Sinal do Horizonte
1 O Chamado da Serpente
—= Sinalizações =—
Era apenas mais uma manhã de análises, quando nossos sensores pegaram algo além de nosso plano galáctico desafiando a nossa união de uma vez por todas.
O ano é 2200, após anos de estudos e sacrifícios a humanidade finalmente começou a caminhar ombro a ombro em direção ao infinito, desde os primórdios, aonde nossos ancestrais diziam que o céu era o limite, triunfamos, as organizações mais poderosas e ambiciosas do globo foram se ajoelhando uma a uma, a crescente influência das nações unidas.
Com todos os governos sobre a burocracia da ONU, foi mais fácil a humanidade voltar a se esforçar por um bem comum, ano, após ano, buscamos o espaço e o infinito, e cada vez mais podíamos sentir que esse infinito também nos buscava, como se algo estivesse aguardando a nossa chegada.
Foi então que com muita esperança, e um fogo inextinguível em nossos corações, que podemos ver a primeira estação espacial completamente funcional, pequenas naves de escolta eram vistas partindo das docas improvisadas que nossos engenheiros montavam, e grandes cargueiros de transporte levando suprimentos entre a estação até a superfície da terra, era um marco eterno da coragem e determinação humana.
O sonho mais ambicioso humano estava diante de nossos olhos, com uma órbita estável, e rotas de suprimentos ativas, aos poucos o grande elevador espacial estava pronto, e com isso, o primeiro motor espacial FTL experimental, viagens abaixo da luz foram feitas para explorar outros planetas e o projeto Andrômeda estava em execução.Éramos apenas uma pequena tripulação a bordo do HMS Bravura, fomos uma das primeiras naves a experimentar a viagem pelas hiper estradas que ligavam os sistemas solares vizinhos com o nosso, os impulsos que os motores faziam eram fortes o suficiente para derrubar um homem adulto que estivesse em pé dentro da nave.
De pulo em pulo explorávamos outros sistemas solares, Alfa Centauri, Estrela Barnard, Wise 1049—5319, estávamos na órbita de todos esses sistemas, algo que pareciam anos—luz de distância, estava apenas a minutos, era como se um horizonte infinito estivesse cada vez mais próximo de todos nós, e estivesse chamando por nós.
Foi quando na nossa aventura, com o objetivo de desbravar os cosmos, que entramos no campo gravitacional massivo do Monocerotis, o grande buraco negro que antes podíamos ver apenas por nossos computadores, ele estava bem na nossa frente, sua presença era imponente, massiva e de causar calafrios até no homem mais ambicioso, essa era a oportunidade perfeita que tínhamos de finalmente estudar um corpo celeste com magnitudes tão grandes quanto a do sol.
Foi quando algo entrou em contato conosco, pensávamos que era uma transmissão antiga da terra, ou até mesmo uma atual pedindo por relatórios, mas estávamos errados, algo nos contactou de um lugar aonde o tempo e o espaço são reduzidos a um minúsculo nó, assim que a transmissão é atendida por nosso capitão os sensores da nave se enlouquecem, os radares começam a apontar para todas as direções em quanto os medidores de radiação e eletromagnetismo estouram sobre nossos painéis, os alarmes da nave apitam em quanto aquela coisa a nossa frente começa a chamar por nós, ela finalmente teve o que esperou por milênios.
É pouco provável que o tempo possa andar para os dois lados, teorias comprovaram que os ciclos acontecem apenas em uma direção com uma pequena válvula que impedia qualquer coisa de voltar pelo mesmo caminho, e ao contrário de o que mitologias anciãs diziam, é pouco provável que exista uma serpente cósmica enrolada ao redor do universo, girando para o manter em movimento e mirando com olhos e objetivos maiores que a de nossa espécie inteira.
Porém, diversas coisas pouco prováveis vem acontecendo nessas últimas semanas, desde o incidente com a transmissão a uma semana atrás nosso capitão vem se incluindo em todas nossas atividades, assim como ele todos estão preocupados com as anomalias fantasmas que vemos pegando em nossos radares, é normal quando chegamos a uma nova parte da galáxia uma ou duas anomalias aparecerem em nossos sensores, apontando para planetas que nunca foram explorados, ou asteroides em formatos geometricamente impossíveis, mas essa quantidade massiva de dados era algo que nenhum de nós podia decodificar.
Ao contrário de o que achávamos, e contra todas as possibilidades existentes, um de nossos cientistas conseguiu criar uma teoria da relatividade que desafiava até os cientistas mais prodígios da terra, ele dizia que quando um paradoxo temporal se torna embaralhado um tipo de consciência surge, possuindo suas próprias necessidades, seus próprios desejos, e suas próprias vontades, foi isso que ocorreu com a humanidade, toda nossa ciência era baseada em paradoxos inexistentes, criados para explicar algo que nunca devia se tornar um nó, e foi isso que ocorreu, criamos uma consciência que alguns batizaram de “A Serpente em Espera”.
Nem mesmo nossos planos mais ambiciosos podiam vencer a ideia que estávamos tendo neste exato momento, talvez se conseguirmos nos alinhar com essa consciência, podemos descobrir de onde vem todas essas transmissões e, talvez, poderemos até mesmo atingir algum tipo de imortalidade relativa, onde estaríamos em um ciclo infinito, perdidos no espaço e tempo, viajando sobre formas não euclidianas da quarta dimensão, mas isso era algo que estaríamos dispostos a arriscar, teoricamente já teríamos morrido de acordo com todas as possibilidades existentes no momento em que saltamos para a velocidade da luz, e se precisarmos morrer fisicamente também, que seja.
—= A mensagem da serpente =—
Nesta manhã um oficial de comunicações de nossa nave identificou o que parece ser um sinal fraco pulsante, este sinal estava escondido entre os pulsos de raio gama do buraco negro presente nesse sistema. Ele disse que os sinais eram fracos, mas totalmente artificiais, isso levantou possibilidades intrigantes para nossos cientistas.
Kai Chiu, o oficial de hoje mais cedo, relatou que a assinatura foi surpreendentemente fácil de ser decifrada, como se ela estivesse sido escrita propositalmente para isso, porem nossa equipe demorou horas apenas tentando comprovar que ela não se passava de um erro nos sensores ou delírio coletivo.A mensagem estava em repetição infinita e escrita de forma semi—coerente na língua Inglesa, após horas a escutando conseguimos a formar em um poema, um, o qual duas frases eram repetidas em todo parágrafo:
“Gravidade é Desejo! Tempo é visão!”
Além do poema, também extraímos uma série de números que pareciam coordenadas, coordenadas próximas ao mesmo buraco negro que estávamos neste exato momento, como se algo de muito tempo atrás estivesse no mesmo lugar que nós e tivesse mandado uma mensagem para o futuro, ou passado.
No final, havia uma dedicatória nominal ao mesmo oficial cientifico Kai Chiu o agradecendo, mas relatos futuros provaram que essa mensagem podia estar radiando no espaço interestelar desde uma data antes de seu próprio nascimento, ou até mesmo, antes de nossa própria civilização.
Julgamos que seria melhor explorarmos mais de perto essa anomalia, e até mesmo seguir com seu pedido, Kai Chiu concordou com essa ideia e disse que atenderia o chamado, o tal qual havia o pedido com tanta atenção, o preparamos um pequeno modulo para exploração independente e o mandamos para o vazio.
Conforme seu modulo se aproximava das coordenadas que coletamos, Kai começa a relatar algo sobre distorções espaciais e efeitos de lente exóticos em seus sensores, aquilo tudo era uma fonte rica e massiva de dados.Foi quando a transmissão começou a ficar distorcida e perder o sinal, era possível escutar a respiração animada de Kai sucumbir para um ofegar desesperado, ele grita ao ter o casco de sua nave rangendo e começando a ter dificuldades nas condições em que estava, ele tenta dizer algo para nós, mas sua voz era quase ininteligível, tendo apenas frações de suas frases escutadas por todos.
No pânico ele dispara um sinal de emergência que rapidamente é captada por nossa corveta, sua respiração fica descontrolada e seus olhos começam a mirar em algo fora do alcance de nossas câmeras, então ele grita:
—A serpente, ela está aqui!
Neste momento seu sinal desaparece de nossos sensores e sua transmissão é cortada de nossas telas, quando corremos para as janelas da nave vimos que seu modulo havia desaparecido, nenhum sinal dele era visto ou captado por nossos sensores, como se ele tivesse simplesmente desaparecido da história.
—= Escuridão; luz; Escuridão =—
Novamente a tela de mensagem apita, acordando a toda tripulação, desta vez o poema se referia ao engenheiro Hori Lezly, todos trocam olhares, ninguém havia se esquecido de o que havia acontecido com Kai a alguns dias, Hori se aproxima do capitão e conta como estava se preparando para aquilo, sonhos que estavam o dizendo que algo assim iria acontecer.
Hori se prepara, com um misto de alívio e relutância em seus olhos, seus relatórios psicológicos anteriores indicaram que ele estava sujeito a pesadelos e sonhos recorrentes, sobre labirintos não—euclidianos, vertigens esfomeadas do espaço interestelar e até mesmo seu nome sendo chamado pelo vácuo eterno e obscuro da galáxia.
Mais uma vez o buraco negro de Monocerotis está ativo, e mais uma vez uma transmissão em formato de poema se repetia incessantemente sobre a escuridão do limite do espaço conhecido, mas dessa vez o poema contia uma mensagem acústica decodificada junto a seu sinal.
Assim que tocamos a transmissão os olhos de todos se encheram de surpresa, a voz era do Oficial Kai Chiu, ele estava repetindo o mesmo poema que havia sido enviado para ele no dia do incidente, mas dessa vez repetindo:
—O que foi, será e o que será, foi.
Ele entonava essa frase com um tom desafiador, como se estivesse julgando algo ou alguém por ter quebrado esse ditado, ele estava nos condenando por termos brincado com algo que ia além de nossa compreensão, no final do poema ele cita o nome de Hori, o chamando para as mesmas coordenadas aonde o mesmo havia se perdido. Havíamos batizado o local de “Ponto de Saída”
Dessa vez, Hori é o único a bordo do modulo, e ele inteiro estava automatizado, ele sabe de seu sacrifício, sabe que está nave inteira estava programada para explodir seus propulsores assim que as condições se igualassem as do desaparecimento anterior, conforme ele ia se aproximando do Ponto de Saída, a telemetria se enche de dados fascinantes e uma tonelada de códigos criptografados puros.
Porém, a nave começa a ter o espaço ao seu redor sendo flexionado, a gravidade começa a se desenrolar deixando cada sensor de navegação louco.
Hori começa a se concentrar mantendo a calma, ele lê e transmite os dados ecoando a telemetria de volta para a corveta, ele estava incrivelmente calmo, medindo a situação em que estava. Porém, após um tempo percebemos que ele não estava mais lendo os dados que recebia, mas sim os prevendo antes mesmo deles aparecerem em sua tela, a telemetria começa discordando por alguns segundos, até que a ajustamos e ela volta a acompanhar, nossa equipe de monitoramento começou a relatar que o intervalo da previsão de Hori estava aumentando conforme haviam picos súbitos de energia.
E então em uma fração de segundo o propulsor detona, uma labareda enorme de fogo e fúria estelar pode ser vista das janelas do HMS Bravura, mas a luz é rapidamente engolida pela gravidade do Monocerotis, sendo consumida pela sua escuridão sem fim. O que quer que Hori tenha encontrado por lá, com certeza se arrependeu da interferência e de ter nos enfrentado, talvez nunca saberemos o que estava por lá, pois, o sinal não voltou mais.
—= O TRINO O QUINO O TRINO. =—
Estávamos errados o tempo todo, mais uma vez o sinal de Monocerotis está ativo, e dessa vez o que quer que esteja lá aumentou suas apostas, a transmissão de hoje incluía as coordenadas do ponto de saída novamente, mas desta vez, estava assinada com a série das chaves de comunicação de Kai e Hori.
O texto vem em forma de um software generativo, escrito em uma linguagem de programação antiga com o propósito de gerar poemas de amor aleatórios com palavras de nosso dicionário humano, porém, ele apenas gerava poemas direcionados a oficial Tarba.
Honestamente devo relatar que esses textos nem são tão bons assim, mas, nossos cientistas concordam que é bem difícil gerar poemas de amor de maneira procedimental, e que é muito mais estranho um buraco negro estar enviando poemas de amor.
—Isso será o meu fim...
Tarba dizia em quanto preparamos seu modulo.
—Sei que não voltarei. Mas sempre soube que isso aconteceria. O que quer que esteja no buraco está esperando por nós á muito... penso que está esperando por mim desde que nasci.
Mais uma vez, a nave de um tripulante só parte em direção ao ponto de saída, e mais uma vez o espaço fervia ao redor da nave como se a própria galáxia estivesse com febre, nossa telemetria novamente começa a receber dados fascinantes, mas dessa vez o tripulante estava em silêncio. Então, a telemetria se torna intermitente, ela também estava em silêncio.
É quando a nave atinge o ponto de saída, em apenas uma fração de segundo as condições ao redor da nave voltam ao normal, nada aconteceu.
—N—Nada ?
A equipe de monitoramento resmungava surpresa e desapontada. Mas a nave estava diferente, na verdade, era uma nave diferente, era a nave de Kai, o mesmo modulo que havia sido perdido nestes últimos três meses, ele se encontrava agora, pairando sobre algo além do ponto de saída.
Quando as equipes de resgate chegaram, encontraram a nave vazia e intocada, sem sinal de nunca ter sido tripulada ou nem mesmo de seus sensores terem captado qualquer sinal, o casco externo não demonstrava sinais das condições violentas que ela havia passado durante a entrada. Mas havia algo que nos chamou atenção, havia um registro de diário assinado por Kai, com o título “O que foi, será”.
Levamos os registros para nosso laboratório e começamos as análises, batizamos a corveta recuperada de HMS Renegado e a tripulamos, começando a usar de seus componentes que sobravam, e seus suprimentos extras, em quanto nossos engenheiros trabalhavam no sucateamento das peças sobressalentes da Renegado, era possível escutar nossos cientistas de fundo se indagando.
Por agora o sinal se adormeceu, e por um momento ele estava morto, mas apenas por um momento...
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