Shiver
98 Capítulo 98
Notas iniciais
O final da tarde se aproximava rapidamente, tingindo o mundo inteiro de dourado, e as campinas ao redor de Urû’baen eram estranhamente bonitas, estranhamente pacíficas, vistas de cima da rocha que se sobrepunha à cidade. Era estranho também estar ali de novo, tão cedo depois de tudo o que acontecera, mas mais ainda porque o espaço agora não estava mais vazio; em vez disso, o ocupavam agora os nobres da corte de Galbatorix, solenes e vestidos de preto, suas vozes baixas.
Selena se sentia, também, bastante sozinha, por mais que estivesse cercada de pessoas. Observava de longe as duas piras altas de madeira e os corpos sobre elas, cobertos tecidos finos, preto e prateado; não havia sinal dos corpos de seus dois dragões, mas talvez fosse apenas por motivos práticos — porque não seria viável cremá-los na frente de todos, ou porque, simbolicamente, aquele pudesse ser um símbolo de perda ainda pior para o rei e seus Treze Servos.
Eles estavam distantes, organizados em um semicírculo junto às piras. De um lado do rei, Morzan e Alexis; ele vestindo negro, desde seu gibão e suas calças à capa que pendia de seus ombros, e ela também de preto, embora seu vestido fosse decorado por bordados em ouro e prata que se entrelaçavam em suas saias e sobre seu corpete. Ela tinha também um véu escuro e liso cobrindo parte de seus cabelos loiros, e, sem tê-la visto de perto, Selena não tivera a oportunidade ainda de examinar seu rosto e conseguir algum vislumbre sobre o que ela poderia estar sentindo ou pensando.
Do outro lado, os elfos. Enduriel com seus cabelos escuros e olhos muito azuis; Kialandí, cuja postura não dava real indicação de que ele houvesse estado presente durante o duelo de Fäelan e Aleifar ou mesmo que houvesse sofrido qualquer represália ou repreensão do rei depois disso; e Formora, como sempre, vestindo calças, os cabelos ruivos parcialmente trançados e as mãos juntas atrás das costas, séria e régia.
A própria Selena estava bem mais para trás. Se encontrara entre Georgei e Dorian, uma posição que ela entendia e de que também se ressentia um pouco, porque preferiria estar junto de Morzan em um momento como aquele, não relegada a um posto distante junto ao restante dos companheiros dos Treze. Mas não tinha realmente qualquer direito de reclamar, e não queria conversar com os dois homens ao seu lado tampouco, então apenas desviou os olhos para o horizonte para observar o sol se pôr e a maneira como os céus aos poucos se tingiam de rosa, laranja e vermelho.
Era um pouco como se o mundo estivesse acabando.
Galbatorix só começou a falar quando o ambiente estava um pouco mais escuro, mas antes da noite cair por completo. Era sempre fascinante ouvi-lo discursar, e ele tinha mesmo uma voz absurdamente persuasiva e cativante ao relembrar sua ressurgência contra a ordem dos cavaleiros de dragão e sobre os treze cavaleiros que ousaram se colocar ao seu lado, mas Selena logo se descobriu incapaz de acompanhar o que ele dizia, as palavras perdidas no crepúsculo.
Ela acabou por abaixar os olhos, imersa demais nos próprios pensamentos. Notou, a alguns metros de distância, longe de onde os nobres se reuniam, o ponto em que dezenas e dezenas de insetos deixavam um buraco minúsculo no chão para alçar seu primeiro voo, a prova viva de que o verão realmente avançava, e ela já os vira antes em Carvahall, também. Uma conexão inesperada com sua vida antiga, e um lembrete de que, em algum lugar, todas as pessoas com quem ela crescera ainda existiam, ainda viviam, e o que seu pai e seu irmão estariam fazendo, em um momento como aquele?
Selena precisou engolir em seco, e então deixou o ar escapar devagar por entre os lábios. Tentou se centrar, e então ergueu os olhos, sobressaltada com a iluminação abrupta lá na frente, e é claro que seriam os dragões a acender as piras.
Eles as assistiram queimar pelo que se pareceu com horas, mas foi só depois, quando os nobres reunidos começavam a lentamente de dispersar, que ela ouviu a voz de Georgei ao seu lado. “Ela se recusou a me receber,” ele disse, e era fácil entender que falava de Alexis. “Não a vi uma única vez nos últimos dias, e hoje ela mal olhou para mim.”
Selena se voltou para ele sem saber o que lhe dizer, porque o irmão gêmeo de Alexis acabara de morrer, e porque ela se lembrava também da forma como Alexis não parecera se perturbar quando Georgei quase dera sua própria vida para proteger a ela e a Selena — mesmo que desnecessariamente —, e da forma leve e casual como ela costumava falar sobre ele.
Felizmente, Dorian o respondeu antes que ela tivesse a chance de fazê-lo. “Faz parte do nosso papel ao lado deles,” foi o que ele disse, daquela forma distante como sempre falava. “Parte da honra que nos foi dada quando recebemos a oportunidade de aproveitar da companhia de alguém assim, vem com a consciência de que eles estão vivos desde muito antes do nosso nascimento, e perdurarão por muito tempo depois que nos formos. Em momentos assim, é normal que queiram distância. É possível que a Senhora Alexis não volte a chamá-lo, mas você deve se sentir grato pelo tempo que ela já lhe dedicou, no passado, de qualquer forma.” Uma pausa curta. “Acho que a Senhora Selena deve entender, e até mesmo ter sentido algo similar a respeito de Lorde Morzan nos últimos dias.”
Ela se voltou para ele, observando seus olhos azuis claros, e pensou na forma como Morzan a abraçara quando voltara para a torre depois de tudo, a puxando contra si como se ela não pudesse estar perto o suficiente. Pensou na forma como ele permitira que ela dormisse em sua cama mesmo que tudo o que ele houvesse feito a noite inteira fosse ter se sentado contra a cabeceira, os olhos díspares atentos no quarto escuro, e os dedos longos traçando círculos sobre o ombro de Selena, correndo por seus cabelos.
“É claro,” ela mentiu, ouvindo a própria voz muito distante. E então, “Se me derem licença, meus senhores.”
Afastou-se antes que eles tivessem a chance de responder, fazendo o percurso oposto dos nobres que aos poucos deixavam o local, e era impossível não notar a forma como Morzan e Alexis estavam parados próximos um do outro, mesmo agora. Antes, ela havia até mesmo chegado a encostar o rosto em seu ombro, e, se no passado Selena talvez houvesse sentido ciúmes daquela proximidade tão óbvia, atualmente ela apenas se sentia grata que eles pudessem, de alguma forma, ser um conforto um para o outro.
Não havia nada que ela pudesse dizer, mas ela tentou mesmo assim. “Minha senhora,” e não era nunca capaz de ler o rosto de Alexis quando ela se voltou em sua direção. “Eu sinto muito sobre sua perda.”
Alexis tinha os olhos ligeiramente avermelhados, assim como a ponta de seu nariz, e ela devolveu o olhar de Selena por um instante longo, como se estivesse dividida sobre como lhe responder. Mas, no final, não precisou, pois foi outra voz feminina que falou.
“É um desperdício,” e era Formora, é claro. Inabalada e impassível, impossivelmente bonita com sua capa escura se movendo levemente no vento, faíscas alaranjadas flutuando e subindo aos céus ao seu redor. “E uma tragédia para todos nós.”
Alexis se voltou para ela em um movimento lento, e eram obviamente ódio e rancor em seu rosto, seus olhos verdes mais duros do que Selena jamais havia visto. “Não pense por um instante,” ela disse, a emoção cristalina em sua voz, “que eu não sei ou que eu esqueci a parte que você e Kialandí tiveram nessa situação. Não tenho qualquer desejo em ouvir suas palavras vazias, e vou vê-los pagar por isso, mesmo que tenha que dedicar minha vida inteira a esse objetivo.”
Ela se afastou, então, na direção de seu dragão, sem nem mesmo um último olhar na direção de Selena ou Morzan; mas Formora não pareceu impressionada ao vê-la ir, a observando por um momento curto antes de se voltar para Morzan.
“Um desperdício de fato,” repetiu. E então continuou, “E isso muda as coisas. Não acha?” Mas quando Morzan se limitou a sustentar seu olhar, sem parecer ter qualquer intenção de respondê-la, Formora apenas sorriu de leve, dando já um passo para trás. “Talvez seja cedo demais. Pense sobre isso.” Seus olhos afiados se voltando para Selena, finalmente, e ela inclinou a cabeça muito brevemente em sua direção. “Senhora Selena.”
Selena a observou ir também, percebendo a facilidade com que a elfa subiu em seu próprio dragão e então a forma como ele abriu as enormes asas amarronzadas para alçar voo e descer em direção à cidade. Com as sobrancelhas ligeiramente franzidas, ela voltou o rosto na direção de Morzan e perguntou, “O que ela quis dizer?”
“Exatamente o que ela disse,” ele respondeu. Estendeu uma mão para entrelaçar seus dedos nos de Selena, afagando sua pele antes de puxá-la para perto, passando um braço ao redor de sua cintura e plantando um beijo demorado sobre sua cabeça. Um instante longo, e outro, antes que ele chamasse, “Vamos também?”
À frente dos dois, apenas brasa e cinzas.
Selena fez que sim com a cabeça, e permitiu que ele a puxasse para longe.
Fale com o autor