Shiver
72 Capítulo 72
Notas iniciais

Já era tarde quando Selena retornou ao castelo. A cidadela estava silenciosa, os corredores vazios exceto pela eventual dupla de guardas em patrulha, e ela cumprimentou os homens à porta da torre de Morzan apenas com um aceno de cabeça. Subiu as escadas devagar, se sentindo mais confortável do que deveria na penumbra e no silêncio, e bateu uma vez na porta antes de entrar.
Morzan estava acordado, é claro. Recostado contra a cabeceira da cama, ele tinha as pernas cruzadas na altura dos tornozelos e um livro nas mãos, e sorriu ao erguer os olhos para ela. “Tudo correu bem?” perguntou, e Selena se limitou a encolher os ombros.
“Bem o bastante,” respondeu, parando de frente ao guarda-roupa e se abaixando para tirar as próprias botas; perdeu um instante com os laços, demorando um momento a mais para continuar. “Kol ficou surpreso com minha visita, mas cooperou.” Ela juntou os sapatos em um canto, e olhou para Morzan por cima do ombro; o achava absurdamente bonito em momentos calmos assim, com os pés descalços sobre a cama e os cabelos escuros um pouco rebeldes, porque estava tarde e ele já não se importava. “Nós temos um novo espião.”
O mercador não quisera se comprometer com coisa alguma é claro, porque Fäelan ficaria furioso se descobrisse a traição, mas Selena estivera em sua sala de jantar, um perigo imediato, e o elfo muito longe e sem saber de nada, então é claro que ele cedera. Ela tivera o cuidado de fazê-lo prometer na Língua Antiga que lhes contaria tudo o que ouvisse de Fäelan e seus aliados e que não diria mais nada a mais ninguém, e, no todo, supunha que fora uma noite de trabalho bem-feito.
Morzan parecia concordar; havia algo de muito satisfeito na curva de seu sorriso, um quê de aprovação que parecia também quase perigoso. “Vamos fazer bom uso,” disse apenas, e Selena precisou sorrir consigo mesma.
Tirou o vestido bonito que usava em favor de uma camisola branca confortável, vestindo também seu robe vermelho favorito por cima, o tecido decorado com padrões dourados delicados e macio demais sob seu toque. Soltou os cabelos — finalmente —, deixando que caíssem em cachos sobre seus ombros, e se voltou para Morzan mais uma vez com um sorriso muito pequeno nos lábios.
“Nós temos vinho?” perguntou.
“No armário,” ele respondeu, seu tom distraído, e já voltava a atenção para seu livro. Não ergueu os olhos enquanto Selena se servia de uma taça de vinho e a trazia consigo para a cama, se deitando de lado para conseguir se manter confortável e beber ao mesmo tempo, mas falou, a voz baixa, “Kol te serviu um jantar, eu espero?”
“Sim,” Selena admitiu. “É incrível como esses mercadores ricos sempre servem comidas maravilhosas, não é? Mas eu tentei evitar beber, para manter minha mente limpa.”
Ele se voltou para ela então, os olhos de cores diferentes brilhando. “Muito sábio.”
Selena sorriu. “O que está lendo?”
“Uma história completa das cidades nortenhas dos homens.” Ele se demorou um instante no livro, quase como se o considerasse, e o fechou com o que se parecia muito com um suspiro. “Não é tão interessante quanto poderia ser, mas há mais sobre os planos de Fäelan do que temos conhecimento, e eu tenho a intenção de descobrir o quê.”
“E acha que a resposta está escondida em um livro antigo?” ela devolveu, tomando um gole de vinho e se ajeitando onde estava, o rosto apoiado em uma mão, o cotovelo contra os travesseiros.
Morzan riu baixo. “Não, mas nós podemos estar deixando algo passar. O livro é bom porque cobre não só a história do Império como também a do reino humano antes da Queda, e o autor foi inteligente o suficiente para se manter neutro quanto à ascensão do rei.”
“E assim manteve o próprio pescoço intacto,” Selena observou, a voz seca.
Ele pareceu achar graça. “Precisamente.”
“E o livro te ajudou a ter alguma nova noção sobre os planos de Fäelan? Além de se colocar nas boas graças do rei até ter a chance de criar seu próprio reino para governar sobre uma legião de elfos e assim ter condições de por em prática ainda outros planos terríveis, isso é?”
Morzan estava quase sorrindo. “Ainda não,” admitiu, tirando a taça de Selena de suas mãos para tomar ele mesmo um gole de vinho, dedos longos contra metal frio e dourado. Ela não deveria achá-lo assim tão bonito. “Mas talvez ajude.”
Selena se aproximou para deitar a cabeça em seu colo, e ele respondeu abaixando uma mão para correr os dedos por seus cabelos, seu toque leve e distraído. “Galbatorix não vai permitir que Fäelan realmente forme seu próprio reino, vai?”
“Um reino? Não. Mas os planos do rei envolvem, sim, feudos sob o controle de Cavaleiros, e o Império se expandindo para englobar toda a Alagaësia.”
“Cavaleiros que ele vai conseguir a partir dos ovos de dragão que tem em seu tesouro,” Selena emendou. Ergueu os olhos para Morzan. “Você acha que é possível que eles saibam? Sobre a Queda, e sobre o rei e todos vocês, e, bem... Não queiram nascer para ninguém a serviço de Galbatorix?”
Morzan estudou seu rosto de volta. “Você acha que é possível que eles consigam verdadeiramente evitar nascer para a pessoa certa para eles, se sentirem que a encontraram, só por conta do rei? Dragões ainda dentro do ovo? Eles podem ter alguma consciência, Sel, mas não teriam como deixar algo assim passar.” Dessa vez, ele deixou o ar escapar no que ela teve certeza ser um suspiro. “Não, não é por isso. Nós só não achamos as pessoas certas. Você sabe, Galbatorix costumava falar com os ovos, nos primeiros anos depois da Queda, para ajudá-los a... Se aclimar, acho que podemos dizer.”
Era uma noção estranha. “E os dragões são capazes de entender?”
Ele riu baixinho, sacudindo a cabeça. “Não. Eles mal seriam capazes de perceber, na verdade, e não entenderiam as palavras de qualquer forma. Os dragões costumam aprender a língua de seus Cavaleiros por meio de conexão entre os dois, mas não é algo que lhes viria intuitivamente antes dela.”
“E os dragões selvagens?” Selena perguntou, se referindo aos que nunca tiveram ou teriam um Cavaleiro. “Eles entendiam alguma língua?”
“A vasta maioria não, mas eles se comunicavam conscientemente de outras formas.” Morzan encontrou seu olhar, e, embora ela não estivesse nem mesmo pensando em perguntar mais nada, disse, devagar, “Nossos dragões não são capazes de fazer nenhum dos dois.” E Selena entreabriu os lábios, surpresa e sem palavras diante da informação voluntariada de forma tão suave. “Ou de se comunicar, de fato. Mas a conexão entre nossas mentes e as deles ainda existe, então há um certo nível de entendimento.”
Ela não esperara nunca que Morzan fosse lhe contar algo tão pessoal daquela forma, a voz baixa e o tom macio, sem que Selena precisasse lhe pedir qualquer coisa. Era novo, diferente, e a fazia refletir, pensar. “Posso te fazer uma pergunta?”
Ele tinha os olhos díspares ilegíveis. “Não sobre meu dragão, não.”
Selena não ousaria. “O quê aconteceu entre você e Alexis, exatamente?”
Ela sabia como a pergunta fora inesperada pelo vinco pequeno entre suas sobrancelhas escuras, e sabia que ele não se incomodara pelo quê de diversão em seus lábios. “Entre eu e Alexis?” Morzan repetiu. “Por quê?”
“Eu estive querendo te perguntar desde que Aleifar me surpreendeu em Feinster,” Selena admitiu. “Mas não queria que você pensasse que eu estava insegura ou com ciúmes, porque não estou, prometo. É só que, bem, Aleifar parece sempre querer atrapalhar seus relacionamentos, por mais que Alexis pareça bem e contente em ser sua amiga, e eu fiquei me perguntando se... Se não haveria alguma coisa ainda não resolvida nessa história. Ou ao menos que Aleifar pense assim.” Ela hesitou antes de acrescentar, “Eu só gostaria de entender melhor os gêmeos.”
Morzan demorou um pouco para responder, estudando o rosto de Selena e parecendo quase pensativo. Quando finalmente falou, foi para dizer, “Não há nada mal resolvido entre eu e Alexis, Sel. Se Aleifar pensa que sim, é só ele sendo estúpido mais uma vez.” Um sorriso pequeno, e ele correu um dedo pelas sobrancelhas de Selena, acompanhando o desenho. “Mas sim, posso te contar. Alexis e Aleifar são de uma família de nobres de Feinster, muito rica e muito influente, e eram os únicos filhos de seus pais. Nós nos conhecemos quando eles se tornaram Cavaleiros, quando eles tinham dez anos e eu, onze.”
Selena sorriu um pouco. “Eu não consigo te imaginar como uma criança,” contou, e era verdade. Não conseguia ver um Morzan muito diferente do que ele era agora, imortal e impedido de envelhecer. Eterno, de certa forma.
“Isso é bom,” ele respondeu, e ela precisou rir daquilo. “Os sinais de que algo mais existiria entre eu e Lex estavam lá desde o início, na verdade, mas nada aconteceu por anos. Foi depois, quando eu tinha dezenove anos, e por iniciativa dela. E foi má sorte, honestamente, que tenha sido logo antes de eu encontrar Galbatorix nos arredores da capital. Não planejei nada daquilo, é claro, mas o ajudei a roubar Shruikan para si, e então...”
“Você partiu,” Selena concluiu, a própria voz muito baixa, e tudo começava a fazer sentido. Morzan, com dezenove anos, mais novo do que ela era agora, encontrando o rei, se decidindo por ajudá-lo a roubar um filhote de dragão, e tendo que fugir com ele depois. A parte da história que ela conhecia desde que sua mãe lhe contara pela primeira vez, Galbatorix e os Renegados no papel claro dos vilões.
“Eu parti,” ele confirmou.
“E eu suponho que ela tenha ficado magoada?”
Morzan riu. “Sim. Mas esse é o começo da história, Sel, não o fim. Eu voltei, alguns anos depois, logo no início da Queda, para convencê-los — ela e Aleifar — a se juntar a nós. Galbatorix já os queria, porque eu havia lhe contado sobre os talentos e as ambições de Aleifar, que poderiam não ser tão bem desenvolvidos naquela época quanto são agora, mas era notáveis de toda forma.”
“E Alexis ficou feliz em te ver?”
“Não muito,” ele admitiu. “E Aleifar menos ainda. Mas eu pude conversar com eles, e Alexis nunca me denunciaria aos Cavaleiros. Eu os deixei com instruções sobre como nos encontrar, caso quisessem, e, no fim, eles quiseram.”
Selena assentiu devagar. “E então?”
“Durante a Queda, nós nos aproximamos de novo. As coisas entre eu e Alexis sempre haviam sido... razoavelmente fáceis, e nós descobrimos que era ainda eram, principalmente se comparadas com lidar com o resto dos Treze. Não era que eu odiasse todos eles, mas era um ambiente hostil, e não era possível confiar verdadeiramente em ninguém ali.” Ele fez uma pausa, pensativo, ainda brincando com uma mecha dos cabelos de Selena, talvez se lembrando de alguma coisa. “Alexis e eu concordamos que o que quer que acontecesse entre nós não significaria nada além de amizade, e realmente não significou, mas durou algum tempo.”
“Toda a Queda?” Selena perguntou, e ela sabia bem o que aquilo significava — que Morzan e Alexis haviam estado presentes em algumas das partes mais importantes, mais difíceis da vida um do outro.
“E algum tempo depois. Eu era capaz de aproveitar da companhia dela no começo, e em alguns momentos foi um conforto, mas depois... Nós havíamos deixado um mundo em ruínas atrás de nós, Sel, e tínhamos um novo para construir, e nós não queríamos as mesmas coisas. Você sabe como Alexis é, hoje, ocupada com suas damas de companhia e preocupada em lhes arranjar bons casamentos. Ela participa dos jogos da corte, mas só porque de outra forma permitiria que o resto dos Treze tivesse poder sobre ela, e isso seria inadmissível.”
Selena se permitiu um instante para absorver suas palavras, e também tudo que ele não estava dizendo. Sabia o que o fim da Queda trouxera consigo, e sabia tudo o que aquela vitória custara aos Treze.
“Então você... Se afastou?”
“Sim.” Ele empurrou uma mecha dos cabelos de Selena para longe de seu rosto com os nós dos dedos. “Não é que nada mais tenha acontecido depois disso, mas foram poucas vezes, e nunca durou muito. Apenas quando estávamos entediados, sem interesse real no que qualquer outra pessoa pudesse oferecer, e, de novo, nunca significou nada. Eu não menti quando te disse que Alexis e eu nunca fomos mais do que amigos, Sel, e Aleifar está sendo estúpido se pensa qualquer outra coisa.”
Ela fez que sim com a cabeça. “Ele talvez esteja fixado demais no próprio ego,” supôs, e então se permitiu um sorriso pequeno. “Eu nunca pensei que você houvesse mentido.”
Morzan riu baixinho. “Isso é bom,” disse, de novo. “Você está certa, no entanto, em assumir que Alexis e Aleifar são importantes um para o outro. Se quer entendê-los, e aí que deve começar.”
E havia também a parte mais sombria, Selena sabia, mais perigosa, que existia em cada um dos Treze. Ela não as havia visto de perto, ainda, e tinha um pouco de medo de procura enxergar. Afastou o pensamento da cabeça ao voltar a encontrar os olhos de Morzan.
“Vou manter isso tem mente,” prometeu, e Morzan lhe sorriu de volta antes de se abaixar para beijá-la.
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