no rosto. Ela sempre cumprimentava as pessoas conhecidas assim ou com um abraço caloroso.
— Foi ótima! Se importa de acompanhar as meninas até em casa também? Elas moram no mesmo quarteirão que a gente. — Uma japonesa baixinha acenava de braços dados com Sofi, que por sua vez, segurava a mão de uma loirinha quase da sua altura que já havia dormido com ela também. Provavelmente sua melhor amiga, de quem tanto falava.
— Não, sem problemas. A gente deixa elas em casa e você vai adorar quando chegar no seu quarto. — Semicerrando os olhos, sorriu de lado, começando a andar de braços dados com as duas meninas em minha frente. Andávamos devagar e observava o movimento da rua enquanto ouvia a conversa das garotas a minha frente.
E quando virei minha cabeça para o lado, o único reflexo que tive foi empurrar as três garotas para o chão enquanto tentava proteger todas e a mim mesma do carro que estava vindo em nossa direção quando olhei e que apenas fez um estrago na janela da loja. Gritos e berros de susto me fizeram levantar rápido e checar cada uma das garotas. Apenas alguns arranhões por ter ralado na calçada. Sofi foi a mais rápida! Levantou do chão em um pulo e já ia pra cima do carro quando segurei em sua cintura. Não sabíamos quem estava dirigindo mas eu tenho certeza que vi o carro arrancar no farol fechado e o motorista jogar o carro em nossa direção.
— Sofia, calma! Calma! — A pequena se debatia fazendo meu ombro arder de dor porém, a última coisa que farei é soltar a garota. Provavelmente ela iria abrir a porta do carro e sair distribuindo socos no motorista, mesmo que fosse apenas um acidente.
— Meninas, tá todo mundo bem? — Algumas pessoas já haviam ligado para ambulância enquanto algumas ainda estavam no telefone porém, o que me chamou atenção foi que os vidros do carro, uma BMW X6 que antes eram completamente escuros e agora, dois deles quebrados conforme a batida, não me permitiam ver o motorista.
— Se não fosse, ele ia acertar nós três! — Ambas amigas de Sofi agradeciam pela velocidade que empurrei e pulei para fora da linha de perigo porém, em vista de que obviamente não foi um acidente, não estava interessada em ter que salvá-las e sim não colocá-las em perigo. Parece que alguém estava apenas aguardando eu sair da casa de Camila para atacar...
Chegando perto do carro que fedia pneu queimado, consegui ver quem estava atrás do volante estando com a testa sangrando. Era sangue demais para distinguir porém, consegui ver o nariz reto, cavanhaque e o cabelo escuro e ondulado.
E tudo o que consegui sentir, fora meu telefone vibrando no bolso da calça, era dèjá vu.
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