Silent Assassins
3 My Angel
POV Angel
Estava encostada ao sofá da sala olhando para um ponto fixo. Por minha mente passavam várias dúvidas e medos. O fato do Seven estar tão relaxado me deixava ainda mais pensativa.
— O Chris tá bem. – Ele falou comendo algo que parecia repolho.
— Não estou preocupada com isso. – Falei com agitação nas pernas.
— É com aquela menina? – Ele disse comendo.
— É...
— Hum... – Ele olhou para o nada e voltou a me olhar. – Tenso, né?
— Seven, você não tá ajudando! – Falei bufando.
— É muito fofinho quando você se irrita. – Ele riu se levantando.
— A Barbie disse que se houvesse uma emboscada eu seria a primeira a morrer... – As palavras dela ressurgiram na minha mente gritando.
— Você é fofinha, não morreria. – Ele não me convenceu muito.
— Também acha isso por que não consegui matar aquele cachorro? – Falei cruzando os braços.
— Ah, agora entendi. – Ele caminhou para perto de mim. – Tá assim porque sabe que quando o Zef chegar ele vai te dar uma bronca, e se o humor dele não estiver muito bom pode acabar com você e com aquela outra lá de cima.
— O que? – Falei entrando em pânico. O Zef não faria isso... Ou faria?
— É brincadeira. – Ele riu indo para a cozinha. – Quer saber de uma coisa?
Ele gritou para que eu pudesse ouvi-lo.
— O que?
— Até pra mim foi difícil matar a cachorra. – Descruzei os braços ao ouvir aquilo. – Ver ela brincando com a Bella e se divertindo tanto, fez tudo ser pior.
— Eu sei que você não gosta de matar por trás. – Fui para mais perto da cozinha.
— Não gosto de matar nada inocente. – Ele falou e parecia estar sério pelo seu tom.
— Talvez a gente precise matar a menina? – Falei cabisbaixa
— O Zef que dirá... – Ele veio da cozinha para perto de mim. – Por que não conversa com ela? Deixa ela ciente de toda essa merda, ela vai ver que ficar ao nosso lado será o melhor para nós e para a vida dela.
Refleti um pouco naquilo e senti o peso da solidão.
— Sabe se alguém tivesse me falado tudo o que acontece aqui dentro... – Falei indo para as escadas. – Talvez eu tivesse preferido à morte.
— Não. – Ele disse sorrindo. – Você teria escolhido uma vida normal junto do Christian, e é por isso que lutamos.
Segurei forte o corrimão e segui subindo até onde a garota estava trancada.
Flash Back On
Enchia os baldes no lago que não passava muito longe da minha casa. A água parecia ainda mais límpida do que normalmente é.
— Só mais duas semanas e poderemos ser da guarda real. – Ouvi um rapaz que também pegava água falar a seu colega.
— Sei não, as vezes duvido um pouco que eu passe da fase eliminatória – O outro respondeu.
— É esse tipo de pensamento que faz os homens serem eliminados. – Ouvia aquilo em silencio, mas com o peito estufado de orgulho só de pensar que meu irmão fazia parte disso, e que há exato um ano tinha entrado para a defesa dos fracos e oprimidos.
— Ouvi dizer que eles têm uma treinadora mulher.
— Com certeza a capital é muito mais avançada que o nosso interior.
Mulher treinadora? Era um pouco difícil de acreditar nisso, afinal chegava muitas mentiras da capital, não dava para ser ingênua e crer em tudo.
Já estava quase escurecendo, então me apressei em ir para casa. Querendo ou não os saqueadores dessa área a tornam perigosa.
Peguei um balde em cada mão e caminhei pelo pasto até a estrada, ao final da estrada ficava minha casa. Assim como as outras dessa região, ela se encontrava sozinha em um terreno, sem outras pelas proximidades.
Ao passar pela porteira, percebi que haviam dois cavalos parados perto da minha casa, e eles tinham o escudo real pendurado em sua cela.
Por que alguém do rei estaria aqui? Meu pai sempre pagou os impostos de forma honesta e seguia rigorosamente a lei. A não ser que...
Coloquei os baldes no chão e corri para dentro.
— Irmão!! – Só podia ser ele, fazia um ano que não o víamos.
Corri e quase tropecei no batente da entrada, mas ao abrir a porta não vi exatamente o que esperava.
— Mãe... – Falei hesitante. Ela se tremia ao tentar colocar o chá em uma xícara.
O homem sentado em nossa mesa, usava a armadura real, mas não parecia trazer segurança.
— Pensei que não tivesse filhos além do Logan. – Ele falou me olhando.
Ele era jovem, não devia nem ter 20 anos. Seus olhos verdes eram de uma cor forte, sua sobrancelha grossa passava um olhar ainda mais profundo sobre ele.
— Quem é esse? – Perguntei confusa. A tensão era tremenda e assustadora.
— Ele é da Guarda Real. – Minha mão falou e sua voz fraquejava a cada palavra. – Seu irmão, ele...
— O que? – Engoli em seco e percebi o sorriso de lado do homem.
— Seu irmão está sendo procurado como inimigo do rei. – O rapaz disse se levantando. – Ele traiu ao rei, a guarda real e a população.
— É mentira. – Falei mais pra mim do que pra ele.
— Ousa chamar um general de mentiroso? – Ele arqueou a sobrancelha ainda com o sorriso cínico.
— Não, eu nunca faria isso. – Disse apressada.
— Sua mãe mentiu pra mim. – Ele disse erguendo meu queixo. – E quer saber de uma coisa?
— U-hun... – Falei tremendo internamente.
Ele soltou meu queixo puxando sua espada da cintura e golpeando minha mãe no abdome, eu pude ver o exato momento que a espada a perfurou e atravessou seu corpo. Foram segundos até isso acabar e minha mãe começar a sangrar manchando sua blusa.
— Eu detesto mentiras. – Ele falou puxando a espada para fora e limpando o sangue com seus dedos.
O corpo da minha mãe caiu ao chão. O meu medo estava me consumindo tanto que não consegui sair do canto, nem ao menos consegui gritar ou chorar. Apenas fiquei ali, parada, vendo o corpo dela sangrar ao chão.
Um homem moreno entrou pela parte traseira da casa. Ele também usava a mesma armadura.
— Eliminado. – Ele disse olhando o rapaz que ainda sorria.
— Tenho algo para te mostrar. – Ele sorriu e pegou no meu braço me arrastando para fora.
— Me solta! – Falei, talvez, movida pelo pânico.
Ele assim o fez, e assim que olhei para trás pude ver uma estaca fincada no chão, e no topo dela estava a cabeça do meu pai.
— O que?...
— Você é a próxima. – Ele puxou meu braço novamente e sussurrou no meu ouvido. – Mas você é jovem, cheia de energia, vou te dar tempo de correr pela estrada, mas se eu te pegar...
Ele me soltou e eu o olhei, provavelmente eu já estava pálida de tanto medo.
— Seu tempo está correndo. – Ele sorriu para mim segurando sua espada.
Fechei os olhos com força, voltando para mim e ao abri-los corri até a entrada.
A lua já estava no céu, e provavelmente não haveria ninguém por perto. Nenhum esconderijo, nenhuma casa, nenhuma salvação.
Corri com força, corri pela minha vida e por tudo que eu acredito, se bem que agora tudo parece não passar de mentira.
Quando já não aguentava correr, parei me apoiando nos joelhos e respirei fundo. Ao olhar para trás não o vi, até que segundos depois vi os cavalos deles se aproximando.
— Merda! – Tomei a postura e lutei contra minhas pernas para continuar a correr pelo menos até o lago. Lá não teria ninguém, mas eu me forçava a acreditar que talvez, se eu gritasse bem alto, alguém me ouvisse.
— Precisa ser mais rápida. – Ele gritou com um ar de diversão.
Já não dava para aguentar aquilo, fechei os olhos e as lágrimas caíram, mas eu me negava a parar. Podia ouvir o lago e isso me dava esperança.
Ao chegar lá não pude acreditar no que vi. Um homem, vestindo uma capa escura e mexendo na água do riu.
— Senhor! – Gritei com as poucas forças que me restavam e ele se levantou. – Me ajude.
A capa cobria todo o seu corpo e rosto, a única parte dele que conseguia ver, eram suas mãos.
— Aqueles dois homens eles...
— Entregue-a! – O cavaleiro falou sorrindo. – Eu sou Túlio Manchester, cavaleiro real e general das tropas do rei. Fui enviado para pegar essa criminosa e dar a ela a sua devida punição.
— Criminosa? – Falei quase gritando.
— Entregue-a! – Túlio insistiu.
O homem me segurou pelos braços e me aproximou deles.
— Ótimo. – Tulio disse e seu companheiro desceu do cavalo para me pegar. – Será bem recompensado. O rei ira dar o que quiser por isso.
Senti meu corpo sendo arremessado para o lado e cai batendo minha mão em uma pedra que fez um corte que logo sangrou. Ao olhar para trás, percebi que o homem do capuz tinha puxado uma adaga de sua roupa e cortado fora a mão do homem.
— Como ousa? – Tulio disse incrédulo.
O outro rapaz caiu ao chão e tentou parar seu sangramento.
— O dinheiro não paga o salário. – O homem falou tirando seu capuz.
Ele tinha olhos escuros e cabelo loiro, mas não um loiro dourado, estava mais para esbranquiçado.
— Christian. – Tulio falou. Eles se conhecem?
Vi o homem que estava ao chão usando a mão que lhe restava para puxar sua espada.
— Cuidado! – Gritei, mas pouco após terminar a frase, flechas voaram de algum lugar penetrando o homem que automaticamente soltou sua espada e cuspiu sangue.
— Como é que vocês falam? – Christian disse olhando para Tulio com um sorriso, mas diferente do Tulio não era debochado. – Ah, é!
Ele chutou o homem para o chão, que logo manchou o pasto com seu sangue.
— Eliminado. – Christian mostrou o polegar virado para baixo.
Tulio puxou sua espada e saltou do cavalo.
— Se poupe, General. – Christian falava calmamente. – Está em desvantagem.
— Acha mesmo. – Túlio disse rindo. – Consigo acabar com você e o Robin em segundos.
— Que bonitinho. –Uma mulher falou caminhando até nós. Eu estava tão concentrada neles que não a vi se aproximando. – Acha mesmo que são só os dois!
Ela também usava uma capa, mas sem o capuz. Ela puxou uma arma que possuía na extremidade do cabo uma foice e na outra uma corrente com um peso.
— As vezes é tão inocente. – Outra mulher falou por trás de mim. Ela não parecia ter armas.
— O que acha, Bella? – A primeira mulher falou. – Eu arranco a espada dele e você destrói a cara do infeliz?
— Meio idiota você ter vindo sem escudo, não acha? – Christian falou.
— E sem proteção. – Bella completou.
Um homem saltou de uma das árvores. Ele tinha um arco na mão e em suas costas carregava suas flechas.
— Vá embora, Túlio. – Ele falou sério. – A batalha entre nós ainda não está na hora.
— Isso não acabou. – Tulio disse dando as costas com seu cavalo, ficando de forma bastante vulnerável, mas eles não fizeram nada.
— Por que a gente não acaba com ele? – A garota armada falou. – Aqui e agora.
— Essa luta não é nossa. – Christian disse.
— E de quem é? – Ela respondeu com um olhar vazio.
A garota sem armas se aproximou de mim.
— E você? – Ela se abaixou. – De onde saiu?
— An... eu... – Falei ainda sem acreditar naquilo.
Christian se aproximou de mim e ofereceu sua mão a mim.
— Posso ver? – Ele pediu e então lembrei da minha mão machucada. Estendi a mão para ele. – Não é nada sério, mas pode infeccionar.
— Quantos anos você tem? – A garota continuou. – Mora longe daqui? Por que eles estavam atrás de você?
— Bella. – Christian olhou sério para ela.
— Me chamo Luanda e... – Pensei um pouco. – Tenho doze anos... Quem eles eram?
— Cavaleiros do rei. – O arqueiro disse.
— Mas...
— Nem todos são bonzinhos. – Bella disse calma.
— O que fazemos com ela? – Christian perguntou ainda segurando minha mão.
— Ela viu nossos rostos. – A garota mais distante falou. – Eu sugiro morte rápida e indolor.
Puxei minha mão para perto de mim ao ouvir aquilo.
— Ela é só uma criança, Bárbara! – Bella disse.
— Como se isso importasse para vocês. – a garota respondeu com fúria, fazendo todos ficarem cabisbaixos.
— Vamos leva-la ao esconderijo. – Robin disse. – Lá ela vai nos explicar o que houve e depois disso falaremos com o comandante. Ele dirá o que fazer.
Foi então que Christian olhou para mim de forma doce e compassiva, só então eu senti paz.
Flash Back Off
Não demorou muito até eu me apaixonar por ele, mas demorou bastante tempo até ele se apaixonar por mim. E talvez alguns pensem que garotas de 15 anos não sabem amar, mas eu digo com toda a certeza que o amo.
Hoje, ele é tudo o que tenho, e é tudo o que eu preciso.
Peguei a chave do quarto em cima de um baú no corredor e abri a porta. A garota se virou e me olhou um pouco perdida, quase como eu quando o Chris veio conversar comigo sobre tudo. Eu chorei, chorei como nunca tinha chorado, e ele cuidou de mim. Noite após noite, pesadelo após pesadelo.
— Oi. – Sorri sem jeito. – A gente não conversou muito durante o caminho, achei que você precisasse de um tempo para pensar em tudo.
— O que vai acontecer comigo? – Ela parecia nervosa.
— Eu... eu não sei. – Me sentei na cama dela. – Mas se você tentar fugir, é a morte.
Falei por perceber ela olhar demais para a porta.
— O que vocês são de verdade? – Ela veio para perto de mim. – Justiceiros?
— Aqui todo mundo se intitula como assassinos... – Falei sem jeito. – A gente prefere não diminuir o peso do que fazemos. Mas não matamos por prazer ou diversão.
Ela sentou na cama e fixou o olhar no piso. Ela parecia ter tantos pensamentos presos. Pensamento que provavelmente ela nunca botaria para fora.
— Olha, vou te falar o que deve acontecer. – Respirei fundo. – O pessoal vai chegar e vão votar se você realmente é inocente. Depois o capitão vai vim falar com você e te dar duas escolhas, mas na verdade é meio que só uma.
— Como assim? – Ela disse calma.
— Uma escolha não é tão boa, mas te deixa viva, a outra é boa, mas te mata. – Tentei fazer aquilo soar menos pesado, mas como eu posso fazer a morte soar leve?
— Quantos anos você tem? – Ele me olhou. – Parece tão... Jovem.
— Eu tenho quinze. – Entortei a boca. – Mas não tem idade para lutar pela verdade.
— Qual verdade?
— Que o rei é corrupto e está se divertindo fazendo o reino ruir. – Mexi no meu cabelo. – Olha, eu sei que parece assustador, mas talvez eles te mandem para alguma base onde você pode ajudar de alguma forma, e você vai ajudar a acabar com tudo isso, vai poder vingar todas aquelas mortes, entende isso?
Ela se calou, como se pensasse em algo muito profundo.
— Angel, reunião. – Jacob disse empurrando a porta. – Agora.
— Olha, eu vou. – Segurei por instinto nas mãos dela. – Mas prometo que vou tentar fazer o melhor pra você, ta? Mas colabora comigo.
— Não se preocupe. – Ela disse e um sorriso surgiu no canto da boca dela.
Ela não iria para uma base, depois desse sorriso, eu tinha a certeza que ela não iria. O lugar dela não é lá, é aqui, e o Zef com certeza já percebeu isso.
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