Shiver
99 Capítulo 99
Notas iniciais
Do lado de fora das janelas, a noite já era alta; a lua quase cheia, as estrelas muito brilhantes apesar do vento que ameaçava soprar mais forte. Selena trocara seu vestido por uma camisola fina e delicada, escondida no momento por seu robe vermelho pesado, e se sentia cansada depois do funeral, depois de ter passado o restante da noite se certificando que tudo estava preparado para sua partida na manhã seguinte, e parte sua não gostaria de ir se deitar, como se assim fosse ser capaz de evitar que as horas passassem e que o dia raiasse.
Parte sua queria algo inteiramente diferente. Ela olhou para onde Morzan estava sentado, descalço de frente à sua escrivaninha, girando devagar a haste de seu cálice de vinho entre os dedos longos, e ele havia estado lendo alguns relatos e relatórios sobre como os eventos dos últimos dias haviam sido recebidos pela corte e ao redor do Império, teoricamente, exceto que ela não o via virar uma página que fosse já há algum tempo.
Aproximou-se devagar, o tocando primeiro no braço e então apoiando os antebraços sobre seus ombros para vê-lo de cima, e lhe ofereceu um sorriso pequeno quando ele ergueu o rosto de volta para ela. “No que está pensando?” perguntou, ouvindo a própria voz muito baixa.
A luz das lanternas trazia reflexos alaranjados para seu cabelo escuro e mudava um pouco o tom de seus olhos díspares. Morzan ergueu as das mãos para entrelaçar os dedos nos dela, algo de reflexivo ainda em sua expressão, e demorou-se a responder. “Aleifar,” ele disse, então. “Alexis. Formora. O que acontecerá a partir de agora.” Uma pausa curta. “Já está indo se deitar?”
Como se ele não houvesse nem mesmo percebido o tempo passando. Selena esticou os dedos de sua mão livre, o tocando na linha da clavícula, e então no pescoço exposto, e sentiu o momento em que ele engoliu em seco. “Estive esperando que você me acompanhasse.”
Morzan só sorriu de leve para aquilo, quase como se achasse graça. “Se você está pedindo,” concedeu, tão gracioso, se pondo então de pé em um movimento fácil apenas para puxá-la mais para perto, uma mão em sua cintura e a outra afastando uma mecha de seus cabelos castanhos para atrás de uma orelha. “Mas e você, Sel? Esteve pensando sobre amanhã?”
Ele a conhecia bem demais. “Estive tentando enfrentar um dia de cada vez,” Selena respondeu, desviando um pouco o olhar, a confissão não mais alta do que um sussurro. Apoiou uma mão em seu peito, sentindo os padrões bordados em sua camisa escura e também o subir e descer estável de sua respiração. “Mas cada novo dia parece um desafio maior, de alguma forma. Eu gostaria de poder ficar.” Ergueu os olhos para ele, e não estava lhe pedindo nada naquele momento, na verdade. “Vou sentir sua falta.”
Morzan devolveu seu olhar como se de alguma forma entendesse. “Vamos nos falar sempre que pudermos,” ele prometeu, traçando uma carícia sobre sua bochecha com o polegar. “Eu realmente acho que estará mais segura dessa forma, Sel, e você vai ter com o que se ocupar. O tempo vai passar mais rápido do que você imagina, e logo você estará de volta. Você vai ver.”
Selena abriu um sorriso pequeno e só um pouco contrariado. “Não, eu sei. E eu não quero pensar sobre amanhã,” acabou por pedir, encolhendo de leve os dedos da mão que tinha sobre sua camisa. “Ainda é hoje à noite, e hoje à noite eu estou aqui.”
“Hoje você está aqui,” Morzan repetiu, como se concordasse por inteiro, e se aproximou para beijá-la.
Devagar, no começo, e tão suave. Selena suspirou contra seus lábios, erguendo uma mão para tocar seu cabelo escuro, e era familiar e libertador ao mesmo tempo — um retorno ao que havia de mais antigo entre eles, de alguma forma desembaraçando os acontecimentos dos últimos dias e permitindo, finalmente, que eles passassem por eles e os deixassem para trás. A respiração de Morzan contra sua pele quando ele se afastou um quase nada, sua testa contra a dele, seus narizes mal se tocando.
E então ele abaixava os olhos para vê-la por inteiro, traçando o contorno de seu robe vermelho com os nós dos dedos até chegar nos cordões dourados que o prendiam ao redor de sua cintura. Desfez com facilidade o nó frouxo que Selena atara mais cedo, deslizando então o tecido pesado por seus ombros para que caísse ao chão, e a camisola fina que ela vestia por baixo fazia um trabalho muito pior de esconder seu corpo.
Algo de mais escuro em seu olhar, mas Selena não lhe deu muito tempo para apreciá-la. O puxou para perto mais uma vez, erguendo o rosto para beijá-lo de novo, esgueirando também uma mão sob sua camisa, esticando os dedos para conseguir tocar melhor a pele morna de sua cintura, de suas costas. Se perdeu um pouco na forma como ele usava uma mão para pressioná-la contra si, como se fosse impossível tê-la próxima o suficiente, mas também em como seus movimentos eram ainda um pouco lentos, como se tivessem todo o tempo do mundo. Lembrou-se da forma como ele a abraçara, duas noites antes, e era como se os eventos se estendessem e se misturassem.
Foi Morzan quem acabou tirando a própria camisa, apenas para descartá-la com facilidade e certo descaso. Trouxe então uma mão para tocar o rosto de Selena, alguns dedos se enroscando em seu cabelo castanho comprido, e o polegar sobre sua bochecha e então contra seu lábio inferior. “Eu acho...” ele começou, e então deixou que sua voz morresse, sacudindo a cabeça como se houvesse perdido o rumo de seus pensamentos, ou talvez como se só achasse desnecessário dizê-los em voz alta.
Desceu de novo o olhar, tocando com a ponta dos dedos compridos o colar que ela usava — o pendente de rubi e diamante que ele lhe dera tanto tempo atrás e que a ligava a ele também por meio de magia, que a protegia sempre e onde ela guardava sua reserva de energia —, algo de indecifrável em seu rosto. A forma como ele encontrou seus olhos antes de beijá-la novamente, primeiro seus lábios contra os dela, e então descendo a linha de seu maxilar, em seu pescoço, o rosto de Morzan escondido em seu cabelo, e ela já se perdia nele um pouco.
Os dedos de Morzan encontraram a gola de sua camisola, a afastando de leve para que ele pudesse também beijar o começo de seu ombro antes de empurrá-la para baixo de verdade, o tecido leve caindo ao redor dos pés de Selena. Ela se encolheu um quase nada contra ele ao sentir o ar noturno tocar sua pele, uma mão ainda em seu cabelo escuro, a outra explorando seu abdômen, e não se surpreendeu de todo quando ele a parou, os dedos ao redor de seu pulso para segurá-la no lugar.
Morzan deu um passo para frente, e então outro, fazendo com que Selena recuasse também, e ela se deitou sobre a cama sem que ele precisasse lhe dizer qualquer coisa, lhe dar qualquer instrução. Os cobertores eram muito macios contra seu corpo, o quarto de Morzan infinitamente familiar e seguro, e ainda assim a forma como ele se aproximava ainda era capaz de fazer com que a respiração de Selena ficasse presa em sua garganta, a antecipação impossível suspensa no ar.
Ele se ajoelhou sobre ela, apoiando os braços no colchão, seus cabelos escuros caindo para frente e emoldurando seu rosto, e Selena precisou erguer uma mão para tocar sua bochecha, traçar a linha de seu maxilar. De perto assim, conseguia estudar também seus olhos — os cílios pretos e a diferença de cores de uma íris para a outra, e as pessoas às vezes achavam difícil sustentar seu olhar, ela sabia, mas só porque nunca o haviam tido olhando para elas daquele jeito.
Ele talvez fosse sentir sua falta também, Selena supunha. Suspirou baixo quando Morzan se abaixou para beijar seus lábios, seu pescoço, seus seios e o vale entre eles, descendo por sua barriga e pela linha de seu quadril, e ela já tinha a respiração mais rasa, mais desesperada, porque sabia o que viria a seguir. Abaixou os olhos para vê-lo correr as mãos por suas pernas para posicioná-las exatamente como queria, e ele encontrou seu olhar ao levar os lábios para a pele macia junto a seu joelho, para a parte interna de sua coxa.
“Morzan...” ela tentou, sua voz mais baixa e mais fraca, e ele sorriu.
Levou a boca a ela de verdade, daquela vez, certamente percebendo o modo como ela sugou a respiração em um movimento irregular, como seu corpo se contorceu um pouco onde estava, e não era sempre que ele fazia aquilo. Mas fizera naquela primeira noite em Carvahall, e fazia às vezes quando estava particularmente satisfeito, ou quando parecia querer marcá-la de alguma forma — recompensá-la, talvez, mas não havia sido esse o motivo na primeira vez e não era esse o motivo agora, Selena sabia. Era algo ao mesmo tempo pensado e impulsivo, não inteiramente divorciado da forma como ele olhara para ela momentos antes, de sua partida no dia seguinte e de como ele a puxara contra si naquela noite.
Ela tentou se conter, de início, mas sua respiração saía em gemidos baixos e então mais altos, e precisou apenas tocá-lo no ombro para que Morzan estendesse uma mão para entrelaçar os dedos nos dela, a prendendo contra o colchão e sem parar por um instante o que fazia. Selena levou sua mão livre a ele, enroscando seus dedos em seu cabelo escuro comprido com cuidado para não puxar com força demais, mas sabendo também que ele não se importaria, de verdade, quando acontecesse.
Entregou-se a Morzan porque não tinha outra escolha — fechando os olhos para sentir melhor o toque de seus lábios, de sua língua, ao jeito como ele parecia esquentá-la de dentro para fora, as sensações todas crescendo e se intensificando. A mão que ele ainda tinha redor de sua coxa, a forma como seu cabelo comprido às vezes roçava, tão leve, contra sua pele, o jeito como ele parecia saber provocá-la para que ela se perdesse por completo, se equilibrando na beira de um precipício infinito e maravilhoso.
Impossível também que ele tivesse qualquer misericórdia, mesmo quando os gemidos de Selena se tornaram mais e mais altos, seu corpo se arqueando na cama, incapaz de dar vazão àquela sensação tortuosa e desesperadora, e até o momento em que ela gritou, fincando as unhas contra as costas de sua mão, puxando seu cabelo com força, o próprio corpo inteiro trêmulo.
Morzan se afastou apenas para se aproximar novamente, cobrindo seu corpo com o dele, tão próximo e também nem de longe tão próximo quando ela precisava naquele instante. Abaixou o rosto para beijar seu pescoço, seu rosto, e talvez estivesse lhe dando algum tempo para se recompor, para que sua respiração se acalmasse um pouco; algo de muito satisfeito na curva de seu sorriso.
Ele ainda estava parcialmente vestido, Selena sabia, ainda absurdamente usando suas calças pretas. Ela ergueu uma mão para tocar seu cabelo, seu rosto, e não se surpreendeu de todo quando ele beijou sua palma também, os olhos nos dela — pacientes, quase, mas tão escuros.
Foi Selena quem estendeu uma mão para puxar os cordões que prendiam sua calça no lugar, desfazendo a amarra com facilidade, e Morzan se ergueu para se despir por completo. Voltou à cama com facilidade, já erguendo uma das pernas de Selena com uma mão ao se debruçar novamente sobre ela, a direcionando para que se enroscasse ao redor dele.
Ela deixou o ar escapar entre lábios entreabertos ao senti-lo penetrá-la, finalmente, seu gemido prolongado e quase silencioso, daquela vez. Morzan não lhe deu muito tempo para se acostumar, mas se abaixou para beijá-la ao começar a se mover, permitindo que ela passasse os dois braços ao redor de seu pescoço, as mãos em seu ombro, sobre sua cabeça.
Certa urgência em seus movimentos desde o começo, como se ele mesmo liberasse algo que vinha trazendo contido em si, como se Morzan precisasse dela tanto quanto Selena sentia precisar dele naquele momento. A mão que ele tinha em sua coxa, e a outra com que ele segurava seu rosto, seu pescoço, descia para tocar seus seios e então subia de novo.
O ritmo enlouquecedor dos movimentos de seu quadril, e Selena já começava a se perder novamente, tomada pela forma como ele parecia sempre acertá-la onde ela mais queria, distraída por seu toque e pelo som errático de sua respiração.
“Sel,” ele chamou, quase incompreensível, escondendo o rosto em seu cabelo para beijar seu pescoço, o começo de seu ombro. O toque suave de seus lábios, e então ela sentiu também seus dentes, a mordida forte o suficiente apenas para provocá-la, apenas para destrancar algo fundo dentro dela.
Selena gritou, se arqueando sob ele e fincando as unhas em seus ombros, em suas costas, prazer tomando conta de seu corpo em ondas enquanto Morzan continuava a se mover — as estocadas rápidas e mais desesperadas, quase erráticas, o som baixo que às vezes escapava de seus lábios, e ele estava perto, também.
Ele subiu uma mão por seu braço, o erguendo acima da cabeça de Selena e o prendendo contra a cama novamente, os dedos entre os dela. A outra mão em seus seios, sua cintura, a apertando com força, e deixaria marcas vermelhas em sua pele depois.
Uma estocada forte, e outra, e então ele se desfez dentro dela, a testa apoiada contra seu ombro, sua respiração rasa fazendo cócegas em sua pele. Selena acariciou sua pele com o polegar na mão que ele ainda segurava, e levou a outra a seus cabelos escuros, correndo os dedos pelos fios tão macios, um pouco úmidos de suor nos pontos mais próximos a sua nuca, a sua testa.
Ela queria beijá-lo novamente, mas não o alcançaria tão bem quando ele tinha a cabeça baixa daquela maneira. Tocou seu rosto com as pontas dos dedos, então, e Morzan lhe ergueu o olhar como se de alguma forma entendesse. “Sel,” ele disse, de novo, agora sorrindo um pouco, e se aproximou para beijar seu rosto, seu queixo, e finalmente seus lábios, sua respiração ainda acelerada.
Selena acariciou seu pescoço, suspirando baixo ao senti-lo se afastar, e sentiu que de alguma forma ele a marcara de fato. Que aquela noite a sustentaria por algum tempo, mesmo à distância, e que ela não a esqueceria tão cedo; com alguma sorte, serviria de conforto e daria suporte a Morzan, também.
Ele se sentou na cama, erguendo os cobertores para ela e Selena se deitou sob eles com facilidade, esperando apenas que Morzan se juntasse a ela para que pudesse se aninhar contra seu corpo. Enroscou as pernas nas dele, como se não pudesse estar próxima o suficiente, e fechou os olhos por um instante ao senti-lo beijar o topo de sua cabeça, seu toque muito leve.
“Eu também vou sentir sua falta,” ele disse então, a voz tão baixa que Selena mal conseguiu distinguir suas palavras. Algo de mais distante em seu tom, porém, e ela ergueu a cabeça para poder ver seus olhos.
Não soube decifrá-los por completo. “Vamos nos falar sempre que pudermos,” Selena respondeu, ecoando o que ele lhe dissera mais cedo, e ele sorriu um pouco para isso.
“Vamos,” Morzan confirmou, quase uma promessa. Um carinho impensado contra o ombro de Selena, e ele ainda a mantinha muito perto. “Tente dormir, Sel. Eu não vou a lugar nenhum.”
Ela realmente viajaria cedo na manhã seguinte. Aninhou-se contra ele novamente, apoiando a cabeça em seu ombro, sentindo-se segura o suficiente naquela cama morna para que se permitisse dar espaço à sonolência que ameaçava tomar conta de seu corpo. Protegida pelo braço que ele mantinha ao seu redor, pelos dedos que traçavam círculos em sua pele, e esperava apenas que Morzan conseguisse também descansar um pouco.
Silenciou a parte sua que sabia que era possível que não, que era possível que ele permanecesse desperto a noite inteira, os olhos abertos e distantes no quarto escuro, e adormeceu em seus braços, ao som de sua respiração baixa e estável.
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