Shiver
61 Capítulo 61
Notas iniciais

Em um mundo ideal, Morzan a teria mandado em uma carruagem. Selena estava cansada de cavalgar, e uma carruagem a teria permitido fazer outras coisas enquanto viajava — ler mais sobre a história das cidades que visitaria, conversar em voz baixa com quem quer que a estivesse acompanhando (ela não pudera trazer Emma, e ainda sentia por isso), planejar seus próximos passos ou até mesmo descansar — além de ter maior garantia de que chegaria a seu destino em um estado minimamente apresentável.
Eles haviam passado quase duas semanas em Belatona, até que Selena se cansara e se decidira que suas chances de descobrir qualquer informação nova na cidade eram praticamente inexistentes. Haviam sido quase dez dias de conversas com nobres — política podia ser tão cansativa, e ela tinha muito menos confiança em seu trabalho sem ter Morzan ao seu lado, então precisava prestar o dobro da atenção — e passeios pelas partes mais simples de Belatona, e ela chegara a conclusão de que não haveria muito a se fazer ali, além de aceitar que Fäelan talvez estivesse mesmo interessado apenas nas cidades do norte, e que os nobres ainda não lhe mostravam nem metade do respeito que mostrariam se Morzan estivesse presente.
Aquele era problema deles, Selena gostava de pensar. Teriam uma surpresa desagradável no futuro, quando percebessem tudo o que ela era capaz de fazer e o quanto erraram ao subestimá-la. E agora que se aproximavam de Feinster, seus problemas eram outros.
“Pode me dizer novamente que sabe sobre a Senhora Lorana?”
Adam ergueu os olhos âmbar para ela. O guarda estivera cavalgando ao seu lado para que Selena pudesse aproveitar de sua companhia, e ele se provara bastante eficiente em comandar sua pequena escolta. “Não posso dizer que sei muito, minha senhora,” ele respondeu. “Não a conheço; na última vez que visitamos Feinster, foi Jaime quem acompanhou Lorde Morzan nos jantares e reuniões. Mas sei que sua família governa a cidade há muitos anos, e eles têm a fama de serem queridos pela população. Como a única filha de seu pai, Lorana governa em seu próprio nome, e tem o costume de passear pelas ruas principais, permitindo que as pessoas a vejam e distribuindo doações. Sempre ouvi dizer que seus súditos se sentem bastante protetores dela.”
“E ela é próxima de Alexis,” Selena adicionou, se lembrando do que Morzan lhe dissera quando conversaram por meio de magia na noite anterior (ela queria tanto que ele estivesse ali) e ponderando as palavras de Adam. “Embora o modo dela de governar seja quase oposto do que qualquer um dos Treze. Se ela e Alexis são amigas...”
O guarda pareceu hesitar. “Não sei se amigas seria a melhor palavra, minha senhora.”
Selena achava que ele talvez estivesse certo. “Foi a que Morzan usou,” admitiu.
Adam apenas ergueu uma mão em rendição, sorrindo. “Com certeza é a melhor palavra, então.”
“Não, talvez não seja.” Ela sabia que Morzan não dava muito valor a amizades no geral, muito embora o próprio Galbatorix o chamasse de seu amigo, e ele talvez usasse a palavra com mais desdém e menos propriedade do que outros. E que o rei a usasse poderia ser apenas mais um sinal de que eles não lhe davam o valor necessário, Selena supunha. “Bem, desde que ela seja companhia melhor do que o que tivemos em Belatona, já está ótimo, e eu talvez preferisse que ela não fosse amiga de Alexis. Aleifar é próximo dela também, certo?”
“Tenho certeza de que ela será. E sim, de acordo com o que Jaime me disse. Tanto a Senhora Alexis quanto Lorde Aleifar tem uma boa relação com os governantes de Feinster. E os dois costumam sempre trabalhar juntos, de qualquer forma.”
Selena fez uma careta pequena. Lidar com o resto dos Treze era sempre um problema, mesmo que apenas por estar em suas respectivas esferas de poder, e fazê-lo sem o amparo cuidadoso de Morzan era sempre uma perspectiva assustadora. Mas tudo dera certo em Belatona, então não haveria porque ser diferente em Feinster. “Melhor do que Kialandí ou Formora, suponho. Com certeza melhor do que se fosse Fäelan.” Ela tamborilou os dedos contra a sela. “E se a Senhora Lorana e seus nobres forem desagradáveis, eu posso sempre me esconder em meu quarto. Você poderia me ensinar um daqueles jogos de cartas que Jaime vetou em Teirm.”
Adam riu, sacudindo a cabeça. “Minha senhora, se eu ousasse jogar esse tipo de jogo com você, Lorde Morzan poderia até mesmo chegar a me matar. Não são exatamente apropriados.”
“Mas Jaime disse que não era por minha causa que eles eram inapropriados,” ela protestou, indignada.
“Bem... Naquela época, talvez. Duvido que ele continue da mesma opinião.”
Selena deixou escapar um suspiro um pouco exagerado. “Está bem.” Olhou para ele pelo canto dos olhos, lhe oferecendo um sorriso cúmplice e muito pequeno. “Pelo menos Feinster é bonita.”
Adam concordou. Ele já lhe contara mais de uma vez que amava o litoral, e, talvez estranhamente, Selena não tinha qualquer dificuldade em imaginá-lo como um marinheiro, ocupado com cordas e velas e a defesa de um navio. E aquele pedaço de sua viagem estava sendo bastante agradável: a paisagem era bonita e de fácil percurso, o tempo bom, e a verdade era que ela mal podia esperar para ver o mar novamente. Se arranjasse tempo, passearia também por uma praia, aproveitando a paz e desejando que Morzan estivesse ali, se perdendo em seus pensamentos e sonhos de aventuras com piratas.
E ajudava que ela tivesse apenas boas memórias de Feinster. Com Belatona fora o contrário, e Selena logo descobrira que não gostava de passar muito tempo sozinha em seu quarto lá, sem companhia ou qualquer distração que impedisse seus pensamentos de se voltarem na direção errada. Ela sabia que talvez logo criasse lembranças ruins em todas as cidades do Império, ou ao menos na maior parte, mas havia algo fundamentalmente diferente sobre a primeira vez, o primeiro choque.
Com sorte, suas melhores memórias teriam um impacto similar, e ela poderia passar seu tempo em Feinster relembrando tudo o que acontecera entre ela e Morzan na cidade. A única coisa melhor seria, de verdade, se ele estivesse ali.
Eles avistaram a cidade no fim da tarde, e a alcançaram ao anoitecer. Selena teve o cuidado de parar a uma distância calculada para rever a própria aparência: seu vestido de viagem era em tons marrons e esverdeados, com vinhas douradas bordadas no corpete, suas botas altas, a pequena bolsinha de couro pendurada em sua cintura muito discreta. Ela tomou seu tempo ao ajeitar seu cabelo em uma trança lateral elaborada, e só permitiu que seguissem viagem quando teve certeza de que estava apresentável.
O sol se punha atrás da cidade quando eles finalmente cruzaram seus portões. Fizeram seu caminho pelas ruas de pedras, Selena ligeiramente à frente de Adam, os outros dez guardas em uma fila dupla curta atrás deles, atraindo os olhares de apenas algumas poucas pessoas. Os moradores de todas as grandes cidades do Império estavam mais do que acostumados com nobres indo e vindo, e Morzan fizera questão de não mandar Selena com uma escolta numerosa o suficiente para chamar atenção.
Eles foram recebidos por um guarda de meia idade nas portas do castelo, que se curvou na altura da cintura, respeitoso, e a chamou de “Senhora Selena”, se oferecendo para levá-la até Lorana. Selena aceitou, porque não havia realmente outra opção e porque era por aquele motivo que estava ali, e trouxe Adam consigo ao seguir o guarda pelos corredores do castelo.
Seu destino foi uma sala de teto muito alto em uma das torres, iluminada por uma bonita lanterna de vidro e decorada com pinturas de cenas de navegação: tempestades, pores do sol, redemoinhos e ataques piratas. Um tapete azul claro com detalhes dourados levava da porta até uma plataforma de pedra, terminando sob uma cadeira de madeira de costas altas e aparência desconfortável, mas muito bonita. A mulher sentada nela era robusta, com cerca de quarenta anos, cabelos castanhos presos em um penteado elaborado e um diadema prateado sobre sua cabeça.
Adam parou junto à porta, mantendo a distância respeitosa que seu papel exigia, mas Selena se aproximou em passos lentos. Fez uma reverência calculada, dobrando graciosamente os joelhos e abaixando o rosto, e ergueu os olhos quando a Senhora Lorana chamou seu nome.
“Senhora Selena,” ela disse. “Estive esperando por você.”
Selena encontrou seu olhar. “Senhora Lorana. É uma honra finalmente conhecê-la.”
Lorana sorriu, as mãos nos braços de sua cadeira, majestosa em seu vestido azul e prateado. “De fato. Ouvimos falar muito de você aqui em Feinster, e é uma pena que não eu não tenha podido vê-la na última vez que dormiu sob meu teto. E que Lorde Morzan não tenha podido se juntar a nós agora é lamentável.”
E não era mesmo? “Eu agradeço sua hospitalidade, minha senhora. Trago também o pesar de Morzan por não poder comparecer; ele tinha outros compromissos em Urû’baen, mas envia seus cumprimentos.” Selena hesitou um instante, e então lhe ofereceu um sorriso doce. “Preciso dizer que estou mais uma vez encantada com a beleza de sua cidade. Feinster me pareceu linda na última vez que a visitei, mas de alguma forma parece estar ainda mais bela.”
“Talvez sejam seus olhos que estejam mais bem treinados para notar nossos melhores detalhes.” Lorana estudou seu rosto com cuidado. “Estou ansiosa para passar esses próximos dias em sua companhia, Senhora Selena. Tenho motivos para acreditar que você tem muito a ganhar ao aprender mais sobre nossos costumes e a maneira como fazemos as coisas por aqui, e eu, pessoalmente, estou curiosa para saber mais sobre você, e suas próprias aventuras.”
Eles estavam todos curiosos, e Selena mais do que acostumada a recontar as melhores partes de sua história, omitindo os detalhes certos e dando ênfase a outros, de modo a tornar as coisas apenas um pouco mais claras, mas ainda muito vagas. E havia partes de seu relacionamento com Morzan que não compartilharia com ninguém.
“Será um prazer e uma honra, minha senhora.”
Os olhos de Lorana eram doces, talvez até mesmo sinceros. Ela se levantou e se aproximou de Selena em passos elegantes, e tomou suas mãos nas dela como uma amiga.
“Você deve estar cansada,” afirmou, “depois de tantos dias de viagem. Arrumamos para você os aposentos em que Lorde Morzan ficou em sua última visita, e acredito que seus guardas a essa altura já tenham terminado de levar seus pertences para lá. Não quero segurá-la aqui enquanto certamente prefere uma boa noite de sono, mas certamente concorda em comer o desjejum em minha companhia pela manhã? Podemos deixar sua apresentação ao resto de minha corte para mais tarde.”
A proposta parecia maravilhosa. Selena realmente gostaria de se esconder sob cobertores quentes com um livro nas mãos até adormecer, talvez com uma bandeja de pães e frutas ao seu lado, mas antes disso queria acesso a um espelho ou uma vasilha com água, para que pudesse usar o encantamento que lhe permitiria falar com Morzan e lhe contar tudo o que acontecera no dia. E talvez — só talvez — tocar no assunto do que Feinster significava para ela.
“É uma oferta muito gentil,” respondeu. “E, sim, eu adoraria.”
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