Silent Hill: The Artifact
31 Tia Yana
Notas iniciais

Dou mais alguns passos para trás. Não podia estar acreditando no que estava vendo. É o corpo da mesma mulher, a mulher sem rosto, a mulher que estava arrastando Mateus e eu a matei. Ela está em pé diante de mim, e mesmo sem boca, parece sorrir.
–Matt... Vamos sair daqui.
–Don... Eu já matei essa coisa. Ela apareceu de novo, eu tenho que matá-la! – Falo prestando atenção nas cicatrizes deixadas pela chave inglesa e confirmando que era exatamente a mesma mulher.
O vestido preto esvoaça em meio à névoa cinzenta. A rua está completamente deserta, a não ser por nós três. A mulher sem rosto me fita e aquilo começa a me incomodar. Minha respiração se altera e meu coração acelera a tal ponto que não estou conseguindo me manter em pé. Aos poucos, me sinto caindo próximo a Don, que me segura imediatamente murmurando alguma coisa que não entendo. A mulher continua parada diante de nós sem se mover ou falar qualquer coisa.
–Cara... Será que não dá pra passar por ela sem que ela perceba que estamos aqui?
–Não Don... Ela já nos viu.
–Mas como? – perguntou apontando para o rosto da mulher.
–Eu... EU NÃO SEI DROGA! EU NÃO TENHO RESPOSTA PRA TUDO, APENAS SEI QUE ELA ESTÁ...
De repente, sou interrompido por um grito agudo da mulher que me faz doer os tímpanos. A criatura parte pra cima de nós e não nos acerta por pouco. Eu e Don nos jogamos um para cada lado fazendo com que a coisa passe direto pelo espaço vazio que foi criado no meio. A mulher para a alguns metros de nós, tentando ver o que aconteceu e porque não acertou nada. Logo ela se vira e puxa uma faca brilhante do bolso. De alguma forma, eu tenho plena certeza de que aquela faca é pra mim. Puxo a pistola ainda com algumas balas dentro. Talvez fosse o suficiente pra acabar com aquela coisa. Miro na cabeça dela ainda no chão e acerto um tiro perfeito na cabeça fazendo espirrar sangue para todo lado. A coisa cambaleia no chão e começa a gemer.
–M... Matt... Matthew...
De repente, a sua voz começa a se tornar um pouco familiar. Aproximo-me da coisa lentamente, tentando dar um último tiro, mas ao ouvi-la pronunciar meu nome mais uma vez sinto vontade de saber se há mais alguma coisa a ser dito e não o faço, apenas continuo mirando. A criatura dá mais um gemido e pula em cima de mim em um movimento perfeitamente rápido que arranca a minha arma fora e me derruba no chão. Ela ergue a faca na tentativa de me matar.
–DON!!! ME AJUDA AQUI!!
Ele corre até a arma e consegue acertar, de segunda, um tiro nas costas da mulher que geme mais uma vez. Mas ao invés de cair no chão choramingando, à criatura continua com a faca erguida, sendo impedida de fazer o movimento apenas por meu braço direito.
–DOOOOOONN!!!
Ouço mais quatro tiros seguidos de “clicks”. Ele descarregou a arma e agora estamos sem nada. O sangue da mulher começa a cair sobre o meu corpo, mas a criatura continua firmemente empunhando a faca como se a vida dela dependesse exclusivamente disso. Meu braço começa a cansar e aos poucos, a ceder. Pouco a pouco a faca vai se aproximando do meu peito enquanto a criatura me mantém praticamente imóvel no chão. Don não se move.
–Don, por favor...
Em um impulso de coragem, Don corre até nós e chuta a cabeça da coisa fazendo com que interrompa o movimento fatal que me levaria à morte ao mesmo passo que se desorienta e afrouxa sua “prisão” me deixando mais relaxado e facilitando a minha fuga. Saio de debaixo da coisa enquanto se recupera do pontapé de Don e penso em correr. Mas de algum modo, tenho a plena certeza de que tenho que acabar com aquela coisa agora.
–Matt... Vamos embora! Conseguimos uma boa vantagem!
–Don... Se quiser pode ir... Eu vou ficar e lutar!
–Mas... Você quase morreu. – A criatura torna a se levantar. – Você quer continuar aqui e morrer de verdade? Então se for assim, vou deixar você aqui pra morrer e seja feita a sua vontade!
Olho para ele seriamente. De fato, alguma coisa me diz que eu preciso matar essa coisa agora, ou então coisas piores poderão acontecer. O Selo começa a vibrar dentro do meu bolso e agora o vejo mais nitidamente o seu brilho azulado resplandecendo em meio à névoa.
–Don... Corra, se esconda. Eu preciso ficar!
Ele olha pra mim não acreditando e depois lança seu olhar para a mulher que se levanta com a faca nas mãos e “olha” pra nós. Depois retorna o olhar pra mim e já sei o que vou ouvir.
–Idiota!
Don sai correndo me deixando para trás. A coisa pouco parece se importar com ele, deixando claro que era exatamente a mim que ela queria. É então que, no seu aparentemente rosto vazio, vejo coisas como se fossem bolhas aleatórias se formando e dando características aparentemente humanas para a coisa. Seu rosto se adapta, até que vai se tornando algo familiar, algo da minha infância, algo que eu odiava com todas as minhas forças. É a minha tia Yana. Não consigo acreditar no que meus olhos veem. É ela, mas completamente desfigurada. O rosto mostra vários arranhões, hematomas e cicatrizes. Seu corpo, completamente torto e desfigurado, contém apenas um braço normal e outro cortado pela metade. O sangue escorre sem parar de sua cabeça e pernas, agora mostradas pelo vestido rasgado preto que recobre algumas partes da criatura. Parece minha tia depois de morta e decomposta. Mas eu não sei, não sei por que ela apareceria pra mim depois de morta e ainda por cima em Silent Hill. De repente, toda a cidade a se alterar e não estou mais uma rua qualquer...
[Eu estou na rua logo após a pequena trilha que dá acesso a Silent Hill. É uma rua curva, próxima ao lago Toluca. Eu estou segurando a mão dela e estamos indo para a sua casa. A rua fica logo em cima de um desfiladeiro. Meus pais estão mortos, eu tenho quatorze anos e é com ela que vou morar de agora em diante. Mas não é isso que eu quero, eu quero voltar pra casa, eu não quero morar em Silent Hill, na verdade, nunca quis. Era o desejo do meu pai que eu viesse morar com ela, e agora que tanto ele como minha mãe estão mortos, tudo isso está se concretizando. Ela para e colocamos as malas no chão, no meio da estrada. Ela solta a minha mão e começa a caminhar pelo lugar.
–Matthew, essa cidade nem é tão ruim assim. Veja, você vai gostar.
Sinto a raiva subir à minha cabeça. Não sou mais uma criança pra que ela me trate assim, e na verdade, creio que posso até mesmo tomar minhas próprias decisões. Minha mãe tinha deixado uma carta com contatos e endereços de lugares que eu poderia ficar antes que ela morresse... E tudo isso para que eu viesse parar em Silent Hill? Tia Yana se aproxima da borda da estrada olhando pelo desfiladeiro abaixo. Ela quer me mostrar o lago, mas é impossível vê-lo com toda essa névoa. Ela era muito idiota e provavelmente estava apenas querendo me fazer ficar, mas se ela acha que vai conseguir, não vai. Ela se aproxima um pouco mais do desfiladeiro, tentando enxergar o lago e me mostrar.
–Veja, esse lago aqui embaixo... Acho que já o estou vendo! Venha Matthew!
Aproximo-me do lugar e não consigo ver absolutamente nada, pois a forte névoa impede que veja qualquer coisa. Vejo apenas o longo e assustador desfiladeiro que segue abaixo da estrada. Uma queda seria mortal.
–Tia... Eu... Eu não quero ficar em Silent Hill... Eu tenho outras coisas lá fora pra viver, eu tenho outras coisas pra fazer. Por favor, me deixe voltar?
Ela ri.
–Voltar? Voltar pra quem, Matthew? Seus pais estão mortos, você não tem mais família. Se pensa que vai ter algum futuro melhor do que pode conseguir aqui – ela faz um gesto com a mão mostrando a cidade abandonada e enevoada – está muito enganado. Ah Matthew... Você tem quatorze anos, quem iria querer lhe adotar?
–Minha mãe me deu uma lista de contatos que poderiam me abrigar... Eu não quero ficar aqui...
–Contatos? Quem ficaria com você, seu idiotazinho? É melhor fazer o que estou mandando se não quiser ir à força.
Sinto a raiva subir a minha cabeça. De algum modo, eu tenho que me livrar disso. Viver em Silent Hill seria a pior coisa que já poderia me acontecer, eu preciso dar um jeito e rápido. É então que olho para o desfiladeiro e o vejo o quão mortal parece. Talvez se jogar dali não seria má ideia, afinal, era melhor do que viver nessa droga de cidade. Qualquer um que fizesse isso talvez fosse até tachado como sábio, afinal, nem a polícia sabendo do que é morar na droga de uma cidade abandonada consideraria como suicídio. Dou alguns passos pra trás tomando impulso e então uso toda a minha força e velocidade e corro em direção à Tia Yana. Ela não entende na hora, mas eu a empurro com todas as minhas forças o seu corpo desfiladeiro abaixo. Ela tenta se segurar em mim, mas uso isso pra empurrar mais ainda. Ela fica muito na borda, a tal ponto que mais um empurrão seria o suficiente.
–Matthew, o que está fazendo?
–Salvando a minha vida. Adeus Tia Yana!
Eu dou mais um empurrão com força e ela cai desfiladeiro abaixo. Ouço-a dar um grito e então apenas o barulho do corpo caindo e batendo pelas pedras do desfiladeiro acompanhadas da imagem dela rolar e baterem várias vezes no chão. O corpo então some em meio a névoa e não escuto absolutamente barulho nenhum a não ser o vento. Abro um sorriso ao me dar conta que minha vida está salva. Respiro fundo, pego minhas malas que foram postas no chão e faço o caminho de volta torcendo pra conseguir uma carona o mais rápido possível para fora desse lugar.] Então vejo novamente a cidade se alterar e volto para o lugar inicial. A mulher, agora minha tia completamente desfigurada me olha. Era ela, de alguma forma era ela. Sempre falei que ela havia morrido de câncer, e até por um tempo comecei a acreditar nisso, mas era uma mentira, uma mentira que forjei pra mim mesmo. Eu a matei e não me arrependo nenhum pouco disso.
–Bem Tia Yana... Está na hora de te matar de novo.
A criatura corre em minha direção segurando a faca e eu corro na mesma direção que ela tentando manter a mesma distância possível. Ela tenta dar alguns golpes de faca, mas seu corpo parece tão desfigurado e lento que não consegue me acompanhar. Corro um pouco mais pra longe tomando uma distância considerável e então corro na direção dela. Yana empunha a faca e corre em minha direção. Estendo meus braços na tentativa de fazer a mesma coisa, de empurrá-la e abaixo a cabeça no momento em que ela daria um golpe certeiro no meu pescoço, mas errou quando fiz o movimento com a cabeça. Minhas mãos seguram a “cintura” da coisa, sendo embebidas pelo sangue quente que escorre da coisa. Sem pensar muito, começo a empurrar a criatura pra qualquer direção sem saber para onde. Ela ainda dá golpes no vento. De repente, tropeçamos em alguma coisa e caímos os dois no chão. A faca cai bem ao meu lado e eu a seguro firmemente em minhas mãos. Está na hora de acabar com isso. Com a mão direita, desfiro um golpe direto no pescoço e imediatamente vejo um jato de sangue ser espirrado e cair pelo meu rosto. A criatura se debate um pouco e finalmente morre. Levanto. Pego a faca e limpo na minha camisa, também encharcada de sangue e coloco no bolso. Pelo menos agora tenho uma arma útil. Olho pra coisa jogada no chão e sinto mais do que terror, sinto desprezo, sinto ódio, sinto... Sinto algo inexplicável. Era como se eu tivesse agora a oportunidade de ver o corpo da minha tia, a mulher que tanto odiei a mulher que jogou milhares de vezes na minha cara que eu não tinha mais meus pais e que não tinha para onde ir... A mulher que me apresentou Silent Hill. Ao lembrar dessa última coisa, sou tomado por uma fúria muito grande e começo a esfaquear freneticamente o corpo. Sei que já está morta, mas é a única forma que vejo de despejar meu ódio.
–Você... VOCÊ! MORRA SUA INÚTIL E IMBECIL!! – Grito enquanto esfaqueio o corpo.
–Matthew!
Viro para trás. É ele, Mateus. Ele continua com o mesmo casaco verde e olha pra mim diretamente nos olhos. Ele parece triste e decepcionado e até consigo ver uma lágrima rolar pelo seu rosto.
–Mateus... – solto a faca no chão e corro até ele.
–Matt... Olhe pra você... Você não era assim... – ele começa a chorar.
–Mateus, eu... Eu tinha que fazer isso.
Ele começa a chorar e a soluçar. Eu não consigo fazer mais do que olhar para aquilo. Era uma sensação estranha. A pouco eu estava despejando todo o meu ódio, mas agora me sinto completamente desarmado por ele. Ele que era eu mesmo, não sei... Se fosse, porque faria isso a si próprio? Talvez ainda não tivesse conhecido o mundo de verdade, o mundo além da inocência.
–Não... Você não tinha Matthew! Eu sabia! você é um assassino! ASSASSINO!
–Não... eu... eu não sou – falo baixando a voz – um assassino.
–Então... O que você é então? – Ele fala entre soluços.
–Eu não sei...
Volto meu olhar para o chão. Definitivamente, dizer que não sou um assassino completamente banhado de sangue e matando algo que poderia ser minha própria tia não tinha a mínima coerência. Mateus estava certo, eu era um assassino, eu a havia matado anos atrás, tudo pra não morar nessa droga de cidade e agora vejo que foi em vão. Olho de volta pra Mateus e não vejo absolutamente nada, exceto por um papel cuidadosamente dobrado caído no local onde ele estava. Vou até ele e o pego, abrindo logo em seguida, agora sujo de sangue:
“Alchemilla Hospital”
Começo a pensar se seria um joguinho, mas lembro de que Mateus já me guiou uma vez, então poderia fazer isso novamente. Não sei como chegar, então espero encontrar logo um mapa. Esse papel parece mostrar que no Alchemilla eu possa encontrar alguma resposta ou algum meio de chegar mais rápido no Amusement Park. Começo a caminhar em frente sem saber para onde ir. Continuo caminhando até que vejo um vulto conhecido: Don. Ele está parado numa espécie de parapeito e olhando para baixo. Parece pensativo.
–Don!
–Matthew! Pensei em esperar só mais dez minutos e sair daqui... Pensei que tivesse morrido cara! E esse sangue todo, é seu?
Olho pra minha camisa e para o estado dela. Estou deplorável e o cheiro de sangue me enoja. Era o sangue daquela coisa, a Tia Yana.
–Desculpa cara... Era da coisa. Eu tinha que enfrentar aquilo... Faz parte do que vim fazer nessa porcaria de cidade.
–Ah, então você também acredita nas lorotas de Chang?
–Posso dizer – respiro fundo – que elas fazem sentido agora.
–Bem, então espero que seja mais prudente. Para onde vamos?
–Por mim, pra primeira loja de roupas que puder encontrar. Depois disso, recebi esse recadinho aqui. – Mostro o papel para ele.
–Alchemilla... Esse lugar é bem famoso aqui. Chang falou que tinha algo a ver com a outra mãe do deus. Ouvi ele conversando algo assim com Carl.
–Interessante! Então talvez Mateus esteja certo. – Falo tentando não respirar o ar em volta e consequentemente o cheiro de sangue que minha camisa emana.
–Mateus? Quem é ele?
–Não importa... Agora precisamos ir andando. Temos que chegar lá o mais rápido possível, ou então Anette estará ferrada!
–Achei que quisesse ir pro Amusement Park de novo.
–Não... Mudança de planos. Vamos encontrar um mapa e ir pra essa droga de hospital!
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