Shiver

60 Capítulo 60


Notas iniciais
Feliz 2020, meus amores!! Boa leitura ♥

Quando Selena acordou, estava sozinha na cama. Sentou-se devagar, correndo uma mão pelos cabelos, e espiou as janelas só para notar a escuridão ainda absoluta. Segurando os cobertores junto ao corpo, tateou a ponta da cama à procura de onde Morzan abandonara sua camisola, vestindo-a e também ao robe vermelho pendurado ao lado da cama. Escolheu meias grossas antes de calçar as botas, e, após um instante mínimo de hesitação, se enrolou na capa pesada de Morzan ao invés de na sua própria.

Ela olhou em volta ao sair do quarto, estudando o corredor deserto, e subiu a escada discreta à direita para chegar ao terraço acima da torre. Avistou o grande dragão rubi primeiro, e Morzan parecia muito pequeno recostado contra ele, vestindo apenas as calças escuras, muito embora já estivessem quase entrando no inverno.

Ele ergueu o rosto ao ouvi-la se aproximar, os cabelos negros balançando um quase nada com a brisa suave. Selena parou a alguns metros de distância do dragão, e ele disse, "Você deveria estar dormindo, Selena."

Ela encolheu os ombros, notando o uso de seu nome inteiro e se lembrando do aviso de Jaime para não se intrometer quando Morzan sumisse de noite. "E você não?" Perguntou, fazendo a coisa errada mesmo assim. Quando Morzan apenas riu pelo nariz, sem parecer achar graça, continuou, "Não quis ficar sozinha."

A expressão de Morzan se suavizou muito pouco. "Essa é a minha capa?" Era vermelha, com peles escuras forrando o colarinho.

"É melhor que a minha," Selena disse, mesmo que a verdade fosse que gostava dela por outros motivos. Fechou a distância entre eles com passos curtos. "Posso me sentar? Você não está com frio?" Abaixou-se com cuidado, e o chão de pedras sob eles era gelado. "Não é possível que não sinta, mesmo sendo um Cavaleiro. Você não está usando nada. E você tem roupas de frio, então não pode não sentir, ou passaria calor nelas."

Morzan lhe dirigiu um olhar estranho. "Eu sinto frio," admitiu, "mas menos do que você. E eu gosto, de qualquer forma."

"Do frio?" Selena perguntou, duvidosa, porque havia um frio suave que realmente era agradável, e ventos cortantes, e então um frio tão intenso que doía antes de a pessoa não sentir mais nada. Mas Morzan não a respondeu. "Em Carvahall, já estaria nevando a essa altura. Nessa época do ano, quero dizer. Aqui ainda não."

"É?"

Ela poderia ter imaginado a nota de desagrado em sua voz, bem disfarçada como estava. "É." Ousou se aproximar mais, e a pele de Morzan estava gelada onde a tocava. "Morzan, você está congelando."

"Não estou." Ele replicou, como se fosse a coisa mais óbvia. Passou um braço ao redor dela, a puxando para perto, e escondeu o rosto em seus cabelos. Selena o sentiu inalar, como se para sentir seu cheiro, e estremeceu quando Morzan beijou o topo de sua cabeça. "É você quem deveria estar escondida embaixo de alguns cobertores." Ele tocou seu cabelo, enrolando uma mecha nos dedos longos. "Não conseguiu dormir?"

"Honestamente? Eu dormi depois que nós, você sabe, e estava tudo bem, mas então acordei me sentindo um pouco ansiosa. Isso faz sentido? Sonhos ansiosos? E então vi que estava sozinha no quarto, e por isso vim procurar por você. Não tinha certeza se deveria, mas vim." Ousou espiar a reação de Morzan, mas ele apenas a observava com leve curiosidade. "Acho que não gosto de falar sobre as coisas que fiz. Não me incomodou tanto na hora, mas depois… Bem." Olhou melhor para ele "E você? Está bem?"

"Estou pensando," Morzan respondeu, devagar, "se você precisa que eu a console agora, ou se posso admitir que eu, pelo menos, gosto de vê-la falar sobre o que fez."

Selena precisou rir, se aninhando contra ele. "Pode."

Ficaram em silêncio por um instante, e ela se permitiu apreciar a vista — as partes dela de que gostava, e as partes de Dras-Leona que reviravam um pouco seu estômago — antes que Morzan falasse de novo.

"Há algo que preciso te dizer, e de que você não vai gostar, receio." Ele pareceu hesitar, ainda brincando com seus cabelos castanhos. "Eu estive pensando sobre o que descobrirmos no jantar hoje; tanto sobre as possíveis motivações de Fäelan quanto sobre as expectativas dos nobres sobre todos nós. E eu acho que preciso mandá-la para as próximas cidades sozinha, Sel."

Selena assentiu devagar. "Certo."

"'Certo'? Essa é sua reação?"

"Sob o risco de soar muito mais madura do que sou," ela disse, "acho que faz sentido. Não é que eu queira ir sozinha, e eu sei que é algo que pode tomar tempo. Mas consigo entender a lógica, e porque faz sentido ser eu."

"Entende?" Ele repetiu, soando surpreso.

Selena lhe lançou um olhar divertido que deveria também ser um quase nada repreensivo, se satisfazendo quando ele riu.

"Entendo, mas não sei se meu raciocínio é o mesmo que o seu. Pode me explicar de qualquer forma se quiser." Ela encolheu os ombros. "São para coisas assim que estive treinando, de qualquer forma."

"Esse é o primeiro ponto. De que adianta ter alguém como você ao meu lado se não para fazer o uso apropriado? Eu realmente acredito que esteja pronta. E já tem uma certa reputação, mas a verdade é que os nobres ainda a subestimarão. É possível que te contém coisas que não diriam na minha frente; ou, se não eles, seus servos. E você, como a Mão Negra, terá capacidade de perseguir informações e pistas para além dos salões dos nobres. Pelas ruas menos dignas das cidades, podemos dizer."

"Foi algo assim que pensei."

O meio sorriso que ele lhe dirigiu foi genuíno. "Estou impressionado."

"Tenho condições, porém. Se essa é minha primeira missão grande, tenho condições."

Morzan riu. "Condições? E quais são elas, Selena?"

"Em primeiro lugar," ela disse, encostando a cabeça em seu ombro. Entrelaçou os dedos nos dele, e era agradável que pudessem conversar sobre aquilo e ao mesmo tempo aproveitar da companhia um do outro. "Como já disse, sei que essa missão pode tomar algum tempo, e eu realmente gostaria passar estar com você em Urû'baen no meu aniversário. Então essa é a primeira: quero voltar antes."

Muito devagar, ele sorriu. "Seu aniversário?"

"Sim," Selena insistiu, muito digna. A verdade era que a data, desde a morte de sua mãe, havia sido uma de emoções complicadas, e ela não queria passá-la sozinha; e, talvez mais importante, não havia feito aniversário desde que conhecera Morzan, e não queria perder o primeiro por nada. "Quero estar com você, independente de todo o resto. E estarei esperando presentes."

"Vamos combinar assim," ele lhe propôs, "você passa o tempo que for necessário nas cidades, e, se chegar perto demais de seu aniversário, eu vou eu mesmo te buscar em meu dragão para que não haja qualquer risco de você perdê-lo."

"Vocês poderia me buscar de qualquer jeito," Selena sugeriu, porque a ideia a agradava. "Na última cidade."

Morzan riu pelo nariz. "Está bem. Mais alguma condição?"

"Mais uma," ela confirmou. "Se viu fazer isso, quero fazer isso direito. Mais do que como a Mão Negra, você estará me enviando como uma emissária, e eu sei que as aparências importam, então quero uma escolta. Além disso, seria bom ter guardas de confiança comigo caso eu precise; nunca se sabe."

"Sel… Posso te enviar com uma escolta, mas preciso que entenda que você não estará lá como uma pessoa pública. Não quero que chame atenção fora do círculo da nobreza; os governantes das cidades te reconhecerão como devem, mas não quero que o povo tenha qualquer noção de quem é a Senhora Selena, minha companheira. Para eles, haverá a Mão Negra, e apenas a Mão Negra. Então, sim, posso te mandar alguns guardas, mas quero que seja discreta. Nada de entrar nas cidades em meio a um desfile de poder, está bem?"

"Sim, eu entendo." Ela se distraiu com os círculos que ele traçava em sua mão com o polegar, de novo e de novo, e demorou um pouco para continuar: "Vinte guardas?"

Morzan sacudiu a cabeça, descrente. "Dez."

"Quinze."

"Dez. Onze com o capitão." Ele lhe lançou um olhar divertido. "Eu cruzei o Império com três, Selena."

"Está bem." Com um sorriso travesso, Selena perguntou, "Posso levar Jaime?"

Ela pôde senti-lo rir, apoiada contra ele como estava. Morzan parecia ter estado esperando a pergunta, e mesmo assim sorria como se a achasse absurda. "Jaime é meu."

"Ele é experiente e confiável—"

"E meu. Escolha outro."

"Adam, então."

"Adam," ele repetiu, devagar. "Está bem."

Selena puxou os joelhos mais para perto do corpo. "E eles me encontram aqui? Porque poderia demorar um pouquinho, e, se eu precisarei esperar, você poderia esperar comigo."

Morzan deixou o ar escapar no que poderia ser um suspiro. "Essas suas condições vão me fazer perder bastante tempo, ao que parece."

"Bem, sim, mas valerá a pena quando eu precisar de guardas para me ajudar a impedir os planos de Fäelan. Ou algo assim."

"Não quero passar mais tempo do que preciso em Dras-Leona," ele replicou. "Podemos esperar pelos guardas em meu castelo, e eu te trago de volta para cá quando eles estiverem prestes a chegar."

"Combinado," Selena concordou, sem nem ao menos tentar esconder seu sorriso. Sentindo-se mais ousada do que deveria — e ali, dentre todos os lugares — ela passou uma perna sobre as dele para se sentar em seu colo. "Foi um prazer negociar com você, Lorde Morzan."

E se abaixou para beijá-lo.

Notas finais
Amo vocês ♥