Silver Crown — Interativa
1 Prólogo
Notas iniciais
— BETER NOT TO BREATHE THAN TO BREATHE A LIE.
Os saltos finíssimos faziam um barulho ao bater no chão de pedra das masmorras do belo palácio. A dona dos saltos carregava uma expressão determinada no rosto, os olhos cinzentos estavam contornados por um lápis escuro e os cabelos louros presos em um coque bem feito; isso tudo fazia uma perfeita combinação com o vestido feito sobre medida justamente para ela e a coroa de prata em sua cabeça. Eleanore Rader Schreave esbanjava imponência, desde o andar calmo como o de um felino ao olhar sempre determinado.
Passara por alguns guardas que somente acenavam em um cumprimento cúmplice. Mas é claro que eles sabiam o que a Rainha de Illéa fazia naquele lugar escuro e úmido, estava indo visitar ela, ou como costumava chama-la, irmã. Não se orgulhava de ter que jogar sua própria irmã de sangue naquele lugar para prisioneiros, afinal, ela não cometera nenhum crime, certo? Foco Eleanore! Você não está aqui para uma festa de família. Ralhou consigo mesma. Quem olhasse para a Rainha jamais imaginaria que tinha familiares vindos daquela corja, mas realmente não gostaria que esse assunto viesse à tona, por isso deixava ela ali, longe de perigos e longe de ameaçar à sua família. Chegara a frente às grades da cela da irmã e logo os olhos localizaram a figura franzina e suja da mulher; reprimindo um bufo de raiva, Eleanore pediu ao guarda que abrisse a cela e logo já adentrava o lugar sujo e úmido.
Nunca pensara que um dia iria ver sua própria irmã presa num lugar desses, mas ela avisara, dissera tantas vezes par abandonar aquela vida, mas Heidi era tão teimosa quanto ela e nunca respeitara e onde estava agora? Presa em uma cela para assassinos, uma coisa que Eleanore sabia que ela não era. Afastando as lembranças de sua cabeça, olhou para a irmã que agora virava-se lentamente para a Rainha, um sorriso zombeteiro nos lábios secos e a voz rouca.
— Vindo visitar a irmãzinha, Ellie?
Estava tão acabada, os cabelos louros antes brilhosos e com volumosos cachos estavam opacos e sujos, a pele branca e sempre macia estava com algumas finas cicatrizes e sujeira, era tão bonita, Eleanore não entendia o porquê da irmã ter se tornado esse ser.
— Não tenho tempo para as suas zombarias, Heidi, quero que me fale tudo o que estão tramando... — a voz da Rainha estava fria, mas dentro de sua cabeça só tinha pensamentos em que se abaixava e abraçava a irmã mais nova como faziam quando eram pequenas.
Heidi ergueu uma sobrancelha loira e riu sem gosto.
— Você realmente não mudou, Elly...
— Não me chame assim! Você perdeu esse direito quando se juntou a eles! — Eleanore não queria dizer estas palavras, pois sabia que não eram verdadeiras, afinal, Heidi não se juntara a eles, elas nasceram junto deles.
— Ora, cale a boca, sua bastarda! Você sabe muito bem a verdade, mas mesmo assim insisti em fingir que nunca aconteceu... Até quando irá ficar nessa, Eleanore? Hein? Até quando irá mentir para si mesma?
— Olha como fala, eu sou sua Rainha! — a mais velha dissera, sua voz já assumira um tom totalmente desprovido de emoções.
— Minha rainha? — Heidi gargalhou. — Talvez seja desses idiotas cegos, mas minha não, nossa não...
— Você não tem o direito de falar assim comigo, eu posso mandar matá-la em segundos!
— Oh... E você faria isso com a própria irmã, Elliezinha? — Heidi soltou mais uma risada ao olhar para a irmã. — Se nossos pais a vissem agora, Ellie... O que eles diriam... O que você se tornou...
— Cale a boca! Vocês e a sua corja imunda mataram nossos pais, isso tudo é culpa sua!
Heidi olhou para a irmã incrédula. Corja imunda? A corja da qual as duas vieram e foram criadas, a corja da qual se orgulhavam... A essa altura a mulher mais nova já estava em pé e encarava a irmã a centímetros de distância.
— Como... Como você ousa? Como pode dizer algo assim dos nossos pais? Você é uma decepção, Eleanore, uma decepção! Se acha a dona do mundo só porque tem a droga de uma coroa ridícula na cabeça, mas não é capaz nem de se orgulhar da própria família, da família que te criou com todo amor e carinho, da família que esses bastardos que você convive matou! Eles mataram nossos pais, Eleanore, eles...
Heidi sentiu um forte ardor no lado esquerdo do seu rosto e logo deduziu que levara um tapa. Olhou para a figura imponente a sua frente e sorriu ao sentir o gosto de sangue na boca.
— Você é tão patética, Ellie... Tão covarde que precisa se esconder atrás de uma coroa e vestidos caros, eu tenho pena de você.
Os olhos de Eleanore faiscaram de fúria. Como ela ousa? Somente esse pensamento passava por sua cabeça; olhou para Heidi que ainda sorria zombeteira com um filete de sangue escorrendo por seus lábios ressecados, tirou os pensamentos de sua cabeça e voltou com a máscara de indiferença.
— Eu não vi aqui para discutir isso com você, Heidi. Quero saber o que vocês estão tramando.
A rebelde ergueu uma sobrancelha em desentendimento e segundos depois sorriu de forma maliciosa. Ela ainda continuava esperta. Pensou Eleanore com orgulho, afinal, ensinou tudo o que sabe para a irmã mais nova. Heidi agora voltava para seu colchonete fino e comido por traças, o sorriso ainda estava no rosto quando deitou-se de forma lenta e esticou as pernas, olhou para Eleanore e logo disse:
— Isso foi medo na sua voz, Ellie?
A Rainha revirou os olhos; da mesma forma que Heidi continuava espertava também continuava com as piadinhas sarcásticas.
— Irei repetir mais uma vez — começou a Rainha com a voz cortante —, e espero que agora você entenda. O que vocês estão tramando?
Heidi olhou para a irmã mais velha, não tinha mais um sorriso zombeteiro em seu rosto, agora seus olhos escureceram e sua expressão assumiu uma seriedade jamais vista.
— Nós vamos acabar com o seu reinozinho de merda, Eleanore... Nós vamos destruir aos poucos essa fortaleza que você construiu, nós iremos acabar com tudo o que lhe resta de bom, seus filhos, sua coroa, o seu povo... Você vai cair, Eleanore e quando isso acontecer eu estaria lá rindo de você. Nós vamos dominar isso aqui e fazer de você e essa familiazinha ridícula nossos escravos, você entendeu, Eleanore?
A Rainha engoliu em seco. Heidi estava com o rosto mais próximo agora, não sorria e nem piscava, seus olhos tinham um brilho de ódio e repulsa. Eleanore nunca a vira assim e ela temeu agora. A Rainha de Illéa estava com medo do que irá acontecer e principalmente: com medo de sua irmã mais nova. Levantou-se de forma abrupta, a máscara de frieza já estava presente novamente; deu uma última olhada para a irmã que agora a encarava friamente e saiu o vestido esvoaçando atrás de si. Murmurou para o guarda manter os olhos bem abertos na prisioneira e continuou andando em direção à saída das masmorras. As palavras de sua irmã ressoavam em sua cabeça e diversas imagens de seus filhos mortos também. Estava sentindo a ponta do desespero subir por sua garganta, mas ela não iria se permitir ter medo, não daria esse gostinho à Heidi.
Chegou no seu escritório – que na verdade era de Alexander, mas depois da morte do marido passara para ela – e logo dirigiu-se a grande poltrona de couro. Olhou para o jornal de Illéa em sua mesa e respirou fundo. Eram os rebeldes novamente, estavam atacando bancos, escolas, praças e cada vez mais perto do palácio; em um ato de raiva, Eleanore pegou o jornal e o amassou jogando-o do outro lado da sala. Olhou para a tapeçaria com toda a família Schreave e parou o olhar em Maxon Schreave ao mesmo tempo que uma ideia surgia na sua cabeça. Estava tão óbvio! Por que não pensei nisso antes? Um sorriso astuto apareceu em seus lábios. Era uma ótima ideia.
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