Shiver
9 Capítulo 9
Notas iniciais

Selena acordou para várias sensações diferentes – a brisa gelada acariciando seu rosto, cobertores de pele muito macios tocando sua pele exposta, e um contentamento cuja fonte ela não saberia apontar – e por um instante se sentiu desorientada, sem reconhecer o teto de pedra clara acima ou os móveis intrincados do quarto onde estava. Então viu Morzan parado diante da janela aberta, observando a cidade adormecida. Ele estava usando apenas as calças de couro, mas seu torso exposto não mostrava nenhum sinal de desconforto. Selena se sentou, apoiando as costas nos travesseiros encostados na cabeceira, e puxou os cobertores o queixo para se proteger do vento. “Não está com frio?” perguntou.
Morzan se virou para ela, dando as costas para a janela. “Eu gosto do frio,” respondeu. “Está acordada faz tempo?”
“Não, acabei de acordar.” Selena hesitou, correndo os olhos por ele, então pediu, “Se importa de fechar as janelas?”
Ele a estudou por um instante antes de aquiescer, fechando também as pesadas cortinas vermelhas, e andou até a cama para se sentar do lado de Selena. “Estive pensando sobre você.”
“Sobre mim?” ela repetiu, tentando decidir se aquilo era algo bom ou ruim.
Morzan assentiu, correndo os nós dos dedos por sua perna por cima do cobertor. “Quando falei com você em Carvahall, foi em parte porque você me reconheceu e eu achei que poderia me ajudar, e em parte porque queria levá-la para cama.”
Selena ergueu as sobrancelhas. “Obrigada,” disse, a voz seca.
Ele riu baixinho, sacudindo a cabeça. “O ponto é, em nenhum momento planejei trazê-la comigo.”
Ela sentiu seu sorriso morrer. “Ah,” disse, entendendo.
“Não me arrependo de tê-la trazido, é claro,” Morzan acrescentou, oferecendo a ela um pequeno sorriso. “E não estou pensando em abandoná-la sozinha em uma cidade desconhecida, tampouco. Mas se realmente quiser ficar comigo por mais tempo, não acho que seria demais esperar que esteja disposta a me ajudar ainda mais?”
Selena hesitou. “Eu...” Ela estava tendo dificuldade em se concentrar nas palavras de Morzan em vez de nos dedos que traçavam pequenos círculos sobre sua perna. “Ajudar com o quê?”
“Nada muito complicado,” ele a tranquilizou. “Já sabe que estou viajando o Império em uma missão, e você mesma me disse que sempre quis fazer exatamente isso. Então minha proposta é essa: eu a levo junto enquanto estiver percorrendo o Império, e em troca você me ajuda a desmascarar quaisquer rebeldes que cruzarem nosso caminho.”
Ela franziu um pouco as sobrancelhas. “E o que vou precisar fazer, exatamente?”
“Se lembra da discussão que Adam e Neil encenaram na taverna em Carvahall?”
Selena confirmou com a cabeça. “Enquanto você e Jaime ouviam de uma mesa afastada. Jaime estava com você naquela noite, não estava?”
“Ele normalmente está,” Morzan disse. “O que você precisaria fazer é mais ou menos o mesmo que eles fizeram. Talvez o que você mesma já fez? Seria bom ter alguém falando contra o Império para incentivar quem pensa dessa forma a se pronunciar também. E é até mesmo possível que você descubra que tem talento para esse tipo de coisa, não?”
Ela sorriu um pouco para aquele último comentário. Parte dela se sentia muitíssimo satisfeita apenas em imaginar que pudesse ter talento para aquele tipo de coisa, que pudesse ser útil para alguém tão importante quanto Morzan, que pudesse ela mesma importar. Então lhe ocorreu um pensamento desagradável. “E se descobrirmos alguém? Um espião dos Varden, ou alguém que realmente planeje se voltar contra o Império?”
“Eu com certeza espero encontrar alguém,” Morzan respondeu, rindo. “Detestaria ter todo esse trabalho para nada.”
“E o que aconteceria com essa pessoa?” Selena insistiu, incapaz de afastar a ideia.
O sorriso dele se desfez, embora Morzan não parecesse muito incomodado com a pergunta. “Deixe que eu me preocupe com isso.” Ele afagou a perna de Selena em uma carícia muito leve. “Está bem?”
Selena assentiu em um movimento mínimo. Não havia garantia alguma de que encontrariam alguém, afinal, e mesmo que encontrassem, sem dúvidas Morzan acharia a pessoa com ou sem a ajuda dela. Que diferença Selena poderia fazer naquilo tudo? A participação dela seria mais simbólica do que real, ela tinha certeza. E não era seu papel defender espiões dos Varden – os rebeldes eram criminosos, e deveriam ter consciência dos riscos do que faziam.
“Estamos de acordo, então?”
“Sim.” Selena respirou fundo. “Estamos de acordo.”
Ele sorriu. “Sabia que poderia contar com você.”
Embaixo do cobertor, Selena cruzou os braços sobre da barriga. “E depois?”
“Depois?” Morzan repetiu, franzindo a testa.
“Depois que você terminar de viajar do Império nessa missão. O que será de mim então?”
Morzan refletiu por um instante. “Não sei dizer. Mas ainda temos bastante tempo para pensar no assunto, não acha? E não tenho duvidas de que você vá conhecer um mundo inteiro durante essa viagem, então é difícil de saber o que você mesma vai querer fazer uma vez que ela termine. Não tem por que se preocupar muito com isso agora.”
Selena mordeu o interior da bochecha. Não era uma resposta inteiramente satisfatória, mas ela supunha que também não pudesse esperar muito mais que isso – e, realmente, já tinha conseguido tudo o que sempre sonhara e mais apenas na última semana. “Certo,” murmurou.
Talvez percebendo seu desconforto, Morzan se deitou de costas na cama ao lado dela, os olhos de cores diferentes fixos no teto. “Se está preocupada com como vai se manter quando estiver sozinha,” ele começou, e olhou para ela, “eu posso pagar por seus serviços.”
Ela não esperara por isso. “Quais serviços?” perguntou baixinho.
A sombra de um sorriso passou pelo rosto de Morzan, e ele ergueu uma sobrancelha. “Você decide.”
Selena riu. “Não precisa.”
“Sabe que dinheiro não é um problema para mim.”
É por isso que está oferecendo?, teve vontade de perguntar, Porque para você não faz diferença? “Você paga seus guardas?”
Ele achou graça. “Obviamente.”
Era tão óbvio assim? “Não sei,” Selena contrariou. “Ouvi dizer que os servos dos nobres não têm tantas escolhas assim sobre suas vidas. Que isso só piora quando o nobre é mais próximo do rei.”
Morzan franziu um pouco a testa, ainda sorrindo. “E onde foi que ouviu isso?”
“Não tenho certeza.” Sob seu olhar cético, ela acrescentou, “Não pode esperar que eu me lembre de de quem ouvi tudo que já ouvi sobre o Império; são dezenove anos de rumores. Tenho consciência de que não são todos verdadeiros, também.”
Ele sacudiu a cabeça e desviou os olhos. “Claro que os pago. E eles têm escolha sobre entrar em meu serviço, mesmo que não sobre quando sair.”
Selena pendeu a cabeça para o lado, considerando a informação. Morzan era uma visão hipnotizante sob a luz quente das velas, e as sombras instáveis se curvavam sobre seus músculos a cada mínimo movimento. Ela sentiu uma vontade quase incontrolável de estender a mão para tocá-lo, e fechou os olhos por um momento. “Não quero que me pague,” disse. “Já tenho benefícios suficientes.”
Morzan riu daquilo. “Sim, tem razão. Já teve acesso a mais informações sobre o Império do que deveria, inclusive.” Quando Selena olhou para ele, encontrou seus olhos díspares brilhando para ela. “Acho que em troca mereço ouvir mais sobre você.”
Ela franziu o nariz. “Sobre mim?” repetiu. “O que quer saber?”
“Tudo,” Morzan disse, simplesmente. “É o que gosto de saber sobre qualquer um.”
“Tudo?”
“É verdade que ‘tudo’ é frequentemente bastante entediante.” Ele sorriu para ela. “Mas até agora me contive e não tentei descobrir mais sobre você por outros meios–”
“Outros meios?”
“Então sugiro que aproveite a oportunidade para me contar o que acha importante sobre si mesma.”
Selena puxou os joelhos contra o peito e abraçou suas pernas, pensativa. O cobertor era muito confortável contra sua pele nua, e ela se sentia quente e protegida, e muito consciente dos olhos de Morzan a estudando com atenção.
“Nunca senti que me encaixava em Carvahall,” confessou, começando a contar sua história.
Fale com o autor