Silent Assassins
2 Família Hasen
POV Alice
A Elena trançava meu cabelo enquanto eu mexia na Mindy, a cachorra da família. A mãe da Elena tinha trabalhado por muito tempo para a minha família, por isso acabamos nos tornando amigas desde muito cedo, apesar de que depois que entramos na puberdade nos afastamos bastante ela ainda era uma das pessoas que eu mais gostava nesse mundo.
—- Acabei. – Ela falou com sua voz doce e seu sorriso meigo.
— Você é incrível, Elena. – Disse passando a mão pelos meus cabelos.
— Como se sente prestes a completar 21 anos? – Ela me perguntou curiosa.
As vezes eu esquecia que ela tinha 19 anos.
— Incrível. – Falei relaxada. – Tenho toda uma vida pela frente, sonhos que pretendo cumpri-los...
— Por exemplo?
— Ah... gostaria de viajar pelo continente, conhecer pessoas, cuidar de crianças, dar todo o meu carinho a cada uma delas.
— Você é incrível, sabe disso, né? – Ela sorriu. – Acho que se eu tivesse dinheiro assim como você tem eu gostaria de fazer alguma ação social do tipo, mas enquanto isso não acontece me contento em dar o máximo de ajuda as crianças da minha vila.
— Cada um de nós ajuda da forma que pode. – Falei segurando a mão dela. – Aquele garoto da sua vila que sumiu há alguns dias apareceu?
— O George... – Ela disse com o semblante enfraquecido. – Não, os pais dele estão acabados, ele só tinha 12 anos, mas sempre soube se virar muito bem, por isso todos na vila acreditam que talvez ele...
— Acha que pode ter sido os Silent Assassins? – Perguntei sentindo um frio só de falar neles.
— Dizem que eles só matam pessoas ricas. – Ela bufou. – Isso me irrita tanto, ainda existem pessoas que os defendem dizendo “a sociedade negou tudo a eles e os ricos se fizeram cegos” como se isso justificasse algo. Eu nunca tive muito dinheiro, mas nunca precisei me sujeitar a algo do tipo, esse grupo de merda acha que as ações deles podem ser justificadas.
Segurei a mão dela mais forte.
— Não... – Ela respirou fundo. – Eu não acho que tenha sido eles, e acredito muito que o George está vivo.
— As vezes eu queria ter pelo menos metade dessa sua confiança na mi....
— Senhorita Hasen. – Um dos meus empregados falou adentrando no quarto de surpresa.
— Mason, qual o seu problema? – Falei puxando a coberta. – Já estamos de pijama, não devia entrar assim...
— Senhorita, eu sinto muito, mas... – Ele hesitou ao falar. – Invadiram a casa.
— O que? – Falei assustada.
— Vamos, precisamos correr antes que eles a peguem.
— Onde estão meus pais? – Falava sentindo minha garganta ser fechada pelo medo.
— Senhorita...
— ONDE ESTÃO?
— Seu pai...
— Alice. – Elena segurou minha mão fria. – Vamos, precisa ser forte agora se quiser viver.
Ela falava com calma, mas ao sentir sua mão tremer percebi que ela estava com tanto medo quanto eu.
— Vamos. – Falei saltando da cama, ainda agarrada a mão dela.
Corremos junto do Mason descendo as escadas tentando não fazer barulho.
Foi então que ouvi o grito de dor e desespero da minha mãe, parei na escada automaticamente e senti minha visão ficar embaçada, só podia ser a adrenalina.
— Vamos, Alice. – Elena disse mais uma vez me puxando dessa vez pelo meu pulso.
Eu descia aquelas escadas como se meu ser não estivesse mais dentro de mim, como se houvesse um vácuo ao redor do meu corpo. O meu automático estava ligado.
Após a porta ser aberta e eu passar por ela sentindo aquela brisa fria na minha pele eu senti que tinha acabado, senti que estava a salvo apesar de ainda não ter saído da casa, senti que havia esperança.
E se há esperança, há sede de vingança pelos meus pais.
— A Mindy. – Falei um pouco tremula. – Onde esta a Mindy?
— O que? – Elena disse quase que desesperada.
— MINHA CACHORRA, CADE ELA? — Berrava. – Elena, eu não posso perdê-la também.
— Você quer arriscar sua vida por um animal? – Ela me perguntou e aquilo pareceu ridículo.
— Ela não é um animal! – Falei com os olhos nadando em lágrimas.
— Eu voltarei. – Mason falou tocando no meu ombro. – Mas precisa me prometer que vai correr, correr com todas as suas forças para se salvar e eu prometo que vou levar a Mindy até você.
Meus olhos se encheram de lágrimas. O Mason não trabalhava a tanto tempo para minha família, e ouvir isso dele me passou uma paz imensa.
— Obrigada. – Sussurrei o abraçando.
Ele saiu dos meus braços voltando para a minha casa. Ouvimos algo sendo quebrado.
— Parece que veio da sala. – Falei assustada.
— Então é melhor corremos. – Elena disse engolindo em seco.
— Vamos para a cabana na parte de trás da casa, podemos nos esconder lá. – Falei a puxando e ela apenas me acompanhou.
Entramos e eu tranquei a porta. Elena me ajudava a encostar alguns moveis de madeira na entrada.
Era uma cabana pequena com apenas um cômodo enorme que era usado pelo meu pai para consertar coisas.
— Debaixo da mesa. – Falei para Elena e ela concordou.
Corremos para a mesa encostada na parede e nos escondemos em baixo dela. Eu me abracei forte a ela e ela fez o mesmo comigo. O medo percorria nossos corpos com intensidade.
— Vai ficar tudo bem. – Ela sussurrou no meu ouvido, o que me fez desabar em lágrimas. — Precisa ficar calma... Pelo menos por hora.
Às vezes a Elena conseguia ser bastante seca.
Uma batida forte na porta me fez engolir o choro e transforma-lo em tremores, era possível ouvir minhas pernas se baterem. Era algo que eu não conseguia controlar. A Elena me abraçou ainda com mais força. E me pareceu difícil acreditar que esse seria o nosso fim.
A porta foi socada mais uma vez e eu pude ver alguns dos moveis que tínhamos encostado a ela deslizarem pelo piso e pararem na frente da mesa.
Três pessoas pararam exatamente em frente à mesa. Eles usavam roupas pretas e botas de cadarços, algo que lembrava um pouco o exército do interior.
Agarrei-me mais forte em Elena que tinha os olhos fechados e cabeça erguida.
Foi então que eles jogaram algo debaixo da mesa que acabou por cair exatamente no meu colo. Ao ver aquilo, todo o meu corpo entrou em choque, os tremores aumentaram e o grito que veio de minha garganta saiu rasgando tudo o que havia dentro de mim.
Não dava para acreditar naquilo.
O pelo liso da Mindy agora se encontrava na cor vermelha, e sua cabeça, a única parte que estava comigo, sangrava sem parar em minha roupa. Seus olhos me miravam como que perguntando porque eu a abandonei, porque corri daquele quarto segurando a Elena e não a ela, porque a tratei como um nada.
A Elena saiu de debaixo da mesa antes de mim, o medo dela devia a ter feito correr de perto da Mindy para perto dos assassinos. Tirei vagarosamente a cabeça dela de cima do meu colo e sai de debaixo da mesa com minha roupa coberta de sangue, eu deveria ter calma, sei que deveria, mas ao ver aquelas três faces, perdi o total controle sobre mim.
Apesar de minhas pernas tremerem, parti para cima de um deles. Seus olhos eram de um castanho forte assim como seu cabelo ondulado. O queixo quadrado passava um aspecto ainda mais sério a ele. Ele segurou com força meus braços e me encarrou.
Isso fez todas as minhas forças fugirem. Ao procurar Elena, vi um dos homens de cabelo longo castanho, perfeitamente penteado para trás com exceção de um fio rebelde que caia sobre seus olhos a segurando, a barba dela estava perfeitamente aparada, e seus olhos esverdeados me filtravam. Apesar do medo, pude reconhece-lo como um dos integrantes da Silent Assassins que estampava os cartazes de procurado.
— Eu quero você de joelhos implorando por piedade. – O homem que me segurava falou com sua voz grave em meu ouvido.
— Nunca. – Disse com os dentes trincados.
Ele me empurrou contra uma das paredes com tamanha força que senti os moveis se balançarem.
— NÃO! – Elena gritou e tentou se soltar, mas o homem a segurou.
— Vamos lá, Alice. – Ele disse pisando na minha barriga.
— Não. – Falei um pouco sem ar.
— Vamos... – Ele sorria ao pedir.
— QUAL O PROBLEMA DE VOCÊS? – Elena gritou deixando algumas lágrimas caírem.
Ele olhou para Elena por breves segundos, não foi um olhar de ira como o que ele tinha em mim, foi outro tipo...
— Peça. – Ele falou fazendo mais força contra meu corpo.
— Não a matem. – Elena pediu em meio ao choro. – Por favor, ela não fez nada!
O homem tirou o pé de cima de mim e me puxou pelos cabelos o que machucou bastante, engatinhei até os pés de Elena, até que ele me soltou com tanta força que bati a cabeça no piso.
— Conte para ela. – Ele disse cruzando os braços.
Olhei para ele ao meu lado e depois para Elena.
— Conte. – Ele falou sem pressa.
— Eu ajudei a matar o George. – Falei sentindo o peso em minhas palavras.
— O que? – Elena falou e percebi o homem que a segurava afrouxando seus braços, foi então que percebi que por todo esse tempo ela estava lutando para se soltar e me ajudar.
— George e várias outras crianças. – O outro homem que estava com eles falou. – Agora, Zef, mate logo ela.
— Eu ainda estou me divertindo. – Ele falou me puxando pelos cabelos de novo. – Assim como você se divertia com cada uma daquelas crianças, ao arrancar membro por membro delas.
— O que? – Elena perguntou tremendo, seus olhos fraquejavam, mas mesmo assim ela me olhava.
— Fale para ela. – O homem que minutos antes tinha sido chamado de Zef sussurrou em meu ouvido – Conte tudo a ela, fale do ser nojento que você é.
— O primeiro ministro precisava limpar as ruas de crianças do tipo dele. – Falei com dor. – Era eles ou meu pai. Você entende? A melhor forma de elimina-los era essa, não tínhamos muito espaço para jogar seus corpos.
— DO TIPO DELE? – Elena gritou mais uma vez, e dessa vez, seus gritos atravessaram meu corpo. – ANTES SEU PAI, ANTES VOCÊ E ANTES TODO O LIXO DA SUA FAMÍLIA. Isso é o que uma pessoa de verdade faria.
— Não é tão fácil. – Falei chorando. A dor física pouco importava agora.
— CLARO QUE É! – Ela berrou novamente. – Você arriscou a vida de uma pessoa pela merda da sua cachorra! Você não sabe o valor da vida humana.
— Me perdoa...
— NÃO! – Ela gritou forte e percebi o homem que a segurava a soltando e ela deslizando até o chão vagarosamente.
Tentei ir até ela, mas o homem segurou meu cabelo com uma incrível força que senti ele se desprendendo de minha cabeça.
— Ainda não acabamos. – Ele disse segurando meu pescoço e me forçando a levantar.
Ele era bem mais alto do que eu, por isso andava na ponta dos pés, para não ficar pior do que já estava.
Saímos da cabana, indo até o jardim um pouco mais a frente.
— Está aproveitando mesmo se divertir com essa daí, Zef. – Uma garota parda com os olhos tão azuis quanto a noite falou sorrindo. Seu cabelo era roxo, e essa era com certeza a prova de sua pobreza.
— Tinha outra garota com ela. – Ele disse seco.
— Por favor, ela não sabia de nada, eu juro.
— Own. – A garota se aproximou de mim. – Que bonitinha tentando proteger a amiga, mas você ainda vai morrer, querida.
— Sua vadia! – Falei tentando ir pra cima dela, porem mais uma vez foi uma ação falha.
— Que selvagem. – Ela disse sorrindo.
— Vá falar com a garota. – Ele ordenou a garota e soltou meu pescoço. – E você, não se preocupe, sabemos bem quem é envolvido e quem é inocente.
Uma morena de cabelos cacheados e curtos saiu de dentro da minha casa carregando uma pá, junto dela vinha um homem também moreno, mas de olhos claros e com riscos na sobrancelha.
Ela jogou a pá perto de mim e eu olhei com nojo.
— Primeiro você vai desenterrar todos os corpos. – Zef falou para mim. – Inspecionem o trabalho.
Ele disse aos outros dois.
— E depois? – Perguntei com medo.
— Faça o que mandei. – Ele respondeu sério, voltando para a cabana
— Vamos, vagabunda. – A morena disse pra mim. – Não me faça ter que te obrigar.
Ela sorriu de forma irônica.
POV Zef
Entrei na cabana novamente um pouco sem saber o que fazer com a outra garota.
Seven e Robin estavam encostados a mesa que minutos antes ela estava embaixo com a Alice Hasen, e ela continuava no chão com Bella parada em frente a ela.
— Só preciso que me diga seu nome. – Bela pedia calmamente.
— Seven, Robin. – Falei e eles me olharam. – Vão para dentro da casa ajudar Chris na contagem de corpos, chamem o Jacob. Bella vai ficar com a Barbie pra ter certeza que ela não vai matar a garota antes do tempo.
— Sim, senhor. – Os rapazes falaram saindo.
Bella se levantou devagar e veio pra perto de mim com seu olhar pidão.
— Quando a gente passou pela cozinha vi uma torta que parecia deliciosa, eu estava pensando se não... – Ela disse deixando a frase solta.
— Não. – Respondi seco.
— Zef!! – Ela falou manhosa. – Pela Giovana.
— No caminho de volta pra casa eu compro o que você quiser. – Sorri. – Só vá.
— Sim, chefe! – Ela falou assim como a Giovana falava.
Assim que ela saiu fui para perto da garota de cabelos castanho médio, ela estava agarrada as pernas e era possível ver seu medo. Toquei no ombro dela e a senti fria.
— Você pode me dizer seu nome? – Perguntei quase tão calmo quanto a Bella.
Ela levantou a cabeça e me encarou.
— Elena...
Eu sabia quem ela era, não por nome, mas sabia que era a garota da taberna.
— Então, Elena, você sabe o que está acontecendo? – Me sentei ao lado dela.
— Tenho uma ideia... – Ela disse baixinho.
— Se quiser eu posso explicar tudo depois. – A olhei. – Mas preciso que colabore comigo.
— Colaborar? – Ela sorriu nervosa.
— Venha comigo e o pessoal.
— E o que vai acontecer comigo?
Eu entendia as várias perguntas, mas não tinha tempo para isso.
— Olha, eu sei o que você deve pensar da Silent Assassins, mas não é bem assim.
Ela cruzou as pernas e respirou fundo.
— Quantos foram? – Ela falou de forma que eu não entendi.
— O que?
— Os Hasen... Quantos eles mataram?
— Em torno de 120 a 135 pessoas de 7 á 14 anos, alguns eles foram apenas mandantes. – Falei e ela pareceu sumir ainda mais em si mesma.
— Por que ninguém fala sobre essas crianças? – Ela disse com a voz fraca.
— São crianças pobres ou moradoras de ruas, a verdade é que ninguém liga para elas. O estado não liga. – Falei com um pouco de dor nas palavras frias.
Ela concordou comigo, mas a verdade é que parecia que ela estava voando.
— Vou pedir ao Seven e a Angel para te levarem para a base, tá? – Prossegui. – Amanhã pela manhã eu tiro todas as suas dúvidas.
E mais uma vez ela concordou, sem pestanejar ou se impor, apenas concordou. O choque a fez concordar.
Não muito depois dela ser levada a Alice terminou de desenterrar alguns dos corpos que não tinham sido incinerados, haviam apenas 12 corpos ali. O pior era isso não parecer atingir ela, ou machucar.
— Barbie. – Falei a morena que estava ao meu lado. – Escolhe uma cova.
Ela olhou para a garota soada cheia de sangue e terra e caminhou até um dos buracos sorrindo.
— Esse aqui. – Ela disse sorrindo. – Fede a merda, igual a ela.
— Para o buraco. – Falei a garota.
— O que? – Ela disse quase gritando.
— Tá surda? – Robin gritou atrás dela.
Não demorou muito até o choro voltar, mas mesmo assim ela entrou no buraco que cobria até a cintura dela.
— Eu sinto muito. – Ela dizia chorando. – Eu posso mudar, preciso apenas de uma chance. Eu tenho muito o que viver ainda.
Olhei para a Bella e ela se aproximou da garota.
— Essas crianças também tinham. – Falei seco.
— Uma vida de merda! – Ela gritou.
— Igual a sua. – Bella disse se abaixando e puxando a cabeça da garota para trás, isso facilitou para que a navalha cortasse a garganta dela.
Ela começou a tentar estancar o sangue, e foi apenas um segundo para Bela a puxar para trás, a fazendo ficar deitada no buraco se contorcendo de desespero.
— Enterrem. – Falei a Chris e Robin, que assim o fizeram.
— Ela merecia mais sofrimento. – Barbie falou ao meu lado.
— Ela foi apenas uma marionete do pai. – Respondi.
— Que por sua vez era marionete do rei. – Bella completou. – Ele sim, merece sofrer.
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