Silent Hill: The Artifact
30 O Farol
Notas iniciais

A criatura finalmente o puxa pra dentro d’água fazendo um grande barulho. Estou sozinho. Tudo fica calmo por mais alguns minutos e o silêncio predomina, sendo cortado apenas pela minha respiração ofegante. Foi idiotice. As criaturas parecem estar interessadas agora no corpo de Don, mas em uma profundidade muito alta, pois não consigo ouvir mais nada. Meu coração está a mil por hora, fico desesperado. Começo a procurar os remos e então me dou conta de que não tenho como sair daqui, pois provavelmente os remos foram puxados por elas. Não sei o que fazer, não tinha pensado nisso. Estou parado em meio ao lago, sem ter como sair, sem ter como voltar. Se elas voltarem, estarei ferrado, pois será uma questão de tempo até que elas consigam me puxar também ou virar o barco. Não consigo pensar em algo o que fazer, e é então que sinto o peso em meu bolso. O objeto “mágico”, o Selo de Metatron. Tiro ele imediatamente e começo a tentar mudar a realidade do lugar. O cheiro de sangue é insuportável.
De repente, ouço o barulho de água novamente. São as criaturas, que ilumino pouco com a luz da lanterna. Tento pensar na realidade diferente de Silent Hill, segurando o objeto fortemente em minhas mãos. Elas se aproximam do barco e começam a balançarem e a tentar subir nele. Tento gritar, mas não consigo emitir mais nada de minha boca. Ainda segurando o objeto firmemente em minhas mãos, sinto o barco balançando de um lado para o outro, cada vez mais se aproximando da água podre que me rodeia. Vejo cerca de vinte daqueles corpos semidecompostos tentando me pegar. O objeto não faz absolutamente nada até agora, então sinto que é o meu fim junto com Don. Duas criaturas com um impulso se jogam contra o barco, fazendo-o virar por completo e caio na água. Desesperado, começo a me debater tentando subir para superfície e nessa tentativa, sou agarrado pelos dois pés e puxado mais para baixo. A pressão nos meus pulmões não resiste e sou forçado a respirar, engolindo bastante água. Não consigo fazer mais nada, meus sentidos começam a se esvair enquanto sou puxado pra baixo. A última coisa que vejo é um forte brilho azulado vindo de dentro de minhas mãos.
...
–Matt... Matt acorda!
Tateio o chão. A luz da lanterna ilumina meus olhos, me deixando quase cego. Pela voz, é Don. A última coisa que me lembro foi do barco ter virado sobre o lago cheio de sangue e de ser puxado pro fundo por uma das criaturas. Começo a tossir e a expelir um monte de água nojenta, ao mesmo tempo que me sinto um pouco tonto. Não sei onde estou e muito menos como consegui sair de dentro do lago, mas com certeza deve ter alguma coisa a ver com o objeto que ainda seguro fortemente na mão, o Selo de Metatron.
–Don... – começo enquanto tento me levantar – Onde estamos?
–Não faço a mínima ideia.
Olho pra ele, que também está todo molhado. O cheiro de podre prevalece, tão bem como a escuridão, a não ser pela luz que vem de uma torre mais adiante, provavelmente um farol. O foco de luz fica girando por todas as direções, confirmando que é um farol e que, estranhamente, está ligado. Finalmente consigo me levantar, mas estou tonto demais e acabo sentando no chão de madeira do que parece ser um cais. Então percebo que minha mochila junto com mapa e todas as outras coisas ficaram caíram dentro do lago quando o barco virou, a exceção do selo e da arma no bolso da minha calça.
–Droga...
–O que foi?
–Acabo de me dar conta de que todas as outras coisas devem ter caído dentro do lago... Todas as informações, as chaves, meu celular... Tudo!
–Ah cara... Não dá pra usar celular aqui. Acho que você não ia precisar de mais nada além dessa coisa que você não soltou.
Abro a mão e vejo o objeto dourado, sentindo o seu peso. De alguma forma, essa coisa salvou nossas vidas, pois não havia nenhum modo de sair daquele lago vivo. O barco já era e não faço a mínima ideia de onde estou, então vou precisar de algum mapa pra conseguir me localizar. Se Mateus aparecesse e encontrasse um mapa como foi da outra vez... Mateus, eu...
–Don, temos que sair daqui. Ainda está escuro, a cidade tá do outro jeito, então não podemos ficar parados muito tempo em algum lugar. Pode aparecer mais daquelas coisas, então é melhor irmos embora.
Ele assente com a cabeça, olhando para o farol.
–Mas... Talvez fosse legal ir ao farol... Se a gente subir, talvez poderemos ver alguma coisa, ele ilumina a cidade e é alto. Talvez o parque não fique muito longe daqui e dê pra acharmos alguma coisa, qualquer coisa...
Olho para a enorme torre escura, a exceção do topo, à minha frente. Parece um pouco assustadora e duvido muito que consigamos ver alguma coisa de lá. Talvez o máximo que consigamos seja um mapa da cidade, já que estamos sem um. Pode ser um pouco inteligente ir até lá e qualquer coisa que evite o gasto de tempo é bem vindo. Se encontrarmos um mapa, então estarei satisfeito, além do mais, o farol não parece muito longe, na verdade, parece bem perto. Também não temos para onde ir. O gosto de podre ainda prevalece na minha boca e cuspo mais umas três vezes.
–Tudo bem... Vamos ao farol. Não temos outro lugar para onde ir mesmo.
Don parece sorrir por ter dado uma boa ideia. Eu apenas ignoro.
Começamos a andar pelo cais de madeira gasta em direção à torre escura. Pela luz, conseguimos ver alguma coisa a cada sete segundos — mais ou menos o tempo gasto para o feixe de luz dar uma volta na torre – o que é bem aterrador, já que nesses períodos de tempo o ambiente se revela pra nós, mostrando corpos como que pendurados sobre as grades do cais. Tudo aquilo me enoja e me deixa mais aterrorizado. O feixe de luz vira para nós mais uma vez, mostrando que há uma falha em nosso caminho. O cais está quebrado, nos impedindo de chegar até a outra ponta, onde está o farol.
–Droga...
–Será que dá pra pular?
–Talvez... Espere o farol girar de novo, e então a gente vê se dá pra pular.
Mais sete segundos e o farol ilumina novamente o buraco. Era um buraco considerável, mas com um pouco de impulso daria pra atravessar. Ainda me sinto um pouco cansado e desgastado, mas talvez se eu tentasse...
–Okay, acho que dá pra pular. Don, vai primeiro! Eu preciso descansar pelo menos mais sete segundos.
Don assente com a cabeça. Ele toma alguns metros de distância e então começa a correr um pouco atrapalhado. Quando se aproxima do buraco, ele para.
–Não cara... Acho melhor você ir primeiro.
Reviro os olhos. Não é hora pra ficar com medo. Tomo alguns metros de distância e corro com toda a força e velocidade que ainda me restam chegando à ponta antes de buraco e pulo com o máximo de impulso que consigo. Meus pés tocam o chão poucos milésimos depois.
–Sua vez.
–Não Matt... Acho melhor você ir sozinho... Eu não vou conseguir.
Sinto um pouco de raiva me subir à cabeça. Se Don realmente pensa que vai me passar pra trás, ele não vai. Puxo a arma do bolso e aponto em direção a sua cabeça. Ele dá alguns passos pra trás e levanta as mãos.
–Peraí cara... O que vai fazer?
–Vou matar você se não pular. Se correr, eu atiro nesse seu traseiro — pra não falar uma palavra pior — e acredite, eu vou acertar!
–Não faria isso...
–Não acha o suficiente o que Chang fez? Quer fazer pior? Don, ou você pula, ou você morre. E não duvide da minha mira!
Ele pensa por alguns segundos e eu fico esperando ele reagir de alguma forma, ainda com a arma apontada pra sua cabeça. Se ele correr, se fizer qualquer coisa a não ser me ajudar, eu o matarei. Don respira fundo, dá alguns passos pra trás e começa a correr em direção ao buraco, pulando sobre ele e não escorregando por pouco.
–Bom garoto! Que fique claro que se você estiver dando uma de Chang e pensar em fazer qualquer coisa parecida com o que ele fez, eu mato você. E não vou ter uma gota de pena sequer!
Don olha assustado pra mim, ainda apontando a arma pra ele.
–Tá bem cara... Eu vou te ajudar, já disse... Não quero mais saber da Ordem ou de nada relacionado.
Voltamos a caminhar em direção ao farol e não demora até que estou tentando abrir o cadeado que tranca o portão de ferro da enorme torre. A droga do canivete caiu junto com as outras coisas dentro do lago, então não tenho mais a facilidade de abrir.
–Poxa... Acho que pulamos aquilo pra nada.
Olho pra ele trancando a cara.
–Por nada coisa nenhuma!
Aponto a arma pra corrente e atiro, fazendo-a quebrar e cair no chão com um barulho pesado. Abro o portão empurrando com força e fazendo um barulho de ferro. O lugar estaria completamente escuro se não fosse por uma luz branca que imerge de cima. Vejo uma escada em espiral que leva para o topo, alguns galões de metal e em cima de um bloquinho de anotações. Vou até ele. Está desgastado e velho, mas algumas palavras ainda são legíveis. Parece uma bela, porém apressada caligrafia. Começo a ler, tentando entender as palavras com a baixa luz.
“Então Dahlia me falou que o demônio tinha vindo até aqui colocar mais uma das suas marcas e que o último lugar seria o Lakeside Amusement Park. Mas não vi nenhum demônio, apenas a marca cravada e uma menina, a mesma menina que me fez sofrer o acidente. Creio que era Alessa, mas não tenho certeza... A Alessa do hospital. Preciso encontrar Cybil o mais rápido possível e ver se ela encontrou alguma coisa a respeito. De qualquer modo, a próxima parada é o parque e provavelmente a última. Ainda estou com o Flauros. Harry Mason”.
Começo a pensar em que espécie de marca ele teria cravado aqui, que demônio seria esse, e que menina... Alessa, a que o professor havia falado na primeira e aparentemente última aula de Mitologia e Lendas... Alessa. Olho para cima e vejo a luz branca... Não vejo nenhuma marca, a não ser que esteja... Lá em cima.
–Vamos Don! – falo enquanto começo a subir as escadas.
Alessa... Ela havia usado o Selo, era isso que Thompson havia dito. Ela tentou parar o nascimento do deus com esse selo, mas segundo esse cara que escreveu no bloquinho, ela tinha colocado uma marca de um demônio... A menos que Metatron seja um demônio também. Continuo subindo ansioso pelo que vou encontrar lá em cima. Mais alguns degraus e então vejo a fonte da luz branca. Não há nada que promova o feixe de luz do farol, não há lâmpada ou qualquer coisa... É um topo, sem nenhuma cobertura ou paredes. A escuridão impede de ver as outras áreas da cidade. Sobre o chão há uma marca, acesa como se estivesse sido gravada com algum líquido fosforescente. A marca é idêntica a que estava gravada no objeto que eu estou segurando, o Selo de Metatron. Então a história de Thompson era verdade. Ela tinha tentado usar o objeto para parar o nascimento de deus, mas falhou. Então, segundo o que acabei de ler, restava mais um lugar. O Amusement Park. O objeto em minhas mãos começa a brilhar, mas com um brilho pouco intenso. Se eu terminasse a última marca no parque, então poderia fazer o mesmo que Alessa tentou fazer anos atrás e impedir o nascimento de deus através de Anette... Talvez eu possa consertar as coisas.
Don sobe e se assusta ao se deparar com a marca fosforescente.
–Cara... Você que fez isso? – ele aponta pro objeto em minhas mãos.
–Não... Alguém fez e eu terei que fazer mais um se quiser salvar Anette. Temos que chegar ao Amusement Park daqui, Don. Temos que ser rápidos!
Desço as escadas correndo seguido por Don. A descida dura menos de dois minutos e logo me vejo pulando novamente pelo buraco. Tenho que encontrar alguma forma de chegar ao parque, tenho que saber pelo menos onde ele fica. Ficaria mais fácil se... Vejo Don pular pelo cais e então seguro o Selo de Metatron firmemente em minhas mãos, mentalizando a cidade na sua forma “normal”. Imediatamente o ambiente começa a se recompor, objetos começam a surgir de lugares inimagináveis e se colocam em outros. O chão podre do cais se reconstitui em madeira desgastada e os corpos pendurados nas grades desaparecem, caindo sobre o lago e afundando. O cheiro de podre some e o sangue no lago desaparece, dando lugar a água cinzenta. Logo a cidade volta com sua luminosidade ofuscada pela névoa e cinzas, que continuam caindo do céu. O buraco que dividia o cais some. Don olha pra mim decepcionado.
–Poderia ter feito isso antes pra não termos que pular.
Olho pra ele com desdém. Precisamos encontrar algum mapa que nos ajude a sair daqui e chegar no Amusement Park. Talvez não fosse tão longe, afinal, aquele cara — Harry Mason – deve ter conseguido chegar até lá e a impedido. Começo a pensar se terei que precisar desse tal de Flauros também. De qualquer modo, arranquei o papel do bloco de notas e coloquei no bolso. Preciso chegar até o parque e descobrir em como colocar essa marca lá, provavelmente, com esse objeto. Damos mais uma última olhada para o farol — agora apagado e menos assustador que antes — e continuamos seguindo em frente pelo cais em direção à cidade que emerge em meio à névoa diante dos nossos olhos.
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