Sinal do Horizonte

2 O Templo do Ciclo infinito


—= O Templo =–

Mesmo com milênios de idade, mesmo com esforços extremos de pesquisa, mesmo com varreduras dos locais mais profundos da terra, ainda nos surpreendemos.

Hoje foi o grande dia da humanidade, um dia histórico que mostraria a todos o nosso poder, lançamos ao espaço nossa primeira frota de pesquisa totalmente autônoma de qualquer contato terrestre e com muita coragem, eles avançaram ao desconhecido, porém, não foram apenas eles que descobrirão coisas novas.

Relatos de sismólogos demonstraram uma grande mudança das placas tectônicas nas regiões mais remotas do globo, uma pequena expedição foi lançada para análises dessas alterações, mas, o que eles acharam foi algo que precisaria de uma equipe inteira.

Encontramos um templo ancião e misterioso feito de pedras nunca encontradas na terra, ele parecia ter sido enterrado pelas areias a séculos sendo exposto recentemente pelos mesmos terremotos de mais cedo.

Buscas mais a fundo encontraram diários, papeis, plantas e escrituras com datas que sugerem que esta estrutura inteira é uma relíquia pré–industrial, aparentemente feita a mão a partir de alguma rocha vulcânica milenar. Além disso, encontramos um grande símbolo recorrente nas paredes e no grande altar radial, uma serpente de Möbius circular consumindo sua própria cauda, um símbolo ancião de culturas pagãs.

Fora isso, não encontramos mais nenhum precedente óbvio que isso faça parte de nossa antiga cultura e civilização, e todos os documentos e escrituras estão em algum tipo de alfabeto milenar, desconhecido atualmente.

Um de nossos arqueólogos sugere que isso seja de antes de nossa civilização, ele entona com uma voz animada que talvez essa civilização tenha sido a nossa precursora.

Relatórios futuros mostraram que este terremoto ocorreu na mesma data e hora que a mensagem final de Monocerotis, a mesma mensagem recebida pela equipe do HMS Bravura durante sua expedição.

Mesmo com todas as perguntas ainda sem respostas aparentes, nossos cientistas aprenderam muito com o templo subterrâneo, provas quase que certas de que algo ou alguém teve influência sobre toda a nossa história, e ainda vai ter.

Ao amanhecer as equipes relataram algo peculiar, uma abertura no teto, logo acima do altar radial, demonstra que o círculo no solo da sala já serviu como um calendário solar, porém, ele está tão danificado pelos terremotos e atrito do tempo que é quase impossível ter certeza.

Mesmo que o calendário tenha datas especiais importantes marcadas sobre ele, nunca saberemos quais eram. Porém, tivemos mais sorte com o alfabeto desconhecido, ele na realidade é uma forma de escritura hierática mais inferior da nossa, e não uma língua alienígena, e conseguimos decifrá–lo. Nos registros, eles dedicaram todo esse templo a “Serpente em Espera”, a maioria das escrituras são poemas ou ritos de invocação, solicitando sua aparição ou, se lidas na direção contraria, sua expulsão.

Também encontramos um corpo de escrituras descrevendo e narrando as “Operações do universo”, algo que nossos arqueólogos estão se animando para analisar, dizendo que elas possuem referencias de equações de campo mais avançadas, nada que a nossa física não tenha já descrito, mas isso é algo impressionante medindo a data deste templo.Buscas finais comprovaram que o templo não possui mais segredos, não encontramos registros cósmicos ou plantas de armas alienígenas, pelo que podemos dizer, mas, seus espaços escuros e arquitetura exótica possuem uma beleza distintiva e ameaçadora, e ao levar ao público, as invocações da serpente se tornam elegantes, embaladas por músicas popular e publicadas em coleções das cidades.

—= O Mensageiro =–

Hoje mais cedo o Oficial científico Likiros Kanide localizou um pequeno objeto estranho, ele parecia emitir pequenos sinais de energia também, e quanto colocado sobre alcance local captamos uma transmissão. Objetos desse estilo normalmente são cápsulas de fuga com sinais de emergência ligado, e à primeira vista essa parece ser uma delas. Ela aparenta estar aqui a mais tempo do que uma bateria convencional deveria durar.

Ao abrirmos a cápsula após assegurarmos que todos os procedimentos de quarentena estavam ativos, encontramos restos antigos e um cadáver, preservado pelo ambiente estéril da cápsula lacrada a milênios, nada que não tenhamos encontrado em expedições anteriores em terras anciãs. Mas, o Capitão da HMS Descoberta, Hans Fing, indica que eles não esperavam encontrar as escritas “O QUE FOI, SERÁ; O QUE SERÁ, FOI” pintadas nas paredes com fluidos corporais, sangue, do ocupante da cápsula.

A tripulação da estação orbital o batizou de “O Mensageiro”. Autopsias cuidadosas foram feitas revelando características inesperadamente similares entre a anatomia do mensageiro e a de nossa própria espécie, membros do corpo, rosto, pelos e cabelos, tudo cuidadosamente analisado mostrando como se ele fosse um precursor de milênios atrás.

Pesquisas de campo demonstraram que a cápsula era uma imitação, ou cópia, de uma versão comum disponível, fabricada e distribuída durante a fase pré–espacial de nossa civilização, demonstrando também que nenhum componente da nave era descendente de alguma tecnologia nova ou ainda não descoberta.

Após finalmente ter certeza de que o mensageiro era sim um ancestral ou até uma variante de nossa própria espécie Humana ele foi armazenado para estudos futuros que possam aparecer. Talvez isso demonstre que nossa espécie tenha primos fora da terra, ou até que a nossa espécie passada tenha sido vítima de alguma alteração genética feita por uma raça precursora de fora.

Hans Fing está solicitando permissão para conduzir algumas pesquisas mais extensas sobre o corpo e anatomia do mensageiro, o dêmos permissão para isso e colocamos o corpo sobre cuidados de nossa estação espacial HMS Descoberta, ele ficara sobre cuidados e monitoramento intenso durante todas as análises.

—= Liberado =–

Após alguns meses e pesquisas com os fluidos da espécie mensageira, Hans reconstruiu o DNA dela e criou uma simulação de como seu corpo é sem as alterações do tempo. Essa espécie aparenta ser uma versão mais fraca da nossa, seus músculos e ossos parecem ser menores e menos usados que os de nossos primos mais distantes,porem algo peculiar foi descoberto, ela possuía habilidades cognitivas extremamente mais superiores que a nossa.

Agora existe uma dúvida, não se sabe mais se somos a espécie original, e o mensageiro seja alguma modificação intelectual, ou se o mensageiro foi o nosso ancestral, visando as igualdades genéticas que ambas as raças possuem. Chega até a ser vergonhoso imaginar que a nossa espécie tenha sido descendente de uma espécie tão pretensiosa, mas Hans acredita firmemente nessa opinião e quer continuar com as simulações.

De fato reconhecemos as perdas das habilidades cognitivas que nossos ancestrais tinham como sendo uma das piores tragédias que tenhamos passado, mas Hans viu isso como algo pior, uma tragédia tão grande que eles passaram por um tratamento retroviral para alterar suas próprias anatomias e DNAs para se aproximarem do mensageiro, Hans e sua equipe insistem que isso irá ajudar a humanidade a se equipar melhor para o projeto que virá, dizendo que a serpente nos espera.

—“Isto, senhor Hans, é uma forma criativa de traição da humanidade!”

Nosso comandante dizia, seguido de um esquadrão de soldados, ao entrar no laboratório central Descoberta.

—“Execute–os, todos que foram alterados”

Suas armas foram apontadas para Hans e sua equipe, disparos rápidos e precisos os mataram em um instante destruindo as amostras de DNA do mensageiro de seus corpos. Suas notas e pesquisas foram mantidas, cientistas disseram que elas podiam ser usadas em outras áreas, projetos não tão invasivos de ajuda genética de nossa população.

Ainda me indago se essa foi a escolha certa a se fazer para manter a nossa integridade.

—= Um Reencontro =–

Nossos radares detectaram um objeto estranho entrando na órbita de nosso sistema solar, uma nave sozinha de classe HMS pulou para nosso sistema, a nave parecia uma versão alterada das corvetas originais, ela possuía armamentos da era pré–espacial de nossa civilização.

Caças foram mandados para a interceptar, rapidamente eles se aproximam da estranha nave que desligou os motores a comando.Um nome começou a ser aclamado por nossa população, o nome de Kille, um dos maiores almirantes de nossa frota estava sendo aclamado por todos os povos das Nações Unidas da Terra, sendo chamado para combater mais uma vez qualquer ameaça que à terra esteja tendo.

A nave estranha foi abordada, ela não mandava nenhum tipo de código de identificação, nenhuma bandeira, insígnia, nada, e nenhuma nave desse estilo, ou com essas modificações, foi fabricada por nossas docas ou estaleiros. Porém, o almirante da nave dizia ser Kille.

—“Hm. Nosso almirante que tem esse nome está vivo, bem e em outro lugar.”

Assim que nosso comandante disse isso abrimos um canal de comunicação com a nave estranha, para a surpresa de todos, o capitão que aparecia em nossa tela, claramente, era Kille, porém, uma versão machucada, decrépita, e abatida de Kille, seu rosto brilhava com queimaduras que pareciam ser plasma, e ele parecia mais velho, muito mais velho, O passadiço da nave ao fundo parece igualmente destruído e decrépito, o capitão levanta sua cabeça olhando para tela, sua voz era firme e clara:

—“FINALMENTE!”

Ele se anima se levantando de sua cadeira, ele tossia muito e quase cai ao chão ao perder a força das pernas

—“você está aqui... E–Esperei tanto tempo. Minha punição é morrer em batalha contra vocês... Por favor... acabem comigo. Desculpe”

Nenhum de nós sabia o que responder, ter um de nossos pedindo para ser executado, e ainda mais com toda a população assistindo, qualquer um nessa situação ficaria tenso.

—“O que está acontecendo aqui? Você realmente é Kille Gondier?”

Nosso capitão tomou voz perguntando, Kille olha para a câmera firmemente e se encosta no painel

—“Sou? Nem mesmo eu sei... Você por acaso é o mesmo humano que era ano passado?”

Ele ri, mas é uma risada seca, uma que você conseguia sentir a dor em seu próprio pulmão

—“Pergunte ao ciclo, ele saberá te responder melhor.”

Ele menciona sobre o templo, algo que seria impossível ele saber já que Kille estava em uma missão quando o mesmo foi encontrado, nosso capitão treme e continua com as perguntas:

—“O que é o ciclo? Quem criou aquele templo?”

—“O ciclo é o que veio primeiro, e o que vem depois, ele é a Serpente em Espera, e digamos que a serpente seja o Ciclo, e digamos que o templo seja um labirinto.”

Ele gesticulava futilmente como se estivesse tentando explicar algo que não sabia

—“Então o ciclo é seu monstro, ou até seu criador... não... eu não sei como explicar isso, mas... vocês saberão em breve, pois, em algum momento já souberam, no nosso passado”.

Ele se senta, nossa equipe troca olhares e o silêncio continua, não apenas no laboratório, mas em toda terra, e então o silêncio é quebrado por Kille

—“Armas prontas?”

Um suspiro é escutado de nosso capitão, Kille realmente parecia querer ser executado, nosso capitão bate no painel e levanta a cabeça, ele tomou uma decisão

—“O que quer que tenha acontecido com você, nós não somos assim. Renda–se e abaixe suas armas, nós ajudaremos você”

Kille abaixa a cabeça, ele parecia hesitante por algum momento, pode–se ver que o passadiço de toda a nave estava vazio, não havia mais nenhum tripulante, além, de Kille.

—“É tarde demais para mim, mas... você está certo, nossa raça não é assim. mas farei o que for preciso”

Ele corta a transmissão com um olhar determinado, momentos depois sensores relatam um pico de energia, as armas da corveta haviam sido desligadas, não apenas elas, mas toda a nave começa a se desligar, em poucos momentos ela iria se escurecer completamente.

Quando nossa equipe de resgate chega a bordo, ao abrirmos a nave não encontramos sinais de nenhuma criatura viva, nem mesmo do almirante Kille, porém, as travas de segurança da seção do propulsor estavam desligadas, e seu núcleo estava aberto permitindo a entrada de qualquer um para entrar em contato com o reator, um reator tão poderoso que poderia evaporar o corpo de alguém em segundos.

Nos dias seguintes o Capitão Kille original estava em silêncio, não é todo dia que você presencia sua própria morte, e nem é fácil dizer se você já está morto, mas, com o tempo, este silencio dele começa a se tornar determinação e confiança quase que irresponsável, ele sabia de seu destino, mas não estava pronto para sucumbir a ele ainda.

—= O Fim no Começo =–

Desde o início de toda essa jornada, sacrifícios vem sido feitos para nos atirar em direção ao infinito, e mesmo após conseguirmos nosso objetivo, os sacrifícios não terminaram.

Atualmente existe uma consciência fora do tempo e abaixo de todo espaço, uma consciência que nós mesmo criamos, uma que se alimenta de nossa determinação, nossos sonhos e esperanças.

Ela é um emaranhado labiríntico de desejo e desespero, aonde cada saída pode ser pior que um beco sem fim.Nossos ancestrais conheciam isso como, O Ciclo da Serpente em Espera. Eles sabiam dos perigos e desejos que passaríamos caso a encontrássemos, e nós a encontramos, a encontramos aonde o vazio é atormentado pela gravidade, aonde a visão é esmagada pelo desejo, e parece que ela também se interessou por nós.

Existem provas matemáticas que ela nos ama, todos os desaparecimentos em Monocerotis, todos os presentes encontrados no templo e na terra, tudo isso pode ser calculado, mas, o amor da serpente não é igual a qualquer coisa que subsista no espaço comum.

Após tudo que aprendemos, conseguimos criar um projeto, o Alinhamento Ômega, uma forma de nos alinhar com essa consciência, uma forma de abrir uma rota de acesso, um ponto de entrada para a serpente se manifestar em nosso sistema solar.

A serpente é atraída por começos, e este era o nosso. Consequências disso? Quais seriam as consequências de algo que sempre foi projetado para nós? Ainda não encontramos ninguém que esteja preparado para se comprometer com uma resposta, mas temos um palpite, imortalidade, talvez, ou o apocalipse. Mas, certamente vamos aprender muito, muito mais do que jamais conseguiríamos.

E assim o projeto se iniciou, a construção da grande estrutura tomou esforços de todos os cantos do mundo, milhares de engenheiros trabalhando em um mega projeto, um que levaria a Humanidade para outra era de ouro, algo que nos arremessaria para o infinito além do espaço, e após anos, o projeto estava pronto.

Os aceleradores de partícula estavam ligados, toda a rede de uma dúzia de capitais foi completamente redirecionada para acordar a pseudo–singularidade que vive no coração do alinhamento, as bobinas se ligam começando a descarregar milhares em poder, em segundos todo o espaço treme, como um tecido golpeado pelo vento, o Sol, por um momento brevíssimo, se escurece e depois se ascende ficando mais claro.

Uma sombra titânica se formava e se retorcia em seu coração, a Serpente está aqui, ela se desdobrava como um “origami”, mostrando sua magnitude infinita em quanto se acendia em glória eterna. Os sensores ao longo de todo o sistema se desligam em descrença total a grade massa de dados incompreensíveis passavam por eles anunciando a chegada dela.

Na terra, nossos súditos gritam e se amedrontam em quanto sentem a atenção da serpente se voltando para eles, em quanto o amor da serpente se retorna para nós. Ela nos recebe com uma questão, mas sem usar nenhuma palavra, era como se sentíssemos que essa pergunta tivesse sido o que estávamos esperando por tanto tempo, aquela pergunta que sempre deveríamos ter feito quando a encontramos.

O corpo da serpente começa a navegar e circular ao redor de cada corpo celeste de nosso sistema, sua infinidade pode ser sentida por cada coração humano da terra, em quanto todos os nossos batimentos se igualam com o da serpente.

—“Sim, o que for necessário, aceitamos”

Um grito uníssono pode ser escutado de todos os cantos do planeta, a serpente sorri, ela nos ama, sempre nos amará, e sempre nos amou, ela estava enrolada ao redor do coração imponente e quente de nossa estrela nata, ela está ao redor de cada corpo celeste de nosso sistema, ela está ao redor de cada ciclo infinitesimal de informação genética de nosso DNA.

E então, ela começa a provocar uma série de cataclismos, bolas de fogo e fúria cósmica podem ser vistas consumindo todos os planetas de nosso sistema, em quanto tremores estremecem a crosta planetária de nosso lar, aos poucos a luz começa a se esvair de nossa visão, e quando nossa estrela finalmente se esfria, este cataclismo cósmico nos aquece.

Agora entendemos, nós sempre seremos o que seriamos, sempre seremos o que éramos, nós finalmente podemos voltar para casa, abraçando o amor eterno e infinito da serpente, mas antes, tínhamos mais uma prece para toda a população.

O capitão Kille se convoca para a população inteira, e todos os humanos da terra abrem seus olhos para ele, Kille recita uma oração palindrômica que ecoa por toda a galáxia, ela tem um poder ressonante de vinte e sete palavras, aonde cada uma delas fascina até os teólogos mais fieis, ele sorri,mirando seus olhos para nosso novo destino e encerra a conexão.

O QUE FOI, SERÁ. O QUE SERÁ, FOI.

Notas finais
@VodEnder Pvt.Anoobis Bring#3172
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