Show Me The Meaning Of Being Lonely.
2 1. Seu herói.
Notas iniciais
Entrou no quarto, suas mãos esfregavam seu braço pêssego, sentiu um tremor enquanto se adentrava mais, o quarto parecia sombrio, lúgubre.
Seus olhos esmeraldas esquadrinhava cada pequeno canto, procurando-o sentindo-se Sonic, perdido, ansioso. Não conseguia avançar muito, parecia preso ao chão, fazendo-lhe lembrar da vez em que ficara imponente contra o ataque de Black Doom, incapaz de ajudar Shadow em sua batalha solitária e, torcendo para que o ouriço negro fosse o vencedor da contenda.
Via sangue em seus lençóis, o cheiro de morte impregnada todo o canto, não havia ninguém ali, pelo menos não alguém vivo. Tremeu, seus olhos focados nas imagens em sua frente, carne destroçada, sangue destroçado.
Um soluço irrompeu sua garganta, dolorido.
Seu bebê, seus bebês.
Estavam mortos. Mutilados, despedaçados, impossíveis de serem salvos.
Gritou de dor e, ao levar as mãos ao seu rosto, para bloquear a visão da cena grotesca, sangue impregnada seus dedos, escorriam por seus pulsos, marcavam seu braço. Sangue... Muito sangue.
Olhou em choque para suas mãos, olhou como o sangue deles, seus filhos, impregnavam sua pele antes limpa, mas de aspecto doente.
Seus olhos se arregalaram, deu um passo para trás e lá estava, Shadow.
Ele não olhava-o com pena, com reprovação, com nada. Seus olhos eram órbitas vazias, negras, insensíveis. Não podia ver o olhar quente e aconchegante que sempre Shadow lhe dava. Apesar de saber que palavras doces não eram seu feitio, ele sempre estava ali e, quando caía, lhe oferecia as mãos para o resgatar de seus demônios internos e o protegia de si mesmo.
Mas aquele não parecia seu marido, seus olhos estavam faltando, o rosto não tinha expressão, jogado no chão como lixo para descarte, sem vida.
Gritou e com isso caiu ao chão, se empapando em uma poça de sangue.
Todos estavam mortos, sua família estava morta.
Perdeu tudo, estava só. Em agonia e nadando no sangue daquele que sempre esteve ao seu lado.
Se tornara um monstro.
Abriu os olhos de repente, o quarto escuro. Seu coração batendo com fúria, suas mãos tremiam e as lágrimas escorriam desenfreadas. Seus olhos aos poucos estavam se acostumando com a fraca luz ambiente.
O quarto estava quente, aconchegante. Ao seu lado, a respiração tranquila ia e vinha.
Estava tudo bem. Só um pesadelo.
Mas o medo deixava-o trêmulo, assustado.
Saiu da cama, estava quente demais, suava. Foi até a janela e, tomando cuidado para que não acordasse Shadow, abriu-a evitando fazer qualquer som que pudesse o incomodar, sentiu o vento fresco na pele suada, inspirou e o cheiro de chuva preenchia suas narinas, lhe confortando.
Se encostou na janela e olhou para o céu escuro, nublado. Não parecia uma visão depressiva, era como se o céu estivesse sabendo de seus infortúnios e queria demonstrar que algo o compreendia. Que não estava sozinho em sua tempestade interior, que tudo passaria e sua dor também se lavaria.
Mas não conseguia ter muita confiança nisso. Sua dor estava enraizada, intrínseca em seu ser. Gravada em sua carne, não superaria tão fácil e, sabia que não era o único, Shadow também sentia-se culpado, compartilhavam da mesma dor.
No começo tinha medo, um profundo medo que, por causa da sua incapacidade, acabasse afastando Shadow, era muito difícil tocá-lo sabendo muito bem que ambos tiveram perdas muito grandes, significativas, dolorosas.
Shadow lhe entendia, talvez até mais do que pensava. Estavam juntos a algum, mas parecia que era a vida toda. Não queria sentenciar seu marido a um casamento incompleto, cheio de cicatrizes e limitações.
E o ouriço negro, em nenhum momento, o desrespeitou. Manteve-se firme, solidário, companheiro.
Na saúde e na doença. Nos bons e maus momentos.
Sentiu algo quente em seus ombros, macio, fofo. Virou para trás e encontrou aqueles olhos vermelhos que eram seu porto seguro, agora cansados e sonolentos.
— Está frio. — Shadow explicou e, afagando sua testa cobalto por um momento, depositou um beijo nela. — Volte para a cama quando se sentir melhor.
Shadow lhe deu um dos seus raros sorrisos, aquecendo seu peito e fazendo com que se sentisse aquecido, calmo, protegido.
O ouriço negro voltou para cama e seus olhos se fecharam, passaram poucos minutos e ele já estava ressonando outra vez. Como se nunca tivesse sido perturbado.
Suspirou. Shadow parecia ter um instinto sobre como ele se sentia, seja desconforto ou angustia. Havia percebido que, embora o ouriço negro não fosse de muitas palavras, era muito observador e apreendia tudo ao seu redor. Aprendera a lidar com ele em uma velocidade impressionante, tudo graças ao seu olhar aguçado e seu modo diferente de ver as coisas.
Se abraçou ao cobertor que estava sobre seus ombros, sorrindo bobamente, como se tivesse ganhando um presente que tanto queria.
Foi para a cama, seu pesadelo esquecido, suas angustias esquecidas, seus medos haviam sido abafados.
Shadow estava ali. Consigo. Um apoio físico e moral para tudo.
Foi para sua cama e se deitou junto dele, a mão estendida para seu lado da cama sendo rapidamente tocada, a mão de Shadow se fechou na sua, seus dedos se entrelaçando. Ele não era o herói que todos queriam que fosse, mas era o seu herói pessoal.
Seu filtro dos sonhos, lhe dando pensamentos felizes.
Dormiu rápido, mais do que o costume, a mente tranquila. Aconchegou-se para perto inconscientemente, procurando o corpo e carinho que sabia que estava bem ali, ao seu lado.
E se esqueceu da janela aberta.
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