Shiver

62 Capítulo 62


Notas iniciais
Boa leitura ♥

Em alguns aspectos, a corte de Senhora Lorana não poderia ser mais diferente da de Galbatorix em Urû’baen, e, por mais que não quisesse, Selena não conseguia evitar se apaixonar mais a cada instante que passava lá. No primeiro dia, passara a manhã na companhia de Lorana, e fora apresentada aos outros nobres apenas em um encontro no final da tarde, em que músicos tocavam delicadamente e a comida era servida em porções pequenas de frutos do mar. Ela se encontrava cercada por tapeçarias e pinturas a óleo, experimentando de vinhos e frutas doces, e dormindo em um quarto de onde conseguia ver o mar e pôr-do-sol.

Que Morzan não estivesse ali era uma pena, mas ela falava com ele todas as noites, e havia na corte de Feinster uma paz e segurança que Selena nunca sentira na capital. Era algo de que sempre estivera ciente, mas nunca tanto quanto agora, quando podia refletir sobre a distância: em Urû’baen, o perigo estava sempre à espreita, e havia significados duplos escondidos atrás até mesmo do sorriso mais gentil. Lá, ela precisara lidar com humanos ambiciosos e elfos muito frios; precisara sentir seu coração disparar sempre que chegava a avistar, mesmo que de longe, o enorme dragão do rei; treinar esgrima todos os dias e estudar magia e ler livros complicados, e falhar era colocar em risco a própria vida.

Agora, ela talvez estivesse relaxando mais do que deveria. Depois do primeiro dia na companhia da Senhora Lorana, passara o segundo passeando pela cidade com Adam, vestida em roupas relativamente simples e conversando com os moradores locais, fazendo perguntas discretas que poderiam levar a qualquer pista do envolvimento de Fäelan com Feinster, mas sem sucesso algum. E, depois de conversar com Morzan de noite, escolhera um livro de histórias para ler antes de dormir, deixando de lado seus estudos pelo que deveria ser um incidente isolado, mas que se repetiu de novo e de novo.

Ela ria com a criada que Lorana lhe emprestara, tomando o cuidado de não lhe passar qualquer informação indevida e também sem receber qualquer pista sobre os esquemas dos nobres em troca, mas sem a frustração que deveria acompanhar a falta de informações. Percebia pequenos detalhes preocupantes aqui e ali, é claro: o olhar sério demais de um lorde ou outro, a forma com que às vezes ela sentia ela mesma ser julgada, um comentário curto de um senhor no mercado sobre o ocasional problema (com que ele nunca se preocupava, é claro, porque a Senhora Lorana logo o resolvia). Mas eram coisas tão pequenas, tão mundanas, que Selena não conseguia se incomodar.

Naquela manhã, comeu o desjejum apenas na companhia de Adam, o ouvindo contar histórias sem importância sobre o dia a dia na guarda de Morzan. Se ela insistisse bastante, ele até mesmo se dispunha a contar algo sobre Jaime, e cada um daqueles detalhes que tornavam o capitão da guarda humano era inestimável.

Ela encontrou Lorana no saguão de entrada cerca de meia-hora depois, como combinado, mas hesitou ao perceber seus planos. Uma carruagem aberta e coberta e decorada com sedas de tons leves de azul e amarelo já estava preparada, e Selena se aproximou da governante de Feinster em passos hesitantes e a cumprimentou com uma mesura e um sorriso delicado.

“Eu sei que minha presença na corte não está sendo exatamente discreta,” admitiu, porque era a verdade e também como as coisas deveriam ser, “mas minhas instruções foram bastante específicas em que não devo chamar a atenção do povo em geral para minha presença aqui. Não neste papel, pelo menos.”

Mas Lorana apenas sorriu. “Não se preocupe, Senhora Selena. O dia de hoje será vital para seu entendimento de Feinster, mas ninguém a reconhecerá sentada ao meu lado: você será para meu povo apenas mais uma de minhas damas. A atenção de todos costuma se voltar principalmente para mim, a não ser que eu esteja acompanhada por um convidado claramente mais importante, e a verdade é que pouquíssimos se lembrariam de uma jovem que passeou pela cidade uma única vez, não é mesmo?”

Selena engoliu em seco, por um instante ainda sem se convencer, mas então respirou fundo e examinou a situação com mais cuidado. Lorana tinha seu diadema sobre a testa, e estava usando um vestido azul claro um tanto extravagante, uma capa dourada delicada caindo de seus ombros. Em comparação, as vestes marrons de Selena eram bastante simples, independente das vinhas verdes bordadas em suas mangas e corpete. Ela tocou seu colar de rubi enquanto pensava, e finalmente assentiu uma vez.

“Será um prazer acompanhá-la, minha senhora.”

E de fato foi. Outras duas damas se juntaram a elas na carruagem, e outras mais as seguiram a cavalo. Quatro guardas montados começavam e fechavam o grupo, e Selena compreendeu pela primeira vez o que Adam quisera dizer quando falara sobre o costume dos governadores de Feinster de passear pela região, e como isso lhes garantia a lealdade de seus súditos.

Tanto crianças quanto idosos corriam para as ruas para vê-los passar, e pareciam vibrar de felicidade quando Lorana lhes sorria ou dirigia o menor dos acenos. Suas damas a cavalo traziam consigo cestas de flores que distribuíam com generosidade.

Quando eles alcançaram o mercado, a Senhora Lorana desceu da carruagem, trazendo Selena junto consigo, para se aproximar das barracas e examinar os produtos à venda. Ela estava sempre flanqueada por quatro guardar armados, mas os mercadores não pareciam se importar: que diferença fazia, afinal, que sua senhora tivesse o cuidado de se proteger, se ela estava naquele momento correndo os dedos por uma rede de pesca ou observando um anzol, comprando uma torta de amoras e provando de seu vinho?

Cada um dos mercadores lhe oferecia seus produtos de graça, mas ela sempre insistia em pagar, e a devoção que eles lhe devolviam não tinha preço. Selena se encontrou comparando aquela performance de carisma e generosidade com os desfiles de poder que via em Urû’baen: nobres vestidos em suas roupas mais ricas, certamente, mas com muito mais guardas, os olhos frios sempre voltados para frente e os narizes empinados, distantes e superiores.

Os próprios Treze Servos saíam pelas ruas da capital assim, às vezes, embora normalmente não se dignificassem nem mesmo a isso, voando pelos céus em seus dragões.

Era tão absurdamente diferente que Selena se encontrou confusa, num primeiro instante, porque, por mais efetivo que fosse o medo e o receio que a maior parte do povo do Império sentia ao pensar na nobreza, eles eram tingidos por inveja e ressentimento, talvez até mesmo desgosto. O carinho que Lorana cultivava com tanto cuidado não era desprovido da ciência de seu poderio, e certamente era preferível ao que quer que fosse que se falava de Morzan nas ruas das maiores cidades do Império?

Mais devagar, ela percebeu que aquele caminho talvez fosse muito mais difícil para os Treze do que para Lorana, se não por mais nada por causa de sua reputação, de seu papel na Queda dos Cavaleiros e como servos do rei. Eram décadas de desconfiança que tinham início no ódio daqueles que lamentaram a morte dos Cavaleiros e dragões, mas se havia algo que os Treze tinham em seu favor era o tempo: mesmo que as pessoas não os aceitassem de início, seus filhos poderiam, ou seus netos, ou seus bisnetos.

Talvez, Selena refletiu, o problema fosse que eles não tinham interesse naquele tipo de comportamento. Talvez não acreditassem de fato que ele funcionasse, ou realmente considerassem outros métodos preferíveis e mais seguros.

Selena voltou a se sentar na carruagem se sentindo tomada pela emoção do passeio, leve e querida e também um tanto confusa, desejando mais do que tudo que aquela pudesse ser sua realidade. Talvez pudesse, insistiu consigo mesma, em dias isolados naquelas viagens que fazia em nome de Morzan. Sua realidade era ser a Mão Negra, certamente, mas também seu lugar ao lado do segundo homem mais poderoso do Império, os momentos quietos que como aquele que passara com Morzan sobre seu dragão, flutuando no mar e sob um céu repleto de estrelas. Uma espada em sua mão, um colar em seu pescoço, a sensação de voar muito acima do chão e as lembranças de sua vida em Carvahall: se tudo aquilo era parte de quem ela era, por que não algo mais?

Lorana apoiou uma mão sobre a dela. “Compreende agora, Senhora Selena?” Perguntou. “Nenhuma das cidades do Império é igual a outra, e há algo a ser aprendido em cada uma delas. Eu só posso esperar que, dentre tudo o que já viu e todos os lugares que já visitou, que leve consigo também o que presenciou aqui em Feinster. Não é que o modo como fazemos as coisas seja o correto, mas é uma alternativa dentre muitas, e eu espero que se lembre dela.”

Selena prometeu que se lembraria, e não estava mentindo. Pensou em Alexis, sempre cercada por suas muitas damas, com seu sorriso gentil em que ela nunca conseguira confiar por inteiro; ela não era como Lorana, mas certamente se parecia mais com ela do que qualquer outro dos Treze. E aquilo certamente já era alguma coisa, não?

Ela perguntaria a Morzan sobre Alexis, se decidiu, sobre a Senhora Lorana e sobre suas próprias escolhas e opções. Não haveria como ele se incomodar, não se ela falasse com cuidado e do jeito certo, e ele poderia ao menor lhe explicar (as próprias decisões, e talvez as de todos os outros; não seria uma surpresa tão grande, ela pensou, descobrir que Lorana tinha seu lado mais sombrio e suas próprias ambições torpes, embora certamente um pouco decepcionante).

Passou o resto do caminho de volta se permitindo aproveitar o passeio, pensando um pouco no que pediria para o jantar (nada muito pesado) e em ler um pouco mais de seu livro mesmo antes de se sentar para conversar com Morzan por meio de magia (eles perdiam bastante tempo naquelas conversas, mesmo nos dias em que não falavam de nada importante, e seria melhor que Selena colocasse seus pensamentos em ordem antes de falar com ele de qualquer forma).

Distraída como estava pelo entusiasmo do povo de Feinster para com sua senhora e pela conversa leve na carruagem, Selena demorou mais do que deveria para perceber a diferença no humor dos guardas parados junto aos portões do palácio: mais sérios e talvez um pouco preocupados, certamente, mas ela não lhes deu atenção.

A visão do dragão pousado no pátio principal, então, lhe foi tão surpreendente quanto foi para as outras damas sentadas à frente. Sentia o coração batendo forte no peito ao tomar nota das escamas prateadas da fera deitada, e o alívio que sentiu ao notar que eram claras e não de um tom escuro de cinza foi rápido e muito pequeno, um consolo quase inexistente.

O Cavaleiro que se aproximou em passos largos vestia um gibão preto e dourado, as mangas da camisa de seda cinza, e calças escuras com bordados com fios de ouro, uma espada prateada na cintura. As outras damas de Lorana deixaram escapar risadinhas discretas ao ver seus cabelos loiros cacheados e lábios cheios, juntando as cabeças para trocar sussurros animados.

Ele não lhes deu atenção. Selena engoliu em seco ao vê-lo abrir a porta da carruagem e oferecer uma mão para ajudar Lorana a descer, a cabeça inclinada em um cumprimento respeitoso e apenas um pouco humilde que Selena já vira Morzan fazer dezenas de vezes. Não conseguiu ouvir bem o que ele e Lorana disseram um para o outro, nervosa como estava para o que viria a seguir; era incapaz de não torcer para que ele a ignorasse, muito embora soubesse que aquilo não seria de forma alguma algo bom.

Aleifar encontrou seu olhar em seguida, lhe oferecendo a mesma mão com que ajudara Lorana a descer meros segundos antes. “Senhora Selena.”

Ela aceitou sua ajuda porque não tinha qualquer outra escolha. Com os dois pés sobre o chão firme, não teve coragem de se afastar, e manteve a mão sobre a dele ao dobrar os joelhos em uma mesura. “Lorde Aleifar.”

O sorriso do Cavaleiro veio devagar: não sem seu charme, mas tão arrogante quanto ela se lembrava. Ele se abaixou para beijar sua mão, mantendo os olhos verdes sempre nos dela. “Nós sentimos sua falta em Urû’baen,” disse, o que era claramente uma mentira. “E estou muito curioso para saber mais sobre suas viagens. Está disposta a se juntar a mim para o jantar e me contar sobre elas, sim? Tenho coisas mais urgentes a discutir com a Senhora Lorana agora, mas certamente conseguirei guardar algum tempo para você mais tarde.”

Notas finais
Gostaram? Nos vemos nos reviews ♥