Shiver

71 Capítulo 71


Notas iniciais
Boa leitura, shiver babes!

Selena manteve a mão direita firme ao redor do punho da espada ao examinar o resto da mansão, deixando uma trilha de pingos de sangue atrás de si, mas não havia mais ninguém no local. Os criados haviam — em sua maioria — há muito voltado para suas casas, ela supunha, e felizmente não encontrara qualquer sinal de crianças. Testou a maçaneta da porta do estúdio do mercador só para encontrá-lo trancado, e murmurou um feitiço curto para conseguir entrar.

O espaço era suntuoso, com móveis de madeira escura entalhados com figuras de vinhas e flores e um tapete arroxeado no chão. Contra as paredes, tapeçarias e estantes cobertas de livros e cadernetas; atrás da escrivaninha, um espelho de moldura dourada, embora um pouco turvo demais para os gostos de Selena.

Ela o encarou por um instante, mas optou por se abaixar para verificar as gavetas da mesa antes de qualquer outra coisa. Os documentos eram muitos e não particularmente bem organizados, e Selena deixou de lado um punhado de pergaminhos que tinha razoável certeza serem cartas de uma amante (e, honestamente, uma leitura não muito agradável) antes de achar qualquer coisa potencialmente útil.

Separou as correspondências com outros mercadores em pilhas diferentes, organizadas por remetente, e finalmente se deparou com o que parecia ser um documento oficial, com o selo e assinatura de Lorde Fallon. Perdeu alguns momentos nele, mordendo o interior da bochecha, e então ergueu os olhos para o espelho mais uma vez, e entoou o encantamento.

A imagem se formou devagar, reconfortante em sua familiaridade. Os aposentos particulares de Morzan, vistos pelo espelho que ele mantinha para exatamente aquele propósito, e o Renegado sentado à mesa, cartas em sua mão e o capitão de sua guarda à sua frente.

Ambos se voltaram para ela, nenhum dos dois surpreso. Jaime a estudou com cautela, já abaixando as cartas que segurava, e Morzan examinou seu rosto com ainda mais atenção, os olhos díspares avaliativos. “Você está com o rosto sujo de sangue,” disse, à guisa de cumprimento, e, agora que ele falara, a sensação lhe vinha forte demais. Selena esfregou as costas da mão contra a bochecha, incomodada. “Suponho que Adriel não tenha reagido bem à sua presença?”

Ela revirou os olhos para aquilo. “Ele não se mostrou receptivo,” respondeu, encolhendo os ombros. Se perdesse tempo demais refletindo sobre o assunto, acabaria se afetando, e então não conseguiria completar bem a missão. “Mas eu não esperava nada muito diferente. Acho que encontrei uma coisa.” Ergueu o documento para que eles pudessem ver. “É uma carta que garante ao portador isenção de impostos sobre o comércio de tecidos, grãos, e óleos, assinada por Lorde Fallon. A data é recente. Pode ser um favor de Fäelan.”

“Pode,” Morzan concordou, a voz muito macia. “Há algum documento relacionado?”

Selena abaixou os olhos para os papéis sobre a escrivaninha. “Nada por escrito com relação a Fäelan ou Lorde Fallon, ou mesmo outro nobre. Mas, levando em conta o espelho,” e fez um gesto vago na direção da parede, “Adriel poderia se comunicar com eles por magia, e não imagino que Fäelan fosse querer deixar registros escritos de suas tramas. É possível que exista algo melhor escondido e que eu não tenha achado, embora esses documentos não estejam exatamente bem organizados. E há correspondências com outros mercadores.” Ela encontrou o olhar de Morzan. “Daqui de Gil’ead, mas também de Teirm, Narda, Ceunon, Urû’baen, Dras-Leona e Belatona.”

Morzan e Jaime se entreolharam, e foi o guarda quem falou. “Se a isenção foi um favor de Fäelan, então foi um favor considerável. Ele não o faria em troca de pouco.” Ele voltou os olhos verdes para Selena pelo espelho. “Eu começaria pelo comércio com a capital.”

Era um palpite tão bom quanto qualquer outro. Selena suspirou ao pegar a primeira das pequenas pilhas de cartas, lendo rapidamente e relatando o conteúdo a Morzan. “Com um mercador chamado Amon, Adriel encomendou tecidos, tecidos, e... Tecidos. Ele também enviou uma boa quantidade de trigo e cevada a um homem chamado Jurian cerca de cinco vezes nos últimos meses, e aqui diz que enviou trigo também para ser vendido nos mercados da capital por seus próprios homens. Com Randel, encomendou tecidos. Roland, grãos. De Kol, comprou um colar de diamantes e esmeraldas, cujo pagamento enviou junto com a remessa de óleo de...” Ela não conhecia a palavra. “Seithr?”

Jaime arqueou as sobrancelhas em surpresa, e Morzan repetiu, “Óleo de Seithr?”

“Sim.” Selena franziu as sobrancelhas, sem entender. “O que é isso? Eu deveria saber?”

Morzan sacudia a cabeça devagar. “Não, ainda não tive a oportunidade de te explicar. É um óleo usado por joalheiros. Existe, porém, uma variação alterada por meio de magia para se tornar um ácido que consome e queima a carne, mas não tem efeito algum em nada que não seja de origem animal — ou humana. É bastante útil, embora um tanto... extremo.”

“É o tipo de coisa que poderia lhe ser útil, minha senhora,” Jaime disse. “Pensei que já fosse saber.”

“Resulta em uma morte bastante dolorosa,” Morzan devolveu apenas, afastando o comentário com um gesto despreocupado da mão direita. “Mas você já o viu, na verdade, Sel. Ainda enquanto você viajava o Império comigo, naquela noite em Belatona em que você decidiu por mexer em minhas coisas.” Ele parecia se divertir com a lembrança. “Não julgue, Jaime,” adicionou, e então se dirigiu a Selena mais uma vez: “Não cheguei a te contar muito, mas me lembro de mencionar que seria fatal se ingerido. Posso te dar uma pequena quantidade, se prometer tomar cuidado.”

Ela preferiu não responder aquela última parte.

“E a variação mais comum é usada por joalheiros, você disse? O único que conheço minimamente bem é — era — Eron, mas ele nunca mencionou nada do tipo.”

Morzan revirou os olhos. “Aquele garoto de Carvahall nunca poderia nem mesmo sonhar em colocar as mãos em algo tão caro, se é que tinha conhecimento sobre. Não, ele não teria mencionado o óleo, Selena.”

Ela encolheu os ombros, sem se importar. “Estamos supondo então que Adriel estivesse vendendo a versão perigosa do óleo?” Olhou para Morzan. “Quero dizer, Adriel o enviou a um joalheiro. Se você possui certa quantidade guardada, Fäelan já não o teria também? Você compra de algum mercador?”

“Não,” ele respondeu. “Eu retiro do estoque do Império. O rei disponibiliza para seus servos, e principalmente para aqueles de nós que podemos fazer uso do óleo para seguir suas ordens. Os Ra’zac têm acesso, Durza tem acesso, e todos os Treze, entre algumas outras pessoas.”

“Então Fäelan teria também.”

“Eu diria,” Jaime começou, “que Adriel enviar uma remessa do óleo para Urû’baen é algo suspeito demais para ser apenas uma coincidência. É possível que seja apenas o pedido de um joalheiro, mas não é provável.”

“Ele pode estar comprando mais,” Selena sugeriu. “Em maior quantidade. E pode não querer que saibamos.”

“O que também não é uma perspectiva animadora,” Jaime concordou, e parecia preocupado. Olhou para Morzan. “Ele pode estar planejando agir de forma mais agressiva, meu senhor.”

“Talvez,” Morzan cedeu. Tamborilou os dedos no tampo de sua mesa, pensativo. “Selena, Adriel mantém algum registro de seus negócios em seu estúdio?”

Ela olhou em volta, incerta. Nas estantes, duas prateleiras inteiras eram de cadernetas compridas de couro vermelho, embora sem qualquer coisa escrita nas lombadas finais. Puxou a primeira, e de fato eram registros, embora a data na primeira página fosse de mais de trinta anos antes; a devolveu ao lugar, correndo os nós dos dedos pelas outras até alcançar a última. A abriu, e sorriu, triunfante. 7879.

Puxou a do ano anterior, também, e se sentou para ler com mais calma, incomodada com as letras miúdas e a quantidade de números. Podia sentir Morzan se impacientando, embora ele esperasse em silêncio, e foi com alívio que declarou, “Adriel enviou uma remessa de óleo de Seithr a Kol, em Urû’baen, cerca de três semanas atrás, e também outra, maior, a Teirm, para ser enviada então para um punhado de outros lugares. Essa com certeza para joalheiros, eu imagino?”

Morzan não respondeu. “Algum registro anterior a isso?”

Ela perdeu mais algum tempo para verificar. “Nada esse ano,” disse, devagar. “Mas enviou mais uma a Kol no fim do ano passado. Três meses antes, havia feito outra entrega a Teirm. Suponho que seja suspeito, mas não podemos tirar mais conclusões a partir apenas disso, podemos?”

Morzan encontrou seu olhar através do espelho. “Acho que Jaime está certo,” disse, “no que isso é suspeito demais para ser apenas coincidência. Além do mais, Aleifar ainda não nos deu qualquer pista errada.”

Selena mordeu o interior da bochecha, pensativa, e era bem verdade. Já fazia algumas semanas desde que Aleifar começara a entreouvir pensamentos de outros nobres, mais sussurros e sugestões do que ideias e informações concretas, e ela fora pessoalmente verificar várias delas; até o momento, todas as suas viagens haviam dado resultado. Havia sido suficiente para que Alexis aceitasse um pouco melhor os planos de Morzan, embora ela às vezes ainda parecesse ressentida.

O próprio Morzan parecia satisfeito o suficiente com o andar das coisas. Selena achava que ele talvez se incomodasse um pouco em depender de informações conseguidas por Aleifar, mas, se fosse mesmo o caso, ele ainda não demonstrara ou dissera nada a respeito. De qualquer forma, Selena sabia que ele — e ela própria — também vinha sendo instrumental para o sucesso de cada um de seus movimentos.

“Acho que já sei a qual mercador farei uma visita quando voltar a Urû’baen,” disse, apenas.

Morzan sorriu para aquilo. “Kol se sentirá honrado, tenho certeza.” Tamborilou os dedos contra sua escrivaninha mais uma vez enquanto pensava. “Quero que traga para mim os registros de comércio de Adriel dos últimos cinco anos, e também todas as cartas e documentos. Se tiver interesse em mais algum livro que encontrar na casa, sinta-se livre para pegá-lo para si; fora isso, quero que queime todos os livros, pergaminhos, e pedaços de informação escrita desse estúdio.”

Selena assentiu. “Algo mais?”

“Leve consigo quantas joias e itens valiosos conseguir, desde que não atrapalhem ou atrasem sua viagem de volta. Não precisa ficar com eles depois,” adicionou, talvez prevendo a relutância de Selena em manter qualquer adereço tomado de um homem que ela mesma matara. “Mas não os abandone dentro dos muros da cidade. Se sair da casa com alguma coisa, ela não pode ser achada em Gil’ead depois. Pode se desfazer delas no rio Ramr se quiser, mas, se não tiver certeza de que vai ser capaz de passar pelos portões com elas, deixe-as onde estão.” Ele fez uma pausa curta, e era difícil ler seu rosto. “Fora isso, quanto mais destruição conseguir fazer dentro da mansão, melhor.”

Para não deixar pistas para trás.

Selena fez que sim com a cabeça. “Tudo bem.”

Abaixou os olhos para as cadernetas sobre a mesa, fechando a que vinha lendo. Deixou escapar um suspiro baixo enquanto pensava, e algo talvez houvesse ficado evidente em seu rosto, porque quando Morzan voltou a falar, foi muito mais suave.

“E, Sel?”

Ela olhou para ele mais uma vez. “Sim?”

“Você está bem?”

Selena se permitiu um instante para observar seus olhos díspares, seus cabelos escuros um pouco bagunçados, as linhas de seu rosto. Parte sua sabia que Jaime estava ao lado, ouvindo, mas ela também já não se importava tanto.

“Sim,” respondeu, tão sincera quanto podia. Estranhamente, não era assim tão longe da verdade. “Sim. Estarei de volta a Urû’baen quão rápido quanto puder,” prometeu, então. “Logo.”

Morzan sorriu para aquilo. “Estarei te esperando.”

Notas finais
e aí, gostaram? estou aqui refletindo sobre como essas notinhas já nem aparecem no +fiction e também sobre como esse é o capítulo *setenta e um* e eu fico só AAAAAAAAAAAAAA por dentro, sabem? e por um lado sei que shiver não é tão grande assim (em número de palavras, é que meus capítulos são curtinhos etc) e que, considerando o tempo que já faz desde que comecei a postar, deveriam ser mais na verdade, mas ainda assim like !!! AAAAAAAAAAAAAAAA !!!! grata demais a todo mundo que está acompanhando e a todo mundo que chegou até aqui e não desistiu de mim ainda hahahah e espero que sejam gostando, de verdade ♥ amo vocês demais afff ♥