Notas iniciais
Recomendo ler o capítulo com essa música, vão por mim. https://www.youtube.com/watch?v=DcTC3qP1-pQ Ah, o capítulo pode conter gatilhos, por favor, por tudo que for sagrado, não lê estando mal. Boa leitura~

Sentia falta dos seus toques, da forma como ele lhe tocava como se fosse o artefato mais desejado e cobiçado de um colecionador.

Gostava da forma como ele tratava-o como se fosse o único, especial. Uma joia rara.

Por mais que soasse clichê, Shadow era muito mais compreensivo do que esperava. Não sabia quanto tempo seu relacionamento duraria, mas era confortável. Nunca se sentira forçado a fazer nada e, mesmo durante a gravidez inesperada em que colocou o companheirismo de ambos à prova, em nenhum momento houve dúvida sobre permanecerem juntos, embora as dúvidas sobre a gravidez fossem muito maiores e alarmante.

Também tinha o processo de aceitar quem era, seu corpo e tudo o que nunca soube sobre si mesmo. Mesmo se sentindo uma aberração, um ser alienígena, Shadow estava ali enquanto surtava sobre cada mínima mudança e quando o ouriço negro estava fora devido missões da GUN, ele nunca ficava desprotegido.

Não só seu relacionamento ganhou uma nova força, como também a relação com sua família que, mesmo Knuckles não compreendesse sobre o que ele era e até mesmo havia torcido a cara com a notícia da gravidez, era engraçado quando Sonic piscava-lhe, às vezes lhe mandando um beijo no ar.

Knuckles era só uma pequena parte dos seus problemas e, mesmo deixando claro que não achava certo dois homens em um relacionamento, não interferia no que Sonic fazia e nem mesmo tentava atrapalhá-lo, porque até mesmo o equidna, apesar da sua desatenção com detalhes, até mesmo percebia o quanto os dois se ajudavam, se completavam, se amavam. Apesar de ter uma espécie de hesitação quando se tratava de Shadow, passou a se acostumar com sua presença sempre constante e, depois da conversinha nada didática que tivera com Rouge, passou a integrar um universo que antes nem mesmo imaginava que existia.

Passou então a observar Sonic com mais atenção, percebendo que estava muito claro que o ouriço cobalto sempre fora daquela forma, nascera assim e era o mesmo ouriço que sempre batalhava consigo desde os tempos remotos, nada mudara, apenas a verdade se tornou clara.

Mês após mês, ficou visitando os dois, entrando mais em contato com Sonic, tentando entender coisas que não entendia e nesse tempo, seu medo instintivo por Shadow, se tornou uma admiração hesitante. O ouriço negro não expressava os olhares melosos dos filmes românticos, nem mesmo era insuportável estar no mesmo lugar que o casal.

Shadow era muito atencioso, mas de forma sutil, tanto que nem dava para perceber se estivesse conversando em um grupo de amigos. Sempre passava a mão pela cintura de Sonic quando se sentia tonto, oferecia carinho sempre que o ouriço cobalto pedia, suas mãos nunca deixaram de tocar seu corpo, seja o cotovelo para lhe ajudar a manter o equilíbrio, seja para simplesmente apoiá-lo em seu peito, sussurrando palavras baixas que o equidna não era capaz de ouvir, mas sabia que não era nada malicioso.

Demorou sim algum tempo até que conseguisse aceitar de verdade o que acontecia, aceitar que, Sonic mesmo sendo um intersexo, continuava sendo quem ele sempre conheceu e o carinho que sentia pelo ouriço ficou bem mais forte, porque ele respeitava sua hesitação, não forçava contato e deixava com que ele, o cara mais durão da turma, conseguisse se enturmar de verdade.

Até mesmo ajudava o casal recém-casado e pais de primeira viagem, mesmo sem nunca ter tido um contato mais íntimo com crianças dado a sua missão solitária na Angel Island.

E então... O acidente aconteceu e tudo mudou.

Foi quase a mesma sensação de uma bomba ter explodido, a destruição e a perda foram fortes. Mesmo com seu orgulho masculino forte e ter um orgulho teimoso, nem mesmo ele conseguiu segurar as lágrimas quando soube, não existia nenhum homem na face de Móbius que poderia ficar indiferente diante tamanha dor, tentou se convencer que mesmo que um tenha falecido, ainda havia a menina, mas isso não era desculpa e não conseguia levar aquele pensamento adiante.

Nada conseguia reduzir a dor, nada conseguia acalmar o coração de dois pais que perderam um filho, nada preencheria o vazio que se abrira em seus peitos, nem mesmo o mais potente remédio podia aplacar a dor que todos sentiam. Família, amigos, admiradores que torciam pelo casal.

O funeral foi a maior provação que Knuckles tivera que passar em vida. Nenhuma batalha se comparava com aquilo, não tinha nenhuma comparação para se apegar. Perdera seus pais tão jovem que mal se lembrava deles, teve que sobreviver sozinho em um lugar enorme e cheio de armadilhas. Nem mesmo um sobrevivente de uma raça lendária conseguia suportar aquela cena.

Principalmente por Sonic. Era a pior visão que ele já presenciou do ouriço.

O rosto abatido, doente. As olheiras profundas, o semblante cansado, desgastado. Não conseguia olhar para ele, parecia um reflexo tenebroso de quem antes era tão vivo, tão energético.

Ele parecia morto.

Shadow era o alicerce, mas dava para ver que a dor era maior, mútua. Ele segurava a recém-nascida em um dos braços e com o outro apoiava seu esposo, a expressão era vazia, mas em seus olhos, podia ver o reflexo de quem quase perdeu o marido junto com o filho em uma cirurgia emergencial arriscada. Parecia um quadro de desolação, sua garganta apertava só de ver a cena.

Sonic teve uma crise enquanto flores eram jogadas no caixão mínimo, chorava, não conseguia se manter de pé, só não começou a se debater, porque Shadow tinha um aperto firme em seu corpo, como se estivesse tentando juntar seus pedaços.

Rouge veio ao resgaste, segurando a pequena ouriça enquanto Shadow ajudava Sonic, abraçando-o apertado. Sem demonstrar nenhum sinal de dor enquanto era espetado pelos espinhos afiados.

Knuckles não aguentava mais assistir aquilo, se aproximou dos dois e, mesmo que estivesse ainda hesitante, abraçou ambos os pais, amparando-os enquanto o túmulo era lacrado.

A dor tornava todos iguais, mobians, overlanders, seja qual for sua orientação de gênero ou sexualidade. Ninguém era diferente naquele momento.

— Eu estou aqui, Sonic. Shadow. — Foi a única frase que saiu de seus lábios, mas era muito mais que o suficiente, não precisava de mais.

E então, depois daquele dia, o equidna viu Sonic uma única vez.

Estava indo para a casa que eles compraram, principalmente porque Rouge pediu, ela não podia ir porque estava precisa em uma missão de última hora e não tinha ninguém que podia ir naquele dia, até mesmo Amy estava ocupada e Cream ainda era uma criança, não podia cuidar de um bebê sozinha, seria pedir demais dela, mesmo que ela fosse bastante entusiasta e estivesse animada com a ideia, inclusive estava junto com o equidna.

Quando chegou na casa, a porta estava escancarada, como se algo a tivesse aberto às pressas. Uma sacola de compras jogada no chão. Subiu com pressa, gritando para Cream ficar no primeiro andar, ouviu vozes, Shadow estava falando rápido, urgente. Algo parecia ter dado errado, seus ouvidos doíam com o grito de uma criança chorando, era alto, exigente e por um momento pensou que algo estava errado com Bernie, o apelido que as meninas deram para a pequenina, desde que Shadow a registrou como Maria Bernadette.

O quarto estava vazio, mas podia ouvir o som vindo do quarto do casal, bem sutil, longe do som do chorinho protestante do bebê, tinha o som de um chuveiro. Correu para lá, imaginando que talvez eles tivessem tido uma discussão, mas o que explicava a correria de Shadow? Nada aconteceu com a bebê.

Então ele viu, quando entrou na suíte com a porta aberta.

E ele desejava não ter presenciado.

Havia muito sangue, as paredes estavam manchadas de sangue. O chuveiro estava aberto, Shadow estava abraçando Sonic, conversando com ele. Então baixando o olhar, viu a razão do sangue... Seus pulsos tinham cortes, profundos. A faca estava jogada em um canto isolado, longe dos dois e não precisava pensar muito para ter certeza de que fora o ouriço negro que a chutara para aquele lugar, longe para que se tornasse um problema, de novo.

Ficou parado em frente a porta, em choque. Não queria acreditar em seus olhos, não podia acreditar em seus olhos!

Sonic estava muito mal, a ponto de colocar em risco sua própria vida.

Shadow pegou o ouriço em seus braços, não se importando se estavam molhando, a roupa de Sonic colada em seu corpo, o sangue escorrendo pelo ralo. O ouriço negro percebeu sua presença quando se virou, Sonic estava desperto, mas seu rosto estava horrível, sua expressão retorcida em um choro sem soluços, mas mãos fracas em seu colo enquanto era carregado por seu marido.

— Cuide dela. — A voz rouca de Shadow denunciava sua dor, seu choque. Em um clarão de vermelho quase cegante, o ouriço ébano provavelmente levando-o para um hospital. Balançou a cabeça, tentando esquecer a imagem em sua mente e pegou a faca, abriu a torneira e a lavou com o sabão liquido que tinha ali.

Desligou o chuveiro, tentando se esquivar dos pingos e limpou o lugar, se certificando de que nenhum resquício. Não fez nada que não queria ter feito, nem cobraria isso a Shadow. Não era um babaca de fazer isso. Ele viu com seus próprios olhos o quanto Sonic não estava bem, pensou erroneamente de que o ouriço superaria o incidente, não como magia, mas que se permaneceria forte para cuidar do outro pedacinho dele que sobrevivera.

Se engara, mas quando ele não errava em seus julgamentos? Estava sendo estupido pensando que Sonic levaria aquilo como sempre levou com a vida. Quem ele pensava que o ouriço era? Um insensível? Ele gerou aquelas vidas. Mas nunca pensou que o desespero poderia ter tão forte. Nunca vira antes aqueles dois naquele estado.

Era a primeira vez que estava indo visitar o casal depois do parto, primeiro porque Shadow levava as instruções dos médicos de evitar visitas, para não perturbar a recém-nascida e também Sonic, que estava passando pelo pós-parto e também de luto pela recente perda.

Foi naquele momento que ele entendeu a razão de Shadow não aparecer mais nas rodas de amigos, nem mesmo Sonic apresentou oficialmente sua bebê aos amigos, as visitas no hospital foram muito raras e fora Rouge, nem mesmo Amy e sua insistência conseguira fazer com que o ouriço negro cedesse aos desejos dela de ajudar com os cuidados de Maria, mesmo que ela usasse o argumento de ambos serem homens e não entenderem tanto sobre meninas como ela.

Tudo parecia se encaixar. Ao mesmo tempo em que o deixava confuso. Estava tão perdido em pensamentos que não percebeu que Maria não estava mais chorando, o silêncio era perturbador. Era como se a menina estivesse tentando gritar por socorro, implorando para que alguém ajudasse Sonic, que alguém o protegesse de si mesmo.

Sonic não podia ficar sozinho. Shadow tinha medo do que aconteceria se ele não estivesse ali. Seus medos infelizmente se concretizaram. Saiu do quarto fechando a porta, como se assim trancasse a cena grotesca e com a faca em mãos, correu até a cozinha, escondendo-a em algum lugar, longe da visão dele e do casal.

Cream não estava na sala, a porta estava fechada, a sacola de compras que estava jogada no chão, estava em cima da mesa de jantar, era óbvio quem arrumou a bagunça deixada por Shadow em seu alvoroço para procurar o que poderia estar errado.

Knuckles subiu as escadas, mais calmo, mas seu coração ainda acelerado, assustado.

Entrou no quarto de Maria e encontrou uma cena que aqueceu seu peito, apesar do que acabara de ver. Cream conseguira pegar a pequena e estava ninando-a em seus braços, Cheese segurava a mamadeira dado que a coelha não conseguia segurar o pequeno embrulho com só uma das mãos. A garotinha cantarolava para a bebê.

Quando ele chegou perto, Cream lhe sorriu e estendeu o embrulhinho em direção a Knuckles, que sem jeito, pegou a bebê em seus braços. Os olhinhos fechados ainda, as mãos frágeis e pêssego estavam se mexendo para o que não podia ver.

Era uma vida inocente, uma nova vida. Tirou sua luva, desde que era anti higiênico e sabia que Shadow ficaria muito enraivecido se sua filha contraísse alguma doença, com ajuda de Cream, passou álcool em sua mão e acariciou a testinha da pequena, em um carinho desajeitado, constrangido.

— Eu sei que sou meio bobão. — Falou para a pequena que estava abrindo e fechando a boca, sem emitir sons, pelo menos não estava chorando. Mas fazia uma pequena careta, talvez o choro a tivesse incomodado, nova demais para entender sobre o mundo. — Mas seus papais precisam muito de ajuda, sabe? Vamos ajudar seus papais. — Falou com uma voz boba que vira pais falando com bebês, mesmo sendo mais constrangedor com o fato de que tinha plateia.

Aquela foi a última vez que vira Sonic. Mas nunca deixou de visitar a casa, Shadow lhes explicara que o melhor era deixar com que o ouriço azul se sentisse melhor, mas que eram livres para visitar quando quisessem, desde que não fizessem barulho e não o incomodassem.

Presenciou Sonic se tornando um recluso, Shadow sua única companhia, desde que não podia deixar o marido sozinho, não mais.

Nunca mais Sonic ficou sozinho.

Mesmo que sempre achasse que nunca veria seus amigos novamente.

Essa foi uma das provações de Knuckles.

E a mais importante.

Tanto que ver dois homens juntos se tornou algo tão insignificante.

Notas finais
Amo the GazettE, fazia tempo que eu não ouvia nada deles, sdds. Dá aquela forcinha galero, escrever Cure é difícil também.