Shiver
10 Capítulo 10
Notas iniciais

Eles estavam em Gil’ead há pouco mais de uma semana – e aquela fora, facilmente, a melhor semana da vida de Selena. Era verdade que Morzan às vezes a deixava sozinha para lidar com problemas sobre os quais ela não podia saber – ou seria apenas que ele não a considerava forte o suficiente para enfrentá-los? – mas ele passava tanto tempo com ela quanto podia, e era um tempo bem aproveitado. Eles acordavam toda manhã para um desjejum mais saboroso do que até mesmo as melhoras comidas das festas mais extravagantes em Carvahall. Selena já decidira que sua preferida era uma torta de maçã que sempre chegava ainda quente e melava seus dedos, e Morzan só ria e sacudia a cabeça enquanto ela os lambia, um por um.
Então, se tivesse tempo, ele a levava para conhecer a cidade – não o castelo, uma vez que Morzan afirmara querer evitar outros nobres – e Selena logo acreditava ter visto tudo o que havia para se ver em Gil’ead. Morzan lhe dissera que todos os monumentos aos Cavaleiros haviam sido destruídos algum tempo após a Queda, então todas as estátuas eram daquele mesmo século ou antigas o suficiente para que ninguém soubesse sobre quem eram. Selena quase comentou que aquilo lhe parecia um tanto exagerado antes de se lembrar de com quem estava falando; mesmo que Morzan não fosse diretamente responsável por apagar todas as lembranças dos Cavaleiros, ele sem dúvida aprovava o ato.
Cada dia ele a levara para comer em uma taverna diferente – todas limpas, bem iluminadas, sempre com um ou dois bardos cantando para entreter os clientes –, e em todas recebiam olhares não tão bem disfarçados. Certa vez o homem que os servia chegou a perguntar se Selena estava ‘ocupando o lugar de Senhora Alexis por um dia’, ao que Morzan respondeu apenas negando com a cabeça e dizendo, “Alexis está em Urû’baen.” Selena não soube como reagir àquilo, então não fez mais do que abaixar o rosto para esconder as bochechas coradas, contendo a pergunta que queria fazer por mais que soubesse que teria problemas para afastar o comentário de sua mente.
De tarde, depois de comer, eles continuavam o passeio pela cidade. E à noite... Selena mal podia começar a descrever suas noites.
Naquela manhã, no entanto, Morzan saíra cedo e parecendo um tanto irritado depois que um criado batera na porta para avisar que ‘os Ra’zac’ haviam voltado à cidade e pediam por uma audiência com ele. Selena ouviu o nome estranho com certa curiosidade, mas já havia se decidido por não perguntar sobre os assuntos do Império – uma postura que ela desconfiava que Morzan aprovasse, mas não poderia dizer com certeza.
Ele voltou para encontrá-la terminando de almoçar, e se recostou contra a porta do quarto, sem de dar ao trabalho de entrar. “Ainda temos algumas horas antes de escurecer,” disse, um meio sorriso em seus lábios, “Não quer aproveitá-las?”
Selena sorriu de volta para ele, mordendo o lábio inferior. “Achei que já conhecesse a cidade inteira a essa altura.”
Morzan riu baixinho. Ele vinha usando roupas bem mais elaboradas agora que estavam em Gil’ead, fazendo as vestes que usara em Carvahall parecerem simples em comparação. “Sempre há algo mais. Mas não estava planejando ficar na cidade dessa vez.”
Aquilo despertou seu interesse, e Selena olhou de relance para a janela. Fraco como estava, o sol ainda brilhava alto no céu. Ela assentiu. “Onde vamos?”
“Para um passeio perto do lago Isentar,” Morzan respondeu. “Eu recomendaria vestir algo mais quente.”
Selena considerou por um instante, mordeu o lábio, e pendeu a cabeça para o lado. “Pode me ajudar a tirar esse vestido?” pediu, corando apenas um pouco.
Morzan concordou com a cabeça, fechando as portas de madeira atrás de si antes de se aproximar. Ele ofereceu uma mão para ajudá-la a se levantar da cama onde estivera sentada, e correu os nós dos dedos contra a coluna de Selena quando ela lhe deu as costas. Ela fechou os olhos, deixando escapar um suspiro, e se forçou a dizer, “Se não parar com isso, não vou querer sair daqui.”
A risada de Morzan foi baixa, e ele usou uma mão para jogar os cabelos dela por cima de um ombro. “Jaime e os outros devem chegar aqui por volta do anoitecer,” disse, puxando os cordões que prendiam o vestido de Selena.
Ela franziu a testa. “Como você sabe?”
“Falei com ele ontem à noite,” ele respondeu, simplesmente.
Selena virou o rosto para olhar para ele. “Como?”
Os olhos díspares de Morzan encontraram os dela por um momento. “Magia,” ele disse, a voz séria.
Ela riu um pouco, então absorveu por inteiro a situação. Foi em um tom hesitante que perguntou, sem querer se permitir acreditar, “Mesmo?”
Morzan sorriu. “Você já chegou a voar em um dragão e tem dificuldade de acreditar em magia?”
“Acharia difícil acreditar em dragões também,” ela replicou baixinho. Não era tanto o caso de ter dificuldade de acreditar quanto de não querer acreditar, por medo da decepção. “Mas já vi um dragão agora. Com certeza ajudou.”
Ele sacudiu a cabeça, quase como se desaprovasse das palavras de Selena. “O ponto é, se meus guardas realmente voltarem hoje, devemos deixar Gil’ead depois de amanhã para continuar percorrendo o Império.”
Selena se rendeu a mudança de assunto de má vontade. “E para onde vamos?”
“Um vilarejo nas margens do rio Ramr chamado Bullridge. É mais ou menos na metade do caminho entre Gil’ead e Urû’baen. Depois, Teirm.”
“Teirm?” Selena repetiu. “No litoral?”
Dessa vez, Morzan riu alto. “É, no litoral.”
Ele empurrou o vestido dela para baixo, e o tecido verde escorregou suavemente pelos ombros de Selena. Ela olhou para o guarda-roupa onde estavam pendurados os outros vestidos que Morzan lhe dera enquanto se esgueirava para fora da veste. “Qual devo usar?”
“O branco,” Morzan respondeu de prontidão. “E a capa.”
Ela não contestou a escolha. O vestido em questão era quente e pesado, com os punhos forrados com pele cinzenta, e ficava justo e confortável contra o busto de Selena. A capa era bastante parecida, com o capuz e a barra forrados por peles do mesmo tom de cinza. Morzan lhe ofereceu também um par de luvas, e Selena as vestiu de bom grado.
Saíram do castelo de braços dados, e ele a ajudou a montar um dos dois cavalos que já os esperavam, selados, ao lado do estábulo. Morzan então a guiou pelos portões ao norte da cidade e além, para as margens do lago Isentar, uma imensidão branca de gelo cujo fim Selena nem mesmo conseguia ver. Ela desmontou para se aproximar mais, os pés escorregando no chão coberto de neve.
“É bonito,” murmurou.
Morzan andou até ela, seus passos quase completamente silenciosos. “O lago inteiro é maior que o Vale Palancar,” disse. “Ao norte, há a floresta de Du Weldenvarden. A oeste, o rio Ninor. Ao sul, o Ramr.”
Selena olhou para ele pelo canto dos olhos. “É verdade que ainda existem elfos vivendo na floresta?”
“Se escondendo na floresta, sim. Cidades inteiras deles.”
Ela considerou aquilo por um momento. “Há alguma chance dos Varden terem abrigo lá também?”
“De acordo com as informações que temos, não. Por que quer saber?”
Selena revirou os olhos. “Não quero me juntar a eles, se é isso que está pensando. Não que eu esteja disposta a entrar na floresta para procurá-los, é claro, mas é verdade que deve ser interessante conhecer um elfo. Eu só provavelmente seria morta por um urso ou outro animal muito antes de chegar perto de um deles.”
Morzan riu. “Provavelmente. E não precisaria ter tanto trabalho, se é um elfo que quer conhecer.” Ele pressionou os lábios em desagrado. “Temos um ou dois em Urû’baen. Eles não são tão incríveis como você parece pensar.”
“Em Urû’baen?”
Ele assentiu. “Kialandí. Formora. Enduriel.” Morzan olhou para Selena. “E Faëlan, mas ele não agracia a corte com sua presença há alguns anos. Eu gostaria que os outros seguissem seu exemplo, sinceramente.”
“Eles também são parte dos–” Selena se conteve; dos Renegados, ia dizer, mas lhe ocorreu que o termo talvez soasse ofensivo a Morzan. “Dos Treze?”
Ele confirmou com a cabeça.
“E Alexis?” Selena se lembrava de onde ouvira o nome agora. “Ela á uma vez vocês também, não é?”
“Alexis?” Morzan franziu a testa. “Sim. Por quê?”
Selena encolheu os ombros. “Aquele homem da taverna disse que você costuma ir lá com Senhora Alexis. No momento não consegui me lembrar porque o nome parecia familiar, mas agora sei. Estava no livro que Eron me deu.” Ela hesitou. “Você é próximo dela?”
Ele lhe lançou um olhar um tanto divertido. “Tão próximo quanto posso ser de qualquer um deles. Temos uma política de não deixar nossas relações pessoais interferirem com nossas ambições, o que sempre causa certo... distanciamento.”
Ela se voltou para ele. “Nenhuma relação? Com ninguém?”
Morzan negou com um movimento leve da cabeça e disse em uma voz muito mansa. “Você não chega aonde cheguei sendo sentimental, Sel.”
O uso do apelido a desarmou. Selena deixou escapar um suspiro antes de responder em voz baixa, “Me parece que assim você acaba perdendo tanto quanto ganha.”
Ele lhe ofereceu um sorriso quase que pesaroso. “Depende de como você vê o mundo. E você mesma não deixou seu pai e irmão para poder me acompanhar? Para conseguir o que queria?”
“É diferente,” Selena insistiu.
“É?” Morzan pendeu a cabeça para o lado. “Como?”
Era diferente porque assim ela não deteriorara sua relação com quem conviveria pelo resto de sua vida; era diferente porque seu pai e Garrow não eram importantes para ela como ela tinha certeza que alguém viria a ser; era diferente porque ela não os prejudicara de verdade ao seguir seus próprios sonhos. Mas olhando nos olhos de cores diferentes de Morzan, Selena não pôde colocar nada daquilo em palavras.
“É claro que você pode acabar por encontrar alguém que importe mais para você do que suas próprias ambições,” ele disse calmamente. “É sempre uma opção que pode fazer.”
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